LOGINFENRIR
Examinei os estragos com bastante atenção. O braço direito apresentava uma fratura exposta grotesca, com o osso projetado para fora da pele lacerada. Havia múltiplos cortes profundos espalhados por seus membros; a calça jeans estava rasgada e ensanguentada, revelando um dos pés virado em um ângulo completamente não natural, claramente quebrado. Subi o olhar. A blusa que parecia ser branca que ela vestia estava em trapos, picotada como se ela tivesse sido atacada por garras ou lâminas impiedosas. E no rosto... o estrago era devastador. Um dos olhos estava completamente inchado e roxo, cercado por cortes lacerados que ainda vertiam filetes vermelhos sobre a neve. O cabelo negro, longo e caído sobre as pedras, estava rígido e duro, empelotado por uma camada espessa de gelo. Uma pontada quase esquecida de compaixão atravessou meus olhos. Ela parecia, tão terrivelmente indefesa. Estendi a mão direita devagar, aproximando meus dedos do pulso esquerdo dela para checar a pulsação e confirmar se aquele coração mortal ainda batia. No milésimo de segundo em que a ponta do meu indicador tocou a pele fria daquela mulher, o mundo ao redor pareceu parar. Uma luz branca e avassaladora brotou do ponto de contato, serpenteando e rodeando o pulso dela com um brilho divinamente intenso. A energia pulsou e, diante dos meus olhos, a luz se materializou em uma pulseira prateada, cravada de runas arcanas. Sem pausar, um filete luminoso desceu pela mão dela até o dedo anelar, brilhando em um círculo perfeito até dar origem a uma aliança de prata puríssima. Antes que eu pudesse reagir, o mesmo brilho se projetou violentamente em direção ao meu próprio corpo. A luz prateada envolveu meu pulso esquerdo e uma pulseira idêntica à dela emergiu da minha pele. O raio luminoso desceu para a minha mão, forjando uma aliança exatamente igual no meu dedo anelar. A energia prateada expandiu-se em um domo cósmico, conectando-nos em uma teia invisível de poder absoluto. Em meio ao clarão, olhei para o rosto da mulher. A magia que nos envolvia começou a alterar a própria essência dela. O cabelo negro, duro de gelo, começou a clarear rapidamente a partir da raiz, transformando-se em um branco neve cintilante, acompanhado pelas sobrancelhas e cílios, que perderam a pigmentação escura para se tornarem puros como a alvorada. — Impossível... — minha voz saiu fraca, quase um sopro, perdida na vastidão da minha própria estupefação, do que acontecia em minha frente. Minha mente viajou milênios no tempo, resgatando as últimas palavras sussurradas por Elyra antes de se entregar aos céus. A profecia de minha mãe. A parceira de alma. A mulher que me foi prometida desde o início dos tempos para selar meu destino. — Senhor... é ela? — a voz de Soren ecoou atrás de mim, impregnada de um choque visceral. Eu sequer tive tempo de responder. A luz branca que nos rodeava explodiu em uma onda de choque magnética e devastadora. A força do impacto varreu a margem do rio com violência cega, arremessando Soren e os outros seis guardas metros para o alto, jogando-os brutalmente contra os rochedos distantes antes que pudessem esboçar qualquer reação. A luz se dissipou, deixando um rastro de ar ionizado e estática pura no ar. Ergui os olhos instintivamente para o céu. Lá em cima, a Lua brilhava com uma intensidade que nunca presenciei em todos os meus milênios de vida. O prateado reluzia quase como um abraço distante, queimando qualquer sombra de dúvida que tentasse se erguer na minha mente. A resposta da minha mãe era clara: aquela humana era minha companheira. Minha mãe usara seu próprio poder divino para envolvê-la, criando um escudo invisível que a protegeu de ser morta pela redoma de proteção, pela crueldade da Floresta Encantada e pela força ancestral do Rio da Lua. Mas o alívio deu lugar a uma constatação muito mais sombria. Se a magia de minha mãe a preservara da natureza letal do meu domínio... quem havia feito aquilo com ela? O osso exposto, os cortes profundos, o olho roxo, a carne dilacerada. Algum ser, algum desgraçado mortal ou sobrenatural, havia colocado as mãos nela. Haviam-na machucado daquela forma grotesca. Um estalo ecoou no fundo da minha mente, um sentimento diferente invadiu meu peito. O autocontrole que construí ao longo de milênios ruiu em uma fração de segundo. A magia herdada de meu pai, Loki — a energia ancestral, perigosa, em tons de verde e roxo vibrante — começou a brotar dos meus poros como chamas vivas. Um vento uivante e incontrolável nasceu do nada, arrancando árvores seculares pelas raízes. O céu de Aspen, que segundos atrás estava limpo e banhado pelo brilho da Lua, virou uma massa de nuvens pesadas e negras. A tempestade cobriu a lua, ocultando minha mãe da fúria cega que nascia dentro de mim, por ver minha companheira tão machucada e praticamente quase morrendo. Trovões ensurdecedores ralaram a atmosfera. Raios cortaram os céus em sequência frenética. Meus olhos humanos se apagaram, dando lugar a um verde elétrico e brutal que brilhava em meio à escuridão. O ápice do meu descontrole desencadeou uma nevasca catastrófica. Neve, gelo, trovões e rajadas de vento violento começaram a se alastrar em velocidade surreal, cobrindo não apenas Aspen, mas se espalhando com fúria por todo o estado do Colorado. Um urro de puro ódio e possessividade rasgou minha garganta. O grito que soltei não era humano, tampouco de um lobo; era a voz de um deus enfurecido ressoando por entre as montanhas. No meio do caos, vi Soren se erguer com dificuldade entre as rochas, tentando gritar meu nome. — Senhor Fenrir! Senhor! A voz dele era apenas um sussurro insignificante diante do apocalipse que eu havia criado. Eu não o ouvi. Não me importava. Passei meus braços por baixo do corpo da minha companheira. Desliguei cada grama de força bruta das minhas mãos, segurando-a com uma delicadeza quase angustiante, com pavor absoluto de agravar qualquer uma daquelas feridas expostas. Tratei seu corpo quebrado como se fosse o cristal mais frágil do universo. — Chamem o Doutor Cooper! — ordenei no meio da tempestade. Minha voz ecoou como um trovão. — Agora! Sem esperar por uma resposta, dobrei a realidade ao meu redor. Rasguei o espaço-tempo e me teletransportei para fora do epicentro da tempestade, surgindo diretamente no centro do meu quarto na mansão. O silêncio do cômodo gigantesco contrastava com a destruição lá fora. Caminhei até a cama king-size e a deitei sobre os lençóis de seda com a extrema cautela de quem carrega uma vida preciosa demais para se perder. Ajoelhei-me ao lado da cama. Com a ponta dos dedos trêmulos, afastei com extrema suavidade uma mecha dos seus novos cabelos brancos, acariciando a pele gélida e terrivelmente machucada do seu rosto. — Você vai ficar bem... — murmurei, a voz embargada por uma promessa solene. — Eu juro. Do lado de fora das paredes da mansão, a tempestade atingia proporções catastróficas. Os vidros blindados das janelas tremiam com a violência dos raios. Minha ira estava completamente fora de controle pela primeira vez. E era por causa dela.FENRIR Examinei os estragos com bastante atenção. O braço direito apresentava uma fratura exposta grotesca, com o osso projetado para fora da pele lacerada. Havia múltiplos cortes profundos espalhados por seus membros; a calça jeans estava rasgada e ensanguentada, revelando um dos pés virado em um ângulo completamente não natural, claramente quebrado. Subi o olhar. A blusa que parecia ser branca que ela vestia estava em trapos, picotada como se ela tivesse sido atacada por garras ou lâminas impiedosas. E no rosto... o estrago era devastador. Um dos olhos estava completamente inchado e roxo, cercado por cortes lacerados que ainda vertiam filetes vermelhos sobre a neve. O cabelo negro, longo e caído sobre as pedras, estava rígido e duro, empelotado por uma camada espessa de gelo. Uma pontada quase esquecida de compaixão atravessou meus olhos. Ela parecia, tão terrivelmente indefesa. Estendi a mão direita devagar, aproximando meus dedos do pulso esquerdo dela para checar a pulsação e
FENRIR No entanto, a ganância humana era algo admiravelmente previsível. A cada nova gestão, a cada novo aperto de mão em salas presidenciais ou nos palácios de Reis, eles tentavam barganhar pelas mesmas duas coisas: meus recursos medicinais e minhas armas e tecnologias de combate. Passei os dedos pelo queixo, encarando o relatório de defesa enviado por Washington. Eles queriam acesso às plantas do Rio da Lua e aos compostos que curavam qualquer doença conhecida pelo homem. Eu detinha a cura para o câncer, para vírus devastadores e para enfermidades que destruíam corpos mortais em meses. Sabia do sofrimento que a humanidade enfrentava, via a dor dos inocentes, mas também conhecia a podridão que habitava a ambição dos seus líderes. Se eu entregasse a cura para a medicina tradicional, os governantes e as corporações transformariam a vida em mercadoria, cobrando fortunas inviáveis e decidindo quem vivia e quem morria. O mesmo valia para as armas. Nas últimas décadas, tentar negociar
FENRIR DIAS ATUAIS. O vento frio da montanha soprava contra meu pelo negro, espalhando os flocos de neve que insistiam em pousar sobre o meu dorso. Dali do ponto mais alto, a cidade de Aspen não passava de um punhado de pontos luminosos insignificantes, perdidos entre as montanhas. Lá embaixo, os humanos viviam suas vidas breves e barulhentas, completamente alheios ao mundo real. A poucos quilômetros dali ficava minha propriedade privada — uma vasta extensão de terra sob meus feitiços onde nem mesmo o governo dos Estados Unidos ousava colocar os pés. Para os olhos mortais, era apenas neve e rocha inacessíveis. Mas por trás do velamento existia o Rio da Lua e a Floresta Encantada, terras sagradas e letais onde nenhum humano ou ser sobrenatural não autorizado pisava e saía vivo. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o clarão prateado que banhava meu pelo e meu focinho. Ela estava ali. Minha mãe, Elyra. Ela havia feito o maior dos sacrifícios para garantir que eu sobrevivesse, en
LOKIASGARD — MILHARES DE ANOS ATRÁS.O silêncio reinava no palácio, um silêncio pesado, impregnado com o cheiro metálico da traição que eu mesmo me encarreguei de silenciar. Cada passo que dei pelos corredores vazios foi uma sentença cumprida; não restava um único guarda, nem uma alma que ousasse levantar a mão contra minha família. Mas, ao abrir a porta do quarto, o mundo lá fora deixou de existir.Ela estava lá. Elyra, minha deusa da Lua, recortada contra a vastidão noturna na sacada. O vestido vermelho parecia uma mancha de sangue contra a palidez de sua pele, e o cabelo branco, emoldurado pela tiara que um dia adornou minha mãe, brilhava como se capturasse a própria essência do luar.— É muito perigoso ficar aí fora. — murmurei, minha voz soando baixa, contida. Fechei a porta atrás de mim, selando aquele santuário.Ela se virou. Nos braços, ela trazia o nosso legado, Fenrir. Ele tinha apenas seis meses, mas naqueles olhos verdes — um tom mais intenso, mais vivo do que os meus — e







