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Capítulo 41 - Não quero regalias

last update Data de publicação: 2021-06-24 04:06:37

Arrumei-me, peguei a chave da minha sala e subi ao segundo andar. Cheguei mais cedo que precisava, afinal, eu não tinha nada melhor para fazer ali a não ser trabalhar. Logo Lana chegou. Eu senti o cheiro de perfume dela quando ela passou pela porta.

- Bom dia. – eu disse.

- Chegou cedo. – observou ela.

- Achei que fosse minha responsabilidade chegar antes de você.

- Sim... Pode ser. Pegue um bloco de anotações e venha comigo.

Peguei um bloco e uma caneta e perguntei:

- Aonde vamos?

- No terceiro andar... Acompanharemos o café da rainha.

Eu fiquei um pouco tensa. Era a primeira vez que eu iria ao terceiro andar. Não podia e nem queria fazer nada errado. Precisava mostrar que eu podia ser uma boa dama de companhia, tanto quando Lana... Ou até melhor.

Quando subimos o lance de escadas para o terceiro andar percebi que havia muito mais guardas do que nos outros lugares. Quase um por degrau. Entrar ali e chegar até a realeza seria bem difícil. Todos armados e provavelmente bem treinados. Não que eu estivesse analisando uma futura batalha dentro do castelo, mas eu era sempre uma observadora. Seguimos por um corredor grande, iluminado e bonito. O lugar era absolutamente enorme. Morar ali e não se perder devia ser um desafio para a realeza.

Chegamos a uma sala de jantar na mesma proporção de tudo ali: enorme, de um bom gosto e um requinte que eu nunca tinha visto em toda minha vida. Eu estava em um castelo e tudo ali era absolutamente perfeito como de fora se imaginava. A mesa era estreita,  comprida e bem posta. As janelas estavam todas abertas, com suas pesadas cortinas enroladas em prendedores dourados e mesmo com o dia nublado lá fora era possível ter uma iluminação natural perfeita. A rainha Anne estava sentada na ponta e seus dois filhos, respectivamente, nas laterais, um de frente para o outro. Quando Dereck me viu, percebi que ele ficou surpreso. Magnus só levantou o olhar para mim, em seguida voltando-se para o que tinha em seu prato. Eu seguia Lana com meu bloco, louca para poder voltar a atenção para as folhas em branco na minha mão e não para tudo à minha volta.

- Majestade. – ela disse fazendo reverência. – Altezas.

Eu repeti tudo que ela fez.

- Conforme solicitado, estamos prontas para organizar o aniversário de Magnus. – disse Lana.

- No café da manhã? – perguntou Magnus parecendo não gostar muito do que estava acontecendo.

- Tenho compromisso depois, querido. E não quero esperar mais.

- Tudo bem... Que seja.

- Não é possível quando organizar a festa focar só nisso? – perguntou Dereck. – Eu posso cuidar da organização da festa... Com a senhorita Lee. – ele sugeriu. – Então ninguém fica sobrecarregado.

- Você não vai organizar a festa do seu irmão. – disse a rainha. – O aniversário de Magnus é o evento do ano... Principalmente neste ano.

- Por que principalmente neste ano? – perguntou Magnus.

- Porque você vai pedir Vitória em casamento.

Houve um silêncio que me deixou até sem ar naquele lugar enorme e amplo. Respirei fundo e foquei meus olhos no papel em branco na minha frente. Acho que o noivado de Magnus quase poderia ser pior que o meu. Eu não pude deixar de sorrir. Por sorte ninguém viu. A realeza também tinha problemas, pensei ironicamente.

- Eu... Não quero pedir Vitória em casamento no meu aniversário. – garantiu Magnus.

- Já está na hora de oficializarem a relação, querido.

- Já perguntou se Magnus realmente gosta de Vitória? – questionou Dereck.

- Dereck, pare de se intrometer nos assuntos que não lhe dizem respeito. – falou a rainha em tom mais alto que o habitual.

Dereck se calou e por um minuto eu tive pena dele. E também entendi um pouco do que ele tentava me dizer há tanto tempo. Era visível o tratamento diferenciado que a rainha Anne tinha entre um filho e outro. Eu só não entendia o motivo. Minha mãe tinha três filhos e nos tratava igual. O fato de Magnus ser o futuro rei fazia tanta diferença assim para ela?

- Ele tem razão, minha mãe. – disse Magnus. – Eu gostaria de falar sobre meus sentimentos por Vitória.

- Eu não quero saber o que você sente por Vitória, Magnus. Este casamento está planejado há anos com o Duque. Vitória é uma garota bonita, inteligente, rica e dona de uma dos maiores títulos do reino. Ou você vai me dizer que quer encontrar uma mulher que mexa com seu coração e se casar por amor?

- Não seria o ideal? – perguntou Dereck desafiador enquanto colocava um pedaço de pão na boca.

- Não fique botando suas ideias idiotas na cabeça de Magnus. Ele é o futuro rei. Ele sabe da responsabilidade que cai sobre ele.

- Eu sei. – confirmou Magnus.

- Então precisamos fazer uma festa diferente. Algo que chame a atenção de todos... Principalmente da mídia internacional. O noivado de Magnus e Vitória precisa ser noticiado em todo o mundo. Eu exijo isso. – disse a rainha olhando para Lana.

- Um baile de máscaras. – disse Dereck.

- Você... Está louco? – falou a rainha.

- Não é uma má ideia. – disse Magnus. – Um baile de máscaras, tradicional, decorado exatamente como se fazia antigamente nos castelos da era medieval. Homens e mulheres usando máscaras, músicas clássicas e...

- Belas mulheres usando máscaras e vestidos longos e decotados. – completou Dereck.

- Você tem uma palavra para isso, Lana? – perguntou a rainha se dirigindo à sua dama de companhia.

- Garotos. – disse Lana sorrindo.

Magnus me olhou pela primeira vez um pouco mais demoradamente, parecendo querer analisar meus pensamentos. Dereck mantinha seu olhar divertido e cheio de ideias.

- Se Magnus concorda, pode ser. – autorizou a rainha. – Anote as ideias dele e organize tudo, garota. – ela disse olhando para mim com desdém.

- Lee, Majestade. – eu disse enfaticamente. – Me chamo Senhorita Lee, sua dama de companhia.

Todos os olhares pousaram sobre mim. Eu sabia que havia sido ousada. Mas não me importava. Eu não era uma garota. Muito menos dormia com todos os homens como havia sido acusada por um idiota desconhecido na noite anterior. Eu havia passado por uma seleção de dias para chegar àquele cargo. O mínimo que ela devia saber era o meu nome.

- Certo, senhorita Katrina Lee. – ela disse ironicamente, deixando claro que não sabia só meu sobrenome com também meu nome.

Senti meu sangue gelar dentro de mim. Eu não podia negar o quanto temia aquela mulher. A presença dela fazia com que qualquer pessoa se sentisse diminuída, pequena, triste e dispensável.

A rainha levantou-se e disse:

- Lana, você vem comigo para meu compromisso de hoje. Magnus, passarei o dia fora. Garota, anote tudo sobre a festa e depois comece a organizar. Será exatamente no dia que Magnus completar 27 anos.

- Sim, Alteza. – eu concordei.

Elas saíram e eu fiquei ali, com o bloco na mão, tentando fazer uma coisa que eu nunca fiz: organizar uma festa.

- Quer sentar, Katrina? – perguntou Dereck.

- De forma alguma, Alteza. Sei exatamente meu cargo e minha função aqui dentro. E não quero regalias.

Magnus me olhou nos olhos. Ele sabia do que eu falava.

- Mas Lana tem regalias. – ele observou. – Todas possíveis.

- Não é o meu caso, alteza, como já deve ter observado.

- Teve sua regalia ontem à noite. – falou Magnus secamente.

- Não deveríamos falar sobre a festa? – eu tentei, com o coração acelerado. Não era minha intenção ficar discutindo com o príncipe. Despertar a ira no filho mais velho da rainha não fazia parte dos meus planos.

Dereck nos olhou e disse:

- Que tensão! Vocês brigaram?

Nenhum de nós respondeu. Eu não entendia como Dereck conseguia fazer tudo parecer tão fácil e leve. Como a rainha conseguia destratá-lo? Eu começava a simpatizar com ele. Ele era divertido e parecia sem maldade. Ele agia exatamente como um garoto de 20 anos, porém sem responsabilidades e aproveitando o que seu título lhe oferecia.

- Eu... Nunca organizei uma festa. – confessei. – Mas prometo tentar fazer da melhor forma possível.

- Katrina... Você ficou noiva? – perguntou Dereck.

Eu não identifiquei se ele estava alegre, triste ou surpreso.

- Sim. – falei sem dar muita importância.

- Quando foi? – ele insistiu.

- A vida particular da dama de companhia da nossa mãe não nos diz respeito. – repreendeu Magnus.

- Eu e Katrina somos quase amigos. – ele disse piscando o olho.

Magnus balançou a cabeça, visivelmente desagradado com o que ouvia.

- Alteza, a realeza e a criadagem não têm amizades. – eu arrisquei a dizer.

- Você não é criadagem, Katrina. Você tem um alto cargo no castelo.

- Sou somente a substituta da dama de companhia. – falei.

- Por que substituta? – perguntou Magnus.

- Porque Lana Davis continua fazendo tudo pela rainha. Minha função é meramente auxiliá-la. No entanto eu não estou reclamando, não me entenda errado.

- Pelo visto minha mãe lhe deixou para nos auxiliar. O que acha que usarmos Katrina Lee como nossa dama de companhia, Magnus? – sugeriu Dereck.

- Este cargo não existe, Dereck. – disse Magnus.

- Mas... Você pode criar.

- Eu... – ele ia dizer algo quando Dereck continuou.

- Ela... Tem a minha idade. Acho que me entenderia muito bem quanto ao que eu tenho vontade de fazer... Pelo menos sendo o segundo príncipe na linha de sucessão. Eu gosto dela. – admitiu ele me olhando. – E ela poderia ajudar você também. Ou você gosta do chato do Simon seguindo você por todos os lados?

- Está sugerindo que Katrina seja nossa secretária?

- Se você quer chamar assim, tudo bem.

- Porque não existe dama de companhia dos príncipes. – ele confirmou.

- Então eu gostaria que você a nomeasse nossa secretária.

Magnus me olhou fixamente.

- Não quero regalias. – observei ironicamente.

- Nem terá. – garantiu ele. – Vou lhe dar tanto trabalho que não terá tempo de pensar em mais nada na sua vida.

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