INICIAR SESIÓNEra a única história que seu pai lhe contara. Ela achava a mais linda história de amor que era contada entre os Kasenkinos. Mas então lhe veio a mente a cabeça do rei Pollo saindo daquele saco. Ela voltou a correr por seu caminho. Já estava escuro dentro da floresta. Ela chegou ao caminho que se dividia em dois. Poderia seguir por onde sempre ia, o caminho seguro e com frutas gostosas que sempre comia. Ou ir pelo caminho escuro e tentador que aparecia a sua frente, onde acabava o trilho em madeira no chão e tinha no meio um tronco meio caído, meio levantado, como uma incógnita no caminho. Ela sabia que se fosse seguro ir por ali, os Kasenkinos teriam arrumado aquela trilha. No entanto ela estava ali, convidativa, insegura e esperando por uma corajosa desbravadora.
Ela respirou fundo e foi pelo caminho que sempre seguia. Mas deu alguns passos e voltou. Precisava usar sua coragem e seguir seus sonhos. Não queria ter medo e sempre quis conhecer aquele caminho. Ela seguiu devagar e tranquila. Passou por sua cabeça, enquanto caminhava, o motivo de Ahau querer uma nova esposa naquele momento, pois já era um homem muito velho. Quereria ele um herdeiro, para quando morresse, assumisse seu lugar? Poderia ele ter filhos naquela idade?
A trilha era escura. A luz da lua era fraca em meio às arvores muito frondosas. Daily respirava ofegantemente e por isso tirou o véu. Sabia que ninguém a encontraria ali. Nada mudava enquanto ela caminhava. O caminho seguia com a trilha em terra bastante tomada por mato em alguns pontos e árvores por todo lado. Mas pessoas passavam por ali, ou não haveria a trilha. O rio a acompanhava logo adiante. Podia vê-lo e ouvi-lo entre as árvores. Ela sentia sono. Ela parou e foi para a margem do rio. Embora com bastante correnteza, ele não era tão largo naquele ponto. E não havia tantas árvores e mata do outro lado, como próximo do povoado. Se Terry tivesse ido para lá tinha chance de estar viva. Ela se sentou para descansar.
Quando Daily abriu os olhos percebeu que o céu estava claro e que logo iria amanhecer. Acabou adormecendo sem se dar conta. Ouvia o canto forte dos pássaros e o barulho do vento batendo nas árvores e o rio correndo entre as pedras. Ela se deu conta de onde estava. Quando foi levantar sentiu uma forte dor nas costas. Levantou os braços e levantou-se devagar. Quando abriu os olhos novamente quase caiu no chão, tamanho susto que tomou. Havia um homem a poucos metros dela, observando-a atentamente, olhando-a nos olhos. Ela sentiu todo seu corpo tremer naquele momento e seu coração bater muito forte. Não conhecia aquela pessoa. E certamente não era um Kasenkino. Ele tinha a pele clara e cabelos no mesmo tom. Não sabia exatamente o comprimento, pois estavam amarrados no alto da cabeça. Os olhos eram claros e tinha uma barba muito bem feita. Usava roupas diferentes dos homens Kasenkinos.
- Quem é você? – perguntou ele.
- O que faz aqui? – perguntou Daily.
Ele sorriu, mostrando os dentes brancos e bem alinhados. Seus olhos não conseguiam desviar daqueles olhos claros. Sentia o estômago se contorcer de medo do que vivenciava naquele momento. Ele a observava atentamente e então Daily se deu conta de que não usava seu véu protetor.
- Eu não acredito que fiz isso... – disse ela em voz alta para si mesma.
Ela ficou desesperada, sem saber o que fazer. Poderia ser amaldiçoada para sempre. Lágrimas começaram a rolar por sua face. O que seria dela agora? Havia quebrado a maior tradição das mulheres Kasenkinas.
- O que aconteceu? – perguntou ele confuso.
Daily encontrou o véu sujo no chão. Havia dormido sobre ele. Não tinha porque colocá-lo naquele momento. Já era tarde. Aquele homem já vira seu rosto. Ela foi imediatamente até o rio e lavou-o com força para tirar a terra. Machucou os dedos devido à força que fizera. Sentia o olhar daquele homem sobre ela, mesmo que ele não falasse nada nem se movesse de onde estava. Ele estava muito próximo que ela conseguia ver a sombra dele no rio. Não importava quem era aquele homem... Só ele poderia salvá-la... Se casando com ela.
- Quem é você? – perguntou ele novamente.
- Quem é “você”? – perguntou ela.
- Bem, percebi que você é difícil... Sou Mark.
- E... O que você faz aqui?
- Bem, eu não vou responder todas as suas perguntas sem você ao menos dizer quem é. Você está no meu reino... Quem responde as perguntas é você.
Daily olhou para ele... Era extremamente arrogante. Não importava o que ele pensava ou de onde vinha... Teria que ajudá-la.
- Você terá que casar comigo. – disse ela.
- O quê? – perguntou ele surpreso e confuso.
- Isso mesmo que você ouviu. Terá que casar comigo.
- Você deve ser louca. – disse ele seriamente.
- Você não deveria estar aqui.
- Você que não deveria estar aqui. Este é um território real.
- Real? Está falando de Machia?
Naquele momento ela percebeu que o problema era bem maior do que pensava. Nem sabia como faria para resolver tudo que estava acontecendo. Não bastava ter mostrado o rosto... O homem que a vira era um homem do reino. Novamente ela começou a chorar. Por que pegara aquele caminho? Por que tirara o véu?
- Não chore... Desculpe-me. Eu não quis ofendê-la.
- Você precisa casar comigo. – falou ela quase implorando.
- Isso é brincadeira... Foi Sherylin que pediu para você fazer isso comigo?
Daily olhou para aquele homem que estava na sua frente. Ele se vestia com tecidos que não existiam no povoado Kasenkino. Moa havia dito que quando ela encontrasse uma pessoa do reino, saberia que era de lá. E isso era muito claro, no tom de pelo dele, na roupa, no sotaque...
- Quem é Sherylin? – perguntou ela limpando as lágrimas.
- Me diga quem é você, por favor. – insistiu ele.
- Sou Daily.
- Nunca a vi no reino, Daily.
- Reino? Certamente nunca me viu no reino de Machia, pois eu sou uma Kasenkina.
- Isso sim é um grande problema. – disse Mark balançando a cabeça nervoso e confuso.
- Não entendo... O que há de errado?
- Tudo errado. – disse ele. – A começar por você ser uma Kasenkina.
- Como assim? Você nem me conhece.
- Seu povo é cruel. Matam nosso povo, destroem nosso reino, roubam nossa comida...
- Isso não é verdade. – falou ela antes que ele acabasse o que ia dizer. – Vocês que teimam em querer nosso território.
- Vocês não tem um território. Estão nas terras que pertencem ao Reino de Machia, oficialmente. Por isso as batalhas. Acham-se os donos de uma terra que nunca foi de vocês.
- Você é um prepotente, arrogante, que não sabe nada sobre os Kasenkinos.
Ele riu ironicamente:
- Há pouco tempo você queria casar comigo e agora me chama de arrogante e prepotente. Como entender você?
- Eu tenho nojo do seu povo. – falou ela sem saber ao certo porque dizia aquilo. Sempre sonhara conhecer alguém de Machia, mas se todos eram como aquele homem, ela não tinha mais esta vontade.
Novamente ela não resistiu e voltou a chorar. Ele ficou calado por um tempo e depois se aproximou dela, fazendo com que Daily desse alguns passos para trás.
- Não entendo por que você chora tanto. – disse ele.
- Porque você viu meu rosto. – confessou ela.
- E o que tem de errado nisso? É o rosto mais lindo que já vi em toda minha vida, com todo respeito.
- Sou uma Kasenkina... Temos tradições e culturas diferentes do seu povo. Não posso mostrar meu rosto antes do casamento, por isso uso um véu para cobri-lo. O véu é o sinal da pureza da mulher. Só posso tirá-lo no dia do meu casamento. Talvez você não entenda... Mas vou ser oferecida aos deuses, sacrificada, morta... Entende?
Ele pensou e sugeriu:
- Ponha o véu novamente não conte que foi vista por um homem.
- Serei amaldiçoada da mesma forma.
- Amaldiçoada? Não consigo acreditam que tenham estas crenças sem sentido. A maldição quem faz são vocês, Kasenkinos.
- Não ofenda meu povo.
- Não acredito que nunca tenha ofendido meu povo... Você tem nojo de nós, não é mesmo?
- Eu sou uma Kasenkina, mas admito todos os erros do meu povo.
- Pensei que os Kasenkinos estivessem acima do bem e do mal... E que não admitissem seus erros.
- Geralmente não mesmo. Mas eu sou diferente.
- Já que é diferente e pelo visto inteligente, não conte que foi vista sem o seu véu. Deve saber que esta maldição não existe de verdade, não é mesmo? Quem amaldiçoaria um belo rosto por ser mostrado?
- Admito os erros do meu povo sim, mas sou uma Kasenkina e isso nunca mudará. E sim, eu acredito nas tradições e legados que meu povo traz ao longo dos anos. Se não houvesse maldição, não teriam ocorrido tantas coisas tristes e ruins entre meu povo, principalmente a morte da minha mãe.
Ele ficou olhando-a atentamente e depois de um tempo disse:
- Daily, eu não posso me casar com você... Desculpe-me. Mas eu já tenho uma noiva... Estou prometido à ela desde que nascemos. Ela é do reino de Machia.
- Você está zombando de mim? – perguntou ela incrédula.
- Não... Estou dizendo a verdade.
Daily percebeu que não havia o que fazer. Não bastava que ele casasse com ela para evitar tudo... Ele era do reino de Machia. Mesmo que quisesse ajudá-la não poderiam igual casar. Infelizmente ela havia cometido o erro ao tirar o véu, mesmo sabendo que era proibido. Nem mesmo seu pai conhecia seu rosto e agora um homem desconhecido a vira e a tornara uma mulher impura.
Ela virou-se, colocou o véu molhado em seu rosto e seguiu seu caminho de volta para o povoado.
- Aonde vai? – perguntou ele.
- Embora. Vou para minha casa, para junto do meu povo. Você não tem a responsabilidade de casar comigo. Eu fui culpada, tirei meu véu... Fui tola e irresponsável e preciso pagar por meu erro. Desculpe-me se o ofendi de alguma forma.
Ela seguiu andando e ele logo estava ao lado dela. Ela não conseguia evitar as lágrimas.
- Daily...
Ela não lhe dava ouvidos, seguia seu caminho a passos largos. Ele a pegou pelo braço, forçando-a a parar.
- Estava dizendo a verdade quando falou sobre sacrifício e morte por causa do véu?
- Sou uma Kasenkina... Não minto.
- O que eu poderia fazer por você? Como uma Kasenkina você deve saber que seu povo jamais aceitaria que eu casasse com você, mesmo que fosse meu desejo. Jamais seria permitida a união entre uma Kasenkina e um homem de sangue real.
- Sangue real? – perguntou ela.
- Sim... Eu sou príncipe de Machia, único filho e herdeiro do rei Pollo.
- Do rei Pollo?
- Sim... Meu pai foi morto por um Kasenkino na última batalha... Uma guerra horrível... Mataram todos os homens e meninos do reino.
- Meninos?
-Todos... Inclusive recém-nascidos que encontraram. Pouparam alguns idosos, que não podem lutar ou ter filhos... Foi isso que seu povo fez com o meu.
- Eu... Não posso acreditar.
- Foi o pior massacre que já aconteceu na história do meu povo.
- Mas como você não morreu?
- Infelizmente fui impedido por meu pai de lutar. Como forma de me proteger, ele me trancou no castelo, justo para que eu pudesse assumir o reino caso algo acontecesse com ele. Em pouco tempo serei declarado rei de Machia.
- Eu... Peço desculpas em nome do meu povo. – falou ela extremamente pesarosa pelo ocorrido.
Naquele momento, olhando para aquele jovem cheio de vida na sua frente, ela se lembrou de Erone e da cabeça do rei Pollo. Seu pai havia matado o pai de Mark. O que ele faria com ela se soubesse a verdade? Vingaria a morte do pai?
- Seu pai era bondoso? – perguntou ela.
- O melhor rei que Machia já teve. Meu pai era um homem benevolente, queria sempre o melhor para todos. E, me desculpe, mas vou vingar a morte de meu pai, matando o Kasenkino que o matou.
Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce
- Mas... Por que fizeram isto, Burt?- Ahau lhes prometeu ouro, muito ouro, se eles ajudassem na construção da muralha. E assim eles fizeram...- E de onde Ahau tiraria ouro para lhes dar?- Não havia ouro algum... Ahua mentiu para eles. E agora eles vão matar todos. Será o fim dos Kasenkinos. – disse ele rindo nervosamente, com os olhos não parando de mexer nunca.Percebia-se que ele estava visivelmente abalado com tudo e não parecia estar pensando bem. Falava rápido, olhava para todos os lados, com muito medo.- Burt... Você tem certeza de que eram os Naiguãs?- Sim... Muitos deles... Nunca vi tantos... Todos montados nos cavalos, seres místicos dos deuses.- E Ahua?- Mataram Ademoore... E muita gente.Daily o abraçou. Ela tinha tanto medo, mas Burt parecia estar mais amedrontado do que ela.- Burt, meu amigo, o que fizeram
Daily percebeu que Ika estava falando devagar, parecendo ter dificuldade em pronunciar as palavras.- Ika, você está bem? – perguntou ela preocupada.- Não me sinto muito bem...Daily podia ver o suor escorrendo pelo rosto dela e parecia estar sem ar. Daily gritou em desespero por socorro. Logo os empregados vieram em seu auxílio. O nervosismo tomava conta de Daily. Percebeu em sua boca uma espuma esbranquiçada. Quando o doutor chegou, ela ainda segurava na mão de Ika.Não demorou até que fosse dado o motivo da morte:- Envenenamento. – disse o doutor.- Como? – perguntou Daily chocada.- Um veneno forte, com certeza. Mas nada mais pode ser feito por ela, infelizmente. Era uma boa mulher. Fiel criada do rei Pollo e depois do rei Mark.Daily olhou para a xícara de chá próxima da cama e gritou em lágrimas:- Não pode
Mark entrou no quarto rapidamente, muito preocupado.- Daily, o que houve? Eu soube que o médico veio vê-la. Você está doente? Passou mal?- Está tudo bem, Mark. – disse ela deitada confortavelmente na cama.- Eu sabia que Sherylin não a deixaria em paz... Foi por isso que eu a proibi de entrar no castelo.- Ela não teve culpa... Inclusive me pediu desculpas. Disse que irá embora de Machia.- Sherylin lhe pediu desculpas? Sinceramente eu não acredito nas desculpas sinceras dela.- Ela pode ter percebido que nosso amor é real, Mark. Talvez tenha decidido não mais acabar com nossa felicidade. Que de nada adiantaria nos fazer mal...- Daily, não se iluda com Sherylin. Se tem uma coisa que ela sabe muito bem é como manipular as pessoas.- Eu não me importo com Sherylin, Mark. Tenho coisas mais importantes a tratar com você.
Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre
Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol







