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Capítulo 3 - Valentina (Parte 1)

Autor: Sia Paiomas
last update Fecha de publicación: 2026-10-04 14:14:57

Eu sempre soube que minha irmã era incapaz de respeitar uma porta fechada.

O que eu não esperava era que ela invadisse meu quarto às nove e meia da manhã, carregando uma bandeja de café e uma expressão que anunciava problemas.

— Você está com uma cara péssima.

Ergui os olhos do notebook.

— Bom dia para você também, Beatrice.

Ela colocou a bandeja sobre a mesa de centro e se jogou na poltrona diante de mim.

— Dormiu?

— Algumas horas.

— Comeu?

— Ainda não.

— Está trabalhando?

Olhei para a tela.

— O que você acha?

Beatrice estreitou os olhos.

— Acho que está tentando fingir que ontem não aconteceu.

Parei de digitar.

Minha irmã tinha vinte e quatro anos e uma habilidade extraordinária para me irritar. Era espontânea, impulsiva e, muitas vezes, completamente incapaz de perceber quando deveria ficar quieta.

Mas também me conhecia melhor do que qualquer pessoa.

— Não estou fingindo nada.

— Valentina.

— Beatrice.

Ela cruzou os braços.

— Mamãe me contou.

Fechei o notebook.

É claro que contou.

Minha mãe nunca foi capaz de esconder uma preocupação da minha irmã por muito tempo.

— Imagino que tenha contado tudo.

— Disse que papai conversou com você sobre o casamento.

Olhei para a bandeja.

Café, torradas, frutas e um pequeno pote de geleia de morango.

Beatrice sabia que eu gostava de tomar café da manhã antes de qualquer reunião importante. Também sabia que, quando eu estava nervosa, costumava esquecer de comer.

Era irritante ser tão bem conhecida.

— E o que você acha? — perguntei.

Ela demorou a responder.

— Acho que você deveria poder escolher.

A simplicidade da frase me fez erguer os olhos.

Beatrice estava séria.

Aquilo, por si só, já era incomum.

— Não é tão simples.

— Por que não?

— Porque não se trata apenas de mim.

— Sempre se trata de você também.

Soltei um suspiro.

— Bea…

— Não, Valentina. Eu estou falando sério.

Ela se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Você passou a vida inteira fazendo tudo o que papai e vovô esperavam. Estudou o que eles queriam, trabalhou onde eles queriam, participou de reuniões quando poderia estar fazendo qualquer outra coisa. Agora querem escolher com quem você vai se casar.

— Eu sei.

— E você vai aceitar?

Não respondi imediatamente.

Beatrice me observou, esperando.

— Ainda não decidi.

Ela soltou uma risada incrédula.

— Você já decidiu.

— Não coloque palavras na minha boca.

— Você sempre faz isso.

Franzi a testa.

— Isso o quê?

— Age como se tudo estivesse sob controle, mesmo quando está desmoronando por dentro.

Desviei o olhar.

Não gostava quando ela fazia aquilo.

Não gostava de ser lida com tanta facilidade.

— Matteo não é um completo desconhecido — argumentei.

— Você mal conversa com ele.

— Já estivemos em eventos juntos.

— Isso não significa que você o conhece.

— Beatrice, eu sei muito bem que não o conheço.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você gosta dele?

A pergunta me fez rir.

Não porque fosse engraçada.

Mas porque parecia absurda.

— Não.

— Então por que aceitaria?

Olhei para minha irmã.

Havia muitas respostas possíveis.

Porque era meu dever.

Porque a família precisava daquela aliança.

Porque meu pai acreditava que o casamento fortaleceria os Bellini.

Porque eu havia sido criada para entender que, em determinadas circunstâncias, meus desejos precisariam ficar em segundo plano.

Mas havia uma resposta que eu não queria dizer em voz alta.

Porque eu não sabia o que aconteceria se recusasse.

— Existem coisas que você ainda não entende — respondi.

Beatrice se levantou.

— Então me explica.

— Não posso.

— Não pode ou não quer?

A pergunta ficou entre nós.

Eu poderia ter contado sobre as conversas que ouvira ao longo dos anos. Sobre as preocupações financeiras que meu pai tentava esconder. Sobre as reuniões que se prolongavam até tarde e os telefonemas que terminavam assim que alguém entrava na sala.

Mas não tinha informações suficientes.

E não queria assustá-la com suspeitas.

— Não tenho todas as respostas, Bea.

Ela me encarou.

— Mas sabe que tem alguma coisa errada.

Não respondi.

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