Se connecterCapítulo 6 — A Visita
Visão da Fernanda
— Você tem certeza de que tá bem?
Olhei para minha mãe por cima da caneca.
— Mãe, você já perguntou isso hoje.
— Quantas vezes?
— Quatro.
Lucas, sentado do outro lado da mesa, levantou a cabeça.
— Cinco. Ela perguntou quando você acordou.
Apontei para ele.
— Obrigada pela colaboração.
— Disponha.
Minha mãe ignorou nós dois.
— Você tá dormindo direito?
— Tô.
Mentira.
— Não parece.
— Trabalhei ontem.
— Você trabalha sempre e não fica com essa cara.
— Que cara?
Lucas mastigou um pedaço de pão.
— De perturbada.
— Ninguém perguntou pra você.
— Eu moro aqui. Tenho direito de participar.
— Você tem direito de ficar quieto.
— Democracia morreu nessa casa.
Minha mãe bateu de leve na mesa.
— Vocês dois podem parar?
Nós dois ficamos quietos.
Por aproximadamente três segundos.
— Ela começou — Lucas murmurou.
Chutei a perna dele por baixo da mesa.
— Ai!
— Crianças!
Comecei a rir.
Minha mãe tentou manter a cara séria, mas acabou rindo também.
Era disso que eu precisava.
Normalidade.
Uma manhã comum.
Café.
Pão.
Minha mãe reclamando.
Lucas me irritando.
Nenhum homem baleado.
Nenhum tiro.
Nenhum TH.
Nenhum Renan segurando meu braço e dizendo coisas estranhas.
Depois daquele encontro com Renan, eu tinha passado horas pensando naquela frase.
Cuidado com quem você anda.
No final, decidi que ele provavelmente estava apenas tentando provocar.
Era o tipo de coisa que Renan faria.
E eu não daria importância.
Quanto a TH…
Também não existia motivo para pensar nele.
Quatro dias tinham se passado desde aquela madrugada.
Ele estava vivo.
Eu sabia disso porque ninguém comentava nada diferente pela comunidade e Lucas, apesar de ter prometido não se meter, parecia ter desenvolvido uma central particular de informações.
Eu não perguntava.
Mas também não mandava ele parar quando soltava alguma coisa.
Hipocrisia?
Talvez.
Eu só queria saber que o homem não tinha morrido.
Agora que sabia, assunto encerrado.
— Hoje você tá de folga? — minha mãe perguntou.
— Tô.
— Vai fazer o quê?
— Nada.
— Nada?
— Absolutamente nada.
— Podia me ajudar a organizar…
— Não.
Ela me encarou.
— Nem terminei.
— Conheço você.
Lucas riu.
— Folgada.
— Você está comendo o biscoito que eu comprei.
— Uma coisa não anula a outra.
Peguei um guardanapo e joguei nele.
Meu celular vibrou.
Olhei.
Júlia.
Júlia: Cinema hoje?
Respondi:
Eu: Minha cama já me convidou primeiro.
A resposta veio:
Júlia: Você tem 23 ou 83 anos?
Eu: Hoje, 96.
Bloqueei a tela.
— Vou tomar banho.
Minha mãe olhou para mim.
— Pra quê, se vai ficar deitada?
Parei.
— Agora precisa justificar banho nessa casa?
— Só perguntei.
— Família estranha.
Levantei.
Eu estava chegando ao corredor quando ouvi três batidas na porta.
Parei.
Minha mãe também.
Lucas olhou para a porta.
— Tá esperando alguém?
— Não — respondemos juntas.
As batidas vieram novamente.
Não eram fortes.
Mas firmes.
Minha mãe levantou.
— Deixa que eu vejo.
Por algum motivo, senti um aperto estranho no estômago.
— Eu abro.
— Fernanda…
— Mãe, é uma porta.
Fui até lá.
— Quem é?
Uma voz masculina respondeu do outro lado.
— Preciso falar com a Fernanda.
Meu corpo inteiro congelou.
Eu conhecia aquela voz.
Não perfeitamente.
Mas conhecia.
Lucas levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.
Olhei para ele.
Ele arregalou os olhos.
Não.
Minha mãe percebeu nossa reação.
— Quem é?
Eu não respondi.
— Fernanda?
Respirei fundo.
Abri a porta.
E fiquei parada.
TH estava do outro lado.
Por alguns segundos, simplesmente olhei.
Era estranho vê-lo em pé.
Mais estranho ainda vê-lo limpo.
Sem sangue.
Sem a camiseta encharcada.
Sem aquela expressão de alguém prestes a apagar.
Ele era realmente alto.
Muito mais do que eu tinha percebido naquela noite.
Vestia camiseta preta, calça escura e tênis. As tatuagens cobriam boa parte dos braços. O rosto ainda parecia um pouco abatido, e a postura denunciava que ele não estava totalmente recuperado.
Mas estava ali.
Vivo.
Completamente consciente.
E me olhando.
Atrás dele, alguns metros mais distante, estava ND.
Reconheci na mesma hora.
Havia outro homem perto de um carro.
Meu estômago virou.
— Você.
TH levantou uma sobrancelha.
— Eu.
— O que você tá fazendo aqui?
Ele olhou rapidamente para dentro da casa.
— Bom dia pra você também.
— Como você sabe onde eu moro?
Silêncio.
Pronto.
Minha irritação chegou antes do medo.
— Eu fiz uma pergunta.
— Descobri.
— Descobriu como?
— Não foi difícil.
Cruzei os braços.
— Isso deveria me tranquilizar?
Um canto da boca dele subiu.
— Provavelmente não.
— Fernanda, quem é? — minha mãe perguntou atrás de mim.
Fechei os olhos por meio segundo.
Ótimo.
Virei.
Minha mãe apareceu no corredor.
Olhou para mim.
Depois para TH.
O rosto dela perdeu a cor.
Lucas apareceu atrás.
E, diferente dela, parecia estar prestes a assistir ao episódio mais interessante da vida dele.
— Caralho — murmurou.
— Lucas! — minha mãe e eu falamos juntas.
TH olhou para ele.
Depois para mim.
— Seu irmão?
Franzi a testa.
— Como você sabe?
Ele percebeu o erro.
Eu também.
— Espera aí.
Descruzei os braços.
— Como você sabe que ele é meu irmão?
TH ficou em silêncio.
Olhei para ND.
ND virou o rosto como quem subitamente tinha encontrado algo fascinante na rua.
— Vocês pesquisaram minha vida?
— Pesquisar é uma palavra forte — TH respondeu.
— Ah, é? Qual palavra você prefere?
Lucas mordeu o lábio tentando não rir.
Minha mãe não achava graça nenhuma.
— Fernanda — ela chamou baixinho.
— Tá tudo bem, mãe.
TH olhou para ela.
— Dona Márcia?
Minha boca abriu.
— Ah, não!
ND baixou a cabeça.
Dessa vez eu tinha certeza de que estava segurando uma risada.
— Você sabe o nome da minha mãe também?!
TH soltou o ar.
— Talvez eu devesse ter começado essa conversa de outro jeito.
— Talvez você não devesse estar na porta da minha casa!
Ele me encarou.
Eu esperava alguma reação.
Raiva.
Autoridade.
Qualquer coisa.
Mas ele apenas assentiu.
— Justo.
Aquilo me desmontou um pouco.
Só um pouco.
Minha mãe segurou meu braço.
— Filha…
TH voltou a olhar para ela.
— Senhora, eu não vim trazer problema.
Minha mãe ficou séria.
— Com todo respeito, problema costuma acompanhar homem como você.
Silêncio.
Meu coração parou.
— Mãe…
TH sustentou o olhar dela.
Depois assentiu novamente.
— A senhora não tá errada.
Agora até eu fiquei surpresa.
Minha mãe pareceu não saber o que responder.
TH voltou a olhar para mim.
— Eu só vim agradecer.
— Já agradeceu.
— Não agradeci.
— O seu amigo agradeceu.
Apontei discretamente para ND.
— Serve.
— Pra mim, não.
Ficamos nos encarando.
Aquela era a primeira vez que eu realmente conseguia observá-lo sem estar tentando impedir que morresse.
E isso era um problema.
Porque Lucas tinha razão.
Ele era bonito.
Muito.
O tipo de bonito que vinha acompanhado de um aviso de perigo piscando em vermelho.
Mandíbula marcada.
Barba curta.
Olhos escuros.
Tatuagens.
Corpo forte.
E uma presença que ocupava espaço mesmo quando ele não dizia nada.
Para de olhar, Fernanda.
— Posso falar com você? — ele perguntou.
— Já está falando.
O canto da boca dele subiu novamente.
— Cinco minutos.
— Aqui mesmo.
— Fernanda — minha mãe chamou.
Olhei para ela.
Ela fez uma expressão que dizia claramente não saia dessa porta com esse homem.
— Aqui mesmo — repeti.
TH não discutiu.
Colocou a mão no bolso.
Tirou um envelope.
Olhei.
— O que é isso?
Ele estendeu.
Não peguei.
— Um agradecimento.
— Agradecimento como?
— Pega.
— Não.
— Você nem sabe o que é.
— Se está dentro de envelope e você está fazendo essa cara, provavelmente é dinheiro.
Ele não respondeu.
Eu ri sem humor.
— Não.
— Fernanda…
— Não.
— Você salvou minha vida.
— Eu sei.
— Então aceita.
— Não.
— Por quê?
Olhei para ele como se a resposta fosse óbvia.
— Porque eu não salvei você para receber.
— Não tô pagando pelo que você fez.
— Parece bastante.
— É gratidão.
— Então fala obrigada.
Ele ficou em silêncio.
— Obrigado.
— Pronto.
ND tossiu.
Eu tinha quase certeza de que era para disfarçar a risada.
TH olhou de lado.
ND imediatamente ficou sério.
— Não acabou — TH falou.
— Pra mim acabou.
— Você gastou material.
— Pouca coisa.
— Sua roupa ficou cheia de sangue.
— Eu lavei.
— Você perdeu tempo.
— Meu Deus…
Passei a mão no rosto.
— Você sempre transforma tudo em dinheiro?
A expressão dele mudou.
— Não.
— Então entende: eu não quero.
— Eu posso ajudar de outra forma.
— Também não quero.
— Faculdade.
Meu corpo travou.
Olhei para ele.
— O quê?
— Você quer fazer faculdade.
O sangue subiu para meu rosto.
— Como você sabe disso?
Ele percebeu.
— Você me contou.
Parei.
Naquela noite.
Eu tinha falado qualquer coisa para mantê-lo consciente.
Eu nem lembrava de metade.
— Eu falei isso?
— Falou.
— E você lembra?
— Lembro de tudo.
Por algum motivo, aquela resposta me deixou sem reação.
TH continuou:
— Se você quiser estudar, eu posso…
— Não.
— Nem terminei.
— Não precisa.
— Eu pagaria…
— Não.
— Fernanda.
— TH.
Ele apertou os lábios.
— Thiago — corrigiu.
— O quê?
— Meu nome.
— Eu sei.
— Então pode usar.
— Prefiro TH.
— Por quê?
— Porque Thiago parece íntimo demais e nós não somos íntimos.
ND virou o rosto novamente.
Lucas soltou uma risadinha.
— Lucas — avisei.
— Tô quieto.
Voltei para TH.
— Eu agradeço a intenção. De verdade. Mas não quero dinheiro, faculdade, presente, emprego, favor ou qualquer outra coisa.
— Por orgulho?
— Não.
— Então?
— Porque aquilo não foi uma troca.
Ele ficou sério.
— Eu encontrei uma pessoa ferida — continuei. — Eu sou profissional da saúde. Fiz o que sabia fazer. Se fosse você, ele…
Apontei para ND.
— …ou qualquer outra pessoa, eu teria feito a mesma coisa.
ND levantou a mão.
— Espero não precisar testar.
Olhei para ele.
— Eu também.
TH ignorou.
— Você poderia ter ido embora.
— Poderia.
— E não foi.
— Não.
— Por quê?
A pergunta saiu diferente.
Menos como interrogatório.
Mais como curiosidade de verdade.
Pensei.
— Porque eu não conseguiria dormir sabendo que deixei alguém morrer sem tentar ajudar.
Ele me observou por alguns segundos.
A expressão ficou impossível de ler.
— É exatamente por isso que eu tenho uma dívida com você.
— Você não tem.
— Tenho.
— Não tem.
— Fernanda…
— Você é sempre teimoso assim?
— Você já perguntou isso.
— E continuo sem resposta.
— Sou.
— Percebi.
Ele respirou fundo.
Logo depois fez uma pequena careta.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
Meu lado profissional apareceu antes que eu pudesse impedir.
— Tá doendo?
— Não.
— Mentiroso.
Ele me olhou.
— Você nem devia estar andando desse jeito.
— Tô bem.
— Acabou de fazer uma careta.
— Não fiz.
— Fez.
— Você tá imaginando.
— Eu trabalho com paciente teimoso todo dia. Conheço essa cara.
Ele quase sorriu.
— Você acabou de levar um tiro há quatro dias e resolveu sair passeando?
— Não tô passeando.
— Veio até aqui.
— Eu precisava agradecer.
— Podia mandar mensagem.
— Não tinha seu número.
— Graças a Deus.
ND riu de verdade dessa vez.
TH olhou para ele.
— Algum problema?
— Nenhum.
— Então para.
Olhei novamente para TH.
— Volta pra onde você estava se recuperando.
— Tá me expulsando?
— Tô cuidando da sua saúde.
— Interessante.
— Não tem nada de interessante.
— Na última vez você também ficou mandando em mim.
— E funcionou. Você tá vivo.
Ele sustentou meu olhar.
— É.
O jeito como falou fez meu peito apertar.
Desviei.
— Então pronto.
Peguei o envelope da mão dele.
TH pareceu satisfeito.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, virei e coloquei o envelope de volta no bolso da camiseta dele.
— Eu disse que não quero.
ND soltou:
— Ih.
TH olhou para o próprio bolso.
Depois para mim.
— Você acabou de devolver?
— Acabei.
— Ninguém costuma devolver dinheiro pra mim.
— Agora conhece alguém.
— Você é complicada.
— E você apareceu sem ser convidado na minha casa. Estamos quites.
Ele sorriu.
Dessa vez de verdade.
Foi rápido.
Mas mudou completamente o rosto dele.
E eu odiei perceber isso.
— Certo — ele disse.
— Certo o quê?
— Não vou insistir no dinheiro.
— Nem em favor.
— Isso eu não prometi.
— TH…
— Fernanda, você pode não aceitar nada de mim. Mas se algum dia precisar de alguma coisa…
— Não vou precisar.
— Você não sabe.
— E você não sabe ficar calado.
— Também não.
Revirei os olhos.
Ele deu um passo para trás.
— Vou embora.
— Ótimo.
— Parece feliz.
— Minha manhã estava tranquila antes de você aparecer.
— Então desculpa atrapalhar.
A resposta foi tão normal que fiquei sem graça.
— Tá.
Ele olhou para minha mãe.
— Dona Márcia.
Minha mãe apenas assentiu.
Depois olhou para Lucas.
— Lucas.
Meu irmão abriu um sorriso enorme.
— Fala, TH.
— Lucas!
— Que foi?
TH quase riu.
Por último, olhou para mim.
— Fernanda.
— TH.
Ele se virou.
Começou a caminhar.
Percebi novamente a postura cuidadosa.
— Ei.
Ele parou.
Olhou por cima do ombro.
— O quê?
— Se esse curativo começar a sangrar, você vai procurar atendimento.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Tá me dando ordem?
— Orientação.
— Parece ordem.
— Faz o que quiser.
— Sempre faço.
— Percebi.
Ele continuou andando.
ND passou pela porta e falou baixo:
— Obrigado de novo.
Dessa vez sorri.
— Cuida dele.
ND olhou para TH.
— Tô tentando. O problema é que ele acha que é imortal.
— Não sou eu que acho — TH respondeu sem virar. — Vocês que dramatizam.
— Levou tiro e já tá na rua — falei.
Ele virou.
— Tá vendo? Ela concorda comigo.
— Ela acabou de falar o contrário — ND respondeu.
TH balançou a cabeça e seguiu.
Fiquei olhando até os três se afastarem.
Quando fechei a porta, virei.
Minha mãe e Lucas estavam parados me encarando.
— O quê?
Minha mãe foi a primeira.
— O que foi isso?
— Ele veio agradecer.
Lucas abriu um sorriso.
— Ele veio trazer dinheiro.
— Que eu não aceitei.
— Quanto tinha?
— Não sei.
— Você nem olhou?!
— Não.
Lucas levou as duas mãos à cabeça.
— Essa mulher não é minha irmã.
— Para.
— Podia ter pelo menos contado!
— Lucas!
Minha mãe continuava séria.
— Ele sabia onde você mora.
Meu sorriso desapareceu.
— Eu sei.
— Sabia meu nome.
— Eu sei.
— Sabia o nome do seu irmão.
— Eu sei, mãe.
— Isso não te preocupa?
Preocupava.
Mais do que eu queria admitir.
— Ele disse que só veio agradecer.
— Homens como ele não descobrem tudo sobre uma pessoa só para agradecer.
— Mãe…
— Escuta o que eu tô falando.
Fiquei quieta.
— Não quero você perto dele.
— Eu também não quero ficar perto dele.
— Promete?
— Ele veio aqui. Eu não fui atrás.
— Fernanda.
Suspirei.
— Prometo.
Minha mãe assentiu.
Lucas olhou para mim.
— Eu acho que ele gostou de você.
— Ninguém perguntou o que você acha.
— Só tô falando.
— Ele me conhece há quatro dias.
— Tecnicamente ele te conhece há…
— Lucas.
— Tá bom.
Ele levantou as mãos.
— Mas vocês brigam igual casal velho.
Peguei uma almofada do sofá.
Ele saiu correndo antes que eu jogasse.
— Volta aqui, desgraçado!
— Mãe! Ela vai me bater!
— Bem feito! — minha mãe respondeu.
Parei no meio da sala.
Comecei a rir.
Mas, quando fiquei sozinha alguns minutos depois, a frase da minha mãe voltou.
Homens como ele não descobrem tudo sobre uma pessoa só para agradecer.
Olhei pela janela.
TH já tinha ido embora.
Era melhor assim.
Ele tinha agradecido.
Eu tinha recusado o dinheiro.
Dívida encerrada.
Cada um voltava para a própria vida.
Simples.
Só havia um pequeno problema.
Enquanto eu tentava convencer a mim mesma de que aquela visita não significava absolutamente nada, percebi que conseguia lembrar perfeitamente do sorriso dele.
E isso me incomodou muito mais do que deveria.
Visão do TH
— Pode falar.
ND dirigia.
— Falar o quê?
— Você tá se segurando desde que entramos no carro.
Ele começou a rir.
— A menina colocou seu dinheiro de volta no seu bolso.
Olhei pela janela.
— Eu percebi.
— Na frente de todo mundo.
— Também percebi.
— E mandou você voltar pra cama.
— Você quer chegar em algum lugar?
— Quero.
Olhei para ele.
— Então chega.
— Gostei dela.
— Ninguém perguntou.
— Dona Márcia também é braba.
— Você tá muito falante.
— E o Lucas parece gente boa.
— Acabou?
— Ainda não.
Suspirei.
— Fala.
ND me olhou rapidamente antes de voltar a atenção para a rua.
— Você sorriu.
— Eu sorrio.
— Não daquele jeito.
— Que jeito?
— Exatamente.
— Você é muito fofoqueiro.
— E você tá fodido.
— Por quê?
— Ainda não sei.
Ele riu.
Ignorei.
Minha mão foi até o bolso.
O envelope continuava ali.
Eu deveria ter ficado irritado.
Qualquer outra pessoa teria aceitado.
Fernanda não.
Nem abriu.
Nem perguntou quanto tinha.
Simplesmente devolveu.
Aquilo não foi uma troca.
Olhei novamente pela janela.
Eu tinha ido até lá para encerrar uma dívida.
Agradecer.
Oferecer alguma coisa em troca.
Sair.
Simples.
Mas estava voltando com a estranha sensação de que a dívida continuava exatamente onde estava.
Talvez maior.
E, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha olhado na minha cara, recusado tudo que eu ofereci e ainda mandado que eu fosse descansar.
Sorri de canto.
— Tá sorrindo de novo — ND falou.
O sorriso desapareceu.
— Dirige essa porra.
A risada dele encheu o carro.
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