홈 / Romance / A Presa Favorita do Alfa / Capítulo 5 - Alice

공유

Capítulo 5 - Alice

작가: Maya B. Voss
last update 게시일: 2026-10-11 05:55:42

Na segunda-feira, cheguei à casa de Lucas às oito em ponto e quase desejei que o relógio estivesse errado.

Tinha passado a noite repassando o almoço. A voz da mãe dele. O jeito como ela disse “as crianças ficam”, sem alterar o tom, como quem comenta o clima. Eu conhecia aquela técnica. Ela não ameaçava. Plantava uma frase e deixava o tempo fazer o resto.

Theo me esperava na escada, de pijama, com o desenho do dinossauro na mão.

— Eu pendurei na geladeira — ele avisou. — Com o ímã de pizza.

— Obrigada.

— A vovó disse que lá na casa dela não pode.

— Por quê?

— Porque na casa dela as coisas ficam no lugar. — Ele deu de ombros. — Mas eu disse que na minha casa pode.

Sorri.

Era fácil sorrir para ele.

Descemos juntos para o café. Theo subiu na cadeira, pegou uma torrada e falou de boca cheia, como fazia quando queria parecer despreocupado e não conseguia.

— A vovó falou uma coisa.

— O quê?

— Que as babás vão embora quando cansam.

A xícara que eu segurava ficou parada no ar.

Escolhi as palavras antes de abrir a boca.

— Ela falou isso para você?

— Baixinho. Quando você foi buscar o suco. — Ele me olhou, atento. — Você vai cansar?

Havia tanta seriedade naquela pergunta que meu peito apertou.

Sentei na cadeira ao lado dele.

— Theo, olha para mim.

Ele olhou.

— Eu não estou cansada. Estou aqui porque quero estar.

— Promete?

Aquela palavra de novo.

Não prometi.

— Eu venho todo dia. Combinado?

Ele pensou.

— Combinado.

— Alice.

Levantei os olhos. Lucas estava na porta da cozinha, com o paletó dobrado no braço. Tinha ouvido tudo. O maxilar estava tenso, o olhar mais escuro que o normal.

— Theo, vai escovar os dentes.

— Eu já...

— De novo.

O menino saiu resmungando.

Lucas esperou o som dos passos sumir.

— Desculpa.

— Você pede desculpas demais pelas coisas que ela faz.

— Não tenho outra coisa a oferecer.

Ele atravessou a cozinha e serviu café em duas xícaras. Uma colocou na minha frente, sem perguntar. Com leite, sem açúcar.

Quatro anos depois, ele ainda lembrava.

Fingi não perceber.

— Ela fala assim com ele?

— Não que eu saiba. — Ele apoiou as mãos na bancada. — Mas também nunca me dei ao trabalho de ouvir direito.

— E agora?

— Agora estou ouvindo.

Ficamos em silêncio.

— Preciso te perguntar uma coisa — ele disse. — Sobre aquela noite.

Meu estômago apertou.

— Pergunta.

— O médico que fez o seu parto. Você lembra do nome? De qualquer detalhe?

Fechei os olhos.

Eu tinha tentado apagar cada segundo daquela noite. Mas algumas coisas ficam gravadas sem pedir licença.

— Era um homem mais velho. Cabelo grisalho. — Fui devagar, procurando. — Ele não olhava para mim. Olhava para a prancheta, o tempo todo.

— Só isso?

— Tinha uma aliança larga, dourada. E uma tosse seca. Tossia entre uma frase e outra.

Abri os olhos.

Lucas anotava no celular, com a concentração de quem decifra um contrato.

— O nome — insistiu.

— Não lembro. Eu estava com dor.

— Sei.

Ele guardou o celular.

— Vou pedir para o Rafael procurar. Com discrição.

— Quem é Rafael?

— Meu advogado. Confio nele.

— Você disse que não confia em ninguém.

— Disse. — Ele me olhou. — Mas confio nele mais do que na minha própria família.

A frase dizia mais do que ele queria.

Tomei o café devagar. Estava na temperatura certa.


À tarde, Theo e eu estávamos no chão da sala, cercados de giz de cera, desenhando um castelo cujo rei era um dinossauro.

— Esse é o dragão — ele explicou.

— Achei que era um dinossauro.

— Dinossauro que cospe fogo é dragão.

— Faz sentido.

Ele coloriu o rei de azul. Depois parou.

— Alice?

— Oi.

— Você tem mamãe?

A pergunta me pegou desprevenida.

— Eu fui criada pela minha avó. Foi ela quem cuidou de mim.

— Então você é igual a mim.

— Como assim?

— Meu papai disse que minha mamãe não pôde ficar. — Ele falou com naturalidade, sem tristeza, como quem repete uma informação que sabe de cor. — Mas que ela me queria muito.

Não consegui responder de imediato.

Ele continuou colorindo.

— Eu não tenho mamãe. Tenho papai e a vovó. E agora você.

Engoli em seco.

— Eu sou a sua babá, Theo.

— Eu sei. — Ele ergueu o giz azul. — Mas pode ser as duas coisas.

Minhas mãos tremiam. Peguei um giz qualquer só para ter o que segurar.

— Pode — respondi.

A voz saiu baixa demais.

— Vamos pintar o castelo?

— Vamos.


Fui ao hospital no fim do dia. Minha avó estava sentada na cama, mais corada do que na semana anterior, assistindo a um programa de culinária com o volume quase no mudo.

— Você está com cara de quem não dormiu.

— Dormi.

— Mentirosa. — Ela deu um tapinha no colchão. — Senta.

Sentei.

Eu poderia ter contado tudo. O almoço. A pergunta do Theo. O médico de cabelo grisalho e a tosse seca. Mas minha avó já carregava peso demais.

— A senhora lembra do hospital onde eu tive o bebê?

Ela me olhou com atenção.

— Do hospital, lembro. Do médico, não.

— Só queria confirmar uns detalhes.

— Alice.

— Foi só curiosidade.

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Se um dia você quiser falar sobre isso, eu estou aqui.

— Eu sei.

Ela apertou minha mão.

Ficamos assistindo ao programa sem dizer nada.

Quando voltei para casa, já era tarde. Deitei sem trocar de roupa e fiquei olhando para o teto.

O celular vibrou.

Lucas.

Chegou bem?

Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.

Cheguei.

Os três pontinhos apareceram. Sumiram. Apareceram de novo.

Boa noite, Alice.

Boa noite.

Coloquei o celular sobre o peito e fiquei ouvindo o barulho da cidade lá fora.

이 작품을 무료로 읽으실 수 있습니다
QR 코드를 스캔하여 앱을 다운로드하세요

최신 챕터

  • A Presa Favorita do Alfa   Capítulo 12 - Lucas

    Acordei antes do despertador, com o corpo dolorido e uma sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.O escritório estava cinza. A cortina entreaberta deixava passar uma faixa fina de luz do amanhecer. O paletó escorregara até a cintura de Alice, e ela dormia de lado, com a mão fechada sobre meu peito, o cabelo espalhado pelo braço do sofá.Não me mexi.Fiquei olhando.Eu tinha estado com outras mulheres nos últimos quatro anos. Nenhuma passou a noite. Nenhuma conheceu a casa. Eu tinha regras, e elas me protegiam de qualquer coisa que se parecesse com isso.Agora estava deitado num sofá de couro duro, com o braço dormente, e não queria me mover por nada neste mundo.Aquilo devia me assustar.Assustava.Mas não o suficiente para me fazer sair dali.— Você está me olhando — Alice murmurou, sem abrir os olhos.— Estou.— É estranho.— Você dormiu comigo na faculdade e nunca reclamou.— Eu tinha vinte anos. Não sabia que você olhava.— Eu sempre olhei.Ela ab

  • A Presa Favorita do Alfa   Capítulo 11 - Alice

    Theo dormiu cedo naquela noite, cansado da festa, com o cartaz da família preso na parede por uma fita adesiva torta.— Você vai dormir aqui hoje? — ele perguntou, já de olhos fechados.— Vou.— No quarto de hóspedes?— No quarto de hóspedes.— Tá bom.Fiquei sentada na beira da cama até a respiração dele ficar funda e regular. Depois apaguei o abajur e saí sem fazer barulho.No corredor, parei.A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Havia uma fresta de luz dourada sob a porta do escritório, no fim do corredor.Eu tinha passado a tarde inteira repetindo a pergunta que Lucas me fez dois dias antes. E quando não tiver ninguém?Agora eu sabia a resposta.Esse era o problema.Caminhei até a porta, bati uma vez e abri sem esperar.Lucas estava de pé diante da janela, sem paletó, o colarinho aberto, um copo de uísque na mão que ele não tinha bebido. Virou quando me ouviu e ficou imóvel.— Theo?— Dormindo.— Aconteceu alguma coisa?— Não tem ninguém — falei.Ele demorou a

  • A Presa Favorita do Alfa   Capítulo 10 - Lucas

    Remarquei a reunião do conselho três vezes para estar naquela escola na sexta-feira.Minha assistente me olhou como se eu tivesse pedido para cancelar o Natal.— O senhor nunca remarcou nada por causa do Theo.— Então está na hora.Não expliquei mais.A escola ficava num bairro arborizado, com um pátio cheio de bandeirinhas coloridas e mesas dobráveis. Pais de terno, mães de salto, babás de uniforme, avós de bolsa grande. Theo nos esperava na entrada, com uma camiseta de dinossauro por cima do uniforme, segurando um cartaz com a palavra FAMÍLIA escrita em letras tortas.— Vocês demoraram!— Cheguei na hora — falei.— Dois minutos atrasado — Alice disse ao meu lado, e sorriu.

  • A Presa Favorita do Alfa   Capítulo 9 - Alice

    Não dormi.Fiquei deitada de olhos abertos até o teto ficar cinza, repassando os mesmos dez segundos. As mãos dele no meu cabelo. O balcão frio nas costas. A voz baixa pedindo que eu mandasse parar.Eu mandei.E ele parou.Era isso que me assustava. Não o que eu tinha sentido, mas a facilidade com que ele obedeceu. Eu passei quatro anos aprendendo a desconfiar de quem toma o que quer. Não sabia o que fazer com um homem que se afasta ao primeiro sinal.Levantei às seis. Tomei banho, prendi o cabelo, vesti a roupa mais sem graça que tinha na bolsa. Uma armadura de algodão cinza.Desci repetindo a mesma frase: você é a babá, você é a babá, você é a babá.Lucas já estava na cozinha.Camisa branca abotoada até o colarinho, paletó, gravata no lugar. O rosto, uma máscara de negócios. Do homem que me beijou contra um balcão restava apenas o perfume.— Bom dia, Alice.— Bom dia.— Há café.— Obrigada.Ele voltou ao tablet. Nem um olhar além do necessário.Era exatamente o que eu tinha pedido.

  • A Presa Favorita do Alfa   Capítulo 8 - Lucas

    O jantar com os investidores durou três horas a mais do que deveria.Sorri nos momentos certos. Apertei mãos. Assinei um memorando que não li até o fim, algo que eu nunca fazia. Quando o último deles me agradeceu pela “visão”, eu já tinha olhado o relógio pela quarta vez.Eu não estava pensando em fusões.Pensava numa melodia sem letra. Numa mulher encostada na cabeceira de uma cama, embalando meu filho. Numa manhã em que fiquei parado na porta da cozinha só para vê-la rir de uma panqueca queimada.— Tudo bem, Voss? — um deles perguntou.— Tudo.Mentira.Eu estava perdendo o controle da única coisa que sempre soube administrar: eu mesmo.Cheguei em casa à meia-noite e quarenta. O motorista abriu a porta do carro e eu entrei no hall sem acender a luz.Subi primeiro até o quarto de Theo. Ele dormia atravessado na cama, com o dinossauro de pelúcia debaixo do queixo. No criado-mudo havia um bilhete em letra de criança, corrigido por uma letra adulta: Papai, a Alice deu boa noite por você.

  • A Presa Favorita do Alfa   Capítulo 8 - Alice

    Acordei com um cobertor que eu não tinha puxado.Foi a primeira coisa que percebi, antes mesmo de abrir os olhos: o peso macio sobre os ombros, a lã contra o queixo. Demorei alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto de hóspedes. A chuva, reduzida a um chuvisco preguiçoso na janela. O lado da cama onde Theo tinha dormido, vazio.Eu não me lembrava de ter dormido.Sentei devagar e olhei para o cobertor. Era escuro, de tecido caro, com cheiro de cedro e de uma colônia que eu reconheceria em qualquer lugar.Não precisei de muito para entender quem o tinha trazido.Desci a escada descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito. Do hall já dava para ouvir: risadas de criança, o chiado de uma frigideira e a voz de Lucas, baixa e tensa.— Não é para virar ainda.— Mas está grudando!— É assim mesmo.— Papai, está queimando.Parei na porta da cozinha.Lucas Voss, CEO de uma das maiores empresas do país, estava de camisa social amarrotada, mangas dobradas até os cotovelos, brigando com

더보기
좋은 소설을 무료로 찾아 읽어보세요
GoodNovel 앱에서 수많은 인기 소설을 무료로 즐기세요! 마음에 드는 작품을 다운로드하고, 언제 어디서나 편하게 읽을 수 있습니다
앱에서 작품을 무료로 읽어보세요
앱에서 읽으려면 QR 코드를 스캔하세요.
DMCA.com Protection Status