LOGINFENRIR
No entanto, a ganância humana era algo admiravelmente previsível. A cada nova gestão, a cada novo aperto de mão em salas presidenciais ou nos palácios de Reis, eles tentavam barganhar pelas mesmas duas coisas: meus recursos medicinais e minhas armas e tecnologias de combate. Passei os dedos pelo queixo, encarando o relatório de defesa enviado por Washington. Eles queriam acesso às plantas do Rio da Lua e aos compostos que curavam qualquer doença conhecida pelo homem. Eu detinha a cura para o câncer, para vírus devastadores e para enfermidades que destruíam corpos mortais em meses. Sabia do sofrimento que a humanidade enfrentava, via a dor dos inocentes, mas também conhecia a podridão que habitava a ambição dos seus líderes. Se eu entregasse a cura para a medicina tradicional, os governantes e as corporações transformariam a vida em mercadoria, cobrando fortunas inviáveis e decidindo quem vivia e quem morria. O mesmo valia para as armas. Nas últimas décadas, tentar negociar recursos bélicos sobrenaturais virou uma obsessão dos presidentes. Eles queriam ligas metálicas indestrutíveis, feitiços de ocultação e energia pura canalizada. Neguei cada uma das propostas. Eu assisti de perto às duas guerras mundiais. Vi o fogo cair do céu em Hiroshima, vi a carne humana derreter e o solo ser envenenado por decisões tomadas dentro de gabinetes confortáveis. Os humanos já haviam criado atrocidades demais com a própria ciência; se colocassem as mãos na minha magia, na magia dos deuses e dos monstros, destruiriam a si mesmos e a própria Terra em questão de dias. Puxei o documento do contrato com o governo americano e redigi a resposta para a pauta da reunião de sexta-feira. A recusa sobre as cláusulas medicinais e bélicas já estava gravada em tinta definitiva antes mesmo de o presidente abrir a boca. Eles podiam governar seus países de papel e promessas, mas neste mundo, a palavra final continuava sendo minha. Uma batida firme e pausada ecoou pela madeira pesada da porta, cortando o silêncio do escritório. Antes mesmo que a pessoa entrasse, o aroma de pinho e ozônio revelou a identidade do visitante. — Entre, Soren. — ordenei, sem tirar os olhos dos relatórios financeiros. A porta se abriu e Soren, o líder da minha guarda pessoal e um dos lobos mais antigos sob meu comando, deu um passo para dentro. Sua postura era rígida, mas foi a expressão em seu rosto que fez minha mão pausar sobre a mesa. Soren raramente demonstrava inquietação; ele era uma rocha esculpida por séculos de disciplina. Naquele momento, porém, seus olhos carregavam uma mistura de choque e severa preocupação. — Fale. — mandei, ajeitando-me na poltrona e encarando-o fixamente. — Senhor... os guardas de ronda acabaram de encontrar alguém. — Soren começou, medindo as palavras com cuidado. — Uma mulher. Uma humana. Sustentei o olhar dele por um segundo, esperando o complemento que justificasse aquela interrupção. — Uma humana morta não é motivo para esse alarde, Soren. As defesas da redoma funcionam exatamente para isso... — Ela não está morta, Senhor Fenrir. — Soren interrompeu, a voz falhando ligeiramente pela primeira vez em décadas. — Ela foi encontrada às margens do Rio da Lua. E está viva. Um silêncio ensurdecedor tomou conta do escritório. Por um instante, minha mente simplesmente se recusou a processar a informação. Senti um solavanco no peito, uma mistura rara de choque e pura estupefação. — Isso é impossível. — declarei, levantando-me da poltrona em um movimento bruto que fez a madeira da mesa ranger sob minhas mãos. — O Rio da Lua fica no coração da Floresta Encantada. Para chegar lá, ela precisaria ter cruzado a barreira de proteção ancestral, sobrevivido aos encantos letais da floresta e resistido à água sagrada. Nenhum humano passa vivo por aquele perímetro. Nem mesmo os seres sobrenaturais mais poderosos cruzam aquela barreira sem a minha autorização expressa. — Eu sei, senhor. — respondeu Soren, mantendo a cabeça baixa. — Mas ela está lá. Os guardas confirmaram a pulsão cardíaca e a aura dela. É uma humana pura. Sem uma gota de sangue ancestral ou sobrenatural. Fiquei encarando a parede de vidro, o cérebro trabalhando a mil por hora. A magia da minha mãe protegia aquele local com a redoma em volta; o Rio da Lua era a própria essência vital do nosso domínio, carregado de energia pura que deveria ter incinerado a alma de qualquer mortal em segundos. — Qual é o estado dela? — perguntei, a voz descendo uma oitava, carregada de uma autoridade perigosa. — Ela está gravemente ferida. Inconsciente, sangrando e com sinais severos de hipotermia. — explicou Soren. — Leve-me até ela. Agora! — ordenei, já contornando a mesa e caminhando em direção à Soren. — Sim, Senhor. — disse Soren. Sem perder um segundo com explicações, segurei o ombro de Soren, e só de tocar nele consegui vizualizar o local onde a humana estava. A magia fluiu instantaneamente pelo meu corpo, rasgando o tecido do espaço. O ambiente luxuoso da mansão desvaneceu num piscar de olhos, substituído pelo ar gélido e cortante da Floresta Encantada. O som do vento uivando nas árvores seculares e o sussurro constante do Rio da Lua nos receberam de imediato. A uns metros dali, seis dos meus guardas mais ágeis cobriam posições estratégicas ao redor do perímetro. Estavam de prontidão, armas em riste e sentidos apurados, mas nenhum deles havia ousado se aproximar do corpo. A aura sagrada que emanava do rio os mantinha à distância. Caminhei a passos largos em direção às margens, sentindo meus sapatos de grife afundarem na neve densa. Cada fibra do meu ser repelia a ideia de que um mortal pudesse estar ali, inteiro e respirando. Aproximei-me da beira da água e parei. Ao olhar para baixo, a visão me atingiu com força. Ajoelhei-me, ficando de cócoras sobre a neve. Passei meus olhos por aquele corpo pequeno e frágil. Mesmo cercada por uma imensidão branca, a pele daquela mulher se destacava por ser de um pálido quase sobrenatural, lavada pelo frio da neve. Ela trajava os vestígios de uma vida humana com a qual eu estava tão acostumado a lidar, mas em um estado deplorável.FENRIR Examinei os estragos com bastante atenção. O braço direito apresentava uma fratura exposta grotesca, com o osso projetado para fora da pele lacerada. Havia múltiplos cortes profundos espalhados por seus membros; a calça jeans estava rasgada e ensanguentada, revelando um dos pés virado em um ângulo completamente não natural, claramente quebrado. Subi o olhar. A blusa que parecia ser branca que ela vestia estava em trapos, picotada como se ela tivesse sido atacada por garras ou lâminas impiedosas. E no rosto... o estrago era devastador. Um dos olhos estava completamente inchado e roxo, cercado por cortes lacerados que ainda vertiam filetes vermelhos sobre a neve. O cabelo negro, longo e caído sobre as pedras, estava rígido e duro, empelotado por uma camada espessa de gelo. Uma pontada quase esquecida de compaixão atravessou meus olhos. Ela parecia, tão terrivelmente indefesa. Estendi a mão direita devagar, aproximando meus dedos do pulso esquerdo dela para checar a pulsação e
FENRIR No entanto, a ganância humana era algo admiravelmente previsível. A cada nova gestão, a cada novo aperto de mão em salas presidenciais ou nos palácios de Reis, eles tentavam barganhar pelas mesmas duas coisas: meus recursos medicinais e minhas armas e tecnologias de combate. Passei os dedos pelo queixo, encarando o relatório de defesa enviado por Washington. Eles queriam acesso às plantas do Rio da Lua e aos compostos que curavam qualquer doença conhecida pelo homem. Eu detinha a cura para o câncer, para vírus devastadores e para enfermidades que destruíam corpos mortais em meses. Sabia do sofrimento que a humanidade enfrentava, via a dor dos inocentes, mas também conhecia a podridão que habitava a ambição dos seus líderes. Se eu entregasse a cura para a medicina tradicional, os governantes e as corporações transformariam a vida em mercadoria, cobrando fortunas inviáveis e decidindo quem vivia e quem morria. O mesmo valia para as armas. Nas últimas décadas, tentar negociar
FENRIR DIAS ATUAIS. O vento frio da montanha soprava contra meu pelo negro, espalhando os flocos de neve que insistiam em pousar sobre o meu dorso. Dali do ponto mais alto, a cidade de Aspen não passava de um punhado de pontos luminosos insignificantes, perdidos entre as montanhas. Lá embaixo, os humanos viviam suas vidas breves e barulhentas, completamente alheios ao mundo real. A poucos quilômetros dali ficava minha propriedade privada — uma vasta extensão de terra sob meus feitiços onde nem mesmo o governo dos Estados Unidos ousava colocar os pés. Para os olhos mortais, era apenas neve e rocha inacessíveis. Mas por trás do velamento existia o Rio da Lua e a Floresta Encantada, terras sagradas e letais onde nenhum humano ou ser sobrenatural não autorizado pisava e saía vivo. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o clarão prateado que banhava meu pelo e meu focinho. Ela estava ali. Minha mãe, Elyra. Ela havia feito o maior dos sacrifícios para garantir que eu sobrevivesse, en
LOKIASGARD — MILHARES DE ANOS ATRÁS.O silêncio reinava no palácio, um silêncio pesado, impregnado com o cheiro metálico da traição que eu mesmo me encarreguei de silenciar. Cada passo que dei pelos corredores vazios foi uma sentença cumprida; não restava um único guarda, nem uma alma que ousasse levantar a mão contra minha família. Mas, ao abrir a porta do quarto, o mundo lá fora deixou de existir.Ela estava lá. Elyra, minha deusa da Lua, recortada contra a vastidão noturna na sacada. O vestido vermelho parecia uma mancha de sangue contra a palidez de sua pele, e o cabelo branco, emoldurado pela tiara que um dia adornou minha mãe, brilhava como se capturasse a própria essência do luar.— É muito perigoso ficar aí fora. — murmurei, minha voz soando baixa, contida. Fechei a porta atrás de mim, selando aquele santuário.Ela se virou. Nos braços, ela trazia o nosso legado, Fenrir. Ele tinha apenas seis meses, mas naqueles olhos verdes — um tom mais intenso, mais vivo do que os meus — e







