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Capítulo 23

last update Data de publicação: 2021-09-08 03:10:52

Quando Daily e Mark chegaram à margem do rio, no outro lado da floresta, se deitaram molhados na areia ainda quente. Estavam cansados e felizes. Ambos se olharam, iluminados pela lua cheia. Mark tirou o véu que cobria o rosto dela novamente e acariciou a pele macia, passando os dedos pelos lábios:

- Eu te amo, Daily.

- Eu te amo, Mark... Por toda minha vida...

Quando Daily retornou para casa já estava quase amanhecendo. Ela preparou um chá e esperou até que Erone acordasse.

Erone bebeu seu chá e disse:

- É impressão minha ou sua tristeza parece que não existe mais?

- Eu poderia dizer que hoje é o dia mais feliz da minha vida, meu pai. – confessou ela.

- Eu sabia que depois que o casamento fosse anunciado você ficaria mais feliz. Espero que esteja melhor do mal estar de ontem.

- Sim... Sinto-me muito melhor, obrigada.

- O casamento sempre muda as mulheres para melhor. – falou ele.

- Digamos que mudar, sim... Para melhor, talvez, meu pai.

Ela queria discutir pontos de vista com relação à submissão da mulher com o pai. Estava muito feliz para ter aquela conversa naquele momento.

- Mas acho que está na hora do trabalho, meu pai. – observou ela.

- Daily, na próxima lua você e Burt casarão.

- Tão próximo?

- Sim... Burt preferiu assim.

- Ele nem me consultou.

- Sabemos que ele não precisa consultá-la. Esta decisão cabe a mim e a ele.

Ela não falou nada. Retornou para seu quarto e ficou lá, pensativa. O que faria? Não queria casar com Burt... Não poderia fazer isso. Já estava casada com o homem que amava. Mas ao mesmo tempo não queria magoar seu amigo, que havia ajudado-a quando ela precisou.

Daily foi para o trabalho diário de construção da muralha de pedras. A cada dia que passava, mais ela percebia que o trabalho andava depressa e logo estariam isolados para sempre de todo o resto do mundo. No início era achou que era tudo uma loucura de Ahau e que nunca conseguiriam acabar aquela construção. Mas agora via que mais cedo do que esperavam, estariam realmente seguros... Ou presos, na opinião dela. Os pensamentos constantes fizeram com o dia passasse rapidamente e logo ela já estava novamente em casa, preparando o jantar para o pai. Estava muito sonolenta, pois a noite passada não havia dormido. Porém jamais esqueceria a noite mais linda e maravilhosa de toda sua vida, em que se tornara esposa e mulher de Mark, rei de Machia, seu único e verdadeiro amor. Na verdade, ela amava as noites, pois nelas podia encontrar o amor e as pessoas que gostava. Se pudesse, viveria durante as noites e dormiria nos dias. Seus dias se resumiam em espera pela noite.

- O que é isto no seu dedo? – perguntou Erone?

Daily ficou nervosa e sentiu os dedos tremerem. Não sabia ao certo o que responder:

- Eu... Achei na floresta. – mentiu ela. – Achei lindo.

- Na floresta? Em que parte? – perguntou Erone pegando o dedo dela e analisando o anel.

- Perto... Do rio. – mentiu ela novamente.

- Este anel não é Kasenkino, nem comprado pelos mercadores Naiguã. Este anel é de Machia. Inclusive tem os símbolos reais... Deve pertencer à realeza.

- Ao reino? – fingiu ela surpresa.

- Tire o anel. – ordenou ele.

- Não, não me peça isso. – disse ela colocando a mão para trás do corpo, como forma de defender sua joia.

- É uma ordem.

- É meu... Eu achei. Nunca vou tirá-lo.

- Não me preocupe ainda mais, Daily. Suas atitudes me deixam apreensivo às vezes.

- Me desculpe, meu pai. – ela foi até Erone e lhe abraçou carinhosamente. – Me desculpe por tudo que eu lhe fiz. Sempre tente me entender... Assim como eu tentei entendê-lo, mesmo não concordando algumas vezes. Veja sempre pelo lado do amor... Você sabe que o amor é mais forte que tudo... Já sentiu isso por minha mãe.

- O que está havendo? Está tentando me dizer algo, Daily?

- Não... Não sei... Só queria lhe dizer isso. Estou vivendo, meu pai... Só isso.

Erone retribuiu o abraço e ficou calado, mesmo desconfiado. Eles foram dormir. Daily esperou até que o pai adormecesse e saiu correndo pela floresta até o lugar onde ela e Mark se encontravam todas as noites.

Ela o abraçou fortemente. Parecia que aquele tempo que havia passado longe dele havia sido uma eternidade.

- Minha esposa... – disse ele.

- Mark, eu nem acredito que tudo isso esteja acontecendo de verdade conosco. Eu estou tão feliz...

- Eu acredito, meu amor... Porque são os dias mais felizes da minha vida.

- Os meus também. Jamais pensei sentir o que sinto por você, nem a sensação que tenho quando estamos juntos.

- Eu te amo tanto... E aconteça o que acontecer, eu sempre vou amá-la.

- Eu também sempre vou amá-lo, Mark. Tenho a certeza de foram os deuses que fizeram nossos caminhos se cruzarem e nascer este amor mais forte que tudo que já senti em minha vida.

- Quando você irá conhecer Machia comigo?

- Eu posso ir até lá? – falou ela com os olhos brilhando de ansiedade.

- Eu sou o rei de Machia, esqueceu-se? E você minha rainha... Tem todo o direito de entrar e sair de seu reino quando desejar, alteza. – brincou ele.

- Rainha, eu? – ela riu. – Tudo parece um sonho às vezes, você não acha?

- Tenho certeza de um dia será uma ótima rainha para Machia, Daily. Não tenho dúvidas de sua inteligência e perspicácia.

- Nem acredito que sou casada com o rei de Machia... O homem que decide tudo que vai ocorrer no reino inteiro.

- Não vejo desta forma... É difícil tomar decisões quando afetam não somente a mim, mas a tantas outras pessoas diretamente. Sempre procuro fazer o certo e governar também o coração... Legado de meu querido pai.

- Mark... Eu preciso lhe contar que... Logo, na próxima lua, será meu casamento Kasenkino com Burt.

- Casamento? – ele ficou confuso.

- Sabemos que este casamento não terá validade alguma agora que somos casados... Mas tenho que cumprir minha promessa com meu pai e Burt... Não tenho como desistir agora. As consequências seriam desastrosas.

- Quando ficaremos juntos, Daily... De verdade?

- No dia em que eu encontrar coragem para enfrentar meu povo e tudo que eles podem fazer contra mim e o seu povo. Mas não se preocupe, Mark. Logo estarei ao seu lado... Para sempre.

- Você sabe que aconteça o que acontecer, estarei ao seu lado, defendendo-a até a morte, não é mesmo?

- Não tenho dúvidas disso, meu rei. Eu te amo tanto...

Já haviam conversado demais sobre muitas coisas... Agora seus corpos estavam ávidos um pelo outro. E assim eles saciaram seus desejos e amor até que o dia quase amanhecesse.

Daily acordou nos braços de Mark, num sobressalto.

- Mark?

- Estou aqui, meu amor. – disse ele confuso, abrindo os olhos lentamente.

- Eu preciso ir embora...

- Mas ainda nem amanheceu...

- Preciso chegar antes do sol nascer.

Ele pegou o rosto dela entre suas mãos e disse:

- Quando vou ver você iluminada pela luz do sol?

- Algum dia, Mark... Eu juro.

Ele a beijou ternamente:

- Eu sonho com o sol iluminando seu rosto, seus cabelos... Quero ver seus olhos, o rio refletindo seu rosto... Realizarei este sonho algum dia?

- Espero que sim...

Daily vestiu-se rapidamente, colocou o véu e saiu correndo, dizendo:

- Me espere esta noite... Eu te amo.

- Sempre estarei esperando por você. – confirmou ele.

Ela correu como nunca até chegar em casa. Quando abriu a porta Erone estava sentado no banco, tomando uma xícara de chá.

Ela parou na porta, indecisa sobre o que dizer. Não sabia se haveria mentira que o convencesse.

- Onde esteve? – perguntou ele. – Hoje você vai me contar toda a verdade. Eu sei que você passa as noites fora de casa... E quero saber o que está acontecendo.

Daily sabia que estava na hora de contar a verdade. Já era tempo de dividir com alguém tudo que estava acontecendo em sua vida. Tinha certeza de que não seria fácil, mas se não tentasse, jamais saberia a reação do pai ao saber de tudo.

- Eu... Estava com meu marido. – confessou ela.

- Daily... Por que não esperou até o casamento? Eu nunca pensei que Burt pudesse fazer isso... Não respeitar os preceitos de nosso povo...

- Eu... Não estava com Burt. – falou ela seriamente.

Erone sentou-se no banco novamente, confuso, colocando a mão na cabeça, atordoado.

- Meu pai, estou casada com outro homem... Este anel não foi encontrado... É o símbolo desta união.

Daily retirou o véu.

- Não faça isso, por todos os deuses. Você será amaldiçoada. – gritou Erone.

- Eu já estou casada, meu pai... Não suporto mais todas estas mentiras. – disse ela não segurando as lágrimas.

- Eu preciso de explicações sobre o que está havendo...

- Eu o conheci há bastante tempo, meu pai, na floresta. Até então eu achava impossível encontrá-lo, entende? E nunca pensei que pudesse amar tão intensamente, da forma como o amo...

- Quem é ele? – perguntou Erone já certo do que ouviria.

- Mark... Rei de Machia. Filho e único herdeiro do rei Pollo, o qual o senhor trouxe a cabeça e queimou em nosso povoado.

- Não é verdade... Não acredito em tudo que você está me falando... Diga-me que é mentira... Que tudo é um pesadelo e que eu vou acordar e nada disso realmente aconteceu.

- Infelizmente é verdade, meu pai. Eu não escolhi isso... Eu não queria que fosse desta forma. Mas ele é o homem que eu amo, o homem pelo qual eu daria minha vida. Não quero mais mentir... O senhor precisa aceitar a verdade, por pior que seja para você.

- Isso é impossível... Este amor não pode acontecer.

- Nos casamos... E este anel simboliza nossa união e nosso amor.

- Eu não acredito que você tenha feito tudo isso.

- Sou uma mulher casada, meu pai. Com o rei de Machia.

Erone deu uma bofetada em Daily. Ela levou a mão ao rosto dolorido, mas não chorava mais. Estava feliz em se livrar daquela mentira.

- Estou acostumada com estas bofetadas, meu pai... Isso já não me fere mais. – falou ela de cabeça erguida.

- Você não está em seu juízo perfeito... Deve estar ficando louca. Espíritos da floresta devem ter entrado na sua alma...

- Nunca estive tão certa de minhas decisões e atitudes em toda minha vida.

- Você está amaldiçoada pelos deuses, pelos nossos antigos espíritos... Por todo nosso povo.

- Será que me amaldiçoariam por casar com o homem que amo e que me ama? Só tirei meu véu porque estou casada com ele... E ele foi o primeiro a ver meu rosto, conforme as tradições de nosso povo. Só deixei de ser pura depois que recebi este anel em meu dedo e de ter me casado conforme os preceitos exigidos.

- Mas eu estou disposto a esquecer isso tudo... Não vou aceitar que você acabe com meu nome e minha reputação frente ao meu povo. Hoje você vai casar com Burt... E ele jamais ficará sabendo de tudo isso. Nem ele, nem ninguém.

- Burt já sabe disto.

- Burt sabe de tudo? E aceitou? Não... Não creio que esteja ouvindo isso... E pouco me importa. Vocês casarão, conforme eu planejei.

- O senhor não pode fazer isso... Eu já sou casada.

- Se você não casar com Burt, eu vou matar você. Assim como matei o rei Pollo. E não tente testar até onde vai meu ódio, Daily. Odeio o reino e todos que pertencem a ele. Acabei com o rei Pollo, vou acabar com o filho dele...

- Meu pai, por favor, não diga isso... Precisa entender...

- Eu sabia que Moa faria isso...

- Moa? Por que você fala em Moa? Por que novamente culpá-lo de algo que ele não tem culpa? Não é capaz de aceitar que eu fiz isso, que sou a única culpada... Na verdade não há culpados, meu pai. Foi o destino que quis assim, que planejou isso tudo. Amar não é um erro, não é uma escolha... Eu apenas tenho mais coragem do que o senhor... Lutarei por meu amor, até o fim... O senhor foi covarde e não lutou pelo seu...

Daily levou outra bofetada, no mesmo lado da face. Sentiu o gosto de sangue em sua boca.

- Acho que o senhor ganhará de Ahua no número de bofetadas aferidas a mim. – disse ela desafiadora.

- Eu tenho vergonha de você.

- E eu do senhor. – confessou ela.

- Tem vergonha de ser filha do melhor guerreiro Kasenkino de todos os tempos? Isso deveria ser motivo de orgulho para você. Ninguém neste povoado luta melhor do que eu.

- Guerreiro? – ela riu ironicamente. – Orgulha-se de matar pessoas? Pessoas inocentes? Matou um rei bom, amado em seu reino. Matou crianças inocentes...

- Pollo merecia a morte... Era contra os Kasenkinos.

- Não há nada de arrependimentos no senhor por qualquer morte?

- Arrependimento? Você só pode estar louca... Eu tenho é muito orgulho de cada vida que tirei, em nome do meu povo.

- Deste momento em diante eu não sou mais sua filha. – disse ela deixando as lágrimas rolarem por seu rosto. – Nunca ouvi uma coisa tão cruel em toda minha vida.

- Não me importo com isso, acredite. Mas casará com Burt, de qualquer jeito. Não vou deixar a maldição cair sobre mim ou Burt por sua causa... Muito menos serei punido com a morte por você.

- Assim, será. Casarei para poupar a vida de todos. – disse ela.

- Caso este casamento não ocorra, seremos todos punidos com a morte.

- O homem que mata todo mundo sem nenhuma piedade tem medo da morte? – ela riu ironicamente. – Isso é um tanto quanto engraçado, não acha?

- Você tem medo da morte, Daily? – perguntou ele.

- Acho que não... – confessou ela. – Não tenho medo da morte, das maldições... Eu aceito o que a vida me impõe. Sei que minha mãe estará me esperando do outro lado.

- Darla deve ter vergonha de suas atitudes insanas.

- Ou talvez seja orgulhosa por minha coragem em lutar pelo amor e pelo que acredito.

- Você não sabe como ela era, no que acreditava... Não poda falar sobre ela... Não a conheceu.

- E o senhor a conheceu tanto quanto acha? Sabia o amor que ela sentia? Soube que ela sempre desejou uma menina? Soube que ela falou antes de morrer que Ahua era o culpado por toda sua desgraça?

Ele ficou calado e pensativo. Talvez nunca tivesse sabido daquilo.

- Mas ela falou tudo isso para Moa... – continuou Daily. – Talvez ela não confiasse tanto assim no senhor se não lhe contou.

- Depois do casamento, quero você longe desta casa, para sempre. – falou ele.

- Seu desejo é uma ordem, meu senhor. – falou ela.

Ela subiu as escadas e antes que fosse para seu quarto, disse:

- Acho melhor que ninguém saiba disso tudo que lhe contei.

- Ninguém saberá. – disse ele. – Você é uma vergonha para mim e para todo nosso povo. E a verdade implicaria nossa morte.

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Último capítulo

  • A Saga dos Kasenkinos   Capítulo 34

    Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce

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  • A Saga dos Kasenkinos   Capítulo 30

    Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre

  • A Saga dos Kasenkinos   Capítulo 29

    Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol

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