INICIAR SESIÓNBeatrice balançou a cabeça, frustrada.
— Você não precisa fazer tudo sozinha. — Alguém precisa. — Não necessariamente você. Sorri sem humor. — É exatamente por isso que sou a herdeira. Ela se aproximou e sentou na beirada da minha cama. — Você é minha irmã antes de ser a herdeira. Aquelas palavras me atingiram de um jeito que eu não estava preparada para admitir. Beatrice estendeu a mão e segurou a minha. — Eu não quero que você se case com alguém que não ama só por minha causa. Olhei para ela. — Quem disse que estou fazendo isso por você? — Ninguém precisou dizer. Ela apertou meus dedos. — Eu conheço você. Por um instante, tive vontade de contar tudo. Dizer que estava assustada. Que não sabia se deveria aceitar ou lutar. Que, pela primeira vez em muitos anos, eu não tinha certeza de qual decisão seria a mais inteligente. Mas não fiz nada disso. Apenas apertei sua mão de volta. — Tome seu café — falei, tentando mudar de assunto. — Você está começando a ficar dramática. Beatrice arregalou os olhos. — Eu? Dramática? — Extremamente. — Você acabou de descobrir que vai se casar com um homem que não ama e está me chamando de dramática? — Estou apenas observando os fatos. Ela pegou uma almofada e atirou na minha direção. Desviei, rindo. Por alguns minutos, fomos apenas duas irmãs dividindo o quarto, discutindo sobre café, roupas e as últimas novidades da família. Era uma sensação boa. Uma sensação que eu gostaria de preservar. Mas a tranquilidade durou pouco. Meu telefone tocou. O nome do meu pai apareceu na tela. Beatrice olhou para mim. — Não atende. — Beatrice… — Não atende, Valentina. Deixei o telefone tocar até parar. Poucos segundos depois, chegou uma mensagem. Precisamos conversar sobre o casamento. Venha ao escritório às onze. Bloqueei a tela. — Ele não vai desistir — comentou minha irmã. — Eu sei. — E você? Olhei para ela. — Também não. * O escritório do meu pai ficava no segundo andar da residência, próximo à biblioteca que meu avô praticamente havia transformado em seu segundo lar. Eu conhecia cada detalhe daquele lugar. A mesa de madeira escura. As estantes repletas de livros. O sofá de couro próximo à janela. O quadro antigo que meu avô trouxera da Itália. E a pequena fotografia da nossa família, posicionada sobre uma das prateleiras. Meu pai estava sentado atrás da mesa quando entrei. — Sente-se, Valentina. Obedeci. Ele terminou de assinar um documento antes de erguer os olhos. — Conversei com sua mãe. — Imagino. — Ela está preocupada. — Não é a única. Vittorio retirou os óculos e os colocou sobre a mesa. — Quero que você entenda que esse casamento é importante. — Você já deixou isso bastante claro. — A família Moretti tem influência em setores estratégicos. — Eu conheço a importância da aliança, pai. Não precisa me explicar como se eu estivesse entrando na empresa hoje. Ele respirou fundo. — Então não transforme isso em uma discussão desnecessária. Inclinei-me um pouco para a frente. — Você está pedindo que eu me case com Matteo Moretti. Acho que tenho o direito de discutir. Meu pai ficou em silêncio. — O casamento vai acontecer — disse, por fim. A firmeza da voz dele não deixou espaço para dúvidas. — E se eu me recusar? Vittorio apoiou os antebraços na mesa. — Não recomendo que faça isso. — Não foi o que perguntei. Ele me encarou. — Sua recusa teria consequências para todos nós. Senti o estômago apertar. — Que consequências? — O acordo envolve muito mais do que um casamento. A resposta me fez estreitar os olhos. — O que isso significa? — Significa que existem compromissos assumidos há muito tempo. — Compromissos que você não pretende me explicar? Meu pai se levantou e caminhou até a janela. — Existem assuntos que não precisam ser discutidos agora. Soltei uma risada baixa. — Curioso. Minha vida inteira parece ser um assunto que pode ser decidido sem que eu participe, mas os motivos continuam sendo confidenciais. Ele virou-se para mim. — Estou tentando proteger você. — De quem? Vittorio não respondeu.Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.— Minha família espera conhecê-la melhor.— Já nos conhecemos.— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.— Vou verificar minha agenda.— Valentina.O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.— Não precisa transformar tudo em uma negociação.Quase sorri diante da ironia.— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.Matteo não achou graça.— Quero que isso funcione.— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.— Preciso ir.Matteo também se levantou.— Espero que tenha entendido o que conversamos.Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.— Entendi perfeitamente.— E?Olhei diretamente para ele.— Ainda não concordei em me ca
Matteo me observou por alguns segundos.— Podemos construir uma relação depois do casamento.— E até lá?— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.— Eu não aceitei me casar com você — falei.A expressão de Matteo mudou.— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.— Compreender não é aceitar.Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.— Então seja claro.— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.Senti meu peito apertar.— Sem a minha confirmação?— Seu pai está cuidando dos preparativos.— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.— E você está
O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.Matteo Moretti.Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.— Matteo.— Valentina. Precisamos conversar.A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.— Prefiro que seja pessoalmente.Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.— Sobre o quê?— Sobre o nosso casamento.A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.— Estou ocupada.— Não vai demorar.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Onde?— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.— Estarei aí em vinte minutos.Encerrei a ligação antes que ele pu
Por alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido.— Esta família também é minha.— Nunca disse o contrário.Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.— Você sempre precisa ter a última palavra.— Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim.Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona.— Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo.— Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir.Matteo parou junto à porta.— Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos.— É exatamente o que estou fazendo.Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clar
O silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado.Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo.— Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista.Ergui os olhos.— E os que não estão?— Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa.Recostei-me na cadeira, observando-o.— Continue procurando.Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção.— Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você.Soltei uma respiração curta.— Ele sabe onde me encontrar.— Disse que é importante.
Aquele silêncio começou a me incomodar de verdade.— Pai, o que está acontecendo?Ele voltou para a mesa.— Nada que você precise resolver.— Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber.— Você saberá o que for necessário.Apertei os lábios.Eu odiava aquela resposta.Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar.A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo.— Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei.— Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar.— Que gentil da parte dele.Meu pai ignorou o sarcasmo.— Espero que seja cordial.— Sou sempre cordial.Ele ergueu uma sobrancelha.— Valentina.— O quê? Eu sou.— Não confunda sinceridade com falta de educação.Sorri.— Nunca confundo.Levantei-me.— Posso voltar ao trabalho?Vittorio as







