FAZER LOGINQuando ela chegou em casa, Erone já estava dormindo. Ela olhou pela janela de seu quarto e viu a lua iluminando o céu. Colocou um manto leve e saiu. Não havia nenhuma Kasenkino fora de casa. Todos estavam provavelmente muito cansados do trabalho do dia. Ela correu para o rio, até chegar no lugar onde havia encontrado o príncipe Mark. Procurou por ele, mas não estava ali. Ela sentou-se na beira do rio, sobre as pedras pontiagudas. Conseguia ver refletida a luz prateada da lua nas águas turvas e barulhentas. Ela percebeu o quanto era privilegiada por estar ali, observando aquilo tudo. Adorava aquele lugar, aquele rio que não parava nunca de correr, que não se cansava de banhar toda a imensidão de florestas que eles nem conseguiam ver. De onde vinham aquelas águas? Para onde iam? Quantas pessoas haviam tocado nelas? Quantas pessoas de diferentes lugares haviam usado aquelas águas para alguma coisa? Quantos povos iguais a eles deviam existir no mundo todo? Como Daily queria saber... Assim como queria saber o que Mark estaria fazendo naquele momento em seu reino. Ela olhou para o outro lado do rio, sempre muito escuro. Como estariam Terry e Moa? Certamente felizes, pois esperaram muito tempo para estarem juntos. O tempo estava passando, a lua passeando pelo céu e Mark não havia vindo... Talvez nunca mais o visse. Sem querer ela sentiu uma lágrima caindo de seus olhos, molhando seu véu.
Ela olhou para a lua e disse:
- Por que não o traz para mim?
Ela pensou em atravessar o rio. Talvez Terry, a Guerreira do sol, que lutava pelo reino de Machia, poderia ter visto o príncipe. Mas só de pensar em ir até lá e o tempo que levaria para retornar ela já se sentiu cansada. O dia seguinte seria de trabalho árduo novamente. Já estava tarde e ela não conseguiria chegar a tempo de dormir e descansar para estar bem no dia seguinte.
- Esperando por mim?
Daily sentiu todo seu corpo arrepiado ao ouvir aquela voz atrás de si. Era Mark. Ela virou e quase não acreditou quando o viu. Sem pensar duas vezes, correu até ele e abraçou-o com carinho. Sentir o corpo dele junto ao seu era algo inexplicável.
- Mark, você veio...
- Procurava por mim, pelo visto. – disse ele sem retirar os braços de volta dela.
- Eu te amor, Príncipe Mark... Eu o amo muito.
Mark a abraçou com mais força, parecendo muito feliz com a revelação dela. Depois de um tempo ele disse:
- Eu também estou morrendo de amor por você, Daily.
Mark olhou nos olhos dela e retirou o véu que cobria seus lábios. Olhou para ela por um instante, o rosto perfeito iluminado pela lua no céu. Ele lentamente aproximou os lábios dos dela e lhe beijou ardentemente. Daily ficou um pouco confusa e com medo, sentindo o corpo tremer àquele toque dele. No entanto descobriu que não havia melhor forma de expressar seu sentimento por ele do que naquele beijo. Não havia dúvidas do forte sentimento que unia os dois.
- Mark, me desculpe por ter demorado tanto a entender que o que eu sentia por você era amor... Não queria ter magoado você.
- Por que você não veio nestes dias?
- Deve lembrar do dia que choveu muito... Até a noite. Vim durante a tempestade esperar por você, mas você não veio. Então fui até a cabana de Moa e o levei até Terry. Peguei a chuvarada, atravessei o rio... Enfim, fiquei doente. Como sabe, meu povo está trabalhando muito na construção do muro... Eu trabalhei doente e fiquei ruim e cansada por uns dias. Precisava me restabelecer.
- Não pensei que pudesse vir com aquela tempestade caindo... Além do mais estava brava comigo.
- Nunca fiquei brava com você, Mark.
- Então por que foi embora sem se despedir?
- Fiquei preocupada procurando por você... Achei que pudesse ter morrido... – disse ela.
- Não posso morrer antes de me casar com você. Não posso aceitar a maldição do véu para mulher que eu amo. Você será minha rainha e de todo meu reino.
- E sua noiva? Eu tenho tanto medo de todas as pessoas que magoaremos com isso.
- Eu nunca seria feliz com Sherylin e ela sabe disso. A estimo, mas nunca senti amor por ela.
- Como Sherylin é? Sempre me pergunto isso...
- Sherylin é uma mulher bonita, mas não tanto quanto você... Somos amigos desde que nascemos. Crescemos juntos e fomos prometidos por nossos pais.
- Ela é uma boa pessoa?
- Bem... Se você perguntar no reino, dirão que sim... Mas ela odeia os Kasenkinos mais do que qualquer coisa.
- Pelo simples fato de odiar ou ela tem um motivo para isso?
- A família dela foi morta por seu povo, Daily. – falou ele.
- Eu realmente sinto muito...
- Sherylin vive por vingança.
- Então ela não é uma boa pessoa...
- Ela tem motivos de sobre para odiar os Kasenkinos... Tiraram tudo que ela tinha de mais precioso.
- Os Kasenkinos também perderam pessoas que amavam nestas lutas, Mark. Sempre vi muitas lágrimas derramadas e dor no retorno das batalhas.
- Daily, acho que não é hora de falarmos sobre isso.
- Tem razão. Acho que estamos começando a nos entender e não podemos começar uma briga por nossos povos.
- Então vamos falar de Moa e da Guerreira do Sol... Que finalmente estão juntos. – disse ele para falarem sobre outro assunto.
- Felizmente sim... E eu ajudei-os. Senti-me tão feliz por poder ajudar Moa.
- Viu como no fim o amor sempre vence? – observou Mark.
- Infelizmente não é sempre que o amor vence, Mark.
Ele pegou as mãos dela e em seguida beijou-as docemente:
- Case-se comigo, Daily.
- Mark... Eu não posso.
- Venha comigo para Machia.
- E meu povo? Eu tenho meu pai.
- Seu pai pode vir com você...
Ela riu tristemente:
- Meu pai jamais faria isso... Meu povo iria atrás de nós e você sabe que outra batalha iniciaria. Além da proibição por nossos povos serem inimigos, meu pai é um grande guerreiro Kasenkino. Ele odeia seu povo, entende? Jamais deixaria que eu partisse com você.
- Eu seria capaz de defendê-la até a morte, Daily.
- Eu não sei se algum dia ficaremos juntos, Mark... Mas se um dia houver esta possibilidade, eu acredito que esteja muito longe ainda.
- E haverá este dia, Daily? Você acredita que sim?
- Mark, eu lhe prometo que ficaremos juntos algum dia... – disse ela o abraçando com amor.
- Daily, eu amo tanto você. Apaixonei-me no primeiro momento em que a vi, neste rio, exigindo que eu me casasse com você. – ele riu. – Desde que meus olhos cruzaram com os seus, eu sabia que você seria minha para sempre.
- Senti o mesmo, Mark... E acho que tirar meu véu foi destino.
Ela sentiu os braços dele com força enlaçando-a e retribuiu. Era muito bom estar com ele. Era como se tudo fosse possível e nada os impedisse. Mas ela sabia que não era assim. Quando saísse dali, sua mente só pensaria nas coisas ruins sobre o amor que os envolvia e o ódio que existia entre seus povos.
- Mark, preciso lhe dizer algo.
- Pode dizer...
- Eu... Vou me casar na próxima lua.
-Não... Você não pode fazer isso, Daily.
- Eu prometi a meu pai.
- Prometeu a seu pai ser infeliz para sempre?
- Mark, não torne tudo mais difícil do que já é... Eu não tenho como impedir isso.
- Como pode pedir-me isso? Só de pensar que você estará com outro homem eu fico louco...
- Burt é meu amigo, Mark. Ele aceitou que não viveremos como homem e mulher... Prometeu me respeitar.
- Daily... Isso é impossível.
- Mark, olhe para mim. – ele olhou para ela, como foi pedido: - Eu prometo que um dia ficaremos juntos... Para sempre. Eu juro.
- E se você casar e me esquecer? Não nos vemos com frequência... Vivemos longe um do outro, cada um com obrigações com seus povos... Depois que você casar, será mais difícil sair. E quando o muro estiver pronto?
- Mark, eu jamais esqueceria você. Nem que eu quisesse.
Os dois se abraçaram e ficaram ali, por muito tempo, sem dizerem nada um ao outro, somente sentindo os corpos sob a luz da lua. Naquele momento as palavras eram desnecessárias... Eles só precisavam sentir um ao outro e aquilo bastava. Ela queria que aquele momento durasse para sempre, mas sabia que era impossível.
- Mark, eu preciso ir. – falou ela tristemente.
- Deixe-me ir com você... Levá-la próximo de seu povoado.
- Não... Não posso permitir que você faça isso. Seria muito arriscado.
Ele lhe deu um beijo e disse:
- Então só me resta pedir que você se cuide no trajeto... E que nunca esqueça do quanto amo você.
- Estará guardado no meu coração enquanto eu viver. – disse ela.
- Estarei esperando por você amanhã quando a lua iluminar o céu, neste mesmo lugar onde a conheci.
- Farei tudo que estiver ao meu alcance para vir.
- Morrerei de saudades e esperarei ansioso pelo cair da próxima noite.
- Eu também.
O beijo de despedida foi longo e intenso. A vontade que eles tinham era de ficar ali para sempre. Mas infelizmente ela precisava ir. E com muita tristeza ela deixou Mark ali, a observando enquanto ela corria pela mata, entre as enormes árvores até chegar a seu povoado e depois em sua casa. Quando ela deitou, não sabia se conseguiria dormir, pois seu coração batia descompassadamente e sua cabeça era um turbilhão de emoções, sentimentos e medo.
Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce
- Mas... Por que fizeram isto, Burt?- Ahau lhes prometeu ouro, muito ouro, se eles ajudassem na construção da muralha. E assim eles fizeram...- E de onde Ahau tiraria ouro para lhes dar?- Não havia ouro algum... Ahua mentiu para eles. E agora eles vão matar todos. Será o fim dos Kasenkinos. – disse ele rindo nervosamente, com os olhos não parando de mexer nunca.Percebia-se que ele estava visivelmente abalado com tudo e não parecia estar pensando bem. Falava rápido, olhava para todos os lados, com muito medo.- Burt... Você tem certeza de que eram os Naiguãs?- Sim... Muitos deles... Nunca vi tantos... Todos montados nos cavalos, seres místicos dos deuses.- E Ahua?- Mataram Ademoore... E muita gente.Daily o abraçou. Ela tinha tanto medo, mas Burt parecia estar mais amedrontado do que ela.- Burt, meu amigo, o que fizeram
Daily percebeu que Ika estava falando devagar, parecendo ter dificuldade em pronunciar as palavras.- Ika, você está bem? – perguntou ela preocupada.- Não me sinto muito bem...Daily podia ver o suor escorrendo pelo rosto dela e parecia estar sem ar. Daily gritou em desespero por socorro. Logo os empregados vieram em seu auxílio. O nervosismo tomava conta de Daily. Percebeu em sua boca uma espuma esbranquiçada. Quando o doutor chegou, ela ainda segurava na mão de Ika.Não demorou até que fosse dado o motivo da morte:- Envenenamento. – disse o doutor.- Como? – perguntou Daily chocada.- Um veneno forte, com certeza. Mas nada mais pode ser feito por ela, infelizmente. Era uma boa mulher. Fiel criada do rei Pollo e depois do rei Mark.Daily olhou para a xícara de chá próxima da cama e gritou em lágrimas:- Não pode
Mark entrou no quarto rapidamente, muito preocupado.- Daily, o que houve? Eu soube que o médico veio vê-la. Você está doente? Passou mal?- Está tudo bem, Mark. – disse ela deitada confortavelmente na cama.- Eu sabia que Sherylin não a deixaria em paz... Foi por isso que eu a proibi de entrar no castelo.- Ela não teve culpa... Inclusive me pediu desculpas. Disse que irá embora de Machia.- Sherylin lhe pediu desculpas? Sinceramente eu não acredito nas desculpas sinceras dela.- Ela pode ter percebido que nosso amor é real, Mark. Talvez tenha decidido não mais acabar com nossa felicidade. Que de nada adiantaria nos fazer mal...- Daily, não se iluda com Sherylin. Se tem uma coisa que ela sabe muito bem é como manipular as pessoas.- Eu não me importo com Sherylin, Mark. Tenho coisas mais importantes a tratar com você.
Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre
Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol







