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Author: LuadMel
last update publish date: 2026-10-30 06:20:24

A porta fechou rapidamente escondendo o escritório do homem. Amélia engoliu a seco olhando para o currículo na mão, e depois para a madeira.

Virou devagar dando um sorriso pequeno.

Ergueu a cabeça atravessando aquele corredor pisando com tanto ódio que nem se conhecia. Seus olhos se encheram de lágrima enquanto chegava à rua. A chuva tinha aumentado assim como sua lista de fracasso.

Outra vez parada na rua.

Novamente naquele metro.

Mas diferente, abriu a porta da sua casa jogando sua bolsa de um lado, chutou os sapatos para o outro e desfez os botões de seu vestido atrás o tirando rapidamente e jogando o mais longe possível.

Gritou alguma coisa que seus vizinhos reclamariam depois e só então, respirou fundo finalmente podendo deixar uma lágrima cair.

O mundo lá fora, aqueles que a rejeitavam não iria lhe ver chorar depois de outro dia péssimo.

Percorreu todo o apartamento chegando à cozinha subindo dois degraus. A geladeira quase vazia, mais ao menos tinha uma coisa que amava, leite.

Só abriu, bebeu na caixa mesmo sentindo pequenas gostas escorrerem de seus lábios. Se alguém estava a assistindo pelas janelas abertas junto às cortinas que não gostava de fechar, pois não sabia quando voltaria para casa, tinha a mais bela visão de uma mulher seminua se deliciando com uma caixa de leite ao mesmo tempo em que chorava...

Seu apartamento precisava de luz.

Sua casa, sua alma, sua vida.

Tudo precisava de luz.

Vagou pela cozinha descendo para a sala novamente, tudo organizado como se lembrava da última vez. Foi para o corredor parando em frente ao quarto de Bento que um dia foi o seu ponto de diversão mais desejado.

Seguiu para o seu, o cômodo da casa mais desorganizado. Ignorou com louvor indo direto para o banheiro. Parou em frente a pia olhando para seus olhos grandes e verdes. Naquele dia havia optado por não usar maquiagem, mas uma sombra leve e os lábios pintados de um nude simples lhe davam um complemento perfeito para o crescimento deles.

O cabelo armado em um coque, poucos cachos ao redor do rosto.

Mergulhou sua cabeça entre as mãos trazendo água para eliminar tudo aquilo. Qualquer vergonha, ódio, raiva, tristeza, sua dor, tudo, tudo poderia ser levado junto com a água.

De repente, ela levantou e foi como se tivesse tido um dejavu, seu corpo estremeceu ao imaginar encontrar aquele homem da noite passada. Se virou tão rápido que teve que se apoiar na pia erguendo suas pernas.

Não havia ninguém além do roupão negro e a toalha ao lado.

Seus lábios se fecharam devagar, colocou os pés no chão, desceu o olhar para as pernas, ele esteve ali, daquela forma, ajoelhado sob seus olhos como um príncipe que deveria lhe carregar e levar para o castelo, cuidar da sua alma, e do seu corpo.

A quentura lhe bateu rapidamente, lhe fazendo sorrir.

— Ele era um homem muito bonito — Virou devagar encarando o espelho outra vez — Tão bonito, mas me viu como apenas uma bagunça que tinha que organizar, nada muito diferente dos outros que me veem.

Suspirou parando para lembrar bem, do quanto aquele homem era alto, os cabelos negros, assim como seus olhos, até o tecido de sua roupa, a forma como tocou em sua pele. Não sentiu nojo, mas uma queimação. Apenas em lembrar, conseguia sentir o toque em sua perna. E ele poderia ter feito mais, subido por suas coxas, tocado no ponto de prazer a qual buscava por ele.

E só sabia, porque sentiu sua calcinha molhar.

Riu de novo.

Uma garota de vinte anos.

Sem namorado.

Peguetes.

Sem dinheiro para sair para festas.

Sem condições de buscar um homem.

— E virgem. Não posso me esquecer desse detalhe. — Riu sozinha de novo.

De repente, as palavras de Eliza vieram a sua mente, poderia vender sua virgindade por milhões, pagar suas dividas ajudar seu irmão, ir para viagens que sempre sonhou, terminar a faculdade e comprar outro apartamento, um que não fosse o da sua família, que não tivesse tantas e tantas lembranças de seus pais.

Minutos mais tarde, Amélia adentrou o hospital carregando sua bolsa transversal preferida, dentro de outro vestido verde longo, e um casaco do mesmo tamanho. Não chamava atenção pelas roupas coloridas, mas sim, pelos cabelos ruivos que balançavam de um lado para o outro, os cachos brincavam em sua cabeça. Os olhos verdes brilhando, e nem eram pelas lágrimas que iria derramar em breve ao contar a Bento que não tinha conseguido nada naquele dia também.

Ao chegar ao quarto, desceu as sobrancelhas ao ver aquele homem aplicando todos os remédios em Bento.

— Oi. — Chamou atenção, o homem lhe olhou rapidamente voltando a seu serviço.

— Amélia, você chegou. Achei que não viesse hoje. Sempre chega mais cedo, já estávamos brigando para vir dormir no quarto do Bento.

— Brigando? — Ela colocou a bolsa perto da cama indo até ela para ver Bento, o rosto angelical, o sorriso fino. Nada havia mudado.

— Não é brigando, brigando, mas o Bento é um paciente fofo, silencioso e você sempre está aqui, não é? É uma boa companhia de toda forma — Amélia lhe encarou — Não que a gente queira que você fique pra sempre aqui, não estou dizendo isso.

— Não precisa explicar, Kaylor — Ele concordou administrando os últimos medicamentos e sorriu para a garota — Eliza não veio?

— Estava aqui pela manhã, mas essa desgraçada foi embora dizendo ter uma emergência, só disse "cubra meu turno, por favor, eu pago os lanches da semana" — tirou as luvas jogando na lixeira — Eu não sei de onde ela tira tanto dinheiro. Sabe quanto é uma coxinha aqui no hospital? SABE? — Amélia cruzou os braços dando uma risada.

— Eu imagino o desespero, mas é estranho, será algo com a mãe dela?

— Hm... Se fosse algo muito grave, já tínhamos ficado sabendo, ela posta tudo — Amélia concordou.

Kaylor, então, cruzou as mãos para trás enquanto se aproximava da cama de novo, houve um momento de silêncio. E ele tinha que ficar em silêncio.

— Você sabe que estou aqui para aprender com o Dr. Marco, não é? — Amélia lhe encarou de novo, mas cansada — Ele sabe de tudo sobre os procedimentos do Bento. Sabe da cirurgia e o que pode fazer. E até disse a Raquel a nossa maravilhosa cirurgiã geral, que pagaria pelas despesas dessa cirurgia. Só precisava conversar com você antes.

— O que? — Ela sorriu, mas então parou — Aquele homem faria isso?

— É, ele faria, mas não do jeito que você está pensando — Se aproximou mais, com cautela, Amélia não demorou a entender — Ele tem uma fama Amélia, e você sabe... Tenho certeza que já deve ter falado alguma coisa em seus ouvidos — Cantarolou a última parte fazendo Amélia recuar — Eu não acho que o preço da vida do seu irmão, tenha que ser pago com... pequenos... sacrifícios.

— Sacrifícios?

— Dormir com o Dr. Marco é um sacrifício em QUALQUER circunstância — Amélia sentiu o rosto ficar vermelho, descruzou os braços dando um passo para trás.

Não, aquilo jamais iria acontecer.

— Eu não seria capaz de fazer isso nem pela minha vida. — Avisou rápido. Dando uma pequena volta pelo quarto e então parou de novo em frente à Kaylor — Sei que não é com você que tem falar, mas peça para a Dr. Raquel para falar comigo antes de aceitar qualquer coisa vinda desse homem que será passado a mim, ou ao meu irmão. Eu não estou em condições de exigir muito, afinal, só estou aqui, meu irmão só está aqui porque ela o mantém aqui. Eu jamais conseguiria mantê-lo em um hospital particular.

— Calma. Todo mundo tem certa admiração por você, por sua garra e persistência. E também, porque você é bonita demais, e chama atenção. Já pensou em ser modelo?

Amélia pensou em falar, se afastou, pensou de novo, e então sorriu.

— É só o que as pessoas veem em mim, não é? — Kaylor deu de ombros — Beleza?

— Culpe seus pais — Jogou. Olhou o relógio — Tenho que ir; ainda tem mais dois pacientes e nem são meus. Céus, como eu odeio aquela patricinha de merda.

Saiu da sala reclamando mais um pouco.

Amélia não disse nada por um tempo, se aproximou das janelas ainda vendo a chuva fria cair, seu reflexo mostrava os cachos definidos crescendo ainda mais ao redor. Até mesmo ali conseguia ver as luzes refletirem dentro de seus olhos tão claros quanto o vestido que usava.

Foi até a bolsa, ligou duas vezes para Eliza, ela não atendeu. Mandou mensagens, mas não teve resposta.

Olhou para Bento da cama de novo, fechou sua bolsa e saiu.

-

-

Eliza havia caprichado na produção. Seus olhos verdes azulados estavam então marcados por uma sobra negra espumada para todos os lados. Uma gata com toda certeza. O vestido escolhido era um azul para combinar com os olhos, mas deixava suas pernas a mostra, e o decote curto, porém totalmente revelador, mostrava o quanto ela estava empenhada em seduzir aquele homem.

O carro parou exatamente no horário em que foi determinado, e ela expirou tão profundamente sentindo seu perfume doce, o seu preferido. Mordeu os lábios quando um homem desceu do carro dando a volta e abriu para que ela pudesse entrar. Essa assim, sair com um homem rico, milionário era ter tudo aos seus pés apenas com um olhar.

— Eles são bem pontuais — Sua mãe parou logo atrás com um meio sorriso — Dê o seu melhor. Não, mais que isso, se conseguir seduzir aquele homem, ser sua amante por muito tempo, ganhará para a vida toda. — Eliza virou devagar para encarar a mulher mais velha, o sorriso pequeno, o olhar cheio de interesse — Alexander Haeys já dormiu com algumas mulheres, e sempre pagou muito bem por elas. Pelo menos é o que dizem. Não sabemos quem são, mas aposto que é verdade.

Eliza não respondeu, deu as costas a sua mãe seguindo para o carro que lhe esperava, e esse mesmo carro, tomou partida poucos segundos depois lhe levando para um mundo que ela nunca sonhou em estar.

Aquele lado da cidade era mais calmo, escondido.

Um condomínio de luxo com seguranças aramados.

Casas grandes cobertas por árvores longas e câmeras como se temessem o pior.

Logo, o carro parou e um portão se abriu dando a ela a visão da casa de Alexander Haeys, uma mansão pouco iluminada.

A frente era escura, não havia nada vivo, ao menos. O chafariz era a única coisa que parecia ter viva, jorrando sua água, dando felicidade aos peixes que nadavam.

Novamente, a porta do carro foi aberta e uma mão lhe foi estendida, pegou. Desceu, sorridente e determinada.

Quando enfim pisou dentro da mansão, o coração acelerou. Aquele lugar era escuto, uma mera luz ao redor, mostrando pouco, e ainda assim, tudo. Tão organizado e luxuoso. Limpo, cheiroso, tudo ao mesmo tempo.

— Senhorita... — Eliza se virou de repente vendo uma mulher descer as escadas com uma pasta na mão. As duas se entreolharam de cima abaixo — A boate te mandou?

— Sim. Eu mesma.

— Hm. Do jeito que Alexander falou, achei que fosse... — A palavra ficou no ar, porque pela admiração e urgência que foi mandada para buscar a garota cacheada da boate, esperava que sua beleza fosse grandiosa, como de uma deusa. — Enfim, pode me seguir, ele vai recebê-la.

Ana tornou a subir trazendo a garota mais atrás, outra vez, a ala norte estava tão fria e sem vida, ela tinha certeza que tudo isso vinha de Alexander Haeys, a pedra de gelo inquebrável que conhecia.

— Espere um minuto, preciso te anunciar.

Eliza assentiu mais empolgada.

Ajeitou o decote.

Os saltos.

Mexeu no cabelo.

Estava pronta.

Ana voltou para dentro da sala, e rapidamente pegou seu chefe revendo outros papéis a qual tinha deixado. Porém, quando a viu, ergueu os lábios já sabendo do que se tratava.

Levantou de repente.

Deixou de tudo de lado.

Deu a volta na mesa procurando a resposta nos olhos da secretaria.

— Então...

— Ela está lá fora.

— Mande-a entrar.

Foi tudo o que disse antes de dar as costas a tudo e ir direto para a adega particular, pegou seu uísque preferido, lhe serviu rápido provando o liquido que adorava.

Fechou os olhos lembrando-se de como a viu pela a primeira vez, estava agachada, a bunda empinada em sua direção, ela era linda, os cabelos ruivos ao redor do rosto, aqueles olhos verdes tão lindos e brilhantes. Céus, o detalhe mais perfeito, seria sua pele leitosa, cheirosa, macia, quando a tocou naquele momento, suas pernas grossas e lindas gravou a textura, e imaginou beijando cada parte do corpo daquela deusa.

Quando a olhou debaixo a desejou mais que o próprio ar para respirar, a pele suave, o cheiro de sedução, tão gostoso, ele memorizou aquele perfume, ele gravou a imagem dela incrédula, com as gotas de água pingando sobre o vestido ridículo de barato.

Aquele tecido não devia sequer ter tocado naquela mulher.

Ele daria outros a ele, muitos outros, caros, aqueles feitos somente para ela.

De repente, ele escutou os saltos, por dentro, seu corpo aqueceu, sentiu-se atraído, louco, cheio de desejo, excitado, aquela ruiva cacheada estava no mesmo ambiente que ele, e tudo isso bastava para o mundo lá fora deixar de existir.

Abriu os olhos soltando o ar dentro de virou devagar esperando contemplar aquela beleza novamente, mas o que seus olhos capturaram o fez parar de supetão.

Ele estreitou os olhos sentindo-se frio, quente, apertou o copo tão forte que se espatifou pelo chão, assustando a mulher parada na sua sala que perdeu o sorriso.

Um sorriso que não era inocente.

Os olhos que não eram brilhosos.

A pele que não desejava.

A mulher que não queria.

E... — Quem é você? — Sua voz saiu dura, pesada, cheia de ódio, carregada de decepção.

Não era sua ruiva.

Não era a garota da sua vida.

— Mandou me buscar na boate, estou aqui para fazer essa noite ser a melhor da sua vida.

— Então saia, e não volte nunca mais.

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