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Capítulo 2: O preço da justiça

作者: Medida Certa
Havia tanta bagagem amontoada no depósito que quase não se via o chão. Kendra chegou a colocar a caixa de areia do gato em cima da minha cama, porque não havia outro lugar.

Por um instante, minha mente ficou em branco. Me virei na direção da sala, de onde vinham as risadas e conversas que enchiam a casa.

Minha mãe acabou olhando na minha direção, e nossos olhos se encontraram. Ela viu tudo: a humilhação estampada no meu rosto e como eu permanecia ali, em pé, sem ter onde sentar ou me deitar e quase sem espaço para me mexer. Ainda assim, depois de uma rápida olhada, simplesmente desviou o olhar.

Não era a primeira vez que algo assim acontecia. Antes, eu tinha um quarto só meu, mas tudo mudou quando, certo dia, Kendra fez um escândalo porque o quarto dela era um pouco menor que o de Xander. Chorou e reclamou até meus pais finalmente cederem.

Em nome da igualdade, tomaram metade do meu quarto e transformaram aquele espaço num closet para ela.

Quando descobriu, Xander nem discutiu. Bateu a porta, saiu de casa furioso e se recusou a voltar até o dia seguinte. Depois disso, a metade que ainda restava do meu quarto virou a sala de jogos dele.

Foi assim que acabei dormindo no depósito, onde mal cabia uma cama. No inverno, o cômodo era gelado; no verão, o calor era insuportável.

Lá fora, a chuva ficou ainda mais forte. A água se acumulou no parapeito da janela até transbordar e escorrer pelo chão. Fiquei olhando para aquilo por um bom tempo, até que finalmente entendi.

Naquela família, eu era exatamente aquilo: o que sobrava. Sempre que alguém precisava de mais espaço, era a mim que empurravam para o canto.

Primeiro, tomaram meu quarto. Agora, até aquele cantinho que eu ainda chamava de meu estava sendo ocupado.

Fechei a porta do depósito em silêncio, abafando as risadas que vinham da sala. Afinal, aquele aconchego do outro lado nunca foi realmente meu.

Passei a noite sem dormir, porque já não havia onde me deitar.

Logo na manhã seguinte, minha orientadora acadêmica ligou pedindo que eu fosse à faculdade. Quando cheguei à sala dela, recebi a notícia que tanto esperava: minha inscrição para o programa de intercâmbio no exterior foi aprovada.

Pela primeira vez em dias, senti meu peito ficar mais leve. Então, a expressão dela ficou séria.

— Só tem uma questão. Como o programa é no exterior, precisamos de uma autorização dos seus pais para anexar à documentação.

Ela deslizou os papéis pela mesa na minha direção antes de perguntar:

— Você já conversou com seus pais sobre isso?

Apertei a barra da minha camisa entre os dedos.

— Tudo bem. Eu dou um jeito.

Saí da sala e mal dei alguns passos pelo corredor antes de ver minha mãe. Kendra estava agarrada ao braço dela, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Mãe, eu não quero nem saber. Xander ficou em primeiro lugar no campeonato de basquete, e eu não ganhei nada. Você faz ideia da vergonha que é isso? Não é justo!

Houve um tempo em que ver as duas assim me machucava. Eu ficava imaginando como seria ter minha mãe segurando minha mão daquele jeito, me consolando antes mesmo que eu precisasse pedir.

Agora, porém, mal olhei para elas e tentei passar direto.

— Wren, espera. — Minha mãe de repente agarrou meu pulso. — Você não ganhou o ouro naquele concurso de design? Por que não dá o prêmio para Kendra? Você sabe como ela é competitiva com Xander. Se ele tem um prêmio de primeiro lugar e ela não tem nada, vai passar dias chateada.

Por um segundo, achei mesmo que eu estava ouvindo errado.

— Mãe, passei meses me dedicando àquele concurso. Eu...

— Eu sei que você se esforçou — ela me interrompeu. — Mas o que vai fazer com esse prêmio, afinal? Melhor dar para sua irmã.

Então, franziu a testa e acrescentou:

— A menos que queira ver a casa inteira virar um caos de novo.

Todo o ressentimento que guardei por anos veio à tona de uma vez.

"Então era assim que as coisas funcionavam. O único jeito de manter a paz nessa família era eu sempre abrir mão de alguma coisa."

A mesma pergunta voltou a ecoar dentro de mim.

"E eu?"

Dessa vez, tive vontade de gritar aquelas palavras na cara dela. Foi quando meus dedos tocaram o formulário de autorização dentro da minha bolsa.

De repente, senti a raiva baixar e olhei outra vez para minha mãe.

— Tudo bem. Eu dou o prêmio para Kendra, mas só se você assinar uma coisa para mim.

Tirei o formulário da bolsa, e minha mãe mal olhou para ele. Pegou os papéis da minha mão, virou direto para a parte da assinatura e assinou o nome.

Ela nem leu o cabeçalho, muito menos reparou nas palavras "Programa de Intercâmbio no Exterior", bem legíveis no alto da página.

Assim que terminou, devolveu o formulário e se virou para Kendra, que parou de chorar quase na mesma hora.

As duas saíram juntas e, ao passar por mim, Kendra bateu de propósito com o ombro no meu. Depois, olhou para trás, fazendo um biquinho.

— Você podia ter concordado desde o começo. Me fez chorar à toa.

Não havia nem sinal de constrangimento na voz dela. E por que haveria? Kendra passou a vida inteira acreditando que metade de tudo naquela família pertencia a ela, inclusive as coisas que nunca foram suas.

Sem responder, apertei com mais força o formulário assinado.

Ao menos daquela vez, minha família me deu algo sem entender o verdadeiro valor daquilo. Era muito mais que uma assinatura: era a minha saída dali.

E, por enquanto, isso bastava.
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