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Capítulo 39 - A bofetada

last update Data de publicação: 2021-06-24 04:05:16

Ele saiu e bateu a porta. Eu me recompus e continuei ali, sem palavras. Dom pareceu nervoso:

- Este homem é importante para nós.

- Por quê? – perguntei.

- Ele vem indicado por King, o grande financiador dos nossos encontros e que apoia nossas ideias. Não podemos perder Black.

- Mas... Não fizemos nada errado. – eu disse.

- Teoricamente deveríamos estar lá em cima, discutindo nossas ideias. É para isso que nos encontramos.

- Dom...

Ele pegou minhas mãos e beijou-as, dizendo:

- Vou lembrar destes momentos... Dos seus beijos, do seu gosto, do seu cheiro...

- Não quer mais me ver? – perguntei quase num fio de voz.

- Claro que quero. – ele disse. –Mas precisamos nos cuidar. Nada de revelar nossas identidades. Isso é perigoso. Precisamos nos proteger.

- Eu não quero saber de Black... Eu só quero saber de nós dois.

- Katee, seu namorado está lá em cima. Poderia ter sido ele...

- Léo reagiria de forma menos agressiva que Black, acredite. – eu falei sinceramente.

Ele colocou a mão sobre minha face, descendo até meu pescoço vagarosamente. Eu sentia como se uma chama novamente se acendesse dentro de mim.

- Não quero pressa... Eu só quero você. Ainda mais agora...

- Por que ainda mais agora? – perguntei curiosa.

- Agora que sei que você não teve outro homem.

- Eu só quero você. – confessei. – Desde a primeira vez que o vi.

Ele me deu um beijo de leve nos lábios e subiu. Esperei um pouco e depois subi também. A discussão estava fervorosa sobre o regime monárquico bem como a rainha Anne Marie. Alguns poucos já cogitavam tirar a rainha do poder, mantendo a monarquia com o príncipe Magnus como rei, conforme eu havia sugerido no outro encontro. Eu já não tinha certeza se aquilo era o melhor. Enquanto eu me dirigia à mesa com meus amigos, Black atravessou meu caminho e disse:

- Alguma informação sobre a monarquia?

- Do que você está falando? – perguntei olhando nos olhos dele.

- Estou falando do cargo que você ocupa.

Eu fiquei nervosa. Como ele sabia? Quem era aquele homem? Procurei Dom com o olhar, mas percebi que ele estava conversando num grupo. Ainda assim nossos olhares se encontraram. Eu sabia que ele estava me observando então de alguma forma eu estava segura. Dom era muito respeitado pelo grupo. Black? Eu não sabia nada sobre ele.

- Eu não sei do que você está falando. – continuei.

- Você sabe sim. Acha que somente Dom sabe a verdade sobre você?

Senti meu coração bater descompassadamente. Sim, eu estava com medo, pela primeira vez. Dom insistia que precisávamos esconder nossas identidades e eu estava completamente exposta por aquele homem. Eu poderia negar várias vezes que não adiantaria. Ele sabia muito bem do que falava.

- Por qual motivo você investiga minha vida? – perguntei.

- Não investigo, acredite. Você que não é nada discreta. É assim que quer acabar com a monarquia? Tendo sua identidade exposta, contando segredos do castelo e dormindo com todos do grupo secreto?

Eu instintivamente dei-lhe uma bofetada. Apesar do burburinho ao redor, as conversas foram cessando e todos os olhares se voltaram para nós.

- Você não me conhece. – eu lhe disse em tom alto suficiente para que todos ouvissem. – Portanto, me respeite.

Ele levou a mão à face confuso e surpreso. Depois de um tempo ele virou as costas e saiu em direção à porta. Eu fui voltando para minha mesa, com todos os olhares sobre mim. Mas antes que eu chegasse à mesa, ouvimos o som de um tiro vindo da rua. Poderia não ser nada, mas como éramos um grupo que se encontrava secretamente para fazer algo proibido, já imaginávamos que podia ser guardas do castelo atrás de nós. Black imediatamente trancou a porta e todos começaram a rapidamente se dissiparem. Atrás da mesa de vinha foi aberta uma porta e o pessoal foi saindo por ali. Procurei Kim e os outros, mas não encontrei. Eu fiquei ali, tentando colocar as ideias no lugar enquanto todos agiam rapidamente. Dom me pegou pelo braço e disse:

- Black, leve-a pela adega. Tem uma porta secreta embaixo da escada.

- E você? – perguntei a Dom. – Você precisa vir...

Começaram a bater na porta pelo lado de fora, ameaçando:

- Abram ou todos morrerão. Por ordem da rainha...

Eu fiquei tão nervosa que meu corpo todo tremia.

- Eu preciso me livrar de alguns documentos. – disse Dom correndo para uma mesa no fundo da sala.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Black me puxou pelo braço.

- Eu não vou. – garanti. – Vou ficar aqui com Dom... Até o fim.

Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa ele me pegou nos braços, me colocando em cima do seu ombro e levando-me pela porta da adega com rapidez. Eu fiquei furiosa e senti lágrimas rolando enquanto eu me afastava de Dom. Não conseguia imaginar o que eu faria se algo acontecesse com ele. Comecei a bateu em Black furtivamente, tentando me desvencilhar. Mas ele era forte como uma pedra e parecia que meus tapas não faziam nenhum efeito no corpo dele. Logo a porta da adega se fechou e ele me levou pelas escadas até a porta abaixo da escada, trancando-a pelo lado de dentro. Não havia como ficarmos em pé, pois o espaço era pequeno e baixo. Sentei escorada na parede e ele fez o mesmo. Dali não ouvíamos nada, somente o som das nossas respirações na escuridão. Eu acho que ele conseguia ouvir meu coração bater.

- Vai ficar tudo bem. – ele garantiu.

- Não fale comigo. – eu pedi.

- Tudo bem...

Cada minuto que eu ficava presa com aquele homem parecia uma hora. Eu só pensava em como estaria Dom e meus amigos. Teriam eles conseguido escapar?

- É... Sempre assim? – perguntei em voz baixa.

- Sempre assim o que? – ele perguntou.

- Guardas em todos os encontros... Não me parecem tão secretos. – observei.

- Não tenho certeza. – ele disse. – É a segunda vez que participo.

- Eu também. – admiti.

- Mas precisamos nos certificar de que não há um traidor, não é mesmo? Parece que é comum acontecer.

- Pode ser você. – eu disse.

- Ou você. – ele rebateu.

- Eu? Não... Estou aqui só para dormir com todos os homens do grupo. – ironizei furiosa.

- Me desculpe.

- Por quê? Por ter sido sincero? Não precisa se desculpar, desde que fale o que pensa. E, falando em dizer o que pensa... Eu não gosto de você.

Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Sinceramente não sei se ele se preocupou com o que eu disse ou não.

- Você gosta de Dom. – ele afirmou.

- Sim. – eu confessei. Por que mentir? Tenho a impressão que o que eu sentia por Dom estava nos meus olhos e eu não conseguia negar mais.

- E... Seu namorado?

- Black, nem tudo é fácil para nós mulheres. – expliquei. – Não é como para vocês.

- Você... Sabe a identidade dele? – ele perguntou.

- Não. – eu menti.

Ele riu:

- Você é uma péssima mentirosa.

- Eu não estou mentindo.

Ouvimos um barulho e nos calamos. A porta se abriu e Dom estava lá. Eu saí e o abracei com força. Quando o soltei vi Kim, Diana e Léo atrás dele.

Eu poderia dizer mil coisas naquele momento, mas não havia o que dizer. Então preferi me calar e só observar os olhares confusos deles. Black saiu e disse:

- Ela está a salvo, como você pediu. – ele falou sorrindo maliciosamente e saindo, deixando o clima ainda mais tenso.

Ouvimos silenciosamente ele subir cada degrau e fechar a porta. Kim falou:

- Como isso pôde acontecer novamente? É nosso segundo encontro... Devemos nos preparar para nova invasão no próximo sábado?

- Isso não é incomum acontecer... Mas nunca aconteceu duas vezes seguidas. Certamente há um traidor no grupo.

- Alguém que entrou no último encontro. – deduziu Diana. – Mas não somos nós. – ela se defendeu.

- É... Black. – eu disse.

- Como assim? Por que o acusa assim? – perguntou Dom.

- É a segunda vez que ele vem também... Você lembra tudo que ele disse... – falei na certeza de que ele sabia do que eu falava.

- Por que você deu um tapa nele? – perguntou Léo.

- Ele... Falou algo que eu não gostei... Incomodei-me, na verdade.

- O quê?

- Léo... Agora não. Foi um dia cheio. – disse Kim.

Kim me abraçou carinhosamente e fomos subindo.

- Por hoje deu. – ele disse baixo no meu ouvido. – Foi uma noite tensa... E eu ainda nem sei tudo que aconteceu. – ele piscou.

Deixei-o me conduzir, sem conseguir para de olhar para Dom que ficava ali sozinho. Minha vontade era m****r todos irem e eu ficar ali, durante toda a noite com ele. Só de pensar em tudo que poderíamos fazer sozinhos naquele lugar fez com que eu sentisse meu corpo cheio de desejo. Mas era Léo quem gentilmente tirava Kim e pegava minha cintura. Eu esperava que Dom confiasse que eu não sentia nada por Léo. Eu não gostaria de vê-la com outra mulher. E imagino que ele também não gostava da cena que presenciava. Então, gentilmente, tirei a mão de Léo, deixando que Dom visse que eu não estava confortável com o toque dele.

Em pouco tempo estávamos no carro. Léo ligou a chave e partimos. No caminho, ele disse:

- Eu não sei se vou retornar.

Ninguém falou nada. Eu sabia que Diana e Kim, assim como eu, também tinham medo do que acontecia naqueles encontros e o risco que corríamos. Ainda assim, não queríamos desistir. Léo continuou:

- Vocês entendem do risco que corremos cada vez que viemos nesses encontros?

Novamente silêncio total. Depois de um tempo, eu disse:

- Eu virei igual. – garanti. – Com ou sem você.

- Eu também. – disse Diana.

- E eu também. – falou Kim. – A causa é maior... O risco sempre existe, mas se não for assim não mudaremos nada.

- Em todas as mudanças dos grandes países houve lutas... E mortes... E pessoas que abriram mão de tudo por seus ideais. – disse Diana.

- Eu tenho orgulho de ter você como amiga. – eu disse à ela, que sorriu.

- Isto é um complô? – perguntou Léo.

- Querido, você tem o carro e nós a coragem. Ou seja, viremos sem o seu carro, pois nossa coragem continuará.

Ele balançou a cabeça e deu de ombros:

- Claro que não vou deixá-los sozinhos.

- Me perguntou se você realmente apoia esta causa, Léo. – disse Diana.

- Claro que sim.

- Espero que não seja você o traidor. – eu disse.

Ele me olhou nos olhos e disse:

- Acha mesmo isso?

- Não. – eu confessei.

Desta vez Léo deixou Diana em casa primeiro. Depois Kim. Quando Kim saltou do carro disse:

- Te ligo depois.

- Sim... Só nos veremos novamente dentro de duas semanas.

Ele me deu um beijo e eu fiquei ali sozinha com Léo. Ele parou em frente a minha casa e disse:

- Por que não me ligou, Kat?

- Eu... Pedi para minha mãe avisar tudo que havia acontecido.

- Kat, você é minha namorada e não sua mãe.

- Me desculpe, Léo. Realmente fiquei em falta com você. Mas foram dias corridos.

- Como... Está sua relação com o príncipe?

- Dereck?

- Sim.

- Boa... Ele me ajudou a sair hoje. Eu não teria conseguido sem ele. Acho que podemos ser bons amigos futuramente.

- Acha que... Ele não tem interesse em você?

- Não sei... Espero que não, pois eu não tenho nele. – confessei.

- E Magnus?

- O que tem ele? – perguntei.

- Você havia me dito que gostava dele...

- Eu... Tinha bebido demais. Não leve em conta, por favor. – pedi.

Ele pegou minhas mãos e olhou nos meus olhos:

- Você gosta de Dom?

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