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Capítulo 40 - Eu aceito

last update Data de publicação: 2021-06-24 04:05:54

Meu coração bateu mais forte quando ouvi aquilo. Sim, eu gostava de Dom. Será que eu conseguiria negar o que eu sentia por aquele homem?

Antes que eu pudesse responder, ele abriu um compartimento no carro e tirou de dentro dele uma caixinha de veludo vermelho. Eu queria estar errada sobre o que tinha ali dentro quando ele a colocou sobre minhas pernas.

- Abra. – ele disse.

- Não quer que eu responda sua pergunta anterior primeiro? – perguntei me referindo ao que ele quis saber sobre meus sentimentos por Dom.

- Não. – ele disse. – Eu não me importo com a resposta.

Antes de abrir fiquei ali, pensando em como Léo era estranho. Ele preferia não saber a verdade... Certamente ele já sabia a resposta. E minha intenção era dizer que sim, eu gostava de Dom, muito mais do que ele imaginava. No entanto agora eu estava com ele no carro, passando da meia noite, numa rua sem movimento, numa temperatura agradável. Eu pensei num sorvete de morango. Quando criança em pensava que quando eu fosse pedida em casamento, haveria sorvete de morango para comemorar. Era um pensamento infantil... Hoje eu só tinha o desejo louco pelo sorvete de morango. Do casamento eu já não tinha tanto desejo. Principalmente quando o pedido viesse de alguém que não tinha nenhum sentimento além de amizade e admiração.

- Não vai abrir? – ele perguntou.

Eu abri e lá estava o anel brilhante, como que olhando para mim. Eu sorri. Se me perguntasse minha preferência entre o caro anel na minha mão e o sorvete de morango, eu escolheria sem pensar duas vezes o sorvete. Mas entre o sorvete e Dom, eu escolheria Dom.

- Quer casar comigo? – ele perguntou, como se eu não soubesse o que aquele anel significava.

Eu peguei a máscara vermelha e dourada brilhante ao meu lado e coloquei-a no meu rosto. Ele não conseguiu ver a lágrima que escorreu dentro dela.

- Eu... Aceito.

Sim, ele poderia ter aquela Kat, a mascarada, a que não podia ser decifrada. Mas a verdadeira Kat, bem como meu coração, ele jamais teria. Ainda assim eu sabia da dívida que tinha com ele em relação a tudo que fez por meu irmão. No entanto se Dereck me pedisse em casamento para pagar a dívida eu não me sentiria tão mal quanto naquele momento. Léo era como um amigo. Um amigo que eu não contava meus segredos mais íntimos. Um amigo que era só razão, não emoção. Um amigo que cuidava para nunca se arriscar e fazer coisas erradas. Um amigo que participava de uma causa justa e secreta só por mim... Eu já tinha quase certeza que Léo pouco se importava com o que acontecia nos encontros anti monarquia. Ele estava ali somente para garantir que eu estava sob o olhar dele.

Ele me deu um beijo, me forçando a abrir os lábios e sentir sua língua na minha. Mecanicamente eu tentei corresponder, mas minha vontade era sair correndo dali. Ele tirava o gosto de Dom de mim. E aquilo era a pior coisa que ele podia fazer. Depois ele pousou a mão na minha perna. Rapidamente eu afastei-o e disse:

- Não.

- Desculpe.

Eu abri a porta do carro e ele disse:

- Não vai colocar o anel? – eu vi a decepção na voz dele, então coloquei o anel no meu dedo.

- Kat, tire esta máscara. É perigoso.

Eu havia esquecido que saí do carro com a máscara. Retirei-a imediatamente.

- Quando nos vemos?

- Em... Duas semanas. – eu disse.

- Estarei cuidando de Leon e sua mãe enquanto isso. – ele garantiu.

- Eu sei. Obrigada.

Ele saiu e eu fiquei ali, olhando o anel brilhante na minha mão. Era tão tarde e a noite solitária não me assustava. Sentei no muro e fiquei ali, olhando para o céu cheio de estrelas e sentindo a brisa quente alisar meu rosto. Fechei os olhos e respirei fundo. Eu precisava confiar que tudo daria certo.

Ouvi passos rápidos e me deparei com Kevin.

- O que faz aqui? – perguntei.

- Achei que aqui ainda era minha casa. – ele disse batendo na minha cabeça de forma divertida e sentando ao meu lado.

- Está me seguindo? – perguntei novamente.

- Como se isso fosse necessário. – ele disse.

- Como assim?

- Acho que agora você é seguida por todos os lados, não é mesmo? Afinal, trabalha com a rainha.

Eu sorri:

- Pode ser...

- Leon está quase bem. – ele disse. – Logo eles terão que voltar para esta casa.

- Isso é bom, Kevin. Mamãe está esgotada.

- Esgotada vivendo como um hotel de luxo? – ele riu ironicamente. – Duvido que ela esteja ansiosa para voltar.

- Você... Veio me ver?

- Sim.

- Como sabia que eu estaria em casa?

- Mamãe... – ele disse.

- O que você quer?

- Qual sua relação com o príncipe?

- Como assim, Kevin?

- Por que o príncipe Dereck está pagando todas as despesas da nossa família no hospital? Você vai ser princesa de Noriah, Kat?

- Não... Claro que não.

- Por que não me diz a verdade de uma vez?

- Quer a verdade? – perguntei mostrando o anel de compromisso no dedo.

- Você está noiva do príncipe Dereck?

Eu ri alto:

- Não, seu bobo. Estou noiva de Léo.

- Como assim? Achei que você e Dereck...

- Achou errado, Kevin. Somos... Futuros amigos, talvez.

- Como talvez? Você precisa ser amiga dele, Kat. Precisa ficar íntima, dormir com ele se necessário for.

- Kevin... Como você me diz isso?

- Eu não tenho tempo para palavras bonitas, Kat. Eu sou prático. Se Dereck sente algo por você, precisa fazer algo.

- Kevin... Não. Você está entendendo tudo errado.

- Léo? – ele disse confuso. – O pagamento pela ajuda no hospital?

- Como eu poderia dizer não?

- Droga! – ele disse passando a mão pelos cabelos nervosamente. – Aproveitador.

- Mas se Dereck me cobrasse a dívida seria a mesma coisa.

- Kat... Eu vejo um futuro brilhante para você. Nossa mãe tinha razão quando depositou todas as esperanças em você. Minha irmã pode ser a futura princesa de Noriah.

- Kevin, eu não tenho nada com Dereck... E nunca vou ter.

- Tente Magnus então.

Eu ri:

- Ele é impossível.

- Impossível? Então você já pensou a respeito?

- Não... Claro que não. – eu falei confusa.

- Magnus... Você almeja Magnus... Garota esperta. Quem precisa de um príncipe quando pode ter um rei?

Coloquei o anel na frente dos olhos dele e disse:

- Noiva... Que parte você não entendeu?

- A de você ter aceitado. Não imaginava que faria isso.

- Sei ser grata.

- Com a sua vida? Com o seu futuro? Ou vai me dizer que gosta de Léo ou que pode gostar?

- Não... Nunca vou gostar dele. Mas eu não poderia dizer não.

- Droga... Vou ter que dar um fim no meu futuro cunhado.

- Kevin... – eu recriminei. – Você não está falando sério, não é mesmo?

- Vou tirar do caminho qualquer um que se meta entre você e Magnus.

Ele levantou e foi saindo.

- Kevin, me diga que você está brincando.

- Não... Não estou, querida irmã.

- Kevin, não faça nada... Eu nunca o perdoarei.

- Me perdoará quando estiver no castelo como futura esposa do rei e não como dama de companhia.

Ele saiu e não me deixou falar mais nada. Eu não sabia até que ponto ele falava sério ou não. Kevin era enigmático e misterioso. Mas o certo é que poderia sim estar envolvido com pessoas que matariam Léo. Eu esperava do fundo do meu coração que nada de mal acontecesse ao meu amigo... Ou melhor, meu noivo.

Cheguei muito cedo ao castelo no domingo. Eu já sabia as entradas dos empregados e cada vez mais me habituava ao local que seria minha residência por eu não sei quanto tempo. Estava nublado e uma brisa fresca fazia com que eu tivesse colocado um casaco. Estava entrando pela porta quando vi um enorme gramado dos fundos do castelo. Eu não conhecia aquele lugar. Trabalhava tanto quando estava ali que não tinha tempo para nada. Observei atentamente a grama verdejante e perfeita. Logo atrás dali havia uma espécie de floresta densa. Mas ela era fora do muro enorme que circundava o castelo. Havia uma porta pequena de acesso. Retirei meu sapato e coloquei meus pés na grama macia. Era uma paz de espírito que eu não conseguia explicar. Ouvi passos e em pouco tempo o príncipe Magnus parou ao meu lado, vestido com um agasalho. Ele estava suado. Certamente corria pelo gramado. Acho que ele costumava fazer aquilo pela manhã. Lembrei-me de quando havia visto ele correndo da enfermaria.

Eu estava preparada para cumprimentá-lo quando ele disse:

- O que você está fazendo aqui?

- Eu... Eu... Vim pisar na grama.

- Você não pode usar este espaço. – ele disse. – Não é permitido.

- Desculpe-me, alteza.

Eu coloquei meu sapato rapidamente e estava me preparando para voltar quando ele disse:

- Espero que tenha resolvido seu compromisso ontem à noite, pois não terá mais regalias a partir de agora.

- Regalias? – perguntei confusa. – Eu... Estou com um irmão doente, alteza.

- Exato... E isso deveria ser prioridade, não?

Eu fiquei ainda mais confusa. Havia acontecido alguma coisa quando eu estive fora que eu não sabia? Aposto que Lana Davis havia minado a cabeça do príncipe contra mim. Eu não tinha nenhuma intimidade com Magnus, mas ele também nunca fora tão sério e cruel comigo.

- Sim, alteza. – eu disse me retirando.

Eu fui para meu dormitório, com o coração em pedaços. A forma como ele havia me tratado me deixou abalada. Deixava tão claro que ali era o espaço dele, o príncipe, o futuro rei. Eu era somente a reserva da dama de companhia da rainha. Eu não era ninguém ali dentro. Essa era a verdade. Minha vontade era pegar minhas coisas e ir embora dali imediatamente. Mas eu não era criança, como Black havia dito na noite anterior. Eu sabia das responsabilidades que eu tinha, principalmente com a minha família. Senti vontade de ver Dereck e chorar nos braços dele. Dizer que Magnus era uma pessoa horrível. Mas eu não podia. Tinha que engolir em seco e seguir com meu trabalho. Naquela manhã eu não toquei na refeição matinal. Nada poderia ser pior: Dom estava longe, Magnus me achava um nada e... Eu estava noiva de Léo.

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