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Capítulo 4: As portas da gaiola

Autor: melodi
last update Data de publicação: 2026-10-22 18:18:46

O portão de ferro forjado da mansão Sterling abriu-se para dentro sem emitir um único rangido. A propriedade, encravada no alto de uma colina com vista para a baía da cidade, era uma fortaleza de linhas minimalistas, paredes de concreto polido e enormes painéis de vidro escurecido. O carro blindado de Dante avançou pelo caminho ladeado por ciprestes até parar em frente à entrada principal.

Eram seis e cinquenta e oito da manhã.

Apoiei a palma da mão sobre o meu caderno dentro da bolsa, sentindo o coração disparar contra as minhas costelas. Mal tinha conseguido dormir duas horas na poltrona da suíte da clínica. Minha mãe continuava estável, monitorada pelos melhores especialistas da cidade, mas o preço de sua tranquilidade era o quarto que se abria diante de mim. Eu tinha assinado uma trégua invisível com o demônio em troca da vida de Sofía, e agora era hora de entrar em sua toca.

O motorista abriu a porta para mim. Ao descer, o vento fresco da baía desgrenhou meu cabelo, mas me forcei a erguer a postura, abotoar meu blazer cinza e subir os três degraus de granito com passo firme.

Antes que eu pudesse apertar a campainha, a pesada porta de madeira maciça abriu-se de par em par.

— Bom dia, senhorita Cruz. O senhor Sterling está esperando a senhorita no terraço do piso superior — cumprimentou-me um homem idoso, de cabelos grisalhos e terno impecável, que segurava uma bandeja de prata vazia. Seu tom era cortês, mas seus olhos carregavam aquela reserva própria de quem guardou segredos alheios durante décadas.

— Obrigada. Qual é o seu nome? — perguntei.

— Roberto. Mordomo da residência. Acompanhe-me, por favor.

O interior da mansão era tão frio e imponente quanto o escritório do quadragésimo andar. Tudo era dominado por tons de cinza, branco e preto; não havia quadros nas paredes, nem fotos de família, nem um único enfeite que sugerisse que ali morava um ser humano de carne e osso. Era um museu dedicado ao controle e ao silêncio.

Subimos por uma escada flutuante de vidro temperado até o terraço do terceiro nível. Ali, em frente a uma piscina infinita que parecia se fundir com o horizonte do mar, Dante Sterling estava sentado à mesa do café da manhã.

Vestia uma camisa branca de linho com as mangas dobradas até os antebraços e uma calça social escura. Sem o paletó sob medida, parecia um pouco mais acessível, mas a tensão em seus ombros e a rigidez de sua postura desmentiam qualquer ilusão de calor humano. Segurava uma xícara de porcelana fina enquanto lia alguns relatórios impressos.

— Pontual, senhorita Cruz — disse sem levantar os olhos do papel. — Vejo que aprende rápido.

— Não vim para brincar com o seu tempo, senhor Sterling — respondi, parando a dois passos da mesa. — Nem para que brinque com o meu.

Dante apoiou a xícara no pires com um estalo seco. Virou-se em minha direção, e seus olhos cinzentos me percorreram com aquela lentidão exasperante que costumava paralisar minha respiração. Tinha olheiras profundas sob os cílios; não havia dormido muito mais do que eu.

— Sente-se — ordenou, apontando para a cadeira à sua frente.

— Prefiro ficar de pé. O senhor me disse para vir à sua residência para começar a pagar minha dívida. Diga-me quais relatórios devo revisar ou qual agenda devo organizar.

Dante levantou-se sem pressa. Sua altura voltava a projetar uma sombra sobre mim, mas me recusei a desviar o olhar. Deu um passo em minha direção, mantendo as mãos nas costas.

— Seu trabalho administrativo no escritório continua às nove. O que você faz aqui, entre as sete e as nove da manhã, é pagar a conta do hospital da sua mãe — murmurou com voz grave. — Esta casa não tem arquivos corporativos, senhorita Cruz. Tem memórias.

— Do que o senhor está falando?

— Sua mãe e a minha se conheciam. O bilhete atrás daquela fotografia não é uma coincidência, e não vou permitir que sua família continue me escondendo a verdade sobre por que minha mãe me abandonou quando eu tinha oito anos — seu tom tornou-se áspero, carregado de uma fúria antiga que tentava disfarçar sob sua máscara de frieza. — Ontem à noite, quando comprei a carteira de crédito da sua família, não adquiri apenas as dívidas da clínica. Adquiri o arquivo confidencial da antiga empresa do seu pai.

Meu corpo congelou.

— Meu pai morreu quando eu era criança. A empresa dele faliu antes de ele falecer.

— Isso foi o que sua mãe fez você acreditar — replicou Dante, aproximando-se mais um passo. Pude sentir o aroma familiar de sândalo e café. — A empresa do seu pai não faliu por má gestão. Faliu porque o meu pai a sufocou financeiramente após o desaparecimento da minha mãe. E no registro mercantil dessa falência há documentos assinados por Sofía Cruz que transferiram patentes para uma conta fantasma.

— Isso é mentira! — exclamei, sentindo a raiva se acender no meu peito. — Minha mãe é uma mulher honesta. Se ela trabalhou até adoecer foi para quitar contas que nem sequer eram dela. Não vou permitir que o senhor a acuse de algo que aconteceu há mais de vinte anos!

Dante deu outro passo. Estava tão perto que eu sentia a pulsação acelerada em sua garganta. Estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, roçou levemente meu queixo para me obrigar a manter o rosto erguido em direção ao seu. O toque durou apenas um segundo, mas foi como uma descarga elétrica que arrepiou os pelos do meu pescoço.

— Então me prove, Valeria — sussurrou, e a forma como pronunciou meu nome voltou a derrubar minhas defesas. — Ajude-me a revisar os diários da minha mãe e as cartas da falência que estão guardados nesta casa. Se sua mãe for inocente, limparei o nome dela e perdoarei a dívida. Se for culpada... você pagará até o último centavo trabalhando para mim sob as condições que eu decidir.

Olhei-o fixamente. Havia um fogo sombrio em seus olhos, um dilema constante entre o homem que queria me destruir por despeito e o homem que desesperadamente precisava encontrar uma razão para se curar.

— Aceito o acordo — disse com firmeza, retirando meu queixo do contato com a mão dele. — Mas com uma condição: o senhor não voltará a me ameaçar com a permanência da minha mãe na clínica. Se eu descobrir que usou os médicos como chantagem outra vez, irei embora daqui, mesmo que o senhor me mande para a cadeia.

Dante arqueou uma sobrancelha, visivelmente impressionado com a minha audácia. Durante dois segundos que pareceram eternos, os cantos de seus lábios se curvaram em um leve sorriso amargo.

— Acordo feito. Siga-me.

Contornamos a piscina e caminhamos por um corredor lateral da mansão até chegar à asa oeste. Dante tirou uma chave metálica do bolso — um objeto estranhamente antigo no meio de tantas fechaduras digitais — e abriu uma porta dupla de madeira de nogueira.

Ao entrar, a atmosfera mudou por completo.

O cômodo não tinha grandes janelas nem acabamentos de vanguarda. Era uma biblioteca antiga, lotada de estantes de madeira escura que iam até o teto, recheada de livros com lombadas de couro, mapas enrolados e pastas de cartão gastas. Cheirava a papel velho, poeira e cera de abelha. No centro, uma mesa de mogno estava coberta por montanhas de documentos desordenados.

— Este era o escritório privativo do meu pai — explicou Dante, parando no centro do ambiente. Sua voz baixou de volume, tornando-se quase distante. — Desde que ele faleceu, há três anos, ninguém entrou aqui. O conselho de administração acredita que destruí todos os seus arquivos pessoais.

— E por que não fez isso? — perguntei, dando alguns passos em direção às estantes, acariciando com a ponta dos dedos as lombadas dos livros antigos.

— Porque neste quarto está a chave de por que minha infância se transformou em um pesadelo — respondeu de costas para mim. — Meu pai se tornou um monstro paranoico no dia em que minha mãe foi embora. Convenceu-se de que ela o tinha traído com seus concorrentes comerciais... entre eles, a família do seu pai.

Virei-me para olhá-lo. Dante estava parado ao lado da mesa, observando um velho tinteiro de bronze. Pela primeira vez desde que o conheci, sua postura não era arrogante; parecia um homem esmagado pelo peso de suas próprias lembranças.

— O senhor acredita que a história está se repetindo — deduzi com suavidade. — Pensa que vim para a Sterling International para terminar o que acredita que minha família começou.

Ele me olhou de frente. A frieza de seus olhos cinzentos foi eclipsada por uma vulnerabilidade crua que me apertou o coração.

— Não sei o que pensar de você, Valeria. Em um segundo, você me parece a mulher mais perigosa que já pisou na minha vida, e no segundo seguinte... é a única pessoa que não me olha como se eu fosse um cheque em branco ou um tirano a quem se deve obedecer.

Um silêncio espesso e magnético instalou-se entre nós dois. Ele deu dois passos lentos em minha direção. O espaço entre nós reduziu-se tanto que eu podia sentir o calor emanando de seu corpo. Minha respiração tornou-se agitada e, por mais que meu cérebro me gritasse para dar um passo para trás, meus pés permaneceram cravados no chão.

Ele ergueu a mão e, com um gesto estranhamente delicado, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre a minha testa. Seu polegar roçou a linha da minha bochecha, lento, quente, provocando um calafrio que percorreu minha espinha dorsal.

— Tenho medo de muitas coisas, senhorita Cruz — murmurou com a voz rouca —, mas de nada tenho mais medo do que da forma como você me olha quando pensa que não estou percebendo.

Minha pulsação disparou. Eu estava prestes a responder, a confessar que me apavorava a forma como ele conseguia me fazer esquecer todo o meu orgulho com um único toque, quando o ranger de uma tábua do piso do lado de fora do quarto nos obrigou a nos separar de golpe.

Dante virou-se com a velocidade de um felino, interpondo-se entre a porta e eu.

— Quem está aí? — exigiu com voz de comando.

A porta de nogueira abriu-se lentamente. Para minha surpresa, não era o mordomo nem nenhum empregado da mansão.

No umbral estava parado Julián Sterling, o irmão caçula de Dante. Vestia uma jaqueta de couro desabotoada, tinha o cabelo castanho desgrenhado e um sorriso irônico nos lábios, embora seus olhos brilhassem com uma inquietação evidente.

— Calma, irmão mais velho. Não sou nenhum espião — disse Julián, erguendo as mãos em sinal de paz. — Embora veja que você está muito ocupado ensinando os segredos de família para a sua nova "assistente".

Dante endureceu as feições imediatamente, vestindo novamente a armadura de gelo.

— ¿O que você está fazendo na minha casa a esta hora, Julián? Sabe que não gosto que venha sem avisar.

Julián deu um passo para o interior da biblioteca, lançando-me um olhar rápido cheio de curiosidade antes de voltar a se concentrar em Dante.

— Vim porque o Andrés Molina convocou uma reunião extraordinária do conselho para esta tarde, às quatro — disse Julián, perdendo o sorriso. — Ele descobriu que você comprou a dívida dos Cruz com fundos pessoais e está usando a Camila para mover os acionistas contra você. Querem auditar a Sterling International e pedir sua destituição por conflito de interesses.

O ar da biblioteca tornou-se mortalmente pesado.

Dante nem piscou. Apertou os punhos ao lado do corpo e, quando me olhou de relance, vi em seus olhos a promessa de uma tempestade que estava prestes a se desencadear sobre todos nós.

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