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# Capítulo 3 — O ultimato

作者: sandmmoreira
last update 公開日: 2026-09-03 02:50:09

O escritório do avô ficava no quadragésimo primeiro andar e parecia ter sido decorado por alguém que odiava a alegria.

Madeira escura, couro escuro, cortinas escuras. Um retrato a óleo do pai de Ethan na parede atrás da mesa — sorriso confiante, terno impecável, cabelo penteado. Tudo que Ethan não era, emoldurado em mogno e pendurado na altura exata fazendo com que qualquer pessoa sentada na cadeira de visitante tivesse que olhar para ele.

Ethan odiava aquele retrato. Não o pai — o pai ele mal lembrava, só flashes: mãos grandes, cheiro de colônia, uma risada que fazia o peito vibrar. Odiava o retrato porque era uma versão editada: o pai perfeito, o herdeiro perfeito. O homem que Richard Whitmore queria que Ethan fosse e que ele nunca ia conseguir ser, porque o original já tinha morrido e cópias sempre decepcionam.

"Senta."

Richard estava de pé atrás da mesa, o que nunca era bom sinal. Quando o avô sentava, era conversa, quando ficava de pé, era sentença.

Ethan sentou, cruzou as pernas e colocou o tornozelo sobre o joelho de um jeito que sabia que irritava.

"Você faltou na reunião do conselho ontem," Richard disse.

"Eu não faltei, cheguei atrasado."

"Quarenta minutos atrasado."

"Mas cheguei."

Richard tirou os óculos e limpou com o lenço do bolso — o gesto que ele fazia quando estava se segurando para não gritar. Ethan conhecia cada gesto. Tinha um catálogo mental: lenço no bolso significava irritação contida, mão no queixo significava decepção, silêncio longo significava que a bomba ia ser grande.

O avô fez silêncio longo. Bomba grande, então.

"Derek me apresentou uma proposta ontem," Richard disse, colocando os óculos de volta. "Reestruturação da divisão de operações. Trinta páginas com projeções, cronograma, análise de risco. Tudo impecável."

"Que bom para ele."

"Ethan."

"O quê? Estou elogiando o Derek. Você devia ficar feliz."

Richard apoiou as duas mãos na mesa e se inclinou. Tinha setenta e dois anos, mas os olhos ainda cortavam como os de um homem de quarenta.

"Eu vou te dizer uma coisa e você vai ouvir sem fazer piada. Consegue?"

Ethan descruzou as pernas. Alguma coisa no tom do avô era diferente. Não era a irritação de sempre — era algo mais pesado, mais final.

"Tô ouvindo."

"Você tem seis meses."

"Para quê?"

"Para me mostrar que eu não cometi o maior erro da minha vida quando coloquei você naquela cadeira." Richard endireitou o corpo. "Seis meses para provar que consegue liderar essa empresa. Que consegue ser levado a sério e ser alguém em quem eu possa confiar o que passei a vida inteira construindo."

Ethan não respondeu. Não porque não tivesse uma piada pronta — sempre tinha, mas porque o avô estava olhando para ele do mesmo jeito que olhava para o retrato. Comparando.

"E se eu não provar?"

"Então eu trago um CEO de fora. Alguém com experiência, reputação e maturidade. E você fica com um cargo simbólico e um salário que não vai te deixar passar fome, mas que vai deixar muito claro para todo mundo — inclusive pra você — que eu desisti."

A palavra caiu como uma pedra no estômago. Desisti.

"O Derek sabe disso?" Ethan perguntou, e odiou que essa fosse a primeira coisa que saiu.

"O Derek não é o problema. Você é o problema."

Ethan olhou para o retrato do pai: sorriso confiante, terno impecável, o homem que nunca teve que ouvir essa conversa porque nunca deu motivo.

"Entendi," ele disse. Levantou. "Seis meses."

"Ethan."

Ele parou na porta.

"Eu quero que você consiga," Richard disse. E por um segundo — só um segundo — a voz não era de CEO, era de avô. "Mas querer não é suficiente, para nenhum de nós."

Ethan saiu sem responder, fechou a porta com cuidado, porque bater seria dar ao avô a satisfação de saber que tinha acertado onde doía.

No corredor, Derek estava encostado na parede, mexendo no celular com a naturalidade estudada de quem quer parecer que não estava esperando.

"Reunião pesada?" Derek perguntou, sem levantar os olhos.

"Reunião normal."

"Não pareceu normal. Você ficou lá vinte minutos."

"Estava admirando a decoração. Você sabia que o vovô tem um retrato do meu pai do tamanho de uma porta? Muito acolhedor."

Derek guardou o celular e olhou para ele. Tinha os olhos da família — os mesmos olhos verdes — mas usava de um jeito diferente. Onde Ethan desviava, Derek fixava. Onde Ethan provocava, Derek media.

"Se precisar de ajuda com alguma coisa," Derek disse, "é só falar."

"Obrigado, primo. Vou anotar."

Ethan seguiu pelo corredor sem olhar para trás, sabia que Derek estava sorrindo. O sorriso educado, contido, de quem acabou de ouvir exatamente o que queria ouvir.

---

Três andares abaixo, Marina estava sentada na mesa do refeitório com um prato de salada que ela não estava comendo e uma melhor amiga que ela não estava conseguindo enganar.

"Então deixa eu ver se entendi," Priya disse, girando o canudo no copo de chai. "A empresa não vai patrocinar o visto. O OPT vence em dois meses. E você não contou para ninguém."

"Tô contando pra você."

"Agora. Depois de eu arrancar de você com fórceps emocional."

Marina espetou um tomate cereja e não levou à boca. "Eu achei que ia resolver sozinha."

"Como?"

"Não sei. Mandando currículo para outras empresas. Procurando um advogado de imigração. Alguma coisa."

"E mandou?"

Marina não respondeu.

"Marina."

"Mandei doze currículos. Nenhuma empresa patrocina visto para posição júnior. O advogado cobra quatro mil dólares só pra consulta inicial. E eu tenho mil e oitocentos na conta." Ela largou o garfo. "Pronto. Esse é o panorama."

Priya parou de girar o canudo. Por um momento, o rosto dela perdeu aquela energia de quem está sempre tramando alguma coisa e ficou só preocupado.

"Você não pode voltar pro Brasil."

"Eu sei."

"Não, Marina, eu tô falando sério. Você não pode. Você é a melhor pessoa desse departamento inteiro. O Kyle não sabe nem abrir um P*F sem ajuda, a Jessica acha que 'engajamento orgânico' é um tipo de salada. Você carrega aquele andar nas costas e ninguém."

"Pri." Marina sentiu o nó na garganta apertar. "Eu sei. no entanto, saber não muda a lei."

Priya ficou em silêncio por cinco segundos, o que era praticamente um recorde.

"Tem que ter um jeito," ela disse, baixinho, mais para si mesma do que para Marina.

"Se tiver, eu ainda não encontrei."

Marina olhou pela janela do refeitório. Manhattan continuava lá fora, barulhenta e indiferente, exatamente como no dia anterior. Os mesmos prédios, o mesmo céu, o mesmo trânsito. Tudo igual. Só a vida dela que estava encolhendo.

Pensou na mãe, que ligava todo domingo e perguntava "como tá o trabalho, filha?" com aquele orgulho na voz que doía mais do que qualquer rejeição. Pensou no pai, que tinha vendido o carro para ajudar a pagar a passagem. Pensou em como ia dizer para eles que o sonho tinha prazo de validade e o prazo estava acabando.

"Ei," Priya disse, tocando a mão dela. "A gente vai pensar em alguma coisa. Eu sou indiana — resolver problemas impossíveis é praticamente herança cultural."

Marina soltou uma risada fraca. "Obrigada, Pri."

"Não me agradece ainda. Me agradece quando eu tiver um plano."

"Ei," Priya disse, tocando a mão dela. "A gente vai pensar em alguma coisa. Eu sou indiana — resolver problemas impossíveis é praticamente herança cultural."

Marina soltou uma risada fraca. "Obrigada, Pri, você é a melhor."

"Não me agradece ainda. Agradece somente quando eu tiver um plano, estou pensando aqui o que podemos fazer?"

"Já pensei muito amiga, mas não encontrei nenhuma outra solução que não seja a deportação. Já até sonhei que estava embarcando de volta para o Brasil."

"Pois deixe de sonhar. Sonhe ao contrário, com a solução que estamos procurando."

"Como se fosse fácil mandar nos sonhos."

"Pense positivo, Marina, tem que haver uma solução, a gente só não está enxergando ainda, mas como eu te disse, não vou desistir tão fácil assim e você também não!"

"Não sei o que seria de mim sem você, Pri, obrigada por pelo menos tentar."

Marina voltou a olhar pela janela. Em algum lugar lá em cima, no quadragésimo primeiro andar, o CEO que ela tinha chamado de playboy estava recebendo o próprio ultimato. Ela não sabia disso, não tinha como saber, mas o universo, aparentemente, já estava conectando os pontos.

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