FAZER LOGINO impacto das palavras de Julián ficou pairando no ar da biblioteca como fumaça densa. Olhei para Dante, esperando ver uma rachadura de pânico ou dúvida em seu rosto, mas o homem apenas endureceu os traços até transformá-los em uma máscara intransponível.
— O Andrés está se precipitando — disse Dante, com uma serenidade que me pareceu aterradora. — Ele acha que, por usar a Camila e mover um par de acionistas assustados, pode me encurralar no meu próprio conselho.
— Não é um par de acionistas, Dante — interrompeu-o Julián, dando dois passos em nossa direção e baixando a voz. — Ele chamou os três membros principais do conselho. Está vendendo a eles a ideia de que você comprou uma dívida de alto risco vinculada a uma família que esteve em falência fraudulenta há vinte anos. Diz que você usou informação privilegiada da empresa para benefício pessoal.
— Isso é uma difamação absurda! — exclamei, dando um passo à frente sem conseguir conter a indignação. — A falência do meu pai não foi fraudulenta. Minha mãe ficou sem nada para pagar até o último funcionário.
Julián me observou com atenção. Pela primeira vez, seu sorriso irônico desapareceu por completo e seus olhos mostraram um tom de compaixão misturada com surpresa.
— Valeria, não é? — disse Julián em tom suave. — Não duvido da sua palavra, mas no conselho da Sterling International a verdade não importa se não vier acompanhada de um selo registrado em cartório. O Andrés quer a cabeça do meu irmão, e se para consegui-la tiver que arruinar você e sua mãe, ele fará isso sem piscar.
Dante caminhou até a mesa de mogno e apoiou ambas as mãos sobre a madeira antiga, dando-nos as costas por alguns segundos. Quando voltou a se virar, seus olhos cinzentos brilhavam com uma determinação implacável.
— Não vão tirar a minha presidência. E também não vão usar a família Cruz para sujar o meu nome — sentenciou Dante, olhando-me fixamente. — Julián, quero que você vá para a sede central. Atrase a entrega da pauta do conselho. Diga à secretaria que estou revisando uma reestruturação de ativos e que não me apresentarei até as três da tarde.
— Ganhar tempo? — perguntou Julián, erguendo uma sobrancelha. — Para quê?
— Para encontrar a prova que demonstre por que meu pai perseguiu os Cruz e o que foi que o Molina ocultou nos balanços daquele ano — respondeu Dante. Depois, voltou-se para mim: — A Valeria e eu ficaremos aqui. Vamos revisar cada pasta desta biblioteca antes do meio-dia.
Julián olhou para nós dois, detendo-se na curta distância que nos separava. Um leve lampejo de compreensão cruzou seu rosto.
— Está bem. Vou entreter os lobos na torre — disse Julián, ajeitando o paletó. — Mas tome cuidado, Dante. A Camila está furiosa. Se ela descobrir que esta garota está aqui com você, usará a imprensa antes da reunião.
— Que tente — respondeu Dante com voz gelada.
Assim que a porta se fechou após a saída de Julián, o silêncio voltou a se apoderar do recinto. O relógio de parede marcava sete e meia da manhã. Restavam-nos apenas algumas horas antes de enfrentarmos os tubarões do conselho corporativo.
— Por que está me olhando assim? — perguntou Dante, notando que eu não me movia do lugar.
— Porque não entendo a sua estratégia, senhor Sterling — respondi, cruzando os braços. — Há meia hora o senhor estava me acusando de ser filha de uma traidora. Agora pretende que procuremos juntos algo que poderia me afundar ou salvá-lo. Em que lado o senhor está?
Dante contornou a mesa e parou a menos de um metro de mim. Sua respiração era pausada, mas a intensidade de seu olhar acelerava o ritmo do meu coração.
— Não há lados, Valeria — disse com voz grave e baixa. — Há fatos. Se sua mãe mentiu, saberei hoje. Se meu pai foi quem cometeu o crime, também saberei. Mas não vou permitir que um parasita como Andrés Molina use os fantasmas do meu passado para me tirar o que construí com meu próprio sangue.
— Minha mãe não mentiu — sustentei o olhar dele sem dar um passo para trás. — E se fico para procurar com o senhor, não é para salvar sua empresa. É para limpar o nome da minha família e me certificar de que minha mãe possa dormir em paz quando sair daquele hospital.
Uma faísca de respeito brilhou nos olhos de Dante. Por um segundo, o canto de seus lábios se elevou em uma sombra de sorriso.
— Gosto quando não se rende, senhorita Cruz — murmurou. — Comece pela estante do fundo. Procure os arquivos etiquetados sob o ano de dois mil e quatro.
Começamos a trabalhar imediatamente. Durante quase duas horas, o único som na biblioteca foi o rasgar do papel, o movimento de pastas pesadas e nossas respirações compassadas.
A tensão entre nós não desapareceu, mas mudou de natureza; já não era um confronto de hostilidade, mas sim uma estranha sincronia em que cada um preenchia as lacunas do outro.
— Encontrei a auditoria de falência da empresa do meu pai — disse quebrando o silêncio, tirando uma pasta amarela gasta que jazia atrás de uma fileira de enciclopédias.
Dante caminhou rapidamente em minha direção. Posicionou-se logo atrás de mim, inclinando-se sobre meu ombro para ver o conteúdo. Eu podia sentir o calor de seu peito perto das minhas costas e o aroma de sândalo que o caracterizava. Minha pele arrepiou-se instantaneamente.
— Abra — ordenou ele no meu ouvido, com um fio de voz que arrepiou minha nuca.
Com os dedos trêmulos, desatuei o cordão da pasta. Dentro havia balanços contábeis, carimbos de liquidação e várias cartas trocadas entre meu pai e o pai de Dante. Mas o que chamou minha atenção foi um envelope de papel pardo dobrado no fundo, selado com cera vermelha.
— Este envelope não tem carimbo de registro judicial — observei, tirando-o com cuidado.
— Deixe-me ver — disse Dante. Estendeu a mão para pegá-lo e, ao fazê-lo, seus dedos envolveram os meus.
O contato foi tão direto e quente que ambos congelamos por um instante. Ergui os olhos e encontrei seus olhos cinzentos olhando-me fixamente, a apenas alguns centímetros do meu rosto.
A barreira profissional desmoronou por completo naquele segundo. Vi a necessidade, a dúvida e o desejo contido que ele tentava reprimir atrás de sua fachada de homem de aço.
— Dante... — sussurrei, esquecendo o tratamento formal pela segunda vez.
Ele não retirou a mão. Pelo contrário, apertou suavemente meus dedos antes de liberar o envelope.
— Abra você — disse com um tom rouco, como se lhe custasse recuperar o fôlego. — Quero que seja a primeira a lê-lo.
Com o coração batendo descontrolado no peito, rompi o selo de cera. Extrai duas folhas de papel amarelado datilografadas, com uma assinatura no rodapé que reconheci imediatamente: a da minha mãe, Sofía Cruz. Mas não era uma carta de confissão de fraude. Era uma nota promissória e uma declaração juramentada.
— Leia a primeira linha em voz alta — pediu Dante, dando mais um passo à frente.
— *"Por meio desta, eu, Sofía Cruz, faço a entrega dos direitos de patente do software de logística em favor da Sterling International, sob a condição expressa de que tais fundos sejam destinados exclusivamente ao pagamento das despesas médicas da senhora Elena Sterling"* — li, sentindo a voz embargar na última palavra.
Dante ficou completamente imóvel.
— Elena? — sussurrou ele, com o rosto pálido. — Elena era minha mãe...
— Há mais — continuei, passando para a segunda página, onde aparecia uma assinatura secundária. — Veja quem autenticou a transferência como procurador legal dos Sterling.
Dante inclinou-se sobre a página. Seus olhos percorreram a assinatura com uma mistura de horror e fúria contida.
— Andrés Molina — sibilou Dante, e o nome soou como um chicotaço na sala.
— Minha mãe não vendeu as patentes para enriquecer nem para arruinar sua família — disse, erguendo os olhos para ele com lágrimas na borda das pálpebras. — Sua mãe estava doente, Dante. Minha mãe entregou o único ativo que restava à sua família para ajudá-la a pagar um tratamento secreto. E Andrés Molina manipulou os livros para fazer parecer que os Cruz tinham roubado esse dinheiro e provocado a falência.
O impacto da verdade caiu sobre Dante com a força de um golpe físico. Recuou um passo, apoiando-se contra a estante. O homem frio e inalcançável desapareceu por completo; em seu lugar ficou o menino de oito anos que tinha crescido acreditando que sua mãe o havia abandonado por ganância e que a família Cruz era a culpada de sua desgraça.
— Ela não me abandonou por dinheiro... — murmurou Dante, olhando para o nada. Suas mãos tremiam ligeiramente. — Meu pai e o Molina mentiram para mim a vida toda. Usaram o nome da sua família como bode expiatório para cobrir o desvio de fundos que o Molina estava fazendo desde aquela época.
Aproximei-me dele lentamente. A raiva que guardara dele durante as últimas vinte e quatro horas evaporou-se ao ver a dor genuína que despedaçava seu olhar. Sem pensar duas vezes, reduzi a distância e apoiei a mão em seu braço.
— Dante, olhe para mim — pedi-lhe com suavidade.
Ele virou a cabeça e me olhou. Pela primeira vez, não havia barreiras em seus olhos.
— Sua mãe tentou se salvar — disse-lhe, sustentando o olhar dele. — E minha mãe tentou ajudá-la. Não houve traição alguma.
Dante cobriu minha mão com a dele, apertando-a com uma desesperança silenciosa. Inclinou-se em minha direção até que seus lábios ficassem a milímetros dos meus. Pude sentir seu hálito quente e o beating descontrolado de seu peito contra o meu.
— Passei vinte anos odiando o sobrenome Cruz — sussurrou com a voz entrecortada pela emoção. — E hoje... a única pessoa que está de pé ao meu lado para me mostrar a verdade é você.
— Não deixei você sozinho no escritório quando teve aquele ataque, Dante — respondi-lhe, sentindo uma corrente elétrica percorrendo cada fibra do meu corpo. — Também não vou deixá-lo sozinho agora.
Ele não respondeu com palavras. Sua mão livre subiu até a minha nuca e, com uma lentidão cheia de reverência e necessidade, encurtou o último milímetro que nos separava.
Seus lábios buscaram os meus em um beijo profundo, carregado de um desejo reprimido que fez minhas pernas fraquejarem. Respondi ao beijo com a mesma intensidade, envolvendo seu pescoço com meus braços, sentindo a muralha de gelo que nos dividia reduzir-se a cinzas em um segundo.
Quando finalmente nos separamos para respirar, ele manteve sua testa colada à minha. Estava de olhos fechados e com o rosto relaxado pela primeira vez desde que o conheci.
— Temos uma reunião às quatro da tarde — murmurou Dante, acariciando minha bochecha com o polegar.
— E temos o documento que vai destruir o Andrés Molina — completei com um sorriso decidido.
Dante abriu os olhos, que brilhavam agora com uma luz perigosa, mas desta vez não era de frieza, e sim de vitória.
— Prepare-se, senhorita Cruz. Esta tarde vamos ensinar ao conselho da Sterling International o que acontece quando tentam se meter conosco.
O relógio de parede da sala de reuniões da torre Sterling International marcava três e cinquenta e cinco da tarde. Faltavam cinco minutos para que a tempestade estourasse oficialmente.Apertei a pasta de couro contra o meu peito enquanto caminhava ao lado de Dante pelo corredor do quadragésimo andar.Ao contrário do que tinha acontecido naquela manhã, minha pulsação não tremia por medo nem por incerteza; batia descontrolada pela adrenalina e pela lembrança indelével do beijo que tínhamos compartilhado horas antes na biblioteca.Aquele contato tinha mudado as regras do jogo. Eu já não era apenas sua assistente em período de experiência nem a filha de uma família encurralada: era a única pessoa que segurava a prova capaz de salvar o império dele e limpar o nome da minha mãe.— ¿Está pronta, Valeria? — perguntou-me Dante sem desacelerar o passo, abotoando o terno impecável. Sua voz era séria, mas em seus olhos cinzentos já não havia aquela frieza distante, e sim uma cumplicidade que me
O impacto das palavras de Julián ficou pairando no ar da biblioteca como fumaça densa. Olhei para Dante, esperando ver uma rachadura de pânico ou dúvida em seu rosto, mas o homem apenas endureceu os traços até transformá-los em uma máscara intransponível.— O Andrés está se precipitando — disse Dante, com uma serenidade que me pareceu aterradora. — Ele acha que, por usar a Camila e mover um par de acionistas assustados, pode me encurralar no meu próprio conselho.— Não é um par de acionistas, Dante — interrompeu-o Julián, dando dois passos em nossa direção e baixando a voz. — Ele chamou os três membros principais do conselho. Está vendendo a eles a ideia de que você comprou uma dívida de alto risco vinculada a uma família que esteve em falência fraudulenta há vinte anos. Diz que você usou informação privilegiada da empresa para benefício pessoal.— Isso é uma difamação absurda! — exclamei, dando um passo à frente sem conseguir conter a indignação. — A falência do meu pai não foi fraud
O portão de ferro forjado da mansão Sterling abriu-se para dentro sem emitir um único rangido. A propriedade, encravada no alto de uma colina com vista para a baía da cidade, era uma fortaleza de linhas minimalistas, paredes de concreto polido e enormes painéis de vidro escurecido. O carro blindado de Dante avançou pelo caminho ladeado por ciprestes até parar em frente à entrada principal.Eram seis e cinquenta e oito da manhã.Apoiei a palma da mão sobre o meu caderno dentro da bolsa, sentindo o coração disparar contra as minhas costelas. Mal tinha conseguido dormir duas horas na poltrona da suíte da clínica. Minha mãe continuava estável, monitorada pelos melhores especialistas da cidade, mas o preço de sua tranquilidade era o quarto que se abria diante de mim. Eu tinha assinado uma trégua invisível com o demônio em troca da vida de Sofía, e agora era hora de entrar em sua toca.O motorista abriu a porta para mim. Ao descer, o vento fresco da baía desgrenhou meu cabelo, mas me forcei
O motor do helicóptero médico estrondava sobre nossas cabeças enquanto a equipe de especialistas transferia a maca da minha mãe.Ver Sofía cercada por monitores de última geração e enfermeiros atentos a cada um de seus sinais vitais deveria ter me trazido alívio, mas a única coisa que eu sentia era uma corda invisível se apertando ao redor do meu pescoço.Dante Sterling permanecia de pé a alguns metros da ambulância particular, com a luz das sirenes piscando sobre a linha polida de seu maxilar.Ele tinha resolvido em dez minutos o que teria me custado anos de sofrimento, despejos e humilhações. Mas não tinha feito isso por compaixão. Tinha comprado a liberdade da minha família para me manter presa à sua vontade.— A transferência para a Clínica Sterling Center será concluída em quinze minutos, senhor — informou o médico-chefe, inclinando levemente a cabeça diante de Dante antes de subir no veículo.Dante assentiu com frieza e virou-se para mim. Meu amigo Mateo tentou se interpor mais
O calor do corpo de Dante Sterling em frente ao meu era uma ameaça tangível. Seus olhos cinzentos, fixos nos meus a escassos milímetros, queimavam com uma mistura amarga de desconfiança e uma fome repentina que congelava a pulsação. Ele mantinha o braço bloqueando minha saída contra o vidro frio da janela e, por um segundo, o silêncio do quadragésimo andar pesou mais do que todo o edifício.— Jogo? — repeti, forçando minha voz a não tremer. — Acha que estou jogando com o senhor, senhor Sterling?— Não me chame assim quando acaba de pisotear o único segredo que mantive trancado a sete chaves durante vinte anos — sibilou ele, encurtando ainda mais a distância. Seu hálito de café e sândalo me envolveu por completo. — A família Cruz. O que você procura exatamente? Chantagem? Uma indenização? Ou veio terminar o trabalho que a mulher daquela foto começou?A humilhação me atingiu no peito antes da raiva. Pensei na minha mãe em casa, com as costas curvadas de dor sobre a mesa, tentando estica
O relógio da recepção marcava sete e cinquenta e oito da manhã quando o elevador privativo da torre Sterling International emitiu um sinal sonoro metálico, seco e sem nuances.Eu não levantei os olhos de imediato. Tinha os dedos apertados contra o caderno de capa gasta que levava na bolsa; um hábito bobo, mas era a única coisa que me lembrava de onde eu vinha e para onde não pretendia voltar.Tinha passado os últimos dois meses acumulando cobranças na mesa da cozinha, vendo minha mãe disfarçar a dor nas costas enquanto tentava sorrir para não me preocupar.Após uma demissão injusta no meu emprego anterior — onde me usaram como bode expiatório para encobrir o desfalque de um superior —, estar de pé no quadragésimo andar deste arranha-céu não parecia um triunfo, mas sim a última trincheira.Precisava deste emprego de assistente executiva para pagar os remédios da mamãe e renegociar as dívidas médicas antes que nos tirassem a casa. Não podia me dar ao luxo de falhar.— Bom dia. Sou Valer







