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# Capítulo 4 — A ideia maluca.

Autor: sandmmoreira
last update Data de publicação: 2026-09-03 03:04:32

Priya esperou três dias. Marina sabia porque estava contando, três dias de olhares estranhos no refeitório, de frases começadas e engolidas, de Priya abrindo a boca e fechando de novo como um peixe que decidiu que o assunto podia esperar.

No quarto dia, a paciência acabou.

"Eu tive uma ideia," Priya disse, aparecendo na mesa de Marina às cinco e quarenta e sete da tarde — treze minutos antes do fim do expediente, o que significava que ela tinha calculado o momento para Marina não poder fugir sem parecer que estava fugindo.

"Não."

"Você nem ouviu."

"Não preciso. Quando você diz 'eu tive uma ideia' com essa cara, a ideia envolve crime ou constrangimento. Às vezes os dois."

"Não é crime." Priya puxou a cadeira do Kyle — que já tinha ido embora, como sempre, às cinco e meia em ponto — e sentou. "Talvez seja um pouquinho constrangimento."

Marina salvou a planilha em que estava trabalhando, tirou os óculos e esfregou os olhos. Estava cansada, não a canseira normal de fim de expediente, mas aquela que vem de dentro, de carregar um problema que não tem solução e fingir que está tudo bem oito horas por dia.

"Fala."

"Antes, eu preciso que você me prometa que não vai gritar."

"Priya."

"Promete."

"Eu não vou prometer nada. Fala logo."

Priya respirou fundo, juntou as mãos na frente do corpo como se estivesse prestes a apresentar um projeto para o conselho, e disse:

"E se você casasse com o Ethan Whitmore?"

O silêncio que se seguiu foi tão completo que Marina ouviu o zumbido do ar-condicionado, o elevador chegando no andar, e o próprio coração dando uma batida errada.

"Você enlouqueceu.” Marina disse.

"Não enlouqueci. Me escuta."

"Não, Pri, você literalmente enlouqueceu. Tipo, clinicamente. Eu vou ligar para a sua mãe."

"Marina… "

"Eu vou ligar para a sua mãe e dizer que a filha dela está tendo um surto psicótico no vigésimo segundo andar de um prédio comercial em Manhattan e que alguém precisa vir buscar."

"Você terminou?"

"Não! Também vou ligar para o seu pai."

Priya esperou, com a paciência de quem já conhecia o protocolo. Marina precisava surtar primeiro para poder ouvir depois. Era sempre assim.

"Agora terminei," Marina disse, cruzando os braços.

"Ótimo." Priya se inclinou para frente e baixou a voz. "Eu sei que parece loucura, mas pensa comigo: você precisa de um Green Card e um casamento com cidadão americano resolve isso."

"Eu sei como funciona imigração, Priya. Eu vivo isso."

"Então você sabe que é a saída mais rápida e mais segura. Agora, o Whitmore." Priya levantou um dedo. "Eu almoço no mesmo andar que a assistente dele: a Carol. Ela fala e fala muito."

"Você fica fofocando com a assistente do CEO?"

"Eu faço networking estratégico com fontes bem posicionadas, é diferente." Priya nem piscou. "O ponto é: o avô deu um ultimato para ele. Seis meses para provar que é responsável, ou perde a empresa. E sabe o que gritaria 'responsável' mais alto do que qualquer relatório de trinta páginas?"

Marina sentiu o estômago afundar porque já sabia a resposta.

"Um casamento!" ela disse.

"Um casamento." Priya sorriu como se tivesse acabado de resolver uma equação. "Ele precisa parecer estável e você precisa do visto. É perfeito!"

"É insano."

"É pragmático."

"É ilegal."

"Casamento por conveniência não é ilegal se vocês realmente morarem juntos e mantiverem as aparências. Eu pesquisei."

"Você pesquisou?!"

"Três horas de G****e e dois fóruns de imigração, eu fui minuciosa."

Marina desencostou da cadeira e olhou para Priya — realmente olhou, procurando algum sinal de que aquilo era uma piada elaborada, um teste, qualquer coisa, mas Priya estava séria. Ela, que fazia piada de tudo, que transformava qualquer drama em comédia, estava olhando para Marina com aquela expressão rara de quem realmente acredita no que está dizendo.

"Pri," Marina disse, e a voz saiu mais baixa do que pretendia. "Ele é o CEO e eu sou estagiária. Ele é neto do dono e eu sou a brasileira que pode ser deportada em dois meses. Em que universo isso faz sentido?"

"Neste! Justamente porque é absurdo, ninguém vai desconfiar. Quem inventaria uma coisa dessas?"

"Ninguém, porque é uma coisa que não deveria ser inventada."

"Marina." Priya segurou a mão dela por cima da mesa. "Eu sei que você é orgulhosa. Eu sei que você quer resolver tudo sozinha, mas você já tentou sozinha e não funcionou. Doze currículos e nenhuma resposta. Você só tem dois meses, eu não tô te dando uma solução perfeita — tô te dando a única que sobrou."

Marina puxou a mão de volta. Não por raiva — por medo. Porque a ideia era absurda, sim. Ridícula. O tipo de coisa que só acontece em filme, mas também era a primeira coisa em semanas que parecia possível.

"Ele nunca aceitaria," Marina disse, e odiou que essa fosse a frase que saiu, porque significava que ela já tinha pulado de "isso é loucura" para "será que funciona?"

Priya percebeu, claro que ela percebeu.

"Você não conhece a situação dele como eu conheço. O avô quer maturidade, o primo tá cercando ele e a empresa inteira aposta que ele não dura seis meses. Um casamento mudaria a narrativa inteira."

"E por que ele se casaria comigo? Ele pode casar com qualquer pessoa."

"Sim, mas ele não quer casar com qualquer pessoa. Na verdade, ele não quer casar com ninguém, é por isso que pode funcionar — vocês dois sabem que é um acordo. Sem expectativa, sem drama, sem sentimento. Negócio limpo."

Marina ficou em silêncio. O escritório já estava quase vazio e as luzes automáticas do corredor tinham apagado, só a luminária da mesa dela ainda estava acesa, fazendo uma ilha de luz no andar escuro.

"Eu preciso pensar," ela disse.

"Claro."

"Não conta pra ninguém."

"Obviamente."

"E para de falar com a Carol."

"Isso eu não posso prometer."

Marina pegou a bolsa, desligou o computador e levantou. Priya levantou junto.

"Pri."

"Hm?"

"Se eu considerar isso — e eu não estou dizendo que vou — mas se eu considerar... como eu sequer começaria essa conversa com ele?"

Priya sorriu. Aquele sorriso que Marina conhecia bem demais — o que aparecia quando ela já tinha pensado três passos à frente.

"Você sabe onde ele fica às três da tarde."

Marina fechou os olhos: o terraço. Claro que era o terraço.

Ela saiu do prédio e caminhou até o metrô com a cabeça zunindo. A ideia era absurda. Irresponsável, desesperada e naquele momento era a única que ela tinha.

No vagão lotado do trem Q, espremida entre um cara com uma tuba e uma senhora com três sacolas do Trader Joe's, Marina encostou a cabeça no vidro e pensou no sorriso torto de Ethan Whitmore. No jeito que ele disse "você tem cara de quem resolve as coisas" como se fosse verdade. Na porta do terraço que ele deixava destrancada às três.

Não ia fazer isso, era loucura, mas quando desceu na estação e subiu as escadas para o ar frio da noite, percebeu que já estava pensando no que ia vestir no dia seguinte, e isso era um problema muito maior do que o anterior.

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