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LOKI
ASGARD — MILHARES DE ANOS ATRÁS. O silêncio reinava no palácio, um silêncio pesado, impregnado com o cheiro metálico da traição que eu mesmo me encarreguei de silenciar. Cada passo que dei pelos corredores vazios foi uma sentença cumprida; não restava um único guarda, nem uma alma que ousasse levantar a mão contra minha família. Mas, ao abrir a porta do quarto, o mundo lá fora deixou de existir. Ela estava lá. Elyra, minha deusa da Lua, recortada contra a vastidão noturna na sacada. O vestido vermelho parecia uma mancha de sangue contra a palidez de sua pele, e o cabelo branco, emoldurado pela tiara que um dia adornou minha mãe, brilhava como se capturasse a própria essência do luar. — É muito perigoso ficar aí fora. — murmurei, minha voz soando baixa, contida. Fechei a porta atrás de mim, selando aquele santuário. Ela se virou. Nos braços, ela trazia o nosso legado, Fenrir. Ele tinha apenas seis meses, mas naqueles olhos verdes — um tom mais intenso, mais vivo do que os meus — eu via uma força que me desarmava. Ao me ver, ele soltou uma risada pura, um som que, por um momento, fez esquecer todo o caos que eu havia semeado naquele dia. Acariciei a bochecha rosada do meu filho e o sorriso que escapou dos meus lábios não era o de um estrategista ou de um deus da trapaça; era apenas o de um pai. Meus olhos se desviaram para ela. Elyra me olhava com aquela mesma suavidade de quando nos conhecemos, aquela quietude em seus olhos platinados que sempre conseguiu acalmar a tempestade dentro de mim. Segurei seu rosto, a pele macia sob meus dedos, e a beijei. O mundo era apenas nós dois, até que senti um puxão firme em minha capa verde. Eu e Elyra rimos, o beijo se transformando em um riso compartilhado quando vi Fenrir, determinado, agarrado ao tecido. — Ela também é minha, filho. — provoquei, afastando-me um pouco, mas mantendo o olhar em seu rosto pequeno. — Eu cheguei primeiro, sabia? Tomei Fenrir nos braços. Ele se aconchegou, o pequeno corpo se pressionando contra o meu em um abraço que valia mais que qualquer coisa. — Ele te ama. — Elyra disse, e sua voz soou como uma melodia suave naquele quarto silencioso. Olhei para ela, sentindo aquela verdade inabalável que, por vezes, ainda me assombrava por ser tão real. — Eu também amo ele. — respondi, enterrando o rosto no pescoço do bebê, aspirando seu cheiro, antes de erguer os olhos novamente para minha esposa. — E amo você... Dizer isso era a coisa mais simples e, ao mesmo tempo, a mais complexa que eu já fizera em toda a minha existência. Contra todos os que tentaram impedir, contra todos que duvidaram de que um ser como eu pudesse ser digno de tal luz, ela escolheu ficar. E, a cada dia que passava, minha devoção por Elyra e por nosso filho crescia, tornando-se a única verdade absoluta em minha vida. O ar no quarto, antes aquecido pela nossa intimidade, congelou instantaneamente. Um vento cortante soprou da sacada, anunciando a presença que eu menos desejava encontrar. Lá estava ele: Thor. A postura era séria, o olhar analisando tudo com aquela autoridade habitual. Seus olhos passaram de mim para Elyra, e depois para Fenrir. Meu instinto foi imediato. Sem desviar o olhar do meu irmão, entreguei Fenrir nos braços de Elyra, com uma urgência silenciosa. Com um movimento fluido, posicionei-me à frente dela, pronto para qualquer movimento hostil. — O que você faz aqui? — Minha voz não era mais o sussurro de um pai; era a voz afiada do Deus da Trapaça. O frio da minha pergunta competia com a brisa gelada da sacada. Thor entrou no quarto com passos pesados. O silêncio que se seguiu foi preenchido pela minha própria mente, que insistia em traçar paralelos. Eu sempre fui o filho que Odin renegou nas sombras, enquanto Thor era o herdeiro destinado à glória, à família perfeita, ao trono. Eu me sentia indigno, uma criatura feita de caos e mentiras, até Elyra aparecer. Ela mudou o que eu era, ou talvez, ela apenas tenha revelado o homem que eu sempre quis ser. — Eu sempre pedi para que você se tornasse um bom homem. — a voz de Thor cortou meus pensamentos, carregada de uma estranha nota de sinceridade. — E minhas preces foram ouvidas. — Saia daqui. — rosnei. O peso dos dois dias anteriores ainda pesava sobre mim; o sangue derramado, a tentativa de Thor de eliminar minha família, o desespero de ver Elyra e meu filho ameaçados. A lembrança era um veneno. — Eu não vim aqui machucar ninguém. — ele respondeu, e algo em seu olhar mudou quando se fixou em Fenrir. A dureza que habitualmente definia Thor suavizou-se de forma quase dolorosa. — Odin me disse, dias atrás, que o seu filho era uma ameaça para Asgard, que eu deveria dar um fim em vocês. Eu não fazia ideia de que Fenrir era ligado a uma profecia... Foi a decisão mais difícil que já tomei em toda a minha existência. Elyra, com aquela serenidade que tantas vezes me salvou de mim mesmo, tomou a palavra, apertando Fenrir contra o peito como se pudesse protegê-lo. — Fenrir é apenas um bebê. A única coisa que ele fará é manter tudo em equilíbrio. Se matarem nosso filho, tudo irá colapsar. — Ele é o equilíbrio de todos os mundos, Thor. — acrescentei, mantendo meus olhos fixos no meu irmão, observando cada músculo de sua tensão. — Todos querem a morte dele porque temem o que não entendem. Temem que ele seja mais poderoso do que qualquer ser que já existiu. Thor deu um passo à frente, e eu recuei um, mantendo a proteção sobre Elyra. — Posso vê-lo melhor? — ele pediu. Olhei para trás. Elyra assentiu suavemente. A confiança dela em Thor era um fardo que eu ainda carregava com dificuldade, mas ela era a rainha deste coração, e se ela desejava a paz, eu recuaria. Desviei-me, deixando o caminho livre. Elyra ajeitou Fenrir nos braços, exibindo o pequeno rosto para o tio. Por um momento, o tempo parou. Vi os lábios de Thor se curvarem em um sorriso raro, uma visão que me causou um choque mais profundo do que qualquer golpe. — Ele se parece com você. — Thor murmurou, encarando o pequeno que, alheio ao destino que pertencia e, riu para ele. — Tem seus olhos. Fenrir, com aquela audácia que certamente herdou de mim, estendeu os braços em direção ao tio. Ele se aproximou e, com uma força que me pegou de surpresa, agarrou a armadura de Thor e começou a puxar sua capa vermelha. Thor olhou para mim, genuinamente assustado com a força daquela pequena criatura. — Ele é curioso. — comentei, deixando um sorriso genuíno escapar. Ali, naquele momento, eu era apenas o pai orgulhoso. — E bem forte. — Thor concordou, observando o sobrinho com um brilho de admiração que, pela primeira vez, não me soou como uma ameaça. O chão sob nossos pés rugiu, um tremor violento que fez as paredes de pedra maciça do palácio gemerem. O estalo de uma explosão mágica ecoou pelos corredores, seguida pelo som inconfundível de guardas e guerreiros em marcha apressada. O santuário que eu havia criado, aquele pequeno pedaço de paz que eu tanto lutei para manter, estava sendo estilhaçado. Thor, que segundos atrás observava o sobrinho com admiração, endureceu o corpo instantaneamente. Seus olhos faiscaram, não de ódio, mas de uma compreensão terrível e imediata. — É Odin. — Thor afirmou, sua voz grave ressoando como um trovão distante. — E ele trouxe o exército. Eles não vieram apenas por mim, Loki... eles vieram para matar vocês. O instinto de batalha tomou conta de mim, mas antes que eu pudesse conjurar algum feitiço, Thor bloqueou meu caminho com um gesto rápido. — Você precisa sair daqui, irmão. — ele disse, com uma urgência que nunca vi em seus olhos antes. — Agora! Leve Elyra e o menino para o mais longe que puder. Eu vou ganhar tempo. Eu o encarei, atônito. Aquela não era a atitude do irmão que buscava a glória do Pai de Todos; era a atitude de um protetor. Ele estava desafiando a ordem direta de Odin para salvar minha família. — Thor, você não entende... se você lutar contra ele por nossa causa, não haverá retorno. — minha voz soou rouca, enquanto eu me aproximava de Elyra, puxando-a para perto, sentindo a vibração do palácio aumentar a cada segundo. — Eu já fiz a minha escolha quando vi o meu sobrinho. — Thor respondeu, virando-se de costas para nós e caminhando em direção à porta do quarto, onde o brilho das chamas da explosão já começava a tingir o corredor de laranja. Ele não olhou para trás, mas sua voz chegou até nós, firme e destemida. — Corram! Não parem por mim. Enquanto eu estiver de pé, ninguém irá atrás de vocês! Olhei para Elyra, que segurava Fenrir com uma força protetora, e depois para o meu irmão. O peso daquela escolha era um abismo, mas o dever de pai gritava mais alto que qualquer coisa. — Vamos. — sussurrei para ela, segurando sua mão com força. Com um aceno final para as costas largas de Thor, que já preparava o Mjolnir para o confronto que se aproximava, conjurei uma ilusão para encobrir nossa saída. O palácio tremia como se o próprio mundo estivesse se partindo ao meio, mas eu não olhei para trás. A partir daquele momento, a nossa vida não era mais sobre o poder ou o trono, era sobre sobreviver à fúria de um rei que não sabia que, ao tentar matar o futuro, estava apenas acelerando o seu próprio fim. Com um aceno rápido e o coração martelando no peito, teci as teias da minha magia. Conjurei uma ilusão densa de sombras e falsos ecos, enviando cópias nossas no outro lado do quarto. Era um truque simples, mas compraria a Thor os segundos preciosos de que ele precisava. Sem perder um instante, agarrei a mão de Elyra e puxei nós três através do tecido do espaço. O ar frio e com cheiro de pinho e terra úmida encheu meus pulmões. Havíamos nos teletransportado para a antiga floresta nos limites de Asgard, um lugar esquecido pelo brilho dourado da cidade. Ali, escondida entre raízes milenares e pedras musgosas, repousava uma passagem secreta. Era um portal antigo que eu havia descoberto quando ainda era apenas um garoto, um refúgio para onde eu fugia sempre que queria desaparecer dos olhares julgadores do palácio. Agora, seria a nossa única salvação. De repente, o céu acima de nós rugiu. A escuridão da noite foi rasgada por relâmpagos violentos, e um estrondo ensurdecedor de trovão fez o chão da floresta tremer sob nossos pés. Thor havia começado a sua luta. Parei no meio do caminho, o vento frio chicoteando meu rosto. Outro raio cortou o céu, iluminando a abóbada celestial de Asgard com uma luz fantasmagórica. Eu sabia o que aquilo significava. — Você precisa ir. — eu disse a Elyra, minha voz soando mais áspera do que eu gostaria. — Thor não vai conseguir segurá-los por muito tempo. Odin tem o exército inteiro. Os olhos platinados dela se encheram de pânico e determinação. Ela apertou Fenrir contra o peito. — Eu não vou sem você, Loki! Não vou! — Você tem que ir! — Avancei, segurando o rosto pequeno e delicado dela entre minhas mãos. O desespero ameaçava me engolir, mas eu precisava ser a rocha dela agora. Pressionei meus lábios nos dela em um beijo profundo e desesperado, tentando transmitir toda a minha alma naquele único toque. — Eu te amo, Elyra. Eu amo vocês mais do que a minha própria existência. Afastei-me devagar e olhei para o nosso filho. Fenrir não chorava. Ele me fitava com aqueles olhos verdes incrivelmente intensos, como se compreendesse o peso do universo desabando sobre nós. Estendi a mão sobre o pequeno corpo dele. Fechei os olhos e puxei a energia das profundezas do meu ser. Uma luz verde, pulsante e ancestral, começou a emanar das minhas mãos, cobrindo Fenrir como um manto cálido. Invoquei o poder de Angrboda — a magia sombria e imensa que eu havia arrancado dela dois dias atrás, quando a matei por sua traição imperdoável. Eu sabia que aquele poder sombrio iria deixar meu filho invisível dos Deuses, mesmo eu não sabendo a grandiosidade do poder de Fenrir. Misturei essa força com a minha própria essência. Senti minha força vital esvair-se, transferindo quase todo o meu poder para o meu filho. Deixei para mim apenas o mínimo necessário, apenas a magia exata para me manter de pé na luta contra Odin e garantir que eles tivessem tempo de escapar. Se eu fosse morrer hoje, meu poder viveria nele. — Para mantê-lo a salvo. — ofeguei, sentindo a fraqueza atingir meus ossos enquanto a luz verde se infiltrava na pele do bebê. Olhei fundo nos olhos de Elyra. — Ele tem que se esconder na pele de um lobo. Com todo esse poder, ele brilharia como um farol para os deuses. A forma de lobo camuflará a sua energia, o poder da Angrboda vai servir para isso, para que nenhum deus consiga rastreá-lo. E é através do meu poder... que eu encontrarei vocês. As lágrimas que Elyra segurava finalmente transbordaram, escorrendo por seu rosto perfeito e caindo sobre o manto de Fenrir. Vê-la chorar doía. — Eu amo você, meu filho. — sussurrei, beijando a testa de Fenrir, e depois beijei as lágrimas de Elyra. — Eu amo vocês dois. Vão. Eu estarei com vocês em breve. Eu prometo. Eu me virei e ativei o antigo portal. As runas de pedra acenderam com um brilho azulado, abrindo um rasgo no espaço que levava diretamente para Midgard — a Terra, o mundo dos humanos, onde os deuses raramente prestavam atenção. Elyra me deu um último olhar, o coração partido refletido em sua íris, e atravessou o limiar de luz com nosso filho nos braços. Assim que a figura dela desapareceu na passagem e a energia do portal oscilou, ergui minhas mãos tremendo pelo esforço e liberei um pouco da magia bruta que eu havia reservado. Uma explosão verde estilhaçou a estrutura de pedra. O portal implodiu sobre si mesmo, desintegrando-se em pó e faíscas até que não restasse absolutamente nada. Nenhum rastro mágico. Odin jamais saberia para onde eles foram. Sozinho na floresta, sob o som dos trovões e o céu em chamas, virei-me em direção a Asgard. Eu não era mais o Deus da Trapaça. Eu era um pai, um marido. O eco da minha própria magia ainda vibrava na floresta quando me desfiz em sombras. O teletransporte custou mais pouco que me restava, mas pisei na sala de armas do palácio como quem conhecia cada canto daquela prisão dourada. Ali, diante de mim, repousava o artefato que sela destinos. Minhas mãos correram para o Chifre de Surtur. Sem hesitar um segundo sequer, arremessei-o diretamente na Chama Eterna. O fogo ancestral rugiu, absorvendo o metal, e a sala inteira gemeu quando a essência primordial começou a se erguer. As paredes racharam, o calor sufocante dobrou meus joelhos e, em um segundo, a própria força da ressurreição me atingiu como um golpe invisível, arremessando-me longe contra as pilastras de pedra. O som de passos pesados ecoou pelos escombros. Ergui o olhar e vi Odin. O Pai de Todos estava lá, a lança Gungnir em riste, o rosto tomado por uma fúria cega que rapidamente se transformou em puro horror ao ver o colosso de fogo tomando forma. — O que você fez, bastardo insolente?! — a voz de Odin trovejou, cortando o barulho ensurdecedor do palácio desabando. Limpei o sangue que escorria pelo meu canto da boca, forcei meu corpo a se erguer e sorri. Um sorriso frio, cortante, que não deixava dúvidas de que o meu mundo já havia acabado, e que eu não tinha mais nada a perder. — Você quis matar o meu filho... — falei, a voz firme sobrepondo-se ao caos. — ...agora eu vou destruir o que você mais ama. Antes que ele pudesse erguer a lança contra mim, transformei-me em fumaça verde e me teletransportei para a Bifrost. A ponte arco-íris tremia sob os passos colossais de Surtur. O gigante de fogo, erguendo sua espada incandescente, colidiu imediatamente com Odin. A luta entre o Pai de Todos e a calamidade durou o tempo de um suspiro diante do fim inevitável: com um golpe devastador, a espada de Surtur atravessou o peito de Odin, silenciando o rei de Asgard para sempre. O gigante não parou. A lâmina flamejante rasgou o solo sagrado, estilhaçando palácios, torres e muralhas, transformando o reino dourado em um oceano de chamas. Asgard estava colapsando, virando cinzas diante dos meus olhos. Antes que a explosão final engolisse o planeta inteiro, concentrei o meu último pingo de energia, busquei a assinatura mágica de Thor e me teletransportei diretamente para o lado dele, trazendo-o de volta para a ponte que desmoronava. O calor era insuportável, o ar irrespirável. Juntei cada átomo de poder que me restava — ignorando o vazio que tomava o meu peito — e rasguei o tecido do espaço com um último portal instável, garantindo que Thor tivesse uma rota de fuga do cataclismo. A magia exigiu o preço que restava da minha alma e corpo. Minhas pernas falharam, a visão escureceu de uma vez por todas, e meu corpo despencou contra o chão de pedra enquanto Asgard explodia em um clarão final. No limite da minha consciência, o único som que consegui registrar foi a voz de Thor chamando o meu nome, antes que a escuridão absoluta me engolisse, e Asgard virasse cinzas.FENRIR Examinei os estragos com bastante atenção. O braço direito apresentava uma fratura exposta grotesca, com o osso projetado para fora da pele lacerada. Havia múltiplos cortes profundos espalhados por seus membros; a calça jeans estava rasgada e ensanguentada, revelando um dos pés virado em um ângulo completamente não natural, claramente quebrado. Subi o olhar. A blusa que parecia ser branca que ela vestia estava em trapos, picotada como se ela tivesse sido atacada por garras ou lâminas impiedosas. E no rosto... o estrago era devastador. Um dos olhos estava completamente inchado e roxo, cercado por cortes lacerados que ainda vertiam filetes vermelhos sobre a neve. O cabelo negro, longo e caído sobre as pedras, estava rígido e duro, empelotado por uma camada espessa de gelo. Uma pontada quase esquecida de compaixão atravessou meus olhos. Ela parecia, tão terrivelmente indefesa. Estendi a mão direita devagar, aproximando meus dedos do pulso esquerdo dela para checar a pulsação e
FENRIR No entanto, a ganância humana era algo admiravelmente previsível. A cada nova gestão, a cada novo aperto de mão em salas presidenciais ou nos palácios de Reis, eles tentavam barganhar pelas mesmas duas coisas: meus recursos medicinais e minhas armas e tecnologias de combate. Passei os dedos pelo queixo, encarando o relatório de defesa enviado por Washington. Eles queriam acesso às plantas do Rio da Lua e aos compostos que curavam qualquer doença conhecida pelo homem. Eu detinha a cura para o câncer, para vírus devastadores e para enfermidades que destruíam corpos mortais em meses. Sabia do sofrimento que a humanidade enfrentava, via a dor dos inocentes, mas também conhecia a podridão que habitava a ambição dos seus líderes. Se eu entregasse a cura para a medicina tradicional, os governantes e as corporações transformariam a vida em mercadoria, cobrando fortunas inviáveis e decidindo quem vivia e quem morria. O mesmo valia para as armas. Nas últimas décadas, tentar negociar
FENRIR DIAS ATUAIS. O vento frio da montanha soprava contra meu pelo negro, espalhando os flocos de neve que insistiam em pousar sobre o meu dorso. Dali do ponto mais alto, a cidade de Aspen não passava de um punhado de pontos luminosos insignificantes, perdidos entre as montanhas. Lá embaixo, os humanos viviam suas vidas breves e barulhentas, completamente alheios ao mundo real. A poucos quilômetros dali ficava minha propriedade privada — uma vasta extensão de terra sob meus feitiços onde nem mesmo o governo dos Estados Unidos ousava colocar os pés. Para os olhos mortais, era apenas neve e rocha inacessíveis. Mas por trás do velamento existia o Rio da Lua e a Floresta Encantada, terras sagradas e letais onde nenhum humano ou ser sobrenatural não autorizado pisava e saía vivo. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o clarão prateado que banhava meu pelo e meu focinho. Ela estava ali. Minha mãe, Elyra. Ela havia feito o maior dos sacrifícios para garantir que eu sobrevivesse, en
LOKIASGARD — MILHARES DE ANOS ATRÁS.O silêncio reinava no palácio, um silêncio pesado, impregnado com o cheiro metálico da traição que eu mesmo me encarreguei de silenciar. Cada passo que dei pelos corredores vazios foi uma sentença cumprida; não restava um único guarda, nem uma alma que ousasse levantar a mão contra minha família. Mas, ao abrir a porta do quarto, o mundo lá fora deixou de existir.Ela estava lá. Elyra, minha deusa da Lua, recortada contra a vastidão noturna na sacada. O vestido vermelho parecia uma mancha de sangue contra a palidez de sua pele, e o cabelo branco, emoldurado pela tiara que um dia adornou minha mãe, brilhava como se capturasse a própria essência do luar.— É muito perigoso ficar aí fora. — murmurei, minha voz soando baixa, contida. Fechei a porta atrás de mim, selando aquele santuário.Ela se virou. Nos braços, ela trazia o nosso legado, Fenrir. Ele tinha apenas seis meses, mas naqueles olhos verdes — um tom mais intenso, mais vivo do que os meus — e







