INICIAR SESIÓNOs anos seguintes foram consumidos pela empresa.
Eu me joguei no trabalho.
Talvez fosse uma maneira de evitar pensar.
Meu pai começou a me preparar para assumir os negócios. Eu aceitei.
Aprendi tudo o que precisava.
Negociei contratos.
Cometi erros.
Corrigi erros.
Fiz aquisições.
Expandi a empresa.
Até que, aos poucos, deixei de ser o filho do dono e passei a ser o homem responsável por tudo.
O sobrenome Voss ganhou ainda mais peso.
E eu ganhei uma reputação.
Frio.
Controlador.
Difícil de negociar.
Eu não fazia questão de desmentir.
Era conveniente.
Ninguém precisava saber que, por trás daquele homem, existia alguém que ainda guardava documentos antigos dentro de uma gaveta que nunca abria.
Até meu filho nascer.
Quando recebi a notícia de que seria pai novamente, senti uma coisa que não experimentava havia anos.
Esperança.
Meu filho se tornou minha prioridade.
Eu não queria repetir os erros do passado.
Não queria que ele crescesse cercado pelas mesmas cobranças que haviam marcado minha infância.
Queria que tivesse uma infância normal.
Ou o mais próximo disso possível.
Ele era curioso, inteligente e tinha uma personalidade forte demais para alguém tão pequeno.
Também tinha o péssimo hábito de fazer perguntas nos momentos mais inconvenientes.
— Papai, por que você trabalha tanto?
— Porque tenho uma empresa.
— Então vende ela.
Eu ri.
— Não funciona assim.
— Por quê?
— Porque...
Parei.
Não havia resposta que uma criança pudesse entender.
Ele me observou por alguns segundos.
— Você gosta mais da empresa do que de mim?
A pergunta me atingiu em cheio.
Fechei o notebook.
— Nunca.
Ele sorriu.
— Então pronto.
Era assim.
Simples.
Meu filho conseguia desmontar toda a minha armadura com uma frase.
Mas havia um problema.
Eu trabalhava demais.
Viagens, reuniões, eventos, decisões importantes.
Mesmo levando-o comigo sempre que podia, eu sabia que precisava de alguém que estivesse presente quando eu não estivesse.
Uma babá.
Minha equipe começou a procurar candidatas.
Eu descartei várias.
Não confiava facilmente nas pessoas.
Principalmente quando envolvia meu filho.
Até que minha assistente apareceu em meu escritório com uma pasta.
— Encontrei alguém.
— Outra?
— Você nem viu o currículo.
— Não preciso.
Ela colocou a pasta diante de mim.
— Dê uma olhada.
Abri.
A primeira coisa que vi foi o nome.
Alice.
Parei.
Meu olhar ficou preso naquela única palavra.
— Alice o quê?
Minha assistente respondeu.
Eu não ouvi.
Não naquele momento.
Porque já tinha visto a fotografia.
Ela estava mais velha.
O cabelo diferente.
O rosto mais maduro.
Mas os olhos eram os mesmos.
Eu conhecia aqueles olhos.
Conhecia aquela mulher.
Fechei a pasta.
— Não.
— Lucas...
— Encontre outra pessoa.
— Ela tem ótimas referências.
— Eu disse não.
Minha assistente saiu.
Mas eu não consegui voltar ao trabalho.
Passei o restante da tarde olhando para a pasta fechada.
No final do expediente, pedi que ela voltasse.
— Quero falar com essa mulher.
Minha assistente ergueu uma sobrancelha.
— Você não acabou de dizer que não?
— Mudei de ideia.
Ela não perguntou mais nada.
Naquela noite, fui até um armário onde guardava alguns documentos antigos.
Não sabia exatamente o que estava procurando.
Talvez uma explicação.
Talvez uma prova de que eu estava ficando paranoico.
Encontrei os documentos referentes ao nascimento do meu primeiro filho.
Li as informações novamente.
Havia algo estranho.
Uma data não correspondia exatamente ao que eu lembrava.
Uma assinatura que eu não reconhecia.
Um registro que eu nunca tinha visto.
Fiquei encarando aquelas folhas durante vários minutos.
Então veio a pergunta que eu havia evitado por anos.
E se meu filho não tivesse morrido?
Pela primeira vez, permiti que aquela possibilidade existisse.
Foi o suficiente para que eu não dormisse naquela noite.
✿✿✿
Dois dias depois, Alice chegou à minha casa.
Eu estava no escritório quando ouvi a campainha.
Minha assistente avisou:
— A candidata chegou.
Meu coração acelerou.
Não deveria.
Eu era um homem adulto.
Não tinha mais vinte anos.
Não era o mesmo Lucas que esperava Alice na saída da faculdade.
Ainda assim, quando saí do escritório e a vi no hall, todas essas diferenças pareceram irrelevantes.
Ela estava ali.
Diante de mim.
Depois de tantos anos.
Alice me encarou.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
— Lucas.
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
— Alice.
Ela apertou a alça da bolsa.
— Eu não sabia que você morava aqui.
— Eu não sabia que você tinha se candidatado para trabalhar aqui.
— Se eu soubesse que era sua casa, talvez não tivesse vindo.
— Então por que veio?
Ela desviou o olhar.
— Preciso do emprego.
A resposta me irritou mais do que deveria.
Não porque fosse ruim.
Mas porque eu queria saber tudo.
Onde ela tinha estado.
Por que nunca voltou.
Se tinha pensado em mim.
Se havia me odiado.
Se havia conseguido esquecer.
Mas antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ouvi passos pequenos vindo do corredor.
— Papai?
Meu filho apareceu.
Alice virou o rosto.
E ficou imóvel.
Eu observei sua expressão mudar.
Ela não disse nada.
Meu filho olhou para ela com curiosidade.
— Quem é?
— Ela veio para uma entrevista.
Alice se agachou lentamente.
— Oi.
Meu filho sorriu.
— Você é a nova babá?
Ela soltou uma pequena risada.
— Ainda não sei.
— Eu espero que seja.
Alice olhou para ele.
Foi um olhar estranho.
Longo demais.
Intenso demais.
Ela tocou de leve o rosto do menino.
— Como você se chama?
— Theo.
Os dedos dela pararam.
— Theo...
Ela repetiu o nome baixinho.
Então levantou os olhos para mim.
Havia lágrimas neles.
— Ele tem quantos anos?
— Quatro.
Alice empalideceu.
Olhei para ela.
Depois para meu filho.
Depois novamente para Alice.
Quatro anos.
O mesmo período desde a noite em que meu primeiro filho supostamente havia morrido.
Minha mãe sempre disse que o bebê não tinha sobrevivido.
Mas, naquele instante, pela primeira vez, percebi que nunca havia visto seu corpo.
Nunca havia visto um registro incontestável.
Nunca havia recebido uma explicação diretamente dos médicos.
Eu simplesmente aceitei a versão que me deram.
E agora Alice estava na minha frente, olhando para meu filho como se alguma coisa dentro dela tivesse acabado de despertar.
— Lucas...
Ela pronunciou meu nome de maneira diferente.
— Sim?
Ela abriu a boca.
Mas não disse nada.
Meu filho segurou sua mão.
— Você pode ficar?
Alice olhou para ele.
Depois para mim.
— Posso?
Eu deveria ter dito não.
Deveria ter mandado aquela mulher embora antes que o passado encontrasse uma maneira de entrar na minha casa.
Mas havia algo naquele momento que me impedia.
Talvez fosse a expressão dela.
Talvez fosse a idade do meu filho.
Talvez fossem as perguntas que começaram a surgir em minha cabeça.
Ou talvez fosse simplesmente a sensação de que, depois de tantos anos, alguma coisa que eu julgava encerrada estava apenas começando.
— Fica — respondi.
Alice me encarou.
— Tem certeza?
Não.
Eu não tinha certeza de absolutamente nada.
Mas assenti.
— Sim.
Ela sorriu para Theo.
E eu observei os dois.
Meu filho segurava a mão dela como se a conhecesse havia muito tempo.
Alice o olhava como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa que não conseguia alcançar.
Naquele momento, tomei uma decisão.
Eu descobriria a verdade.
Mesmo que ela envolvesse minha mãe.
Mesmo que destruísse a família que eu conhecia.
Mesmo que Alice nunca mais quisesse olhar para mim depois de descobrir tudo.
Porque uma coisa estava começando a ficar impossível de ignorar.
Talvez o meu filho nunca tivesse morrido.
Talvez eu tivesse passado quatro anos acreditando em uma mentira.
E talvez a mulher que estava dentro da minha casa naquele momento tivesse sido roubada de algo muito maior do que eu jamais poderia imaginar.
Eu ainda não sabia o que aconteceria quando as peças finalmente se encaixassem.
Mas sabia de uma coisa.
Alice tinha voltado.
E, dessa vez, eu não permitiria que ninguém decidisse por mim o que eu tinha direito de saber.
Acordei antes do despertador, com o corpo dolorido e uma sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.O escritório estava cinza. A cortina entreaberta deixava passar uma faixa fina de luz do amanhecer. O paletó escorregara até a cintura de Alice, e ela dormia de lado, com a mão fechada sobre meu peito, o cabelo espalhado pelo braço do sofá.Não me mexi.Fiquei olhando.Eu tinha estado com outras mulheres nos últimos quatro anos. Nenhuma passou a noite. Nenhuma conheceu a casa. Eu tinha regras, e elas me protegiam de qualquer coisa que se parecesse com isso.Agora estava deitado num sofá de couro duro, com o braço dormente, e não queria me mover por nada neste mundo.Aquilo devia me assustar.Assustava.Mas não o suficiente para me fazer sair dali.— Você está me olhando — Alice murmurou, sem abrir os olhos.— Estou.— É estranho.— Você dormiu comigo na faculdade e nunca reclamou.— Eu tinha vinte anos. Não sabia que você olhava.— Eu sempre olhei.Ela ab
Theo dormiu cedo naquela noite, cansado da festa, com o cartaz da família preso na parede por uma fita adesiva torta.— Você vai dormir aqui hoje? — ele perguntou, já de olhos fechados.— Vou.— No quarto de hóspedes?— No quarto de hóspedes.— Tá bom.Fiquei sentada na beira da cama até a respiração dele ficar funda e regular. Depois apaguei o abajur e saí sem fazer barulho.No corredor, parei.A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Havia uma fresta de luz dourada sob a porta do escritório, no fim do corredor.Eu tinha passado a tarde inteira repetindo a pergunta que Lucas me fez dois dias antes. E quando não tiver ninguém?Agora eu sabia a resposta.Esse era o problema.Caminhei até a porta, bati uma vez e abri sem esperar.Lucas estava de pé diante da janela, sem paletó, o colarinho aberto, um copo de uísque na mão que ele não tinha bebido. Virou quando me ouviu e ficou imóvel.— Theo?— Dormindo.— Aconteceu alguma coisa?— Não tem ninguém — falei.Ele demorou a
Remarquei a reunião do conselho três vezes para estar naquela escola na sexta-feira.Minha assistente me olhou como se eu tivesse pedido para cancelar o Natal.— O senhor nunca remarcou nada por causa do Theo.— Então está na hora.Não expliquei mais.A escola ficava num bairro arborizado, com um pátio cheio de bandeirinhas coloridas e mesas dobráveis. Pais de terno, mães de salto, babás de uniforme, avós de bolsa grande. Theo nos esperava na entrada, com uma camiseta de dinossauro por cima do uniforme, segurando um cartaz com a palavra FAMÍLIA escrita em letras tortas.— Vocês demoraram!— Cheguei na hora — falei.— Dois minutos atrasado — Alice disse ao meu lado, e sorriu.
Não dormi.Fiquei deitada de olhos abertos até o teto ficar cinza, repassando os mesmos dez segundos. As mãos dele no meu cabelo. O balcão frio nas costas. A voz baixa pedindo que eu mandasse parar.Eu mandei.E ele parou.Era isso que me assustava. Não o que eu tinha sentido, mas a facilidade com que ele obedeceu. Eu passei quatro anos aprendendo a desconfiar de quem toma o que quer. Não sabia o que fazer com um homem que se afasta ao primeiro sinal.Levantei às seis. Tomei banho, prendi o cabelo, vesti a roupa mais sem graça que tinha na bolsa. Uma armadura de algodão cinza.Desci repetindo a mesma frase: você é a babá, você é a babá, você é a babá.Lucas já estava na cozinha.Camisa branca abotoada até o colarinho, paletó, gravata no lugar. O rosto, uma máscara de negócios. Do homem que me beijou contra um balcão restava apenas o perfume.— Bom dia, Alice.— Bom dia.— Há café.— Obrigada.Ele voltou ao tablet. Nem um olhar além do necessário.Era exatamente o que eu tinha pedido.
O jantar com os investidores durou três horas a mais do que deveria.Sorri nos momentos certos. Apertei mãos. Assinei um memorando que não li até o fim, algo que eu nunca fazia. Quando o último deles me agradeceu pela “visão”, eu já tinha olhado o relógio pela quarta vez.Eu não estava pensando em fusões.Pensava numa melodia sem letra. Numa mulher encostada na cabeceira de uma cama, embalando meu filho. Numa manhã em que fiquei parado na porta da cozinha só para vê-la rir de uma panqueca queimada.— Tudo bem, Voss? — um deles perguntou.— Tudo.Mentira.Eu estava perdendo o controle da única coisa que sempre soube administrar: eu mesmo.Cheguei em casa à meia-noite e quarenta. O motorista abriu a porta do carro e eu entrei no hall sem acender a luz.Subi primeiro até o quarto de Theo. Ele dormia atravessado na cama, com o dinossauro de pelúcia debaixo do queixo. No criado-mudo havia um bilhete em letra de criança, corrigido por uma letra adulta: Papai, a Alice deu boa noite por você.
Acordei com um cobertor que eu não tinha puxado.Foi a primeira coisa que percebi, antes mesmo de abrir os olhos: o peso macio sobre os ombros, a lã contra o queixo. Demorei alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto de hóspedes. A chuva, reduzida a um chuvisco preguiçoso na janela. O lado da cama onde Theo tinha dormido, vazio.Eu não me lembrava de ter dormido.Sentei devagar e olhei para o cobertor. Era escuro, de tecido caro, com cheiro de cedro e de uma colônia que eu reconheceria em qualquer lugar.Não precisei de muito para entender quem o tinha trazido.Desci a escada descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito. Do hall já dava para ouvir: risadas de criança, o chiado de uma frigideira e a voz de Lucas, baixa e tensa.— Não é para virar ainda.— Mas está grudando!— É assim mesmo.— Papai, está queimando.Parei na porta da cozinha.Lucas Voss, CEO de uma das maiores empresas do país, estava de camisa social amarrotada, mangas dobradas até os cotovelos, brigando com







