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Capítulo 18

last update Fecha de publicación: 2021-09-08 03:07:11

Daily levantou mais cedo e preparou um chá. Havia dormido pouco na noite anterior, mas estava excepcionalmente muito bem, pois estava feliz. Ver Mark a curava de qualquer coisa.

- Daily, como foi a conversa com Ahau ontem? – perguntou Erone.

- Não muito diferente do que eu esperava, meu pai. Ahau justificou a atitude de Ahua.

- Nunca fui de questionar nada com relação aos hábitos e costumes de nosso povo e você bem sabe disso Daily. Sempre cumpri com todos os deveres enquanto Kasenkino e com muita honra e orgulho, seguindo os ensinamentos de nossos ancestrais e espíritos antigos. Mas não concordo com o que Ahua fez com você. Aquele tapa ainda ecoa em minha mente durante as noites. Foi uma humilhação para nós.

- Papai, não se preocupe com isso. Ahua pagará o preço por seus atos. Eu vou me vingar algum dia.

- Sua mãe nunca concordou com vingança, Daily. Passou por muitas coisas e sempre aceitou. O fato de você reivindicar seus direitos é correto, mas vingança contra Ahua é algo impossível. Ele é tão forte quanto nosso líder... Talvez até mais.

- Isso que me assusta, papai. Como pode Ahau se deixar influenciar tanto por Ahua?

- Ahua tem o poder de se comunicar com os espíritos que partiram há muito tempo... Nós, Kasenkinos, acreditamos muito nos ensinamentos de nossos antepassados e Ahau confia muito nas mensagens recebidas pelo feiticeiro. Todos têm medo de ser amaldiçoados, não é mesmo? Ninguém gostaria de morrer e não ser levado pelos grandes espíritos. Mas eu estimo Ahua... Talvez ele ouça demais os espíritos e pouco o seu próprio coração.

- Papai, o senhor acredita que os espíritos passados realmente falam com Ahua?

- Sim, eu acredito. Nunca duvidei disso.

- Os espíritos também falam com Moa... E ele nunca usou isso para se beneficiar como Ahua faz.

- Não acredito nas vozes que Moa ouve...

- Meu pai, Moa pode prever tudo que acontecerá... Ele também fala com os espíritos dos grandes Kasenkinos que passaram por aqui.

- Eu não acredito naquele feiticeiro falso. Moa é mentiroso.

- Nunca você vai perdoá-lo? Nunca irá gostar dele?

- Eu já gostei muito de Moa... Até ele levar minha Darla.

- Não foi ele...

- Moa é um fracassado, um Kasenkino banido, que não vale nada perante nossos grandes espíritos antigos. Não sobrou-lhe nada após a morte de Darla a não ser a vergonha e a solidão, pagando a cada dia pelo que ele fez. Ele já foi um grande feiticeiro Kasenkino... Mas provou que era um mentiroso e não sabia de nada.

- Papai, hoje, mais do que nunca, Moa é o que nos resta. Ahua é um péssimo feiticeiro e conselheiro de nosso líder.

- Sei que você gosta muito de Moa e não consigo entender o motivo. Mas nunca esqueça que se não fosse por ele, sua mãe estaria aqui. Eu só não a proíbo completamente de encontrá-lo porque sei o quanto Darla me condenaria por isso.

- Mamãe se foi porque era a hora dela... Os espíritos queriam ela, meu pai. Moa não podia fazer nada para impedir isso.

- Nisto concordamos... Darla era muito bela para permanecer aqui... Certamente os deuses a queriam para si, tamanha beleza que ela carregava, enfeitiçando todos os homens do povoado, mesmo sem querer.

- Eu gostaria muito de tê-la conhecido. E sei o quanto ela admirada por você e Moa. Quero poder ter algo dela em mim.

- Você é muito bonita por dentro, como Darla era... E pelo que vejo carrega também a beleza dela no rosto.

- Ainda acha que devo me casar com Burt na próxima lua?

- Sim, tenho certeza de que é o melhor. Quando duas pessoas se amam, precisam casar o mais rápido possível para aproveitar este amor.

Erone tinha razão, pois se Daily fosse casar com Mark quereria que fosse no mesmo dia, não suportaria esperar mais. Mas infelizmente não casaria com o grande amor de sua vida... Se uniria a seu melhor amigo, Burt, tentando se livrar do maldição do véu e principalmente do casamento com Ahau.

- Como viverá aqui sozinho, meu pai?

- Não se preocupe comigo, minha filha. Sabe que sentirei sua falta, mas vou acostumar a viver sozinho, como vivi muito tempo longe daqui, em minhas batalhas. Só quero que logo você me dê um neto.

Daily corou. Nem queria pensar nesta possibilidade. Agora estava se dando em conta de que realmente aquilo estava acontecendo. Unir-se-ia a Burt para sempre. E não poderia jamais desfazer aquele casamento perante as tradições Kasenkinas. Erone parecia pressentir alguma coisa, por isso estava apressando a união. E ela estava bastante preocupada com o tempo que estava indo rápido demais bem como o que se passava na cabeça de seu pai.

- Eu conheci Ademoore quando fui falar com Ahau. – disse ela mudando de assunto.

- E o que achou na esposa do líder?

- Acho que ela gosta de Ahua... Simpatiza com ele.

- Não me referi a isto... Gostaria de saber da beleza dela.

- Bela... Muito bela. – confirmou Daily, um pouco decepcionada pela forma como os homens viam as mulheres somente através da beleza exterior. O resto não importava para os homens Kasenkinos e até para algumas mulheres.

- Não entendi seu comentário com relação a Ahua. Por que ela não deveria gostar ou simpatizar com ele?

- Não gostei da atitude dela, dando razão a ele sobre o ocorrido e não a mim. Ela também é mulher... Deveria ter ficado do meu lado.

- Confesso que às vezes não entendo você, Daily. Pensa tão diferente, vai tão além nas coisas. Não é tão difícil pensar como uma Kasenkina, pois você nasceu num lugar onde cumprimos com todos os nossos legados.

- Por que está dizendo isso, meu pai?

- Você não é como as outras e isso me preocupa. As meninas de sua idade andam juntas, fazem coisas juntas... Você não conhece nenhuma garota Kasenkina... Foi assim desde criança. Talvez eu seja o culpado... Passei tanto tempo fora, nas guerras, deixando-a aos cuidados de pessoas que não se importavam com isso. Se Darla estivesse aqui, tudo seria diferente.

- Meu pai, não se culpe por eu ser assim... Sou feliz por pensar, por questionar, por querer ter um futuro diferente do que o destino pode me reservar. Acho que nunca conseguirei mudar... Eu sou assim.

- Mas eu queria que você fosse diferente. – afirmou ele.

- Me desculpe por não ser como você gostaria. – lamentou ela.

Os dois foram ao trabalho daquele dia. Conforme ia passando os dias, percebia-se um avanço na construção. Demoraria muito tempo para alcançarem o objetivo do líder, mas agora ela já não tinha dúvidas de que conseguiriam erguer a muralha. Naquele dia seriam escolhidas as pessoas que trabalhariam na lavoura do café. Daily começou a sentir medo de quando aquele muro estivesse pronto, afinal, não construiriam para sempre. E nunca mais poderia ver Mark. Por mais que ela o amasse e fosse correspondida, não havia um futuro para os dois. O destino os separava de todas as formas, seja pelo lugar onde nasceram, em povos inimigos, ou até mesmo por uma muralha de pedras.

Quando anoiteceu e o trabalho do dia se findou, foi anunciado, conforme previsto, o nome dos Kasenkinos que não trabalhariam mais no muro e ficariam responsáveis pelo cultivo do café, entre eles Burt.

Daily foi ao rio e tomou um longo banho gelado. Estava cansada e suja. Colocou seu melhor vestido e arrumou-se lindamente, com sua tiara colorida de pedras e passou muito pó coloridos nos olhos. Quando estava descendo, Erone disse:

- Daily, preciso que prepare algo especial para o jantar. Convidei Burt para comer conosco.

- Que ótimo! – fingiu Daily estar feliz com a notícia.

Enquanto ela preparava o jantar, estava preocupada por não saber se conseguiria ver Mark naquela noite. Mark não demorou muito a chegar. Estava bem vestido, diferentemente das outras vezes. Parecia preocupado em impressionar. Havia inclusive lhe trazido uma flor.

Ela agradeceu gentilmente.

- Eu... Não sabia se você gostava de flores. – falou ele.

- Na verdade, nem eu. – confessou ela.

Os dois riram.

- Nunca recebi flores. – disse ela.

- Então é melhor ir se acostumando. Vou plantar um jardim para você.

Ela sorriu confusa.

- Papai quer que nos casemos na próxima lua. – disse ela.

- Sim... E ele lhe disse que planejou a festa de anúncio para amanhã?

- Amanhã? – falou ela atônita. Por que Erone não havia dito nada? Falaria somente na hora? Ela teve novamente a impressão de que seu pai estava desconfiado de algo. – Burt... Festa?

- É a tradição, Daily... Você sabe.

- Sim, eu sei... É que estou tão confusa com isso tudo.

Ele pegou as mãos dela, beijou-as delicadamente e disse:

 - Daily, eu gosto muito de você. Não vou fazê-la sofrer. Eu prometo.

- Também gosto de você, Burt. E sou muito grata por tudo que fez por mim.

- Eu que sou grato por você ter me dado a oportunidade de viver com você para sempre.

Daily assustou-se com as palavras dele, mas ao mesmo tempo era realmente muito grata por ele ter lhe livrado do casamento com Ahau. Ela lhe abraçou com carinho e percebeu que ele ficou muito feliz com aquele gesto.

- Talvez algum dia você o esqueça e possa me amar. – disse ele.

Daily olhou para os olhos dele, sentindo o coração bater mais forte.

- Do que você está falando, Burt?

- Daily, eu sei que você ama outro homem. Não sei quem é, mas sei que há outra pessoa em seu coração.

- Burt... – ela ficou nervosa, nem sabia o que dizer.

- Não precisa me falar... Não se preocupe. Só lhe peço que tente esquecê-lo. E como vai casar comigo, certamente algo lhe impede de ficar com ele.

Daily não conseguiu conter as lágrimas e abraçou-o novamente, desta vez à procura de seu amigo Burt, que já não existia mais ali.

- Não consigo esquecê-lo. – confessou ela.

Ele limpou as lágrimas que escorriam por sua face, até chegar ao véu. Acariciou os lábios dela sob o véu escuro e disse:

- O que eu posso fazer por você?

- Case-se comigo e me ajude a esquecê-lo. – disse ela.

- Farei isso. Eu prometo. – falou Burt.

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