Se connecterCapítulo 42
Cassian
Reúno a segurança no meu escritório uma hora mais tarde.
A sala está mergulhada numa penumbra que os apliques de parede mal conseguem dissipar, e a luz cinzenta da tarde filtra através das janelas envidraçadas, desenhando retângulos pálidos no assoalho de mogno. Moreau está perfilado diante da minha mesa, o rosto fechado, as mãos cruzadas nas costas, os nós dos dedos bra
Capítulo 57CaméliaOs dias passam, e eu cambaleio.As palavras de Lilia se infiltraram em mim como um veneno lento, como uma doença insidiosa que progride sem que se veja, sem que se sinta, até que seja tarde demais para detê-la. Tu não és mais que um substituto. Uma dublê. Um prêmio de consolação. Ele está obcecado pelo que eu represento. Agora que voltei, o papel terminou. A peça acabou. Essas palavras giram na minha cabeça em loop, uma e outra vez, como uma melodia fúnebre, como um disco riscado que nunca para. Ouço-as quando acordo de manhã, sozinha na cama conjugal, os lençóis frios ao meu lado. Ouço-as quando me visto, diante do espelho do closet, enfiando-me nestes vestidos que não me pertencem. Ouço-as quando faço as refeições, sentada à grande mesa da sala de jantar, diante de
Capítulo 56CaméliaO primeiro confronto privado acontece na mesma noite, no quarto conjugal.Estou sentada na beira da cama, as mãos cruzadas sobre os joelhos, o coração pesado como uma pedra. Cassian ainda não subiu. Está no escritório, a trabalhar, a preparar não sei que estratégia, a fechar-se nesse silêncio que é a sua maneira de lidar com as crises. Estou sozinha, e é nessa solidão que Lilia escolhe atacar.A porta se abre sem que se tenha batido, sem que se tenha anunciado a sua vinda. Ela entra como se entra em casa, com passo firme, a cabeça erguida, os ombros direitos. Usa um roupão de seda marfim, e seus cabelos estão soltos, espalhados sobre os ombros em ondas de mel. Seus pés estão descalços sobre o assoalho, e ela se move neste quarto com uma naturalidade, uma familiaridade, uma propriedade que me gelam o
Capítulo 55CassianObservo o reencontro, e não digo nada.Fico em retirada, encostado na parede do hall, os braços cruzados, o rosto fechado. Não quero interferir, não agora. Quero ver. Quero observar. Quero analisar cada gesto, cada palavra, cada olhar.Lilia é uma atriz excepcional. Já sabia, mas hoje constato com uma clareza nova. Ela atravessa o hall correndo, os braços abertos, o rosto iluminado por um sorriso que parece tão espontâneo, tão sincero. Pega Camélia nos braços, e a aperta contra si com uma afeição que comove os criados aglomerados na entrada. Ouço os murmúrios, os suspiros enternecidos. Pobre madame Deveraux. Como deve ter sofrido. Como é corajosa. Como ama sua irmã.Eu não vejo uma irmã amorosa. Vejo uma predadora.Conheço os predadores. Eu sou um. Passei a vida inteira a
Capítulo 54CaméliaVejo-a antes que ela me veja.Do patamar do primeiro andar, dissimulada atrás de uma coluna de mármore frio, observo a entrada da minha irmã no hall. O tempo parou, suspenso neste instante, nesta silhueta que desce do carro com uma graça que sempre lhe invejei, um andar balanceado de rainha que pisa o solo do seu reino após um longo exílio. Os flashes crepitam atrás dela como uma chuva de relâmpagos, furando a cinzentude desta manhã bretã, e ouço os gritos dos jornalistas que atravessam as paredes espessas da mansão, suas vozes que gritam seu nome, que a chamam, que a suplicam que lhes conceda um olhar, uma palavra, um sorriso. Ela lhes oferece tudo isso ao mesmo tempo, um sorriso frágil que treme na borda dos lábios, um sorriso de vítima corajosa que sobreviveu ao inferno e que dele voltou mais forte.Ela está r
Capítulo 53LiliaO carro franqueia os portões do domínio Saint-Clair, e eu sorrio.A mansão aparece na curva da alameda, fortaleza de vidro e aço negro suspensa sobre o oceano, e eu a olho com olhos novos, olhos de ressuscitada, olhos de milagrada. Nada mudou. Os penhascos de granito ainda mergulham na água negra, as ondas ainda se espatifam contra as rochas num estrondo surdo, o vento ainda sopra sobre a charneca fazendo curvar as ervas daninhas. Tudo está exatamente como na minha lembrança, como se o tempo tivesse parado no dia do meu desaparecimento. Como se a mansão tivesse me esperado.Sei que as câmeras estão apontadas para o carro, que os jornalistas acampam diante dos portões, que o país inteiro espera ver o rosto da mulher que sobreviveu ao inferno. Os flashes já crepitam, furando a cinzentude desta manhã bretã, e ouço os gritos,
Capítulo 52CassianPreparo a chegada de Lilia como se prepara uma batalha.A noite foi curta, e não fechei os olhos. Camélia também não, embora tenha acabado adormecendo de madrugada, exausta pela angústia. Segurei-a contra mim até que sua respiração desacelerasse, até que seus dedos crispados na minha camisa se soltassem, até que ela finalmente escorregasse num sono agitado, povoado de pesadelos que eu não podia afastar. Depois me levantei, e comecei a trabalhar.Estratégia. Controle. São as únicas palavras que contam hoje.Não acredito numa palavra da história de Lilia. Sequestro. Cativeiro. Fuga milagrosa. É perfeito demais, liso demais, bem amarrado demais para ser verdade. Lilia sempre foi uma atriz excepcional, uma manipuladora de gênio, uma mulher capaz de mentir com uma segurança que forçava a ad







