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# Capítulo 5 — A proposta (Parte I)

Autor: sandmmoreira
last update Data de publicação: 2026-09-03 03:36:56

Marina subiu as escadas devagar, não porque estivesse cansada, pois tinha subido aqueles lances correndo na primeira vez, no dia do e-mail, sem nem pensar. Subiu devagar porque cada degrau era uma chance de mudar de ideia, e ela estava dando a si mesma todas as chances possíveis antes de fazer a coisa mais ridícula da sua vida.

Três degraus. “Você é louca, Marina.” Dois degraus. “A Priya devia ser internada.” Um degrau. “O que você tem a perder?”

A resposta para a última pergunta era dolorosa: absolutamente nada! Mas que tipo de pessoa sobe ao terraço para propor um casamento falso para o CEO da empresa em que faz estágio? 

O tipo que tem dois meses e nenhuma outra opção.

Tinha se vestido diferente naquele dia. Não muito para que parecesse que tinha se arrumado, porque isso implicaria que se importava, e ela não se importava. Só tinha trocado a blusa de sempre por uma que não tinha aquela manchinha de café no punho e passado rímel, prendido o cabelo de um jeito que parecia casual mas tinha levado onze minutos.

Priya tinha mandado dezessete mensagens desde as oito da manhã.

"Vai hoje?"

"Marina."

"Marina Santos."

"Se você não for hoje eu vou eu mesma."

"Mentira, eu não vou, mas vai logo."

"Lembra: respira, fala com clareza, não chama ele de playboy."

"Ou chama. Talvez ele goste."

Marina não respondeu nenhuma. Se respondesse, ia ter que admitir que estava com medo, e admitir que estava com medo ia fazer o medo ficar real.

Ela empurrou a porta de metal, o vento de três da tarde cortou seu rosto da mesma forma que da primeira vez e lá estava ele.

Ethan não estava sentado no chão, estava apoiado na mureta de costas para a porta, encarando a imensidão de prédios. Ele não vestia o paletó — apenas a camisa social branca com as mangas dobradas até os cotovelos e, claro, a gravata afrouxada.

O barulho do trinco o fez olhar para trás e quando viu Marina, a sobrancelha dele se ergueu, e o famoso sorriso torto deu ar da graça.

"Olha só," Ethan disse, girando o corpo para se encostar na mureta. "A garota que resolve as coisas."

Marina sentiu o estômago apertar. Ficou de pé perto da mureta a três metros dele, com os braços cruzados e a postura de quem está prestes a pedir demissão ou declarar guerra.

"Eu preciso falar com você."

"Tô ouvindo." Ele enfiou a mão no pacote de Cheetos. "Quer sentar?"

"Não."

"Tudo bem, mas eu vou sentar. Eu gosto de olhar para cima quando alguém vai me dar uma notícia séria, me faz sentir que tô num filme, e pela sua cara parece que o assunto é bem sério… "

Marina respirou fundo. Tinha passado a noite inteira ensaiando, deitada no colchão do estúdio no Queens, olhando para o teto com infiltração, repetindo as frases até elas parecerem naturais, mas agora, com ele ali, comendo Cheetos no chão como se o mundo fosse um lugar onde nada tinha consequência, todas as frases ensaiadas evaporaram.

Ele percebendo a insegurança dela e a demora, como quem está tomando coragem para falar, não resiste em tentar quebrar o gelo.

"Nossa. O assunto é sério mesmo! E eu achando que você tinha subido para me dar bronca pelo discurso de segunda-feira."

Marina virou o rosto para ele, olhou bem nos olhos verdes do homem que carregava o futuro de uma empresa gigante nas costas e que, até dias atrás, parecia não se importar com nada e desatou a falar:

"Eu ouvi dizer que você precisa demonstrar maturidade para o seu avô", começou, direto ao ponto. A voz vacilou um pouco na primeira palavra, mas se firmou. "Ouvi dizer que o Dr. Richard te deu seis meses para provar que você pode liderar o Whitmore Group, ou o perderá o cargo."

O sorriso de Ethan desapareceu instantaneamente. A postura relaxada deu lugar a uma rigidez defensiva. A expressão dele congelou da mesma forma que na reunião quando ele olhou para ela.

"A fofoca corre rápido nessa empresa", ele disse, o tom agora frio, perigoso. "Achei que o pessoal do marketing estivesse ocupado demais com métricas do terceiro trimestre."

"Não é fofoca, é a verdade", Marina rebateu, mantendo a cabeça erguida. "E a minha verdade é que meu visto de estudante expira em dois meses, a Whitmore não vai patrocinar meu visto de trabalho e eu serei deportada."

Ethan franziu a testa, unindo os dois pontos na cabeça, mas sem aceitar a linha que os conectava.

"Sinto muito por você, Marina. De verdade, mas o que a minha vida corporativa tem a ver com os seus problemas de imigração?"

Marina respirou fundo. É agora. Se ele me demitir, eu já ia embora mesmo.

"Nós dois temos problemas que exigem uma solução drástica e imediata", ela disse, a voz soando surpreendentemente firme. "Você precisa parecer um homem de família estável, centrado e responsável. Alguém que parou de dar motivos para a imprensa marrom e que está pronto para assumir o império. Uma esposa dá essa imagem da noite para o dia. E eu... eu preciso de um visto."

Ethan soltou uma risada curta, um som incrédulo que foi abafado pelo vento. 

"Você está me pedindo em casamento?"

"Não. Estou te propondo um contrato de negócios."

Ele encarou Marina como se ela tivesse acabado de falar em outra língua. Se levantou, deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois, e a analisou minuciosamente.

"Deixa eu ver se entendi", Ethan falou devagar, cruzando os braços. "A estagiária que me chamou de 'playboy de gravata' quer que eu me case com ela para enganar a imigração americana e o meu avô ao mesmo tempo?"

"Exatamente."

"Você enlouqueceu."

"Provavelmente! Mas pense bem: se você se casar com uma herdeira ou uma socialite do seu círculo, haverá expectativas. Família metida, interesse financeiro no seu patrimônio, cobranças emocionais. Comigo, é puramente um trato: dois anos de casamento, convivência pública impecável, moramos juntos para passar pela entrevista da imigração, você ganha o apoio do conselho e do seu avô por ter 'criado juízo', e eu ganho a minha permanência no país."

Ethan continuou em silêncio. O vento bagunçava o cabelo dele, mas ele nem sequer piscou. A mente do CEO trabalhava rápido, calculando os riscos.

"E o que te faz pensar que o meu avô acreditaria que eu me apaixonei por uma estagiária brasileira?"

"É justamente por isso que é crível", Marina retrucou. "É impulsivo o suficiente para ser a sua cara, mas sério o suficiente para provar que você quer construir algo real. Dizemos que nos apaixonamos em segredo, que não queríamos exposição dentro da empresa. É perfeito!"

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