로그인Rafael chegou ao meu escritório na terça-feira com uma pasta fina e a expressão de quem prefere trazer más notícias em silêncio.
— Você pediu discrição — disse, fechando a porta. — Então vou ser discreto até o fim.
— Fala.
Ele se sentou diante da mesa.
— Cabelo grisalho, aliança larga, tosse seca. Só com isso, a lista de obstetras que trabalharam naquele hospital há quatro anos tem onze nomes.
— Onze.
— Três se aposentaram, dois mudaram de estado e um morreu. — Ele abriu a pasta. — Restam cinco que eu ainda não consegui localizar.
— E os arquivos?
— Continuam “em transferência”. — Rafael fez aspas com os dedos. — Há quatro anos, Lucas. Nenhum hospital leva quatro anos para transferir prontuários.
Recostei na cadeira.
— Alguém está segurando.
— Ou alguém pediu para segurar.
Silêncio.
Rafael me conhecia havia mais de dez anos. Sabia quando eu estava perto de uma coisa que não queria dizer.
— Quer que eu comece pela sua mãe?
— Não.
— Seria mais rápido.
— Eu sei.
— Então por quê?
Porque minha mãe não deixava rastros por acaso. Porque, se eu mexesse no lugar errado, ela saberia antes de eu terminar de mexer. E porque eu ainda não conseguia pensar nela como alguém capaz de...
Não terminei o pensamento.
— Porque eu quero ter certeza antes de acusar — respondi.
Rafael me estudou por um instante.
— Isso é por causa dela?
— Dela quem?
— Lucas.
— É por causa de uma data que não fecha.
Ele não insistiu. Fechou a pasta e a deixou sobre a mesa.
— Vou manter a investigação fora dos registros da empresa. Ninguém precisa saber que existe.
— Ninguém. Inclusive os seguranças.
— Inclusive eles.
Ele se levantou. Na porta, parou.
— Você vai precisar de mais do que provas. De alguém por perto em quem confie de verdade.
Quando ele saiu, fiquei olhando para a pasta.
Eu tinha duas pessoas em quem confiava.
Uma tinha quatro anos.
A outra eu estava tentando não olhar por muito tempo.
✿✿✿
A tempestade começou no fim da tarde.
Primeiro foi o vento, que dobrou as árvores do jardim. Depois a chuva, tão forte que as janelas da sala pareciam tremer. Quando cheguei em casa, às sete, Alice estava no hall com a bolsa no ombro e o celular na mão.
— O hospital ligou. Minha avó está bem, mas as ruas estão alagando. Vou tentar sair antes que piore.
Olhei pela janela.
A rua já era um rio.
— Você não vai dirigir naquilo.
— Eu preciso...
— Alice.
Ela levantou os olhos.
— Fica. Tem um quarto de hóspedes no andar de cima.
— Não quero incomodar.
— Você não incomoda.
Ela hesitou.
Eu quase esperei que dissesse não. Quase quis que dissesse, porque assim seria mais fácil manter a distância que eu vinha tentando manter.
— Só esta noite — ela disse.
— Só esta noite.
Theo ficou eufórico. Jantamos os três na cozinha, ele contando uma história comprida sobre um dinossauro com medo de trovão, até que um relâmpago apagou a luz por dois segundos e ele se calou no meio da frase.
— Está tudo bem — Alice disse, antes que eu abrisse a boca.
— Eu não tenho medo — Theo respondeu. — O dinossauro é que tem.
— Claro.
Ele chegou a cadeira um pouco mais perto da dela.
Eu fingi não notar.
✿✿✿
Acordei com o grito.
Não lembrava de ter dormido. Estava no escritório, a cabeça apoiada no braço do sofá, o notebook ainda aceso. Lá fora, a chuva continuava.
O grito veio de novo. Curto, agudo, desesperado.
Theo.
Subi a escada de dois em dois degraus. A porta do quarto dele estava aberta, mas a cama, vazia.
Segui o som pelo corredor.
O quarto de hóspedes.
Parei na soleira.
Alice estava sentada na cama, encostada na cabeceira, com Theo no colo, o rosto dele enterrado em seu pescoço. Uma das mãos dela segurava a cabeça do menino. A outra fazia carinho em suas costas, num movimento lento, constante.
Ela cantava.
Sem letra. Uma melodia baixa, quase um sussurro, que subia e descia como respiração.
Eu conhecia aquela melodia.
Ela cantava para mim, nas noites em que eu não conseguia dormir antes das provas da faculdade. Eu dizia que não precisava de música nenhuma. E dormia em dez minutos.
Theo soluçava baixinho.
— Foi só um sonho — ela murmurava. — Já passou. Estou aqui.
— O trovão pegou o dinossauro...
— Pegou nada. Ele se escondeu embaixo da cama.
— Embaixo da cama tem monstro.
— Esse dinossauro é muito maior que qualquer monstro.
Theo riu, ainda com o nariz molhado.
Eu não me mexi.
Se me mexesse, a cena se desfazia. Eu sabia disso com a mesma certeza com que sabia ler uma planilha.
Alice levantou os olhos e me viu.
Não disse nada. Só fez um gesto pequeno com a cabeça: pode entrar.
Entrei.
Sentei na beira da cama. O colchão afundou sob meu peso e Theo, sem soltar o pescoço dela, esticou a mão e agarrou a minha.
— Papai.
— Estou aqui.
— Fica.
— Fico.
Ele fechou os olhos.
A respiração foi desacelerando. Primeiro o soluço, depois o tremor. Em cinco minutos, estava dormindo.
Alice não se mexeu. Eu também não.
— Ele faz isso sempre? — ela sussurrou.
— Só em noite de tempestade. Eu costumo ficar sentado ao lado dele até passar.
— E hoje?
— Hoje eu dormi.
Ela quase sorriu.
— Você parece cansado.
— Estou.
— Há quanto tempo?
— Quatro anos.
A resposta saiu antes que eu pudesse impedir.
Alice me olhou por um longo instante. A luz do abajur desenhava sombras suaves em seu rosto, e por um segundo tive a impressão de estar vendo as duas versões ao mesmo tempo: a menina que cantava para mim aos vinte anos e a mulher que embalava meu filho agora.
— Vai dormir, Lucas.
— Eu fico.
— Você não precisa.
— Eu sei.
Não saí do lugar.
Alice recostou a cabeça na cabeceira, ainda com Theo agarrado ao pescoço. Eu me ajeitei no pé da cama, com as costas contra a parede. A chuva batia no vidro numa cadência constante. Em algum momento, a melodia sem letra recomeçou, tão baixa que talvez eu a tenha imaginado.
Fechei os olhos só por um instante.
Quando os abri, a luz cinzenta da manhã já entrava pela janela.
Theo dormia de lado, com a mão debaixo da bochecha.
Alice dormia do mesmo jeito.
O mesmo ângulo do braço. A mesma curva dos dedos. O mesmo pequeno franzido entre as sobrancelhas.
Fiquei olhando para os dois por muito tempo.
Depois levantei sem fazer barulho e fui buscar um cobertor.
Acordei antes do despertador, com o corpo dolorido e uma sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.O escritório estava cinza. A cortina entreaberta deixava passar uma faixa fina de luz do amanhecer. O paletó escorregara até a cintura de Alice, e ela dormia de lado, com a mão fechada sobre meu peito, o cabelo espalhado pelo braço do sofá.Não me mexi.Fiquei olhando.Eu tinha estado com outras mulheres nos últimos quatro anos. Nenhuma passou a noite. Nenhuma conheceu a casa. Eu tinha regras, e elas me protegiam de qualquer coisa que se parecesse com isso.Agora estava deitado num sofá de couro duro, com o braço dormente, e não queria me mover por nada neste mundo.Aquilo devia me assustar.Assustava.Mas não o suficiente para me fazer sair dali.— Você está me olhando — Alice murmurou, sem abrir os olhos.— Estou.— É estranho.— Você dormiu comigo na faculdade e nunca reclamou.— Eu tinha vinte anos. Não sabia que você olhava.— Eu sempre olhei.Ela ab
Theo dormiu cedo naquela noite, cansado da festa, com o cartaz da família preso na parede por uma fita adesiva torta.— Você vai dormir aqui hoje? — ele perguntou, já de olhos fechados.— Vou.— No quarto de hóspedes?— No quarto de hóspedes.— Tá bom.Fiquei sentada na beira da cama até a respiração dele ficar funda e regular. Depois apaguei o abajur e saí sem fazer barulho.No corredor, parei.A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Havia uma fresta de luz dourada sob a porta do escritório, no fim do corredor.Eu tinha passado a tarde inteira repetindo a pergunta que Lucas me fez dois dias antes. E quando não tiver ninguém?Agora eu sabia a resposta.Esse era o problema.Caminhei até a porta, bati uma vez e abri sem esperar.Lucas estava de pé diante da janela, sem paletó, o colarinho aberto, um copo de uísque na mão que ele não tinha bebido. Virou quando me ouviu e ficou imóvel.— Theo?— Dormindo.— Aconteceu alguma coisa?— Não tem ninguém — falei.Ele demorou a
Remarquei a reunião do conselho três vezes para estar naquela escola na sexta-feira.Minha assistente me olhou como se eu tivesse pedido para cancelar o Natal.— O senhor nunca remarcou nada por causa do Theo.— Então está na hora.Não expliquei mais.A escola ficava num bairro arborizado, com um pátio cheio de bandeirinhas coloridas e mesas dobráveis. Pais de terno, mães de salto, babás de uniforme, avós de bolsa grande. Theo nos esperava na entrada, com uma camiseta de dinossauro por cima do uniforme, segurando um cartaz com a palavra FAMÍLIA escrita em letras tortas.— Vocês demoraram!— Cheguei na hora — falei.— Dois minutos atrasado — Alice disse ao meu lado, e sorriu.
Não dormi.Fiquei deitada de olhos abertos até o teto ficar cinza, repassando os mesmos dez segundos. As mãos dele no meu cabelo. O balcão frio nas costas. A voz baixa pedindo que eu mandasse parar.Eu mandei.E ele parou.Era isso que me assustava. Não o que eu tinha sentido, mas a facilidade com que ele obedeceu. Eu passei quatro anos aprendendo a desconfiar de quem toma o que quer. Não sabia o que fazer com um homem que se afasta ao primeiro sinal.Levantei às seis. Tomei banho, prendi o cabelo, vesti a roupa mais sem graça que tinha na bolsa. Uma armadura de algodão cinza.Desci repetindo a mesma frase: você é a babá, você é a babá, você é a babá.Lucas já estava na cozinha.Camisa branca abotoada até o colarinho, paletó, gravata no lugar. O rosto, uma máscara de negócios. Do homem que me beijou contra um balcão restava apenas o perfume.— Bom dia, Alice.— Bom dia.— Há café.— Obrigada.Ele voltou ao tablet. Nem um olhar além do necessário.Era exatamente o que eu tinha pedido.
O jantar com os investidores durou três horas a mais do que deveria.Sorri nos momentos certos. Apertei mãos. Assinei um memorando que não li até o fim, algo que eu nunca fazia. Quando o último deles me agradeceu pela “visão”, eu já tinha olhado o relógio pela quarta vez.Eu não estava pensando em fusões.Pensava numa melodia sem letra. Numa mulher encostada na cabeceira de uma cama, embalando meu filho. Numa manhã em que fiquei parado na porta da cozinha só para vê-la rir de uma panqueca queimada.— Tudo bem, Voss? — um deles perguntou.— Tudo.Mentira.Eu estava perdendo o controle da única coisa que sempre soube administrar: eu mesmo.Cheguei em casa à meia-noite e quarenta. O motorista abriu a porta do carro e eu entrei no hall sem acender a luz.Subi primeiro até o quarto de Theo. Ele dormia atravessado na cama, com o dinossauro de pelúcia debaixo do queixo. No criado-mudo havia um bilhete em letra de criança, corrigido por uma letra adulta: Papai, a Alice deu boa noite por você.
Acordei com um cobertor que eu não tinha puxado.Foi a primeira coisa que percebi, antes mesmo de abrir os olhos: o peso macio sobre os ombros, a lã contra o queixo. Demorei alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto de hóspedes. A chuva, reduzida a um chuvisco preguiçoso na janela. O lado da cama onde Theo tinha dormido, vazio.Eu não me lembrava de ter dormido.Sentei devagar e olhei para o cobertor. Era escuro, de tecido caro, com cheiro de cedro e de uma colônia que eu reconheceria em qualquer lugar.Não precisei de muito para entender quem o tinha trazido.Desci a escada descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito. Do hall já dava para ouvir: risadas de criança, o chiado de uma frigideira e a voz de Lucas, baixa e tensa.— Não é para virar ainda.— Mas está grudando!— É assim mesmo.— Papai, está queimando.Parei na porta da cozinha.Lucas Voss, CEO de uma das maiores empresas do país, estava de camisa social amarrotada, mangas dobradas até os cotovelos, brigando com







