LOGINTarik Eu sempre soube que Ahmed tinha nascido com o mundo ajoelhado aos pés dele.Filho único.Herdeiro.O nome certo, o sangue certo, a posição certa.Enquanto eu precisei conquistar cada espaço dentro daquela família, ele apenas existiu.E isso sempre bastou.Fiquei parado perto da janela do escritório de Hassan, observando Ahmed sentado alguns metros à minha frente. Maria Clara estava ao lado dele, com a mão pousada sobre seu ombro, inclinando-se de vez em quando para dizer alguma coisa em seu ouvido.Aquilo me incomodava mais do que deveria.Não porque eles se amavam.Amor nunca me impressionou.Mas porque, de alguma maneira absurda, aquela mulher tinha conseguido fazer parte de tudo.Da família.Dos negócios.Das decisões.Do futuro dos Al-Rashid.Maria Clara levantou os olhos por um instante.Nossos olhares se encontraram.Ela não desviou.Claro que não.Nunca desviava.Foi exatamente isso que fez Hassan admirá-la.E foi exatamente isso que me fez desprezá-la desde o início.El
AhmedAlgumas dores não avisam antes de chegar.Elas simplesmente entram.Atravessam a porta, sentam-se no meio da nossa vida e arrancam o ar dos pulmões como se sempre tivessem pertencido ali.Foi assim quando recebi a ligação.Eu estava no escritório do quadragésimo sétimo andar da Al-Rashid Tower, diante de uma parede inteira de vidro, observando Dubai acordar sob o sol dourado. O Burj Khalifa cortava o céu ao longe, cercado por outras torres que, anos atrás, representavam apenas poder.Hoje significavam família.Legado.Responsabilidade.Maria Clara tinha acabado de me enviar uma fotografia de Yasmin tentando alimentar Amir com pedaços de morango escondida da babá. Nossa filha já tinha três anos. Amir, oito meses.Anos haviam passado desde que Clara chegou à minha vida e transformou tudo que eu acreditava saber sobre amor, casamento e poder.Então o telefone tocou.— Senhor Al-Rashid?Reconheci imediatamente a voz de Samir, chefe da equipe médica particular de meu pai.Meu corpo r
Maria ClaraDa minha varanda no 47º andar da Al-Rashid Tower, observo as torres de vidro que perfuram o céu de Dubai como espadas reluzentes. O sol nasce entre os arranha-céus, banhando de dourado o mar de concreto e areia. Aqui, onde outrora me senti prisioneira, agora sou rainha: de um império de negócios, de um reino de sonhos e de um coração que se expande a cada batida.Tudo começou com fogo e traição, mas terminou em parceria e amor. Lembro-me da primeira vez que pisei neste território alienígena, com a pele inquieta, o coração em labaredas de medo e desejo. Cheguei como “noiva prisioneira”, mas hoje caminho livre, vestida de seda e esperança. Os ventos do deserto ainda sussurram velhos rancores, mas eu aprendi a silenciá-los com a chama viva que habita meu peito.— Clara, já acordou? A voz de Ahmed chega até mim envolta em café fresco e convites para reuniões. Ele já está vestido com o corte impecável do terno marinho, camisa branca e lenço de bolso combinando. Seu perfume, mi
Maria ClaraO avião particular do Sheik, um jato Gulfstream G650 luxuosamente decorado, tocou a pista do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro com um rugido surdo, quase inaudível dentro da cabine à prova de som. Pela primeira vez desde aquela noite fatídica, a noite do incêndio que mudou tudo, senti o chão firme e inabalável sob meus pés. Era um contraste bem-vindo à instabilidade dos últimos dias, à vertigem constante de um futuro incerto.Quando a porta da aeronave se abriu e pisei na sala de desembarque VIP, o ar quente e úmido do Brasil me envolveu como um abraço tardio, um sopro familiar que eu não sabia o quanto ansiava. O cheiro de terra molhada e flores tropicais preencheu meus pulmões, trazendo um lampejo de nostalgia agridoce. Minha busca foi imediata, quase instintiva. Procurei por ele, a figura imponente que dominava meus pensamentos e, agora, minha realidade.Ele estava lá, inconfundível, mesmo em meio à multidão vibrante e barulhenta de passageiros que desembarcava.
AhmedA brisa suave do começo da tarde, que deveria trazer algum alívio, parecia zombar da atmosfera sufocante da clínica. Lá fora, cada gota de chuva que pingava na vidraça da sala de espera parecia tentar apagar o fogo que ardia incontrolavelmente dentro de mim – uma chama de desespero e angústia. Eu entrei com um passo firme, quase imperceptível, sentindo no ar o rastro dela, aquela fragrância inconfundível de jasmim e sândalo que sempre me roubava o fôlego e me transportava para um lugar de paz. Mas ela não estava lá. Nem o corpo que eu ansiava reencontrar, nem a alma vibrante e cheia de vida que eu havia deixado ali, naquele mesmo quarto, horas antes, com a promessa de um rápido retorno. O vazio em seu lugar era um eco ensurdecedor, preenchendo o ambiente com a ausência dela e com a minha crescente e perturbadora realização.— Sheik. — Um médico se aproximou com cautela. — A Senhora Clara teve alta ontem… foi embora cedo pela manhã para o Brasil. Um… exílio imposto pelo Conselho.
Maria ClaraO zumbido persistente dos recursos intravenosos me acordou. O calor do quarto clínico ainda estava vivo em minhas veias — não era febre, era a memória constante do fogo que tentara me consumir. Olhei para o lado e vi o balão de oxigênio ainda inflado. Minhas mãos tremiam, e não era apenas pelo veneno da fumaça — era por tudo que se desdobrava ali fora, enquanto eu me recuperava.Meses haviam passado desde o incêndio, mas os incêndios reais — aqueles do poder, do ódio, da traição — ainda ardia com mais intensidade. O palácio assistia, dividido entre a figura imponente de Ahmed, o primogênito do deserto, e a sombra envenenada de um primo exilado, cujos sussurros ecoavam em corredores vazios.Me senti presa, entre o desejo de permanecer ao lado do homem que amo e a obrigação de salvar o império que nos sustentava. Sabia o que precisava fazer. Apesar da dor, mesmo quando meus pulmões queimavam, havia uma chama dentro de mim maior do que qualquer labareda.Levantei-me, sentindo







