FAZER LOGINO apartamento de Ethan no Soho não parecia o lar de um CEO, parecia o cenário de uma revista de arquitetura que alguém tinha esquecido de habitualmente povoar. Chão de cimento queimado, janelas gigantescas de vidro duplo com vista para a cidade iluminada e uma ilha na cozinha que parecia limpa demais para já ter visto um fogão aceso.
Na mesa de centro de madeira de demolição, um maço de papel com vinte páginas e dois clipes pretos separava o passado de Marina do seu futuro. Com a ajuda de Priya ela tinha escrito o contrato e ele achou melhor que eles se reunissem em seu apartamento para que ninguém no escritório desconfiasse de nada
"Isso é ridículo", Ethan disse, jogando-se no sofá de couro preto e abrindo os braços no encosto. Ele já tinha tirado o paletó e soltado os dois primeiros botões da camisa. "Uma minuta de vinte páginas? Quem escreveu isso, a Suprema Corte?"
"Eu escrevi. Com a ajuda da Priya e de duas noites mal dormidas.” Marina respondeu, sentando-se na outra ponta do sofá e puxando uma caneta esferográfica azul da bolsa. "E não é ridículo, Ethan. É a garantia de que nenhum de nós vai parar na cadeia por fraude matrimonial ou perder a sanidade mental nos próximos vinte e quatro meses."
Ele arqueou uma sobrancelha, divertido. "Cadeia? Você parece adorar um drama!"
"Três a cinco anos de prisão federal e uma multa de duzentos e cinquenta mil dólares", ela recitou de memória, apontando a caneta para ele. "É o que a imigração americana reserva para quem frauda um casamento por visto. Então, sim, o drama é plenamente justificável."
Ethan suspirou, puxando as folhas para o colo. "Tá bom. Lê aí as partes importantes para eu poder assinar e ir dormir."
Marina ajeitou os óculos — os de armação fina que só usava para ler e trabalhar — e pigarreou, adotando o tom mais profissional que conseguiu reunir.
"Seção 1: Termos e Duração. O presente acordo terá a duração estipulada de vinte e quatro meses a partir da data de emissão do registro civil. Durante este período, ambas as partes comprometem-se a manter uma residência conjunta, sob o mesmo teto, para fins de fiscalização e auditoria do Departamento de Imigração."
"Tradução: você vai morar aqui", Ethan disse.
"Tradução: eu vou ter um quarto próprio com chave na porta", Marina corrigiu firme. Eu concordo em morar na mesma casa, mas não vamos dividir a mesma cama, ficamos em quartos separados.
“É melhor não.” disse Ethan prontamente, inclinando-se um pouco mais perto. “Minha governanta trabalha para a família há vinte anos e é mais atenta que a imigração. Se ela notar que dormimos em quartos separados, o rumor chega ao meu avô em menos de vinte e quatro horas. Vamos dividir o quarto, a cama é King Size, Marina. Tem espaço suficiente para um país inteiro entre nós dois.
Marina apertou os lábios, sentindo o rosto esquentar ligeiramente com a proximidade dele.
“Tudo bem. Mas haverá uma linha divisória, com certeza.” ela parou para ver a reação dele, que só acenou concordando. "Continuando", Marina passou a folha. "Cláusula da Convivência Pública e Mídia: ambas as partes devem demonstrar afeto moderado em eventos corporativos, jantares de família e locais públicos onde possa haver presença de imprensa ou membros do conselho da Whitmore Group."
"O que é 'afeto moderado' para você, Santos?" Ethan se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando-a por baixo dos cílios. "Segurar a mão? Abraço de lado? Ou aquele famoso olhar de 'sou louco por você'?"
Marina sentiu um calor incômodo subir pelo pescoço, mas recusou-se a desviar o olhar. "Mãos dadas, braços dados e beijos no rosto. Beijos na boca apenas se a situação social exigir estritamente — e sem língua."
Ethan soltou uma risada rouca. "Sem língua: anotado! Vou pedir para a área jurídica registrar essa terminologia."
"Ethan, eu tô falando sério!"
"Eu também!", ele disse, levantando as mãos em rendição, embora os olhos ainda brilhassem de deboche. "O que mais?"
"Cláusula 8: Vida Financeira. Não haverá fusão de contas bancárias particulares. Você arca com os custos da residência e dos eventos sociais a que eu for obrigada a comparecer como sua noiva, e eu continuo pagando minhas despesas pessoais com o meu salário da empresa."
"Eu posso pagar suas coisas, Marina, isso não é um problema."
"É um problema para mim", ela cortou, com o tom de voz baixinho e categórico que não dava margem para discussão. "Eu não sou sua dependente, Ethan. Sou sua parceira de negócios. Eu entro com a imagem de estabilidade que você precisa para a empresa; você entra com a petição de visto e o dinheiro fica fora da troca."
Ethan encarou-a por alguns segundos. A provocação sumiu do rosto dele, dando lugar a um respeito silencioso que ela raramente via ali. Ele concordou com um aceno lento de cabeça.
"Certo. Que mais?"
"A cláusula mais importante de todas", Marina virou para a última página, batendo o indicador no papel. "Cláusula 12: Envolvimento Emocional e Romântico. Fica estritamente proibido qualquer tipo de envolvimento afetivo real entre as partes contratantes. O relacionamento é de natureza exclusivamente utilitária. Caso uma das partes desenvolva sentimentos genuínos, o contrato deve ser reavaliado imediatamente para evitar danos morais."
Ethan encarou o parágrafo, depois olhou para Marina, que o encarava de volta como quem desafia um oponente no xadrez.
"Você realmente acha que corre o risco de se apaixonar por mim?" ele perguntou, com a voz baixinha.
"Estou garantindo que você não se apaixone por mim, Whitmore. Sou uma mulher difícil de esquecer."
Um sorriso lento e perigoso brotou nos lábios dele. Ele pegou a caneta da mão dela, riscou a margem da folha e assinou seu nome em traços largos e firmes no campo reservado para o contratante.
"Pronto", Ethan disse, devolvendo a caneta a ela. "Contrato assinado. Agora você é oficialmente a noiva do playboy."
Marina pegou a caneta, a mão estava perfeitamente firme quando ela assinou seu nome ao lado do dele.
"Não", ela disse, sopradamente, olhando para as duas assinaturas lado a lado. "Agora nós somos dois mentirosos profissionais com um documento de vinte páginas para provar."
O apartamento de Ethan no Soho não parecia o lar de um CEO, parecia o cenário de uma revista de arquitetura que alguém tinha esquecido de habitualmente povoar. Chão de cimento queimado, janelas gigantescas de vidro duplo com vista para a cidade iluminada e uma ilha na cozinha que parecia limpa demais para já ter visto um fogão aceso.Na mesa de centro de madeira de demolição, um maço de papel com vinte páginas e dois clipes pretos separava o passado de Marina do seu futuro. Com a ajuda de Priya ela tinha escrito o contrato e ele achou melhor que eles se reunissem em seu apartamento para que ninguém no escritório desconfiasse de nada"Isso é ridículo", Ethan disse, jogando-se no sofá de couro preto e abrindo os braços no encosto. Ele já tinha tirado o paletó e soltado os dois primeiros botões da camisa. "Uma minuta de vinte páginas? Quem escreveu isso, a Suprema Corte?""Eu escrevi. Com a ajuda da Priya e de duas noites mal dormidas.” Marina respondeu, sentando-se na outra ponta do sof
Ethan deu mais um passo. Agora estava tão perto que Marina podia sentir o perfume amadeirado se misturando ao ar frio da tarde. Ele se inclinou ligeiramente, encarando-a com uma intensidade que fez o estômago dela dar uma volta completa."Sem sentimentos envolvidos?" ele perguntou, a voz baixinha."Nenhuma cláusula de amor", Marina garantiu, embora o próprio coração estivesse batendo no ritmo de uma maratona. "Negócio limpo. Cada um consegue o que precisa e, ao fim dos dois anos, nos divorciamos discretamente."Ethan sustentou o olhar dela por longos segundos, o deboche habitual tinha sumido. No lugar dele, havia a avaliação fria de um homem que estava contra a parede e acabara de encontrar uma saída de emergência totalmente não convencional."Então vamos recapitular a situação… " ele disse. "Você casa comigo, eu ganho a imagem de cara estável e maduro que o meu avô quer. Você ganha o Green Card, a gente finge por tempo suficiente para convencer a imigração e o conselho, e depois cada
Marina subiu as escadas devagar, não porque estivesse cansada, pois tinha subido aqueles lances correndo na primeira vez, no dia do e-mail, sem nem pensar. Subiu devagar porque cada degrau era uma chance de mudar de ideia, e ela estava dando a si mesma todas as chances possíveis antes de fazer a coisa mais ridícula da sua vida.Três degraus. “Você é louca, Marina.” Dois degraus. “A Priya devia ser internada.” Um degrau. “O que você tem a perder?”A resposta para a última pergunta era dolorosa: absolutamente nada! Mas que tipo de pessoa sobe ao terraço para propor um casamento falso para o CEO da empresa em que faz estágio? O tipo que tem dois meses e nenhuma outra opção.Tinha se vestido diferente naquele dia. Não muito para que parecesse que tinha se arrumado, porque isso implicaria que se importava, e ela não se importava. Só tinha trocado a blusa de sempre por uma que não tinha aquela manchinha de café no punho e passado rímel, prendido o cabelo de um jeito que parecia casual mas
Priya esperou três dias. Marina sabia porque estava contando, três dias de olhares estranhos no refeitório, de frases começadas e engolidas, de Priya abrindo a boca e fechando de novo como um peixe que decidiu que o assunto podia esperar.No quarto dia, a paciência acabou."Eu tive uma ideia," Priya disse, aparecendo na mesa de Marina às cinco e quarenta e sete da tarde — treze minutos antes do fim do expediente, o que significava que ela tinha calculado o momento para Marina não poder fugir sem parecer que estava fugindo."Não.""Você nem ouviu.""Não preciso. Quando você diz 'eu tive uma ideia' com essa cara, a ideia envolve crime ou constrangimento. Às vezes os dois.""Não é crime." Priya puxou a cadeira do Kyle — que já tinha ido embora, como sempre, às cinco e meia em ponto — e sentou. "Talvez seja um pouquinho constrangimento."Marina salvou a planilha em que estava trabalhando, tirou os óculos e esfregou os olhos. Estava cansada, não a canseira normal de fim de expediente, mas
O escritório do avô ficava no quadragésimo primeiro andar e parecia ter sido decorado por alguém que odiava a alegria.Madeira escura, couro escuro, cortinas escuras. Um retrato a óleo do pai de Ethan na parede atrás da mesa — sorriso confiante, terno impecável, cabelo penteado. Tudo que Ethan não era, emoldurado em mogno e pendurado na altura exata fazendo com que qualquer pessoa sentada na cadeira de visitante tivesse que olhar para ele.Ethan odiava aquele retrato. Não o pai — o pai ele mal lembrava, só flashes: mãos grandes, cheiro de colônia, uma risada que fazia o peito vibrar. Odiava o retrato porque era uma versão editada: o pai perfeito, o herdeiro perfeito. O homem que Richard Whitmore queria que Ethan fosse e que ele nunca ia conseguir ser, porque o original já tinha morrido e cópias sempre decepcionam."Senta."Richard estava de pé atrás da mesa, o que nunca era bom sinal. Quando o avô sentava, era conversa, quando ficava de pé, era sentença.Ethan sentou, cruzou as pernas
Marina tinha um plano: chegar cedo, fazer café, revisar a apresentação de métricas que Kyle deveria ter terminado na sexta mas não terminou porque Kyle nunca terminava nada na sexta, e sobreviver até às seis da tarde sem pensar no e-mail, no visto, ou no cara do terraço.Duas dessas três coisas ela conseguiu.O café ficou bom. A apresentação ficou pronta. E o cara do terraço ficou na cabeça dela a manhã inteira feito uma música irritante que gruda — daquelas que você nem gosta, mas fica cantarolando no banho."Você tem cara de quem resolve as coisas." Idiota! Quem fala isso para uma estranha? E por que ela ainda estava pensando nisso?"Marina."Ela levantou os olhos, Jessica estava de pé na frente da mesa dela, segurando um tablet como se fosse um escudo."Reunião geral, agora! Auditório do trigésimo oitavo.""Que reunião?""A que o RH mandou e-mail às seis da tarde, que ninguém leu porque era sexta-feira." Jessica deu de ombros. "Parece que o CEO vai falar."Marina franziu a testa.







