FAZER LOGINEssas foram as últimas palavras que Daily trocou com o pai. Ásperas, dolorosas e de acusações de ambos os lados. Ela deitou-se na cama e chorou muito. Mas chorou por todas as palavras que havia ouvido de seu pai e pelas que havia dito, não pelo que havia feito ao se casar com Mark, pois não se sentia culpada. Eles não eram culpados pelo amor que sentiam. Nunca havia sido intenção dela magoar Erone, mas sabia que ele jamais aceitaria aquele casamento. Ela amava Erone, ele era seu pai, mas o amor que ela sentia por Mark era maior que tudo. Sentia-se segura ao lado dele, corajosa para enfrentar qualquer coisa. O sol já nascia no céu e ela ficou ali até os primeiros raios invadirem sua janela, iluminando seu rosto inchado e seus olhos vermelhos. Não adiantava ficar chorando ou se lamentando pela discussão que tivera com o pai. Nada mudaria aquilo. Preferia pensar em seu marido, nas noites maravilhosas que passaram juntos e em tudo que ainda tinham para viver. Em sua mente ela queria guardar cada palavra de carinho vinda de Mark, cada olhar apaixonado, cada beijo de amor verdadeiro. Daily sabia que jamais poderia viver sem aquele homem ao seu lado, seu marido.
Daily adormeceu e acordou minutos depois, assustada. Não podia dormir, precisava trabalhar. Ela nem lembrava qual havia sido a última vez que dormira... Mas realmente seu corpo estava cansado e por vezes sentia-se muito sonolenta.
Quando ela desceu, Erone permanecia do mesmo jeito, sentado no banco, tomando provavelmente sua quinta xícara de chá. Eles não trocaram nenhuma palavra. Daily sabia o quanto Erone estava decepcionado com ela... E sabia também que nada poderia ser feito para mudar o que ele sentia, bem como a opinião dele com relação ao reino de Machia. Talvez ela realmente tivesse perdido o pai. E nem ela mesma sabia explicar direito a relação entre os dois... Erone era um homem cuidadoso com ela, mas pouco carinhoso. Talvez mais zeloso que amoroso. A educara conforme as tradições Kasenkinas, às quais acreditava veementemente. Muitas vezes a deixara sozinha por muito tempo enquanto ia para suas batalhas em nome do povo. E assim ela cresceu, solitária, na companhia mais frequente de Moa, onde precisava atravessar toda a floresta para chegar. Assim ficou muito chegada ao rio, à noite, às arvores e aos caminhos sombrios que ela seguia. Embora pouco se falasse de Moa no povoado Kasenkino, todos o conheciam. E não havia ninguém que não o relacionasse com Darla. Então conhecê-lo era inevitável. Mas jamais ela imaginou que a relação que tivesse com ele seria tão intensa como se tornara desde a infância. Moa era referência em diálogo, atenção, carinho e sabedoria. Então embora Erone não gostasse dele e o culpasse por tudo de ruim que houve em sua vida ao perder Darla, ele era a referência de sua filha para tudo. Talvez ele percebesse que o carinho que sua amada esposa tivera pelo mago banido era estranhamente a mesma da filha. Por isso desaprovava, mas não proibia. Ainda assim Daily não podia dizer que não gostava do pai... Pois gostava muito. E procurava sempre entender a tristeza e os sentimentos dele com relação a tudo, mesmo não concordando. Mas infelizmente ele não pensava da mesma forma com relação à filha.
Daily foi para o trabalho. O sol forte a deixava ainda mais cansada e com sensação de fraqueza. As noites sem dormir dificultavam seus movimentos precisos e força. Ela não sabia quanto tempo suportaria tudo aquilo: trabalho árduo e dolorido sob o sol forte durante o dia e noites belas, mágicas e sem dormir sob a luz da lua.
Ela não percebeu quando Ahua estava ao lado dela, observando-a. Despertou de seus pensamentos com a pergunta dele:
- Tudo bem por aí?
- Sim... Tudo certo, senhor. – respondeu ela.
- Pode parar o trabalho, Daily. Seu pai falou que o casamento será hoje... Preferiu antecipar. Então não deve fazer esforço... Precisa ter um dia tranquilo e ficar linda para sua noite de casamento.
Daily imediatamente largou a enorme pedra que trazia e foi se dirigindo à sua casa. Percebeu que Ahua a acompanhava.
- Daily... Eu não queria machucá-la naquela noite. – disse ele.
- Mas machucou... Muito. – disse ela.
- Você nunca me entenderia... Foi preciso.
Daily continuava caminhando e ele a seguindo a passos largos.
- Um dia você terá que revelar seu segredo... E todos os Kasenkinos saberão que você não é um feiticeiro de verdade, muito menos fiel amigo de Ahau.
- Quem lhe disse que não sou feiticeiro?
- Eu sei que você não é como diz...
- Daily, eu sou um feiticeiro. Eu falo com os espíritos antigos. Isso não é mentira.
- Moa deveria estar no seu lugar. E por isso você o baniu.
- Moa não fala com os espíritos certos.
- Talvez você não fale com os espíritos certos... E Ademoore? O que você fará com ela?
- Eu... Gosto dela.
- Você gostar de alguém? – ela riu ironicamente. – Duvido.
- Se sua preocupação é com Ademoore, não se preocupe. Nada de mal acontecerá com ela.
- Eu nunca pensei que você fosse assim, Ahua... É tanta maldade e manipulação das pessoas...
- Minha inocente Daily... Você não entende nada de bondade ou maldade, querida. Você vive dentro do seu próprio mundo e não deixa ninguém entrar dentro dele. Precisa viver como uma Kasenkina... Você não faz isso. Se fosse uma Kasenkina de verdade, me entenderia, como todos.
Daily estava bem próxima de sua casa. Parou de andar e olhou nos olhos de Ahua:
- Jamais serei capaz de entender tudo que você faz ou fez...
- Daily... Não quero que ninguém saiba o que você ouviu entre eu e Ademoore. Seria um grande problema... Talvez mais para você do que para mim, visto que todos acreditam na minha palavra. Caso eu ouça boatos a respeito, saberei de onde vieram... Então se considere uma Kasenkina morta.
- Um dia eu vou dizer a todos os Kasenkinos o falso feiticeiro e conselheiro que você é. Mas por hora não vou contar nada... Mas porque não quero e não por medo de sua ameaça. Eu já não tenho mais medo da morte.
Dizendo isso ela seguiu seu caminho, sentindo os olhos cheios de desejo dele sobre ela. Ela aproveitou seu dia livre e foi para o rio. Deitou-se às margens, fechando os olhos e sentindo o sol bater em seu corpo. Ela adorava estar ali, em meio a tudo aquilo. Ela estava tão cansada que acabou adormecendo.
Daily foi despertada por um barulho na floresta. Levantou-se assustada até dar-se conta de onde estava. Não sabia ao certo quanto tempo havia dormido.
- Mark, é você? – perguntou ela.
Não houve resposta.
- Quem está aí? Saia já. - ordenou ela.
Sem respostas ela começou a ficar com medo. Poderia ser um animal selvagem e ela estava ali, indefesa. Mas Mark gostava de fazer aquilo, então ela imaginou que realmente pudesse ser ele.
- Mark, isso não tem graça. Saia já daí.
Levou um tempo até que ela percebesse o vulto vindo de trás das árvores. E não era Mark. Era Burt.
- Burt, o que você está fazendo aqui? – perguntou ela confusa.
Ele foi indo em direção à ela, sem responder a pergunta.
Ele sentou-se sem cerimônia sobre as pedras, olhando para o rio que corria fazendo barulho sobre as pedras.
- O que você está fazendo aqui? – perguntou ela novamente.
- Também fui liberado de meu trabalho hoje, afinal é meu casamento também. Vi você saindo do povoado e decidi vir aonde iria.
- E por que se esconder? Eu... Fiquei com medo.
- Medo? Pensou que fosse Mark... Quem é ele, Daily?
Ela ficou calada. Não sabia ao certo sobre falar ou não com Burt sobre Mark.
- Quem era o homem na floresta no dia do anúncio do nosso casamento? – perguntou ele.
- Do que você está falando?
- Eu o vi... E você também o viu. Desfaleceu quando o viu. Quem era ele, Daily?
Naquele momento Daily teve certeza de que não era uma visão... Mark realmente havia estado na floresta naquela noite, corajosamente.
- Não adianta mais mentir... Mark é o homem que amo, Burt.
Ela não sabia ao certo o que contar, mas sobre seus reais sentimentos ela sabia que já era hora de ele saber.
- De onde ele é? Sei que não é um Kasenkino.
- Ele... É do Reino de Machia. – confessou ela.
- Daily... Eu não posso acreditar...
- Sim... Estou apaixonada por um homem de Machia, Burt. Ele realmente não é um Kasenkino. Agora espero que entenda toda minha angústia durante este tempo...
- Daily, você corre perigo... Sabe disto? É proibido...
Ela ficou calada.
- Como o encontra?
- Eu o conheci quando retornava da cabana de Moa numa noite...
- Quer dizer que Moa sabe sobre isso? E ele não tentou impedir? Isso é um erro... Não pode...
- Moa disse que meu futuro é junto dele, Burt. Disse também que só nós podemos trazer a paz entre Machia e os Kasenkinos.
- Daily, eu não posso acreditar no que você está me falando... Você não está sendo responsável... Está indo contra seu próprio povo.
- Burt, eu gosto muito de você. Não quero que nada estrague nossa amizade. E prefiro não falar mais sobre isso para não brigarmos.
- Mas nós vamos nos casar hoje... E você me fala isso como se fosse algo normal.
- Ambos sabemos que não será um casamento de verdade, Burt.
Ele olhou nos olhos dela, levantou-se e saiu. Daily ficou ali, sozinha e confusa com a atitude dele. Sabia que Burt havia mudado um pouco desde a história do casamento e também tinha quase certeza dos sentimentos dele por ela. Mas não havia enganado ele. Ele havia aceitado aquilo para ajudá-la. Também não esperava que ele aceitasse o amor dela por outro homem, especialmente do reino de Machia.
Ela olhou para o rio e a forte correnteza que seguia. Se seguisse o rio, talvez chegasse ao reino de Machia. Será que algum dia ela conheceria o lugar onde vivia seu marido?
Era hora de voltar para casa. Ela levantou-se e seguiu seu caminho, de volta para seu povo, para o casamento que a tirava da morte por traição. Logo o dia deu lugar à noite novamente. E com ela a lua, linda e luminosa, testemunha de seu casamento com Mark... E agora de sua falsa união com Burt, o que lhe garantiria o direito de viver.
- Querida Lua, me desculpe pelo que estou preste a fazer hoje. Eu preciso que este falso casamento se realize... Ou minha vida corre perigo. E eu preciso estar viva para meu marido... Para viver este amor que é mais forte que eu, que não cabe dentro do meu coração... E também preciso estar viva pelo meu povo... Para encontrar o verdadeiro e único herdeiro dos Kasenkinos, que livrará todos da tirania de Ahua.
Ela ouviu sons na escada e ficou calada. Era Erone.
- Entre, meu pai. – disse ela.
Ele trazia o vestido de Darla nas mãos.
- Mesmo que não seja seu casamento de verdade, quero que use o vestido de sua mãe.
Daily pegou o vestido nas mãos e o olhou. Ele tinha um significado muito especial, pois havia sido usado por sua mãe. Ela olhou para Erone apreensiva e perguntou:
- Será que algum dia poderá me perdoar, meu pai?
- Infelizmente para o que você fez, não há perdão, Daily. Sofrerá muito por sua escolha. Se algum Kasenkino souber o que você fez, estará morta e sabe disso.
- Confio que meu marido me protegerá sempre, meu pai.
- Ele nunca se arriscaria a vir até nosso povoado.
- Talvez não... Depois que mataram todos os guerreiros e futuros guerreiros de Machia, não é mesmo?
- Como soube? – perguntou ele.
- Me pergunto, quem somos, meu pai? Como foram capazes de matar crianças inocentes em nome de uma guerra sem fim, da qual elas nem sabiam existir?
- Somos guerreiros... Matamos... É isso que fazemos.
- Matamos crianças inocentes? É isso que queremos desta guerra? Casamos para ter filhos para não deixar nosso povo morrer... E se eles tivessem esta mesma atitude?
- Machia nos rouba... Quer tudo de nós... Quer que sejamos submissos a eles.
- Será que é assim mesmo? Já se perguntou se não lutamos simplesmente por que sempre foi assim?
- Daily, não vou discutir isso com você. Eu não me arrependo de minhas atitudes... Já lhe falei sobre isso.
- Temos algo em comum nisto tudo: também não há arrependimentos da minha parte, meu pai.
Ele saiu. Ela ficou ali, olhando para o vestido que Darla havia usado talvez no dia mais feliz de sua vida. Quanto tempo suportaria aquele desprezo e ódio do pai? Aquilo doía dentro dela, mas não havia o que fazer para impedir.
Ela colocou o vestido de sua mãe e alisou com carinho o tecido plano e macio. Maquiou-se e colocou brincos e colares longos de pedras, completando com uma tiara de rubis. Completou com o véu combinando com a roupa. Ela não merecia usar aquele véu... Ela já era uma mulher casada e seu rosto já havia sido visto por algumas pessoas. Tudo era uma farsa e ela temia não suportar tudo aquilo.
Estava tudo preparado para a cerimônia, mesmo tendo sido antecipada de última hora. Não havia festa, como no anúncio do casamento. Ainda assim, todos os Kasenkinos eram obrigados a participar da união. O casamento, diferente da noite de anúncio, era celebrado por Ahua, o feiticeiro e conselheiro do líder, o homem que conversava com os espíritos e ali buscava aprovação deles, selando perante todos Kasenkinos, vivos e mortos, a união eterna entre os dois.
Daily e Burt sentaram-se no círculo preparado para eles, frente a Ahua. Mais atrás estava Ahau e Ademoore, sentados em tronos de madeira enfeitados especialmente para eles.
Ahua não demorou a iniciar a cerimônia. Ele vestia uma roupa longa branca e colares de várias cores bem como pedras envoltas em sua roupa. O rosto pintado imitando tatuagens brancas contrastava com a pele morena e os cabelos molhados trançados no alto da cabeça.
Burt pegou na mão de Daily, tocando seu anel:
- O que é isso no seu dedo? – perguntou em voz baixa, confuso.
- Um anel. – disse ela.
- Por que está usando um anel?
- Eu...
- Precisar tirá-lo. – disse ele.
- Eu... Não posso.
- É necessário. Para eu desposá-la.
- Nunca farei isso...
- Algum problema? – perguntou Ahua.
- Nenhum. – disse Daily.
Ele prosseguiu com suas palavras, que Daily sequer ouvia. Sua cabeça pensava mil coisas ao mesmo tempo. E ela não tiraria o anel dado por Mark. Precisariam matá-la para isso.
Ahua colocou sua mão sobre a cabeça de cada um deles, dando seu consentimento enquanto líder Kasenkino. Depois colocou um outro véu sobre o de Daily, o mesmo que todas as mulheres usavam nas cerimônias de casamento. E disse a única coisa que lhe cabia durante toda a cerimônia:
- Quando este véu for tirado, você será uma mulher perante os Kasenkinos. Siga nossas tradições e leve seu casamento para sempre. E vocês tem a obrigatoriedade de terem um filho pelo menos, para dar continuidade ao nosso povo. Esta união é eterna e a traição não é aceita, sendo punida com a morte de ambos.
Dizendo isto, ele foi andando lentamente de volta para sua cabana. A parte dele estava encerrada.
- Com a aceitação de todos os espíritos antigos eu os declaro casados. – disse Ahua.
Quando ele falou aquilo Daily teve certeza de que ele não falava com espíritos antigos. Se realmente ele tivesse este contato, saberia que jamais aquele casamento seria aceito pelos Kasenkinos que viveram naquele povoado, pois eles sabiam que ela já estava casada com outro homem. Mas ela não tinha muito tempo para pensar. Logo Burt a pegou no colo e a conduziu pelo caminho da casa dele. Todos aplaudiram e começaram a voltar para suas casas, como sempre ocorria. Ela estava tão próxima a ele... E isto a incomodava muito. Quando chegaram, ele a soltou e disse:
- Eu havia comprado um lindo anel para você dos Naiguãs.
- Não precisaria ter se incomodado com isso, Burt. Eu tenho muitos anéis.
- Este anel que você usa não existe por aqui... E nunca vi para vender. – observou ele.
- Eu... O achei próximo do rio. – mentiu ela.
- Tire-o, por favor. Quero que coloque o que eu comprei especialmente para você.
- Eu não posso, Burt.
- Por quê?
- Porque eu não quero.
- Sabia que o anel usado neste dedo é símbolo de casamento no Reino de Machia?
- Eu... Não sabia. – ela se fez de desentendida.
- Não quero que o use neste dedo.
- Burt... Eu vou usá-lo assim.
- Não quero discutir com você na nossa primeira noite de casados, Daily.
- Burt, não estamos casados.
- Sei que você não queria, mas perante os espíritos antigos realmente estamos casados.
Daily tirou o véu símbolo do casamento Kasenkino e em seguida tirou o outro.
Ele ficou observando-a sem dizer nada.
- Burt, este casamento não teve validade nenhuma perante os espíritos antigos ou os deuses.
- Então, este anel...
- Sim... Recebi de Mark no dia que nos casamos. – confessou ela.
- Daily... Como pôde ser tão cruel comigo?
- Burt, não estou entendendo...
- Eu sempre te amei, Daily... Será que realmente você nunca percebeu isso? Fez questão de me usar em nome de seus ideais, não se preocupando com meus sentimentos em momento algum. Agora me confessa que já está casada e brincou comigo e com os deuses todo este tempo?
Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce
- Mas... Por que fizeram isto, Burt?- Ahau lhes prometeu ouro, muito ouro, se eles ajudassem na construção da muralha. E assim eles fizeram...- E de onde Ahau tiraria ouro para lhes dar?- Não havia ouro algum... Ahua mentiu para eles. E agora eles vão matar todos. Será o fim dos Kasenkinos. – disse ele rindo nervosamente, com os olhos não parando de mexer nunca.Percebia-se que ele estava visivelmente abalado com tudo e não parecia estar pensando bem. Falava rápido, olhava para todos os lados, com muito medo.- Burt... Você tem certeza de que eram os Naiguãs?- Sim... Muitos deles... Nunca vi tantos... Todos montados nos cavalos, seres místicos dos deuses.- E Ahua?- Mataram Ademoore... E muita gente.Daily o abraçou. Ela tinha tanto medo, mas Burt parecia estar mais amedrontado do que ela.- Burt, meu amigo, o que fizeram
Daily percebeu que Ika estava falando devagar, parecendo ter dificuldade em pronunciar as palavras.- Ika, você está bem? – perguntou ela preocupada.- Não me sinto muito bem...Daily podia ver o suor escorrendo pelo rosto dela e parecia estar sem ar. Daily gritou em desespero por socorro. Logo os empregados vieram em seu auxílio. O nervosismo tomava conta de Daily. Percebeu em sua boca uma espuma esbranquiçada. Quando o doutor chegou, ela ainda segurava na mão de Ika.Não demorou até que fosse dado o motivo da morte:- Envenenamento. – disse o doutor.- Como? – perguntou Daily chocada.- Um veneno forte, com certeza. Mas nada mais pode ser feito por ela, infelizmente. Era uma boa mulher. Fiel criada do rei Pollo e depois do rei Mark.Daily olhou para a xícara de chá próxima da cama e gritou em lágrimas:- Não pode
Mark entrou no quarto rapidamente, muito preocupado.- Daily, o que houve? Eu soube que o médico veio vê-la. Você está doente? Passou mal?- Está tudo bem, Mark. – disse ela deitada confortavelmente na cama.- Eu sabia que Sherylin não a deixaria em paz... Foi por isso que eu a proibi de entrar no castelo.- Ela não teve culpa... Inclusive me pediu desculpas. Disse que irá embora de Machia.- Sherylin lhe pediu desculpas? Sinceramente eu não acredito nas desculpas sinceras dela.- Ela pode ter percebido que nosso amor é real, Mark. Talvez tenha decidido não mais acabar com nossa felicidade. Que de nada adiantaria nos fazer mal...- Daily, não se iluda com Sherylin. Se tem uma coisa que ela sabe muito bem é como manipular as pessoas.- Eu não me importo com Sherylin, Mark. Tenho coisas mais importantes a tratar com você.
Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre
Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol







