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Capítulo 8 - Alice

작가: Maya B. Voss
last update 게시일: 2026-10-11 06:00:10

Acordei com um cobertor que eu não tinha puxado.

Foi a primeira coisa que percebi, antes mesmo de abrir os olhos: o peso macio sobre os ombros, a lã contra o queixo. Demorei alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto de hóspedes. A chuva, reduzida a um chuvisco preguiçoso na janela. O lado da cama onde Theo tinha dormido, vazio.

Eu não me lembrava de ter dormido.

Sentei devagar e olhei para o cobertor. Era escuro, de tecido caro, com cheiro de cedro e de uma colônia que eu reconheceria em qualquer lugar.

Não precisei de muito para entender quem o tinha trazido.

Desci a escada descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito. Do hall já dava para ouvir: risadas de criança, o chiado de uma frigideira e a voz de Lucas, baixa e tensa.

— Não é para virar ainda.

— Mas está grudando!

— É assim mesmo.

— Papai, está queimando.

Parei na porta da cozinha.

Lucas Voss, CEO de uma das maiores empresas do país, estava de camisa social amarrotada, mangas dobradas até os cotovelos, brigando com uma panqueca. O cabelo tinha sido penteado com os dedos. Theo, de pé numa cadeira ao lado dele, supervisionava com a seriedade de um chef.

— Bom dia — falei.

Os dois viraram ao mesmo tempo.

— Alice! O papai está fazendo panqueca. Está horrível.

— Obrigado pela confiança — Lucas respondeu.

Ele me olhou um segundo a mais do que deveria.

— Dormiu bem?

— Dormi. — Só então percebi que tinha descido com o cobertor nos braços. — Obrigada pelo quarto.

— Não precisa agradecer.

— E pelo cobertor.

Ele hesitou.

— Estava frio.

Era mentira, e nós dois sabíamos. O quarto estava abafado.

Theo puxou minha mão.

— Come panqueca com a gente.

Comi.

Estava mesmo horrível. Dura de um lado, crua do outro, com um formato que lembrava um mapa de ilha. Mas Lucas me observou mastigar com tanta expectativa que não consegui dizer nada além de “está ótima”.

— Mentirosa — ele disse baixinho.

— Eu não disse nada.

— Mentiu com o rosto.

Theo riu. Eu também.

Por um instante, a cozinha ficou pequena e quente. Eu, ele e Theo em volta da bancada, como...

Afastei o pensamento.

Quando Theo saiu correndo atrás do dinossauro de pelúcia, Lucas encostou na bancada e disse, sem me olhar:

— A música.

Meu coração disparou.

— Que música?

— A que você cantou ontem à noite.

— Eu cantei alguma coisa?

— Alice.

Mexi na borda do prato.

— É só uma melodia. Eu inventei.

— Não inventou. Você cantava para mim. Antes das provas.

Silêncio.

Eu nunca imaginei que ele lembrasse. Aquilo tinha sido tão pequeno, tão nosso.

— Não achei que você se lembraria — admiti.

— Eu lembro de tudo.

A frase ficou entre nós. Havia raiva nela, e algo mais.

— Lucas.

— Eu sei. — Ele levantou as mãos. — Você é funcionária da casa, eu sou seu chefe. Não vou ultrapassar isso.

— Ótimo.

— Só não gosto de ver você dirigindo em dia de tempestade.

— Isso não é ultrapassar?

— É uma opinião.

— Que ninguém pediu.

— Isso não a torna errada.

Quase sorri. Quase.

— Preciso ir ao hospital.

— A saída da rua ainda está bloqueada. — Ele pegou o celular. — O motorista leva você.

— Eu tenho carro.

— Eu mandei verificar. Não passa.

— Você mandou verificar o meu carro?

— Mandei.

— Você é impossível.

— Já me disseram.

Peguei a bolsa. Mas, ao passar por ele, senti seu olhar nas minhas costas, quente, atento, e percebi que minhas mãos tinham parado de tremer.


No hospital, minha avó me recebeu com um sorriso que me deixou desconfiada.

— Veio de carro de luxo.

— Como a senhora...

— A enfermeira viu da janela. — Ela alisou o lençol. — Dormiu na casa do rapaz?

— Dormi no quarto de hóspedes. Por causa da chuva.

— Hum.

— Vó.

— Não falei nada.

— A senhora fez aquele “hum”.

— Tenho direito ao meu “hum”.

Ri, e ela sorriu também. Estava com melhor cor. O médico tinha passado cedo: os exames novos saíam na sexta-feira, e a resposta ao tratamento era “dentro do esperado”. Eu me agarrei àquela frase como quem se agarra a um corrimão.

Fiquei duas horas. Penteei o cabelo dela, ouvi as fofocas do andar, descasquei uma laranja em gomos pequenos, do jeito que ela gosta. Quando fui embora, ela segurou minha mão por um segundo a mais.

— Você parece diferente.

— Diferente como?

— Mais leve.

— É impressão.

— Pode ser. — Ela me olhou com aquela atenção que não deixava passar nada. — Mas eu conheço o rosto de uma mulher que voltou a rir.

Não respondi.

Na volta, o motorista me deixou diante do portão e esperou até eu entrar. Outro gesto de Lucas, discreto e impossível de recusar.


Naquela noite, Lucas jantou fora. Um compromisso com investidores que não pôde adiar. Saiu com o terno escuro e a gravata impecável, o homem que as revistas conhecem, e antes de passar pela porta olhou para o filho e depois para mim.

— Volto tarde.

— Tudo bem.

Theo e eu jantamos macarrão no sofá, contra todas as regras da casa.

Depois do banho, ele se deitou e apertou o dinossauro contra o peito.

— O papai vem me dar boa-noite?

— Vem, mas talvez você já esteja dormindo.

— Então você dá por ele.

— Combinado.

— Alice?

— Oi.

— Canta aquela música.

Parei com a mão no interruptor.

— Qual música?

— A da chuva. Que você cantou no quarto.

— Você lembra?

— Eu estava com sono, mas lembro. — Ele se ajeitou. — Tem nome?

— Não.

— Toda música tem nome.

— Essa eu inventei. Nunca dei nome.

Ele pensou com a seriedade de sempre.

— Então a gente dá.

Sentei na beira da cama.

— Como você quer chamar?

— Música do Dinossauro Corajoso.

Quase ri.

— Combinado.

Cantei baixinho. A cada verso, os olhos dele ficavam mais pesados. Quando terminei, ainda ouvi um sussurro:

— Você também podia me dar um nome.

— Você já tem um nome, Theo.

— Mas um de dentro. Que só você sabe.

Meu coração apertou.

Eu nunca escolhi o nome do meu filho. Passei quatro anos sem saber como chamá-lo nem na minha própria cabeça. Tinha tentado uma vez, só uma, e doeu tanto que nunca mais.

Passei a mão no cabelo dele.

— Pode ser que eu pense em um.

— Promete?

— Eu vou pensar.

Ele sorriu, já dormindo.

Fiquei ali por muito tempo, olhando seu rosto, o peito subindo e descendo no ritmo calmo de quem se sente seguro.

Quando desci, a casa estava em silêncio. Peguei o celular. Nenhuma mensagem do hospital. Nenhuma de Lucas.

Fiquei um minuto olhando para a tela, sem saber o que esperava.

Então apaguei a luz da sala e fui para o quarto de hóspedes, onde o cobertor escuro continuava dobrado aos pés da cama.

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