FAZER LOGINEthan deu mais um passo. Agora estava tão perto que Marina podia sentir o perfume amadeirado se misturando ao ar frio da tarde. Ele se inclinou ligeiramente, encarando-a com uma intensidade que fez o estômago dela dar uma volta completa.
"Sem sentimentos envolvidos?" ele perguntou, a voz baixinha.
"Nenhuma cláusula de amor", Marina garantiu, embora o próprio coração estivesse batendo no ritmo de uma maratona. "Negócio limpo. Cada um consegue o que precisa e, ao fim dos dois anos, nos divorciamos discretamente."
Ethan sustentou o olhar dela por longos segundos, o deboche habitual tinha sumido. No lugar dele, havia a avaliação fria de um homem que estava contra a parede e acabara de encontrar uma saída de emergência totalmente não convencional.
"Então vamos recapitular a situação… " ele disse. "Você casa comigo, eu ganho a imagem de cara estável e maduro que o meu avô quer. Você ganha o Green Card, a gente finge por tempo suficiente para convencer a imigração e o conselho, e depois cada um segue a vida."
"Basicamente."
"Sem sentimento."
"Sem sentimento."
"Puramente profissional."
"Puramente profissional."
Ele virou para ela, os olhos verdes estavam diferentes — não tinham o deboche de sempre — tinham algo que parecia cálculo, mas não do tipo frio. Do tipo de quem está pesando uma decisão que pode mudar tudo.
"Você sabe que isso é insano, né?"
"Sei."
"E que se alguém descobrir, a gente tá ferrado. Os dois."
"Sei."
"E que morar comigo é um inferno? Eu deixo toalha molhada no sofá, como cereal às três da manhã, e assisto reality show no volume máximo."
"Eu sobrevivo."
"Você fala isso agora."
Marina descruzou os braços. Não por decisão — o corpo fez sozinho, como se a armadura não fosse mais necessária.
"Ethan, eu não tenho outra opção. Você pode achar que tem, mas olha para sua vida. Olha para o que o seu avô disse, para o Derek esperando você cair… Você também não tem."
Ele ficou em silêncio. O vento bateu no cabelo dele e jogou para frente, e ele não arrumou. Ficou ali, com o cabelo no rosto e as mãos nos bolsos, olhando para ela como se estivesse tentando decidir se ela era a pessoa mais corajosa ou mais maluca que ele já tinha conhecido. Soltou um suspiro longo, passou a mão pelo cabelo bagunçado e olhou para o céu de Manhattan.
"Você é completamente maluca, Marina Santos."
"Isso é um não?"
Ethan olhou para ela, e o sorriso torto — aquele que a irritava e fascinava na mesma proporção — voltou devagar aos seus lábios, mas antes que ele falasse qualquer coisa ela disse:
"Eu tenho condições."
"Claro que tem."
"Regras bem claras, um contrato assinado, prazo definido. Nada de confusão!"
"Você quer um pré-nupcial para um casamento falso?"
"Quero um acordo que proteja os dois."
Ethan soltou uma risada. Não de deboche — de surpresa. Como se não esperasse que alguém pudesse ser tão absurdamente prática sobre uma coisa tão absurdamente maluca.
"Tá," ele disse.
Marina piscou. "Tá?"
"Tá. Eu topo."
"Assim? Sem pensar?"
"Eu pensei. Levei uns trinta segundos, mas pensei."
"Trinta segundos para decidir se casar?"
"Trinta segundos para decidir que não há alternativa melhor mesmo." Ele deu de ombros. "Além disso, você subiu quarenta andares para me propor isso com cara de quem ia me bater se eu dissesse não. Eu tenho instinto de sobrevivência."
Marina sentiu algo estranho acontecer no peito. Não era alívio — era cedo demais para alívio. Era mais como o momento em que você pula de um trampolim e ainda está no ar, sem saber se a água vai estar fria ou morna, mas já não pode mais voltar.
Ethan enfiou a mão no bolso e tirou um Cheeto solitário. Laranja, curvado, coberto de pó artificial e estendeu para ela.
"Eu não tenho um anel," ele disse. "Mas tenho isso. Aceita?"
Marina olhou para o Cheeto, olhou pra ele, olhou para o Cheeto de novo.
"Você tá me pedindo em casamento com um salgadinho."
"Tecnicamente você me pediu primeiro. Eu tô só formalizando."
Ela pegou o Cheeto, segurou entre o polegar e o indicador como se fosse uma joia frágil.
"Isso é a coisa mais ridícula que já aconteceu na minha vida," ela disse.
"Espera até a gente contar para o meu avô. Aí você vai ter um novo recorde."
Marina comeu o Cheeto, mastigando devagar olhando para Manhattan, para o céu que ficava laranja naquela hora, para o cara de tênis sujo que tinha acabado de concordar em casar com ela por motivos que não tinham nada a ver com amor.
"Então," Ethan disse, "quando a gente começa?"
"Amanhã. Eu vou redigir as regras hoje à noite."
"Claro que vai." Ele sorriu, mas tinha uma coisa diferente nos cantos — algo que parecia, se Marina fosse forçada a dar um nome: respeito. "Ei, Marina."
"Hm."
"Você realmente tem cara de quem resolve as coisas."
Ela não respondeu. Virou, empurrou a porta, e desceu as escadas com o gosto de Cheetos na boca e o coração batendo tão rápido que parecia estar tentando fugir do peito.
No décimo quinto lance, o celular vibrou.
Priya: "E aí???"
Marina digitou com os dedos tremendo: "Ele disse sim."
A resposta veio em dois segundos: "EU SABIA. EU SABIA. EU SABIA. EU SABIA. Espera, ele disse sim mesmo ou você tá sendo sarcástica?"
"Disse sim, com um Cheeto."
"Com um CHEETO?"
"Longa história."
"MARINA SANTOS, VOCÊ VAI ME CONTAR CADA SEGUNDO DESSA HISTÓRIA OU EU JURO POR DEUS!"
Marina guardou o celular no bolso e saiu do prédio, não tinha mais como trabalhar naquele dia. O ar da tarde bateu no rosto e ela parou na calçada, no meio do fluxo de gente e ficou ali por um momento. Só parada, sentindo.
Tinha acabado de concordar em casar com um estranho. Não, era ainda pior. Tinha acabado de concordar em casar com o CEO da empresa em que fazia estágio, um herdeiro rebelde que comia salgadinho no chão e propunha casamento com Cheetos. A única coisa que separava essa decisão de um surto psicótico completo era o fato de que ela tinha feito de propósito.
Começou a andar em direção ao metrô. Rápido, porque se parasse para pensar demais ia mudar de ideia, e mudar de ideia não era uma opção que ela podia se dar ao luxo de ter.
No vagão do trem Q, espremida entre os mesmos estranhos de sempre, Marina encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Sem sentimento, puramente profissional, negócio limpo. Repetiu três vezes, como um mantra.
Na quarta vez, lembrou do jeito que ele olhou para ela quando disse "tá" — como se estivesse pulando do mesmo trampolim e percebeu que mantras só funcionam quando você acredita neles.
O apartamento de Ethan no Soho não parecia o lar de um CEO, parecia o cenário de uma revista de arquitetura que alguém tinha esquecido de habitualmente povoar. Chão de cimento queimado, janelas gigantescas de vidro duplo com vista para a cidade iluminada e uma ilha na cozinha que parecia limpa demais para já ter visto um fogão aceso.Na mesa de centro de madeira de demolição, um maço de papel com vinte páginas e dois clipes pretos separava o passado de Marina do seu futuro. Com a ajuda de Priya ela tinha escrito o contrato e ele achou melhor que eles se reunissem em seu apartamento para que ninguém no escritório desconfiasse de nada"Isso é ridículo", Ethan disse, jogando-se no sofá de couro preto e abrindo os braços no encosto. Ele já tinha tirado o paletó e soltado os dois primeiros botões da camisa. "Uma minuta de vinte páginas? Quem escreveu isso, a Suprema Corte?""Eu escrevi. Com a ajuda da Priya e de duas noites mal dormidas.” Marina respondeu, sentando-se na outra ponta do sof
Ethan deu mais um passo. Agora estava tão perto que Marina podia sentir o perfume amadeirado se misturando ao ar frio da tarde. Ele se inclinou ligeiramente, encarando-a com uma intensidade que fez o estômago dela dar uma volta completa."Sem sentimentos envolvidos?" ele perguntou, a voz baixinha."Nenhuma cláusula de amor", Marina garantiu, embora o próprio coração estivesse batendo no ritmo de uma maratona. "Negócio limpo. Cada um consegue o que precisa e, ao fim dos dois anos, nos divorciamos discretamente."Ethan sustentou o olhar dela por longos segundos, o deboche habitual tinha sumido. No lugar dele, havia a avaliação fria de um homem que estava contra a parede e acabara de encontrar uma saída de emergência totalmente não convencional."Então vamos recapitular a situação… " ele disse. "Você casa comigo, eu ganho a imagem de cara estável e maduro que o meu avô quer. Você ganha o Green Card, a gente finge por tempo suficiente para convencer a imigração e o conselho, e depois cada
Marina subiu as escadas devagar, não porque estivesse cansada, pois tinha subido aqueles lances correndo na primeira vez, no dia do e-mail, sem nem pensar. Subiu devagar porque cada degrau era uma chance de mudar de ideia, e ela estava dando a si mesma todas as chances possíveis antes de fazer a coisa mais ridícula da sua vida.Três degraus. “Você é louca, Marina.” Dois degraus. “A Priya devia ser internada.” Um degrau. “O que você tem a perder?”A resposta para a última pergunta era dolorosa: absolutamente nada! Mas que tipo de pessoa sobe ao terraço para propor um casamento falso para o CEO da empresa em que faz estágio? O tipo que tem dois meses e nenhuma outra opção.Tinha se vestido diferente naquele dia. Não muito para que parecesse que tinha se arrumado, porque isso implicaria que se importava, e ela não se importava. Só tinha trocado a blusa de sempre por uma que não tinha aquela manchinha de café no punho e passado rímel, prendido o cabelo de um jeito que parecia casual mas
Priya esperou três dias. Marina sabia porque estava contando, três dias de olhares estranhos no refeitório, de frases começadas e engolidas, de Priya abrindo a boca e fechando de novo como um peixe que decidiu que o assunto podia esperar.No quarto dia, a paciência acabou."Eu tive uma ideia," Priya disse, aparecendo na mesa de Marina às cinco e quarenta e sete da tarde — treze minutos antes do fim do expediente, o que significava que ela tinha calculado o momento para Marina não poder fugir sem parecer que estava fugindo."Não.""Você nem ouviu.""Não preciso. Quando você diz 'eu tive uma ideia' com essa cara, a ideia envolve crime ou constrangimento. Às vezes os dois.""Não é crime." Priya puxou a cadeira do Kyle — que já tinha ido embora, como sempre, às cinco e meia em ponto — e sentou. "Talvez seja um pouquinho constrangimento."Marina salvou a planilha em que estava trabalhando, tirou os óculos e esfregou os olhos. Estava cansada, não a canseira normal de fim de expediente, mas
O escritório do avô ficava no quadragésimo primeiro andar e parecia ter sido decorado por alguém que odiava a alegria.Madeira escura, couro escuro, cortinas escuras. Um retrato a óleo do pai de Ethan na parede atrás da mesa — sorriso confiante, terno impecável, cabelo penteado. Tudo que Ethan não era, emoldurado em mogno e pendurado na altura exata fazendo com que qualquer pessoa sentada na cadeira de visitante tivesse que olhar para ele.Ethan odiava aquele retrato. Não o pai — o pai ele mal lembrava, só flashes: mãos grandes, cheiro de colônia, uma risada que fazia o peito vibrar. Odiava o retrato porque era uma versão editada: o pai perfeito, o herdeiro perfeito. O homem que Richard Whitmore queria que Ethan fosse e que ele nunca ia conseguir ser, porque o original já tinha morrido e cópias sempre decepcionam."Senta."Richard estava de pé atrás da mesa, o que nunca era bom sinal. Quando o avô sentava, era conversa, quando ficava de pé, era sentença.Ethan sentou, cruzou as pernas
Marina tinha um plano: chegar cedo, fazer café, revisar a apresentação de métricas que Kyle deveria ter terminado na sexta mas não terminou porque Kyle nunca terminava nada na sexta, e sobreviver até às seis da tarde sem pensar no e-mail, no visto, ou no cara do terraço.Duas dessas três coisas ela conseguiu.O café ficou bom. A apresentação ficou pronta. E o cara do terraço ficou na cabeça dela a manhã inteira feito uma música irritante que gruda — daquelas que você nem gosta, mas fica cantarolando no banho."Você tem cara de quem resolve as coisas." Idiota! Quem fala isso para uma estranha? E por que ela ainda estava pensando nisso?"Marina."Ela levantou os olhos, Jessica estava de pé na frente da mesa dela, segurando um tablet como se fosse um escudo."Reunião geral, agora! Auditório do trigésimo oitavo.""Que reunião?""A que o RH mandou e-mail às seis da tarde, que ninguém leu porque era sexta-feira." Jessica deu de ombros. "Parece que o CEO vai falar."Marina franziu a testa.







