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Capítulo 2

Author: Chris HL
last update publish date: 2026-07-24 04:38:02

Ryan sorriu levando seu dedo indicador até meus lábios. Havia preocupação em seu olhar:

— Não diga nada. Se aqueça primeiro — disse ele com gentileza.

Ryan era um homem de vinte e oito anos, alto, de pele em tom escuro, cabelos pretos levemente compridos e olhos castanhos. O encontrei pela primeira vez há quase dois anos atrás. Com um machado em mãos, percorri a área e acabei indo mais longe do que de costume, encontrando esse lugar. Assim como hoje, Ryan estava sentado na varanda. Quando seus olhos pousaram em mim, saltou e correu na minha direção deixando-me alerta.

Segurando o machado firmemente, comecei a correr, inutilmente. Seu lobo me derrubou e me vi de baixo dele, esperando pelo pior, mas assim que voltou à forma humana, uma única palavra brotou de sua boca: "companheira."

Desde aquele dia, vinha me encontrando com ele sempre que podia. Para a maioria dos órfãos, encontrar o companheiro seria a maior sorte que podiam ter, a oportunidade genuína de mudarem suas vidas e seu destino ruim. Para o bem ou mal, ou talvez pela minha natureza de autopreservação, jamais me agarrei a esse tipo de pensamento.

Ryan me abraçou contra ele enquanto me conduzia para dentro do seu chalé. Após fechar a porta, agachou-se para me ajudar a tirar minhas botas e me fez vestir meias quentes e um par de calçados confortáveis. Essas eram algumas coisas que ele me deu desde que nos conhecemos, mas eu não poderia levá-las ao orfanato, ou os tirariam de mim.

Ryan fez-me sentar-me no sofá de frente para a lareira acesa e me trouxe uma tigela de caldo quente que aceitei de bom grado. Minha barriga já estava doendo de fome.

— Tenho algo mais interessante para você hoje — disse Ryan com um sorriso no rosto. Ele sentou-se ao meu lado e me mostrou um livro de capa azul escuro.

Eu não tinha contato com muitos livros no orfanato, na verdade, sequer tínhamos um estudo decente, motivo pelo qual Ryan vinha me ensinando e me trazendo histórias para eu ler sempre que vinha. Arregalei os olhos assim que li o título e minhas mãos estremecerem involuntariamente.

"Essa eu conheço melhor do que ninguém!", pensei, soltando um suspiro pesado. Ryan franziu a testa, mas forcei um sorriso e assenti com a cabeça em agradecimento para que ele não me interpretasse errado.

Não havia ninguém no mundo que não conhecesse a história dos quatro grandes imperadores: Os Vongaren, que governavam sobre o continente Leste e os lobos da primavera, os Jiordanis que governavam no continente Oeste e os lobos Outono, os Valherian sobre o continente Sul e os lobos do verão, e os Ferindel sobre o Continente Norte, os lobos do Inverno.

Eis que eu vivia no continente Norte. Os quatro imperadores, também chamados de guardiões de Lycandria, nosso planeta, possuíam poderes especiais que eram responsáveis por equilibrar o clima e temperatura do planeta.

Houve um tempo em que tudo era perfeito, onde havia tempo para plantar, tempo para colher, tempo para florescer e multiplicar, e o tempo de estocar e relaxar. No entanto, houve aqueles que pensaram que o inverno era desnecessário, que a produtividade e o dinheiro se multiplicariam se não houvesse uma estação tão fria para pausar tudo. Para tal, chegaram à conclusão de que, bastava eliminar o grande imperador do inverno. Esse foi um grande engano!

Há quase dezessete anos atrás, uma grande trama objetivando o assassinato do imperador foi colocado em ação. Assim que o imperador do inverno foi assassinado, uma grande nevasca surgiu nos céus em todo mundo. Não havendo alguém em posição de herdar seus poderes de inverno, o descontrole climático começou. Foi quando o mundo descobriu, da pior forma, que a função do imperador não era provocar o frio, mas controlar sua intensidade. Para evitar o pior em seus próprios continentes, cada imperador, focou seus poderes em minimizar o desastre localmente, ficando o continente do inverno abandonado. Tão grande pecado ocasionou em um frio rigoroso o ano inteiro, uma temperatura congelante que não passa nunca.

"Dormiu", pensei, vendo o rosto sereno de Ryan, sua cabeça apoiada contra o braço do sofá. Suspirei profundamente enquanto me levantava e deixava o livro sobre a estante. Por quanto tempo esse sonho iria durar? Eu sabia a resposta. Este homem me mantinha perto dele enquanto acreditava que eu era sua companheira. Não me importava que continuasse acreditando nisso, pois ele tinha sido minha esperança, e eu desejava ardentemente seu amor.

Olhei uma última vez para ele cobrindo-o com a manta antes de deixar o chalé secretamente. Eu gostava do Ryan, mas conseguia ler através de todas as suas mentiras. Sei que ele não era um simples escritor como me contava, e sei que ele não iria ficar ao meu lado para sempre como me prometeu. Todos que me amavam me deixavam em algum momento, e ele sendo quem era, provavelmente só estava esperando que eu fizesse dezoito e despertasse minha loba. Embora ele não me dissesse, sei que precisava avaliar se eu era forte e digna de estar ao seu lado.

Ryan não era meu companheiro. Eu não queria e não podia lhe dizer a verdade ainda. Um dia ele descobriria isso, na verdade, em poucos dias. Até lá, eu continuaria vivendo esse sonho.

Enquanto eu caminhava sobre a neve que caía serenamente neste céu escuro, lágrimas involuntárias brotaram dos meus olhos. Por que continuava lutando e sobrevivendo? Essa necessidade era completamente irracional, porque meu coração já morreu há muitos anos, quando perdi tudo. O pior era relembrar vividamente aquele momento, sem jamais esquecer. Talvez essa seja minha maldição, minha maldita memória.

Minha hipertimesia foi herdada do meu pai, algo que vinha desde o meu nascimento. Tudo que vi, ouvi e senti, tanto as boas quanto as ruins eram incapazes de serem esquecidas, motivo pelo qual às vezes tinha dificuldades de dormir. Após ler um livro tão deprimente, essa era uma das noites em que não conseguiria pregar os olhos, enquanto cenas horríveis se repetiam em minha mente consecutivas vezes.

O sangue escorrendo, o cheiro forte e pungente de morte, e a neve coberta de vermelho por todas as vidas que se foram. Aos cinco anos, eu ainda morava em um abrigo em uma pequena aldeia rural deste clã, o clã da Lua Prateada. Os bandidos invadiram, saqueando os depósitos de comida e tudo o que tínhamos. Não satisfeitos, começaram a ceifar a vida de todos os moradores. Minha amada cuidadora, Dália, me enterrou na neve para me esconder e acabou tendo sua vida ceifada enquanto tentava me acobertar. Não pude fazer nada, se não ficar escondida, quieta.

É claro que aqueles bandidos não iam deixar nada passar. Eles perceberam e me desenterraram, mas me fingi de morta. Meu corpo estava tão gelado que eles acharam que eu era um cadáver, sendo essa a única razão pela qual sobrevivi. Meu corpo foi atirado em cima do de Dália, e embora não visse, senti o calor deixando aquele corpo com o seu sangue quente me cobrindo. Talvez por isso eu odeie o calor, pois me lembra a morte, e talvez por isso que eu goste tanto do frio, porque foi o frio que me salvou.

Em meio a esse turbilhão de pensamentos, a nevasca parecia se intensificar. Meus pés se afundavam na neve, e aos poucos meus sentidos começavam a ser anestesiados.

— O frio é realmente bom... — sussurrei, deixando meu corpo despencar sobre a neve. Eu realmente precisava voltar para o orfanato? Não podia passar meus últimos dias até meu suposto dezoito anos enterrada nessa neve fofa? Eu não tinha grandes sonhos ou expectativas para o futuro. Eu não sabia bem o que queria da minha vida e, ainda assim, me agarrava ao desejo de continuar vivendo.

Quando esse pesadelo vai acabar?

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