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Author: LuadMel
last update publish date: 2026-10-30 06:05:56

Amélia via claramente os lábios de Eliza se movendo enquanto ela falava sobre todas as loucuras que poderiam fazer ali. No entanto, não conseguia ouvir uma única palavra. Tudo o que chegava aos seus ouvidos era o som de seus próprios passos ecoando pelo extenso corredor.

Aqueles passos a conduziam para um lugar ao qual jamais imaginara pertencer. Só estava ali por causa de uma espécie de punição imposta pelos céus, como se todas as suas escolhas a tivessem levado inevitavelmente àquele destino.

Respirou fundo, mas o cheiro forte do ambiente a deixou tonta. Parou de repente e apoiou-se na parede mais próxima. Tentou puxar o ar outra vez, porém tudo ao redor parecia sujo e sufocante. Fechou os olhos, fingindo por alguns segundos que nada daquilo existia. Arrastou as mãos pela superfície da parede em busca de equilíbrio, mas nem ela parecia lhe oferecer segurança.

Afastou-se bruscamente e bateu as costas na parede oposta.

Eliza finalmente parou diante dela. O sorriso entusiasmado desapareceu assim que percebeu seu estado. Amélia levou as mãos ao peito, tentando controlar a respiração. As paredes pareciam se fechar ao seu redor, e a vontade de chorar voltou com força.

— Amélia... — Eliza chamou em voz baixa.

Ela segurou as mãos da amiga e a ajudou a se firmar.

— Você não precisa ficar assim. Não vai dormir com ninguém, nunca, se não quiser. Ninguém vai tirar nada de você, muito menos algo que não queira dar. Apenas entre e converse com a minha mãe.

Amélia ergueu os olhos lentamente até encontrar os de Eliza. Engoliu em seco ao se lembrar de tudo o que havia acontecido no hospital naquela semana: as cobranças acumuladas, as insinuações do diretor, os olhares dos enfermeiros e as propostas indecentes de pessoas que pareciam acreditar que podiam exigir dela algo que jamais estivera disposta a oferecer. Até as escadas de seu prédio ela subia correndo para evitar que o síndico a alcançasse e cobrasse o aluguel atrasado.

Assentiu, enxugando depressa qualquer vestígio de lágrima. Endireitou a postura e tornou a seguir Eliza pelo corredor. Repetia para si mesma que ninguém a obrigaria a fazer nada.

Quando a porta no fim do corredor se abriu, Amélia entrou com passos pesados. Seus olhos percorreram cada canto do salão até se fixarem na mulher que descia uma pequena escada em direção às duas.

— Eliza, ainda bem que veio hoje. Um grupo de homens está prestes a chegar. Disseram que querem beber e ter uma noite especial. Consegue cuidar disso?

A loira sorriu e assentiu. Antes de responder, porém, puxou Amélia para o seu lado. A mulher mais velha deixou o copo sobre uma mesa e se aproximou das duas.

— Ora, ora... Quem é sua amiga?

— Amélia Collins. É uma amiga do hospital — apresentou Eliza.

Amélia permaneceu imóvel. A mulher diante dela era mais baixa que a filha, mas carregava os mesmos cabelos loiros e os mesmos olhos atentos. Eliza parecia uma versão mais jovem dela.

— Ela quer trabalhar aqui — acrescentou Eliza.

Amélia virou-se depressa e negou com a cabeça.

— Quer ou não quer? — perguntou a mulher, parando diante dela.

Seu olhar percorreu Amélia dos pés à cabeça, avaliando-a sem qualquer constrangimento.

— Você é muito bonita. Alta, cabelos longos, ruivos e cacheados... Nunca tivemos uma ruiva como você por aqui. E esses lábios? São naturais ou comprados, como os de Eliza?

— Mãe! — protestou Eliza, embora não conseguisse conter uma risada. — Amélia tem dívidas. Muitas dívidas. Mas não precisa dormir com homem nenhum. É o que tento explicar desde que chegamos.

— Dívidas? Toda mulher tem dívidas.

Amélia assentiu timidamente.

— O problema é que você parece muito retraída — continuou a mulher. — Gosto de garotas como Eliza, que sorriem com facilidade e conversam sem dificuldade. Você parece um gatinho assustado. Ainda assim, teve coragem de vir até aqui.

Amélia endireitou os ombros. Olhou para trás e encontrou Eliza sorrindo de maneira travessa. Então voltou a encarar a mulher.

— Eliza disse que a senhora jamais me obrigaria a fazer nada. Eu vim apenas conhecer o lugar. — Respirou fundo, reunindo coragem para continuar. — Meu irmão precisa de uma cirurgia, e eu não tenho como pagar. Quanto mais demorarmos, maior o risco de o procedimento deixar de ser uma opção para ele. Posso me sentar com alguns homens e conversar. Posso servir bebidas também.

A mulher a observou em silêncio por alguns instantes.

— Tudo bem. Pode acompanhar os homens dos quais falei para Eliza. Eles ficarão na área VIP, em uma sala reservada. Ofereça bebidas, converse e sorria. Acima de tudo, sorria.

Amélia escutava atentamente, embora sentisse um aperto cada vez maior no peito.

— Se quiser ir além, a decisão é sua. Se não quiser, não precisa fazer nada. Apenas não deixe o cliente sozinho: chame outra acompanhante antes de sair.

A mulher voltou-se para a filha.

— Eliza.

— Sim?

— Prepare-a. Não quero vê-la no meu salão usando essas roupas.

— Pode deixar comigo. Vou cuidar de tudo.

Eliza segurou Amélia pelo pulso e a conduziu para longe, tomada por um entusiasmo que contrastava com o peso crescente no coração da amiga.

-

-

Quando, por fim, seus olhos puderam ver o reflexo preso no espelho à sua frente, houve um momento de silêncio.

Não da voz de Eliza.

Não da sala onde jaziam outras mulheres.

Mas, sim, na mente de Amélia Collins, na sua mente, na alma, no seu subconsciente, algo que não imaginou que pudesse acontecer.

A mulher parada diante do espelho daquela sala bem iluminada não parecia nada com a que conhecia durante todos esses anos; a maquiagem forte destacava seus olhos verdes, mantendo-os como foco principal. Um brilho sem vida, sem amor, mas havia uma surpresa escancarada ali. Nunca em sua curta vida imaginou que poderia ficar ainda mais bonita.

Sorriu por um momento, como se tivesse esquecido onde estava e o que deveria fazer. Deu um passo para trás quando as vozes ao seu redor se fizeram presentes novamente, lembrando-a de onde estava. Engoliu em seco, encolhendo-se. Encarou a roupa curta, mostrando suas pernas, o decote fundo do vestido chegando ao seu umbigo, mas escondendo perfeitamente seus seios, o que já deveria agradecer.

Mexeu no cabelo ruivo arrumando os cachos, dando outro sorriso pequeno. Embora a situação estivesse complicada, não iria negar o quanto estava bonita.

— Amélia... — Novamente, a voz de Eliza penetrou sua mente, fazendo-a sorrir. Virou-se em direção à garota e teve que se apoiar em todos os lugares que podia ao notar que o salto era alto, alto demais. Eliza parou no meio do caminho, assustada. Tinha que correr e ajudar Amélia, trocar o sapato? — Você está bem? Podemos trocar isso agora mesmo.

— Não. — Amélia foi dura. Respirou fundo, voltando a ficar de pé. Tocou em seu peito, deslizando a mão até o fim do vestido, e deu um passo à frente, sem cair, sem vacilar, sem conseguir. — Eu consigo fazer isso.

— Ah, Amélia... — Eliza tocou em seus ombros.

Usava outro dos vestidos caros da boate, o decote simplesmente mostrando tudo, as pernas de fora até onde as botas longas alcançavam. Estava linda e uma verdadeira dançarina de boate. Uma imagem que Amélia nunca pensou de Eliza Jeans, a enfermeira do seu irmão.

Seu irmão.

Bento.

— Podemos ficar um pouco mais de tempo, você se acostuma a andar. E a minha mãe disse que não precisa ser necessariamente hoje o seu dia de estreia.

— Sua mãe disse também que hoje é um grande dia e a mesa está cheia de homens que gostariam de beber com mulheres bonitas. — Eliza concordou devagar. — E eu adoraria não ver meu irmão morrer.

A garota riu novamente e concordou.

— Então vamos indo. — Deu um de seus braços para Amélia se apoiar.

E foi bem naquele momento que ela entendeu onde sua vida estava chegando. Foi exatamente como se deixasse a Amélia Collins Cooper dentro daquele quarto e, quando surgiu no corredor tentando se equilibrar sozinha sob os saltos altos, era outra mulher. Não era mais Amélia, muito menos Collins, nem mesmo Cooper.

Sua mente estava a julgando, seu peito subia e descia, tudo tremia. Ainda assim, ignorou os avisos de sua alma e esvaziou a mente quando escutou a música. Não era alta, pelo contrário do que imaginou.

Uma melodia calma, sem letra, deixando o corpo leve, a mente ainda mais vazia. E, de repente, Eliza abriu as portas do lugar, trazendo-lhe a imagem completa do salão.

Poucas garçonetes desfilavam com bandejas, poucas mulheres realmente sentadas ao lado de homens. Podia ver a luxúria em cada canto, presente no olhar, nos sorrisos, em tudo.

Travou ali mesmo, fazendo Eliza sorrir e, mesmo assim, ainda perguntar se estava tudo bem e se queria continuar. Ela assentiu, porque sentar e conversar com homens era um sacrifício mínimo para ver seu irmão de volta a sorrir.

— É só pensar no dinheiro — comentou baixo com Eliza, que não escondeu o sorriso malicioso.

— Quer beber alguma coisa para sua mente não saber o que está fazendo? — Amélia nem respondeu, apenas acompanhou a garota, que se estreitava entre uma mesa ou outra até o bar.

Pediu dois copos de alguma coisa. Amélia não ouviu, mas tomou tudo quando colocado à sua frente.

— Aquela é a nossa mesa. Respire fundo e vamos lá.

Amélia engoliu o líquido que queimou sua garganta, o orgulho e qualquer coisa que a impedisse de seguir, e se colocou atrás de Eliza, segurando sua mão.

Avistou a mesa à qual Eliza falou durante o momento em que se arrumava. Havia três homens, homens mais velhos, passando dos cinquenta, e talvez estivesse com pena. Sorriu mais quando parou diante deles.

— Oi, queridos, essa é a minha amiga Amélia.

Os três encararam a garota. Não soube o que falar, apenas olhou para cada um, como se estivesse esperando uma aprovação.

E a aprovação veio quando um deles sorriu mais e se levantou.

O mais velho.

O mais sorridente.

O mais rico, pela quantidade de joias.

E o mais feio também.

Segurou sua mão, dando um casto beijo em sua pele. Amélia devia tê-la tirado. O nojo que sentiu quando os lábios murchos encostaram em sua pele, deixando um rastro úmido, quase a fez puxar sua mão de uma vez e correr, mas as pernas lhe traíram. E, ainda segurando seu pulso, ele a chamou para sentar ao seu lado.

— Sente aqui, querida, você é a mulher mais bonita dessa noite — contou, voltando para a mesa para encher um copo de bebida. Amélia olhou para Eliza, que se acomodava no meio dos outros homens, ambos felizes pela escolha. — Tome, para ficar mais à vontade.

Amélia recebeu o copo, olhou para Eliza, que sorria, porém, lhe encarava.

Contudo, aquele olhar lhe passava segurança. Havia dúvidas e sugestões. Ela podia levantar e ir correndo para dentro, podia ignorar a bebida e também dizer que não bebia nada de estranhos, como foi ensinada por seus pais.

Mas ali não era mais a Amélia Collins Cooper. Era uma menina qualquer lutando por algo que ninguém da sua idade deveria.

Bebeu o copo inteiro de uma vez.

O homem sorriu, aproximando-se lentamente para cheirar seu pescoço.

Outra vez, o nojo de ter a ponta do nariz daquele cara tocando em sua pele tão perto lhe deixou com náuseas, ou era a bebida.

— Como você é cheirosa.

— Então... — A voz elevada de Eliza fez o homem se afastar e Amélia respirar finalmente. — O que estamos comemorando hoje?

Amélia agradeceu mentalmente, emocionalmente, espiritualmente e ainda puxou para dentro a lágrima que quis cair e a bebida que quase saiu por onde entrou. Sorriu para ela e tentou comentar algo quando Eliza lhe perguntava se achava “tudo aquilo incrível”.

E sua resposta:

— Eu acho o máximo. Você é inteligente. Concordo com a Eliza.

Nem mesmo entendia o que diziam, mas sorria e concordava. Seguiu os movimentos de Eliza, que não deixava o copo de nenhum deles secar. A cada gole, enchia um pouco. Conversavam, riam, brincavam, e o copo nunca secava.

Uma garrafa.

Duas garrafas.

Mais risadas.

Um paletó foi tirado.

Mais conversas aleatórias.

Até mesmo Amélia pôde responder quando comentaram sobre ideias de negócios. Não entendia nada, mas tudo o que dizia fazia os homens rirem e beberem.

Três garrafas.

E foi apenas na última que Amélia achou que sentar com eles ali, oferecer bebida e rir de tudo o que diziam não seria tão difícil se isso trouxesse seu irmão de volta para a vida que tinham antes...

Porém, a mão daquele homem voltou para seu corpo, atravessando seu ombro para chegar ao outro, encostando seus corpos. O cheiro barato de algum perfume falso, o suor, a bebida, o cigarro que não saía dos lábios. Tudo isso deixou a garota tonta, quase desistindo da vida.

Procurou ajuda nos olhos de Eliza, que cochichava algo com um dos seus amigos, muito animada do outro lado da mesa. Será que teria que se virar sozinha? Claro que sim.

— Então... querida... podemos prolongar a noite? — A voz dele chegou ao seu ouvido.

Muito perto.

Molhada e nojenta.

Amélia tentou sorrir, mas seu sorriso talvez não tenha agradado ao homem, que lhe franziu o cenho.

— O que, querida? Não podemos? Eu te achei muito bonita. Afinal, está aqui para isso, não é?

Não.

Não estava.

Ela assentiu devagar, erguendo sua mão para tirar a dele de seu corpo, e levantou. Só então ganhou a atenção de Eliza, que levantou da mesma hora.

— Precisa de algo, Amélia? Vamos juntas.

— Não precisa. — Ela foi rápida, e Eliza voltou a sorrir, mas não sentou. — Fique bem, só preciso de ar.

A garota assentiu, sentando-se devagar. Amélia desviou para o senhor que a comia com aqueles olhos nojentos.

— Pode me dar um minuto?

— Quantos minutos você quiser, querida.

Amélia apenas se virou, saindo dali, desfilando com os saltos altos. De repente, soube desfilar, andar e correr até o banheiro, mesmo em cima daquilo que parecia querer derrubá-la.

Sim.

Aquele era o limite. Não iria sair para lugar nenhum com aquele homem e se esconderia no banheiro até nunca mais poder vê-lo.

Olhou-se no espelho outra vez. Estava linda, linda demais para um lugar como aquele. Abriu a torneira, lavando suas mãos e, em seguida, seu rosto.

Uma.

Duas.

Três.

Quatro.

Cinco.

Sua alma relaxou com a água molhada em seu rosto. Sorriu como se tivesse tirado um peso de suas costas e, então, abriu os olhos para ver o que tinha estragado na maquiagem perfeita de Eliza...

Mas o que viu a deixou trêmula.

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