ログインFENRIR
DIAS ATUAIS. O vento frio da montanha soprava contra meu pelo negro, espalhando os flocos de neve que insistiam em pousar sobre o meu dorso. Dali do ponto mais alto, a cidade de Aspen não passava de um punhado de pontos luminosos insignificantes, perdidos entre as montanhas. Lá embaixo, os humanos viviam suas vidas breves e barulhentas, completamente alheios ao mundo real. A poucos quilômetros dali ficava minha propriedade privada — uma vasta extensão de terra sob meus feitiços onde nem mesmo o governo dos Estados Unidos ousava colocar os pés. Para os olhos mortais, era apenas neve e rocha inacessíveis. Mas por trás do velamento existia o Rio da Lua e a Floresta Encantada, terras sagradas e letais onde nenhum humano ou ser sobrenatural não autorizado pisava e saía vivo. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o clarão prateado que banhava meu pelo e meu focinho. Ela estava ali. Minha mãe, Elyra. Ela havia feito o maior dos sacrifícios para garantir que eu sobrevivesse, entregando sua própria essência para se tornar a própria Lua. Eu não tinha memórias nítidas ao seu lado; fui criado por anciãos há milhares de anos atrás, desde que cheguei nesta Terra. Assisti este mundo mudar passo a passo. Vi impérios erguidos e reduzidos ao pó, guerras sangrentas, revoluções e a ascensão da humanidade até o cenário atual. E no centro de tudo, a profecia sempre sussurrou meu nome: eu seria a destruição irrestrita ou o equilíbrio do universo. Eu sempre escolheria o equilíbrio, fazendo assim, valer a pena o sacrifício de minha mãe. Levantei-me devagar, sentindo minhas patas gigantes afundarem na neve fofa. Havia uma dúvida que me perseguia através dos milênios. Minha mãe era a Deusa da Lua. Meu pai, Loki, o Deus da Trapaça. Eu carregava poderes extraordinários que desafiavam a compreensão de qualquer ser, mas nunca entendi completamente o motivo de carregar esse sangue de lobo nas veias. Era uma das peças do meu passado que permanecia envolta em névoa. Olhei mais uma vez para o céu, contemplando aquela luz acolhedora. — Eu te amo, mãe. — murmurei. Minha voz ecoou rouca, um som raríssimo de se ouvir enquanto eu ostentava a forma bestial. Como se respondesse ao meu chamado, o brilho prateado lá no alto se intensificou, pulsando em uma onda de calor divino e acolhedor. Sorri internamente. Ela sempre me ouvia. Virei-me e comecei a caminhar, acelerando o ritmo a cada passada. Em segundos, eu já estava em plena corrida, cortando a montanha como uma sombra gigante sobre a neve, saltando rochas e despenhadeiros em uma velocidade inacreditável. O vento uivava nos meus ouvidos enquanto os limites da minha propriedade se aproximavam. Em menos de cinco minutos, vislumbrei os contornos imponentes da minha mansão e as luzes quentes que emanavam das grandes janelas. Fui desacelerando conforme me aproximava da entrada principal. A transição foi fluida, quase imperceptível, carregando séculos de experiência. A ossatura se reorganizou, o pelo negro deu lugar à pele e, no segundo seguinte, meus pés tocaram o chão de pedra já em forma humana. Ajeitei os punhos da minha camisa social preta, alinhando o tecido perfeitamente. Assim que alcancei a grande porta de entrada, os dois seguranças — lobos da minha guarda pessoal — curvaram a cabeça e abriram as portas duplas em um movimento sincronizado. — Senhor Fenrir. — disseram em uníssono, a voz carregada de profundo respeito. Passei por eles sem precisar dizer uma única palavra. No mundo dos humanos, eu atendia por Adam Fenrir. Quando percebi que para dominar e transitar entre os mortais era preciso jogar pelas regras deles, construí uma fortuna incalculável ao longo dos séculos. Hoje, meu poder financeiro e minha influência superavam os homens mais ricos e poderosos do planeta, pois eu sabia exatamente como o dinheiro movia as engrenagens desse século. Assim que cruzei o limiar do hall, o ar aquecido da mansão me envolveu, trazendo consigo o aroma sutil de madeira nobre, magia antiga e a promessa de mais uma noite sob o olhar atento da minha mãe. Cruzei o salão principal com passos firmes e silenciosos, ignorando a imponência dos lustres de cristal e as obras de arte seculares que decoravam as paredes da mansão. Meu destino era único: o meu escritório. Empurrei as pesadas portas de carvalho escuro, que se abriram sem emitir um único ruído, e caminhei até a grande mesa de mogno posicionada diante da parede de vidro que dava vista para as montanhas cobertas de neve. Sentei-me na poltrona de couro, ajeitei os botões da minha camisa e me debrucei sobre as telas de alta tecnologia e os papéis de gramatura espessa dispostos à minha frente. Como sou o Rei dos Lobos, a liderança não se resumia a batalhas ou imposição de força bruta; a maior parte da responsabilidade residia na manutenção da existência e na proteção deles. Comecei a analisar os orçamentos das matilhas globais. Cada alcatéia sob meu domínio — no planeta — dependia dos meus recursos para manter territórios, cobrir custos de suprimentos, assistência aos mais jovens e isolamento mágico. Examinei cada número com rigor, aprovando transferências milionárias e ajustando cotas de suprimentos para garantir que nenhuma matilha passasse necessidade ou precisasse se expor ao mundo humano mais que o necessário, já que eles aprenderam a se transformar em humanos. Enquanto assinava digitalmente os relatórios financeiros, passei os olhos na minha agenda. Em exatamente três dias, eu teria uma reunião presencial com o atual Presidente dos Estados Unidos. Sorri com um desdém contido. Ao longo dos séculos, vi este país nascer, crescer e trocar de líderes dezenas de vezes. Conheci cada um dos presidentes americanos e praticamente todos os chefes de Estado dos grandes países do mundo. Tenho acordos e contratos firmados com praticamente todas as nações da Terra. A regra do jogo sempre foi clara: tudo o que envolve o sobrenatural passa exclusivamente pelas minhas mãos. Eu lidava com a burocracia, continha ameaças que a inteligência humana jamais compreenderia e garantia a ordem. Em troca, eles me concediam soberania absoluta em meus territórios e mantinham distância. Os governos sabiam exatamente quem eu era e do que eu era capaz.FENRIR Examinei os estragos com bastante atenção. O braço direito apresentava uma fratura exposta grotesca, com o osso projetado para fora da pele lacerada. Havia múltiplos cortes profundos espalhados por seus membros; a calça jeans estava rasgada e ensanguentada, revelando um dos pés virado em um ângulo completamente não natural, claramente quebrado. Subi o olhar. A blusa que parecia ser branca que ela vestia estava em trapos, picotada como se ela tivesse sido atacada por garras ou lâminas impiedosas. E no rosto... o estrago era devastador. Um dos olhos estava completamente inchado e roxo, cercado por cortes lacerados que ainda vertiam filetes vermelhos sobre a neve. O cabelo negro, longo e caído sobre as pedras, estava rígido e duro, empelotado por uma camada espessa de gelo. Uma pontada quase esquecida de compaixão atravessou meus olhos. Ela parecia, tão terrivelmente indefesa. Estendi a mão direita devagar, aproximando meus dedos do pulso esquerdo dela para checar a pulsação e
FENRIR No entanto, a ganância humana era algo admiravelmente previsível. A cada nova gestão, a cada novo aperto de mão em salas presidenciais ou nos palácios de Reis, eles tentavam barganhar pelas mesmas duas coisas: meus recursos medicinais e minhas armas e tecnologias de combate. Passei os dedos pelo queixo, encarando o relatório de defesa enviado por Washington. Eles queriam acesso às plantas do Rio da Lua e aos compostos que curavam qualquer doença conhecida pelo homem. Eu detinha a cura para o câncer, para vírus devastadores e para enfermidades que destruíam corpos mortais em meses. Sabia do sofrimento que a humanidade enfrentava, via a dor dos inocentes, mas também conhecia a podridão que habitava a ambição dos seus líderes. Se eu entregasse a cura para a medicina tradicional, os governantes e as corporações transformariam a vida em mercadoria, cobrando fortunas inviáveis e decidindo quem vivia e quem morria. O mesmo valia para as armas. Nas últimas décadas, tentar negociar
FENRIR DIAS ATUAIS. O vento frio da montanha soprava contra meu pelo negro, espalhando os flocos de neve que insistiam em pousar sobre o meu dorso. Dali do ponto mais alto, a cidade de Aspen não passava de um punhado de pontos luminosos insignificantes, perdidos entre as montanhas. Lá embaixo, os humanos viviam suas vidas breves e barulhentas, completamente alheios ao mundo real. A poucos quilômetros dali ficava minha propriedade privada — uma vasta extensão de terra sob meus feitiços onde nem mesmo o governo dos Estados Unidos ousava colocar os pés. Para os olhos mortais, era apenas neve e rocha inacessíveis. Mas por trás do velamento existia o Rio da Lua e a Floresta Encantada, terras sagradas e letais onde nenhum humano ou ser sobrenatural não autorizado pisava e saía vivo. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o clarão prateado que banhava meu pelo e meu focinho. Ela estava ali. Minha mãe, Elyra. Ela havia feito o maior dos sacrifícios para garantir que eu sobrevivesse, en
LOKIASGARD — MILHARES DE ANOS ATRÁS.O silêncio reinava no palácio, um silêncio pesado, impregnado com o cheiro metálico da traição que eu mesmo me encarreguei de silenciar. Cada passo que dei pelos corredores vazios foi uma sentença cumprida; não restava um único guarda, nem uma alma que ousasse levantar a mão contra minha família. Mas, ao abrir a porta do quarto, o mundo lá fora deixou de existir.Ela estava lá. Elyra, minha deusa da Lua, recortada contra a vastidão noturna na sacada. O vestido vermelho parecia uma mancha de sangue contra a palidez de sua pele, e o cabelo branco, emoldurado pela tiara que um dia adornou minha mãe, brilhava como se capturasse a própria essência do luar.— É muito perigoso ficar aí fora. — murmurei, minha voz soando baixa, contida. Fechei a porta atrás de mim, selando aquele santuário.Ela se virou. Nos braços, ela trazia o nosso legado, Fenrir. Ele tinha apenas seis meses, mas naqueles olhos verdes — um tom mais intenso, mais vivo do que os meus — e







