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Capítulo 3

last update publish date: 2026-04-14 06:39:31

Sofia dirigia sem rumo, as palavras do Dawson e dos homens do café martelando na cabeça. "Até os mais duros quebram quando a terra seca e a dívida aperta." A imagem do Ethan, pálido na UTI, se misturava com o tal "acidente" do pai. Quem diabos era Rick Dawson pra ter uma sombra tão grande?

  Distraída, pegou um desvio errado. O asfalto acabou, trocado por trilhas de trator em terra rachada. Cercas de arame serpenteavam por morros secos. Placas de "Propriedade Privada - Callahan" pendiam, descascadas pela areia. A Terra Seca.

  Sofia estacionou na sombra rala de um mesquite. A desolação era de cortar o coração. O pasto, que devia ter sido verde, era um tapete marrom sob o sol impiedoso. Ossos de gado branqueavam perto da cerca, e um moinho de vento enferrujado chiava feito alma penada. Lá longe, a casa principal, uma estrutura de madeira boa, mas com telhado caído e janelas cegas de poeira.

  — Bonito, né? — uma voz áspera cortou o silêncio.

  Sofia deu um pulo. Marlene Callahan tinha surgido da varanda feito um fantasma de jeans remendados. Segurava uma escopeta .22 não apontada, mas pronta. Os olhos, pretos, encaravam Sofia.

  — Soube que você é a enfermeira. A que enfiou droga no meu filho.

  — Foi sedação pra cirurgia, Sra. Callahan. Ele tava com o osso pra fora.

  — Ethan aguenta dor. É um Callahan. — Marlene cuspiu no chão, igual ao filho. — Você de cidade não entende. Aqui, fraqueza mata. Como matou o Joseph.

  Sofia manteve o olhar nos olhos da mulher. Viu não só raiva, mas medo. Medo de perder o filho.

  — Ele tá estável. Mas precisa descansar e antibiótico forte para evitar uma infecção no osso...

  — Eu cuido do meu filho! — o grito espantou corvos de uma carcaça. — E cuido da minha terra. Vaza. Antes que eu chame quem devia ter feito isso ontem.

  O sol bateu no cano da arma. Sofia olhou pra casa, depois pra mulher cujo orgulho era tão seco quanto a terra. Sentiu uma pena rápida, engolida pelo instinto. Deu meia-volta.

  — Ele vai precisar ver o ortopedista em uma semana — falou, abrindo a porta do carro. — No Mary Saint. Se quiser que ele volte a andar.

  Marlene não respondeu. Quando Sofia olhou no retrovisor, a figura solitária ainda estava lá, só um ponto preto contra o marrom morto da Terra Seca.

  ***

  De volta ao hospital, Sofia passou na UTI. Ethan tava acordado. Parado, encarando o gesso na perna como se quisesse derreter ele com o olhar. Os punhos tão apertados em cima do lençol que as juntas ficaram brancas. Quando ela entrou, os olhos dele – cinza que nem a tempestade de areia – subiram até ela. Nem um obrigado. Só uma pergunta seca, rouca de dor e raiva:

  — Quanto tempo?

  Sofia ajustou o soro de antibiótico.

  — Seis semanas sem pisar no chão. Depois fisioterapia.

  Ele soltou um grunhido entre riso amargo e engasgo. 

  — Seis semanas... O Dawson vai cair de tanto rir. — Olhou pra janela, pro horizonte onde o rancho devia tá morrendo sem ele. — E o bezerro?

  — Não faço ideia.

  — Claro que não faz. 

  Ele virou o rosto pra parede. 

  — Vaza. 

  Sofia hesitou. A dor dele era um bicho bravo, mordendo tudo que chegava perto. Mas viu o tremor no braço que cobria os olhos. A fraqueza que ele morreria antes de admitir. Deixou um comprimido de analgésico na mesa de cabeceira.

  — Pra quando o orgulho não der conta, Callahan.

  Quando saía, ouviu o toc abafado do comprimido batendo na parede. Sorriu sem graça. Betty tava certa: em Serenity Creek, sobreviver era o único jogo que valia. E Sofia Alves tinha acabado de entrar na roda.

  Sofia meteu o pé no acelerador do seu Civic velho, a poeira da Terra Seca grudada nos pneus. O ar-condicionado bufava ar morno, mas nem chegava perto do calorão que tava na cabeça dela. Ethan Callahan era um saco de raiva com perna quebrada, a mãe dele uma pistoleira de bota, e o tal Rick Dawson parecia o chefão de filme de máfia no meio do Texas. "Que buraco eu fui me enfiar, meu Deus?"

  Ela tava morta de cansaço, o plantão de ontem parecia uma maratona. Precisava de três coisas: café forte, ibuprofeno e uma cama. Parou na única farmácia do lugar, o "Remédio Bom". A atendente, uma moça nova com cara de quem via coisa demais, reconheceu ela na hora.

  — É você a enfermeira nova, né? A que lidou com o Ethan Callahan? — perguntou, passando o ibuprofeno. — Corajosa. Ou doida. Aqui o povo fala que até o diabo tem medo dele com dor de cabeça.

  Sofia deu uma risada sem graça.

  — Ele só tava... motivado. Muito motivado.

  — Pois é. Aquele irmão dele, o Ben, passou aqui mais cedo. Comprou umas bandagens e um rolo de esparadrapo. Tava com o dedo sangrando e cheirando a álcool a três metros. — A moça baixou a voz. — O Miguel, o capataz dos Callahan, tava atrás dele na fila do mercado, com cara de poucos amigos. Só comprou arroz, feijão e café. O básico do básico. Tá feia a coisa no rancho, hein?

  Sofia pagou e saiu, a informação nova grudando na mente. Ben ferido e bêbado de manhã? Miguel fazendo compras mínimas? O buraco era mais fundo do que parecia. Enquanto abria o ibuprofeno no carro, viu justo o homem que a ajudou com Ethan, saindo do mercado, carregando um saco magro. O homem era forte, de bigode grisalho e olhos cansados. Ele a viu, acenou com a cabeça, um cumprimento seco. Nem parou pra conversar, foi direto pra caminhonete velha e capenga, o motor dando um ronco doente quando ligou.

  Tá todo mundo na corda bamba, pensou Sofia, engolindo o comprimido sem água. O cowboy raivoso na cama, o irmão problemático se afundando, a mãe armada até os dentes, o capataz segurando as pontas... e um tubarão de escritório cheirando sangue na água. 

  Ela ligou o carro, olhou pro prédio simples do Santa Maria. Era só um hospitalzinho de cidade pequena, mas naquele momento parecia uma trincheira. E ela, Sofia Alves, fugitiva de um erro no passado, tinha acabado de pular direto no meio da treta maior. Tudo o que ela queria era um buraco pra sumir. Em vez disso, tinha um cowboy com raiva e uma família inteira à beira do precipício pra cuidar.

  — Foda-se — ela murmurou pro retrovisor, ajustando o rabo de cavalo. — Se sobrevivi a Houston, sobrevivo a isso. Só falta um terremoto agora.

  O Civic saiu levantando poeira, rumo ao seu apartamento alugado.

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