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Capítulo 4: O último pedido que fiz

Author: Medida Certa
Me movi antes de ter tempo para pensar. Ignorando os olhares assustados ao redor, fui direto até Kendra e estendi a mão.

— Devolve.

A culpa surgiu no rosto dela, mas desapareceu com a mesma rapidez quando se escondeu atrás da minha mãe. Meu pai franziu a testa para mim.

— Qual é o seu problema?

Ignorei a pergunta e mantive os olhos fixos em Kendra. Minha visão já começava a embaçar, mas me recusei a desviar o olhar.

— Eu mandei devolver.

A firmeza da minha voz finalmente fez Kendra perder a paciência. Ela escondeu o pulso atrás das costas e me encarou com raiva.

— Por que a vovó pode dar um bracelete para você e não para mim? Isso não é justo. Eu só quero que tudo seja igual.

Uma risada amarga me escapou.

— Igual? — Por mais que eu tentasse me controlar, minha voz ainda tremia. — Enquanto a gente crescia, sempre que os parentes davam presentes ou dinheiro, mamãe e papai só aceitavam duas partes: uma para você e outra para Xander.

Meu peito apertou enquanto eu a encarava.

— Em vinte anos, esse bracelete foi o único presente da vovó que eu pude chamar de meu.

Engoli em seco antes de continuar:

— Você não consegue me deixar nem isso?

Kendra abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. O rosto dela ficou vermelho, e seus olhos logo se encheram de lágrimas.

Foi então que Xander deu um passo à frente. Antes que eu entendesse o que ele estava fazendo, arrancou o bracelete do pulso de Kendra e o jogou no chão.

O estalo que veio em seguida pareceu absurdamente alto. Baixei os olhos, horrorizada: o bracelete estava em pedaços aos meus pés.

Xander me olhou com nojo, sem nem tentar disfarçar.

— Pronto, agora está quebrado e ninguém fica com ele. Satisfeita?

Eu ainda tentava entender o que aconteceu quando minha mãe me acertou um tapa no rosto.

— Chega!

A força do golpe me fez cambalear para o lado, e, por um instante, mal consegui me manter de pé. Pressionei uma das mãos contra a bochecha que ardia e fiquei olhando para ela, sem acreditar no que acabava de fazer.

O rosto da minha mãe estava fechado de raiva e decepção. Talvez só então ela se desse conta do quanto pegava mal me bater na frente de todos, porque logo passou a descontar a raiva na minha avó.

— Mãe, eu já disse para você não se meter na criação dos nossos filhos!

Minha avó ficou imóvel entre os parentes, com o rosto completamente pálido. Seu corpo frágil vacilou de leve e, por um instante, ela parecia mais uma criança que pensava ter feito algo errado do que uma adulta levando uma bronca.

A ardência na bochecha se misturou à dor no peito, e eu mal conseguia pensar. Levei alguns segundos até conseguir falar.

— Não culpe a vovó — murmurei, com a voz rouca. — A culpa foi minha. Eu não devia ter brigado por isso.

Olhei para meus pais e forcei um sorriso antes de acrescentar:

— Não vou mais brigar por nada.

Mesmo assim, as lágrimas vieram. Escorreram pelo meu rosto, passando pela bochecha que ainda ardia do tapa da minha mãe, mas, de algum jeito, eu já quase não sentia a dor.

Pedi uma vassoura e uma pá a um dos funcionários do hotel. Depois, me ajoelhei no chão e recolhi com cuidado cada pedaço do bracelete, guardando um por um num saquinho de pano.

Enquanto eu limpava, ouvi meu pai perguntar baixinho à minha mãe se deviam arrumar mais um lugar à mesa, porque faltava um assento. Ela nem se deu ao trabalho de baixar a voz.

— Se não tem lugar, manda ela para casa. Estragou a comemoração inteira. Por que ainda vamos deixar que ela fique?

Os parentes ao redor ficaram em silêncio, e senti todos os olhares voltados para mim. Dessa vez, não chorei. Apenas me levantei, apertei o saquinho com os pedaços do bracelete contra o peito e fui embora.

Quando cheguei em casa, guardei na mala tudo o que era meu o mais rápido possível. Não havia muita coisa para levar.

Liguei para minha orientadora e expliquei que precisava partir imediatamente. Depois, peguei dinheiro emprestado, o suficiente para comprar uma passagem no primeiro voo que encontrei para a cidade onde ficava a universidade em que eu faria o intercâmbio.

Quando ela voltou a me ligar, eu já estava no aeroporto, com a mala ao meu lado. A preocupação era evidente na voz dela.

— Wren, aconteceu alguma coisa? Quer que eu ligue para sua família?

— Não. Não precisa. — Dei um sorriso amargo, olhando para o saquinho nas minhas mãos. — Eu não tenho mais família.

Naquele instante, um aviso de embarque soou pelos alto-falantes. Me levantei e peguei a mala. Com o saquinho de pedaços do bracelete apertado contra o peito, caminhei em direção ao portão de embarque.

Não olhei para trás.
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