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Capítulo 4 - Lucas

작가: Maya B. Voss
last update 게시일: 2026-10-11 00:26:18

Lucas me avisou no sábado à noite, quando eu já estava de saída.

— Minha mãe vem almoçar amanhã.

Parei com a mão na maçaneta.

— Amanhã?

— Ela quer conhecer você.

— Ela já me conhece.

Lucas desviou o olhar para a escada, onde Theo tinha esquecido um dinossauro de plástico.

— Eu sei.

Foi tudo o que disse.

— Você não precisa estar presente — acrescentou. — Posso pedir que fique com o Theo no jardim.

— Seria pior.

— Por quê?

— Porque ela ia perceber que eu estou fugindo.

Ele não discordou.

Dirigi até o hospital sem ouvir o rádio. Minha avó dormia quando cheguei, e fiquei sentada ao lado da cama até a enfermeira avisar que o horário de visita tinha acabado.


Eu não via aquela mulher havia quatro anos.

Lembrava dela com a clareza dos momentos que a gente gostaria de esquecer. O perfume discreto. As mãos sempre impecáveis. A forma de falar sem pressa, como se o mundo esperasse até ela terminar a frase.

Lembrava também do corredor do hospital. Da mão dela sobre a minha. Da voz baixa dizendo “ele não sobreviveu”.

No domingo, às onze da manhã, eu estava na cozinha ajudando Theo a lavar as mãos quando ouvi o carro no portão.

— A vovó chegou! — ele gritou, e saiu correndo.

Sequei as mãos no pano de prato. Estavam úmidas por outro motivo.

Respirei fundo.

Eu não ia quebrar. Tinha repetido isso tantas vezes que a frase já nem soava como promessa.

Quando cheguei à sala, ela já estava lá.

Vestido claro, cabelo preso, um colar pequeno de pérolas. Theo pendurado em sua cintura, e ela com a mão nas costas dele, sorrindo como quem pertencia àquele quadro. Atrás dela, Lucas, de braços cruzados.

Ela levantou os olhos.

Por um instante, nenhuma de nós se moveu.

— Alice.

Disse meu nome com suavidade. Sem espanto. Como se eu tivesse chegado a um compromisso marcado.

— Senhora.

— Faz tanto tempo.

— Faz.

— Você está diferente.

— O tempo faz isso.

Ela sorriu.

— Faz mesmo.

Theo olhou de uma para outra.

— Vocês já se conheciam?

Lucas respondeu antes de mim.

— Uma época, filho.

— De quando?

— De antes de você nascer.

Meu estômago se contraiu. Segurei o olhar de Theo e sorri para ele, como se aquilo fosse apenas uma informação qualquer.

— Vamos almoçar? — ela disse. — Estou com fome.


A mesa era grande demais para quatro pessoas. Theo sentou entre mim e Lucas. Ela ficou de frente para nós.

Nos primeiros minutos, ninguém falou nada importante. A cozinheira serviu o assado. Lucas cortou a carne de Theo. A mãe elogiou a casa, o cardápio, a camisa do neto.

Mas ela observava.

Eu sentia o olhar dela a cada gesto: quando limpei a boca de Theo com o guardanapo, quando ele pediu água e eu servi sem pensar, quando corrigi sua postura com dois dedos.

— Você tem jeito com crianças — ela disse.

— Obrigada.

— Isso é raro hoje em dia.

— Eu gosto do que faço.

— Dá para ver.

Ela cortou um pedaço de carne com precisão.

— E onde você esteve esses anos, Alice?

Lucas parou de mastigar.

— Em lugares diferentes — respondi. — Trabalhando.

— Sempre com crianças?

— Na maior parte do tempo.

— Que bom que encontrou o seu caminho.

Disse com tanta gentileza que levei alguns segundos para sentir o corte.

— Mãe — Lucas falou.

— O que foi, querido? Estou conversando.

Theo, alheio a tudo, levantou a mão.

— A Alice conta histórias de dinossauro melhor que você, papai.

— Eu sei — Lucas respondeu.

A mãe riu baixinho.

— Dá para perceber que ele gosta muito de você.

— Eu também gosto dele.

— Claro. — Ela ajeitou o guardanapo no colo. — Crianças se apegam rápido. Isso é bonito, mas também pode ser perigoso.

— Perigoso por quê?

— Porque as pessoas passam, Alice.

Ela me olhou direto.

— E as crianças ficam.

O garfo parou na minha mão.

Ao meu lado, senti Lucas se mexer na cadeira.

— Theo — ele disse —, vai buscar aquele desenho que você fez ontem para mostrar para a vovó.

O menino saiu correndo.

Quando o som dos passos desapareceu, o silêncio ocupou mais espaço do que a mesa.

— Era isso que você queria dizer? — Lucas perguntou.

— Eu só estou cuidando do meu neto.

— Ele está bem cuidado.

— Não duvido. — Ela voltou os olhos para mim. — Só gosto de conhecer as pessoas que passam tempo com ele.

— E o que a senhora conheceu? — A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Uma moça educada. Dedicada. Que parece precisar muito deste emprego.

Senti o rosto esquentar.

Não era vergonha. Era raiva.

Mas lembrei do silêncio que Lucas tinha me pedido. Do que aquela mulher era capaz de fazer com uma única palavra minha fora do lugar.

Apertei o guardanapo sob a mesa.

— Preciso, sim — respondi. — Minha avó está doente.

Ela assentiu devagar.

— Sinto muito. Espero que melhore.

A voz era a mesma de sempre.

Eu não acreditei.

Mas assenti também.


Ela foi embora depois da sobremesa. Despediu-se de Theo com beijos demais, de Lucas com um toque no braço, de mim com um aceno.

— Foi um prazer, Alice.

— Para mim também.

Nós duas mentimos.

Quando o carro dela saiu do portão, Lucas fechou a porta e ficou de costas, com a mão apoiada na madeira.

— Desculpa.

— Pelo quê?

— Por tudo o que ela disse.

— Ela não disse nada que pudesse ser repetido.

Ele se virou.

— Eu sei. É assim que ela trabalha.

Não respondi.

Theo voltou correndo com o desenho: um dinossauro enorme e uma pessoa pequena, de mãos dadas.

— Esse é o rex. E essa é a Alice.

Peguei o papel.

Meu peito apertou.

— É lindo, Theo.

— Eu ia dar para a vovó, mas ela já foi.

— Pode dar para mim.

Ele sorriu, satisfeito.

Mais tarde, com o menino brincando no tapete da sala, olhei o desenho outra vez.

Depois olhei para Lucas, do outro lado do cômodo.

Ele também me olhava.

Nenhum de nós disse nada.

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