Teilen

CAP. 2- O Eclipse de Sky

last update Veröffentlichungsdatum: 13.04.2026 10:54:56

(POV Sky)

Minha cabeça parece um canteiro de obras em dia de demolição. No banco de trás do táxi, o som das garrafas de Vodka e vinho batendo uma na outra é um tintilar torturante. Minutos depois, o carro para em frente à minha casa. O prédio é simples, mas é o que o "Tio" Gouveia gentilmente nos ajuda a manter com aquele aluguel de miséria, em troca do terreno que era do meu pai.

Entro e sinto o cheiro de mofo e umidade que me persegue desde os quinze anos ainda está lá, por mais que eu tente disfarçar as paredes com as amostras de tecidos caros que peguei na Gouveia Construtora. Vou direto para o quarto do meu pai. O silêncio ali é quebrado apenas pelo ritmo do respirador. Olho para ele, paralisado naquela cama: um gênio da arquitetura reduzido a um espectador da própria desgraça.

Ele era o cérebro da Tríade & Enterprise. O Gouveia entrou com o dinheiro, o Lacerda com os contatos e meu pai com o terreno da família e o talento que o mundo cobiçava. Meu pai criou a ideia do século: uma tecnologia capaz de revolucionar a engenharia, mas foi roubado pelo sócio, o Lacerda. No dia em que ele descobriu a traição e saiu para lutar pelo que era dele, o acidente levou a vida da minha mãe e o deixou assim, preso nesse corpo morto.

O pior não foi o acidente. Foi o que veio depois. O Lacerda não apenas roubou a patente; ele usou o poder dele para processar meu pai por plágio. Ele inverteu a história e enterrou o nome do meu pai na lama. Sinto um nó na garganta que nem a Vodka dissolve. Como vou olhar para ele amanhã e dizer que o filho do homem que nos sustentou por dez anos é um lixo? Eu sou grata ao Gouveia por pagar os médicos, mas não consigo esquecer aquela cena na mesa de reunião.

— Sky? É você? — A voz da Moon vem do corredor.

Moon Bittencourt. Minha irmã caçula, a razão de eu nunca ter desistido. Ela é quatro anos mais nova que eu, mais bonita e mais magra. Diferente de mim, ela herdou os fios claros da nossa mãe, enquanto eu fiquei com os olhos dela e esse ruivo acobreado indomável que insiste em ficar bagunçado. Minha mãe, Estela, era uma astrônoma apaixonada e decidiu que teríamos nomes de outro mundo. Eu sou Sky, o Céu; ela é Moon, a Lua. Sofremos bullying a vida inteira por isso. Éramos "as irmãs lunáticas" e, quando a pobreza bateu, viramos as "lunáticas da favela".

— Sou eu, Moon. Vai dormir — respondo, tentando esconder as garrafas atrás das costas.

Ela aparece na porta com os olhos brilhando. Moon tem excesso de otimismo, o oposto de mim.

— Eu estava te esperando. Tenho duas notícias: uma boa e uma maravilhosa. Qual quer primeiro?

— Nenhuma — caminho até os aparelhos do meu pai, confiro o oxigênio, dou um beijo em sua testa e escoro a porta.

— Azar o seu, vou falar assim mesmo. A primeira: o seu vestido de noiva chegou. A Sofia deixou lá no seu quarto. E tenho certeza de que não foi você que escolheu, porque aquele lá é bonito demais para o seu gosto básico.

Aperto os olhos com força. O vestido. Eu não escolhi nada; a Sofia escolheu "o que o Victor gostaria", moldando meu corpo para um padrão que nunca foi meu.

— E a segunda... — Moon se aproxima, sussurrando como se o mundo fosse acabar. — Lembra daquele concurso que eu te falei? O do Complexo Blackwood Horizon? Aquele que você disse que era marmelada.

Meu estômago dá um solavanco. A Blackwood. Uma das maiores construtoras do mundo e a empresa que eu mais odeio. Eles foram os primeiros a comprar a tecnologia que o Lacerda roubou do meu pai e ainda o processaram por plágio. Eles deram o dinheiro que financiou a nossa destruição.

— O que tem? — pergunto, seca.

— A Zênite Arch Design passou para a segunda fase, Sky! O seu projeto está entre os vinte melhores. Eles querem o anteprojeto técnico em duas semanas.

— Moon, eu te disse para não mandar nada! Se o Lacerda for um dos avaliadores e descobrir que eu estou por trás da Zênite, ele acaba com o pouco que sobrou da gente. Ele enterra o papai de vez.

— Ele não vai descobrir, Sky! — ela diz, chegando mais perto. — O concurso é Double-Blind, seleção às cegas. Na primeira fase eles só avaliam o conceito e a filosofia. Não tem nome, não tem assinatura. O projeto passou pelo seu talento.

— Mas eu nem tinha terminado, Moon! Parei o desenho assim que descobri que era para essa seletiva da Blackwood. Eles validaram o roubo do Lacerda.

— Pois é! Você nem terminou e já passou — ela sorri, vitoriosa. — Imagina se tivesse finalizado? Temos chance real de ficar entre os dez melhores. O seu talento falou antes do seu nome. Você sempre diz que a IA calcula a luz, mas só o arquiteto sabe onde colocar a janela para aquecer o coração. Alguém na Blackwood enxergou o sol no seu desenho, Sky.

Olho para o meu pai dormindo. Talvez seja o álcool falando mais alto, mas decido:

— Ok. Me mande o que tenho que fazer e qual a ideia central. Vou construir esse projeto, Moon, mas não crie expectativas.

O projeto que o Lacerda roubou do meu pai virou uma máquina fria de fazer dinheiro. Uma IA que mata a criatividade. Agora, eu tenho quatorze dias para provar que o meu traçado manual é melhor. Talvez assim eu consiga salvar nosso sobrenome Bittencourt.

— O vestido chegou, né? — pergunto, mudando de assunto.

 — Chegou... está lá no quarto. Quer experimentar? — ela pergunta, alegre.

 — Não. — Olho para as garrafas de bebida que cansei de esconder e coloco o dedo nos lábios, antes dela dizer algo. — Shhhiii.

Atravesso o corredor em direção à despensa e a Moon me segue como um cachorrinho assustado. Começo a mexer nos meus materiais de pintura. Eu amo a arte, desenhar é o que me faz querer alcançar o ponto mais alto do céu, como o nome da minha empresa: Zênite.

— Sky, o que você vai fazer? Por que essa Vodka? — ela insiste.

— Vai se deitar Moon. Agora.

— Não vou! Você está estranha demais.

Eu paro. Sinto o peso da bebida no estômago e o gosto amargo da traição na língua. Viro-me para ela.

— Ele está me traindo, Moon. Ela me olha, confusa, arqueando a sobrancelha. — O Victor está me traindo com a Sofia — explico.

Minha irmã recua e cai sentada no banquinho de madeira.

 — Puta que pariu. Sofia? Nossa melhor amiga? Aceno com a cabeça e dou um gole na Vodka, empurrando a náusea. Começo a pegar os tubos de tinta acrílica preta e vermelha.

— Sim. É por isso que vou usar essas tintas.

— No vestido? Pichar o seu vestido de sereia vai resolver o quê? — ela pergunta, a voz trêmula. — O Gouveia pagou caro por isso...

Passo por ela e vou direto para o meu quarto. No espelho, vejo que estou horrível: maquiagem borrada e cabelo amassado. Pego meus pincéis.

 — Sky, para! Você vai estragar tudo! — Moon grita da porta.

— Eu cansei, Moon! Ele queria uma noiva inocente, virgem e magra? Pois amanhã ele vai ter uma Viúva Negra.

— Você ainda vai se casar com ele?

— Ah, para o casamento eu vou. Fiquei amaciando aquela porcaria de sapato por cinco dias. O Gouveia queria esse casamento mais que o próprio filho, sempre dizendo que "família cuida de família". Pois a nossa "família" estava se comendo em cima da mesa do escritório enquanto eu passava fome para caber na merda desse vestido.

Moon me olha sem ter o que responder.

 — Talvez ele tenha feito isso porque eu quis esperar, sabe? Mas isso não é justificativa! — Sinto a bile subir. — Se eu sinto vontade de matar alguém, eu simplesmente vou lá e mato? Não.

— Eu sinto muito, Sky... eu sei que para você é mais difícil se conectar, ter essa confiança toda para sentir alguma coisa.

— Pois é. E agora se ele me olhar, eu vou morrer de ânsia de vomito.

Mudo de assunto perguntando das notas dela na faculdade para cortar o clima pesado. Ela fala sobre o curso de Design e a necessidade de uma mesa digitalizadora.

— Vou dar um jeito nisso — respondo, sem esperança, mas querendo protegê-la. — Agora vá se deitar. E se não quiser ir ao casamento amanhã, será melhor.

Ela segura meu ombro antes de eu me fechar no quarto.

— Pensa direito no que você vai fazer, tá?

 Aceno com a cabeça. O vestido de sereia está na cama, brilhando. Pego o pincel e começo a sujar a barra do tecido caro com traços pretos e violentos. Abro a garrafa de vinho e deixo cair gotas vermelhas na seda, como sangue.

No fim, será uma obra de arte fria e cruel. Fria igual aos meus sentimentos que morreram. Cruel igual à ressaca que vou sentir amanhã. Foram dez anos construindo uma ponte mental para aceitar a ideia de uma entrega para esse homem, e ele jogou tudo no lixo. Ele não era obrigado a esperar, mas também não tinha o direito de ser um canalha.

Lies dieses Buch weiterhin kostenlos
Code scannen, um die App herunterzuladen

Aktuellstes Kapitel

  • A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário   CAP. 661/662 - Completamente feliz!

    POV/ DIEGO— Eu vou fazer isso.— E faz ela feliz.— Vou tentar.— Não. Faz ela feliz.Nathan ergueu uma sobrancelha.— Você vai começar com as ameaças?Puxei a cadeira mais para perto.— Tenho duas regras. A primeira é: cuida bem da minha irmã.— Certo.— A segunda é: faz ela feliz.— Pensei que a segunda fosse me ameaçar.— A ameaça vem junto das duas. Se você machucar a Sakura, eu te mato. Pode ser meu melhor amigo, mas eu te mato.Ele soltou uma risada e fez outra careta.— Porra, Diego. Você me dá um soco, espera eu levar um tiro e ainda vem me ameaçar?— Estou sendo claro para não ter dúvida depois.— Eu ouvi. Cuida da Sakura, faz ela feliz ou você me mata.— Exatamente.— Então voltamos a ser melhores amigos?Olhei para ele.— A gente nunca deixou de ser melhores amigos, idiota.Nathan ficou em silêncio. Seus olhos se encheram, e ele virou um pouco o rosto.— Não começa — murmurou.— Você que começou.Levantei com cuidado e me inclinei para abraçá-lo sem apertar o ferimento. Na

  • A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário   CAP. 660 - REGRAS

    POV/DIEGOEsperei Sakura sair e fechar a porta. Nathan acompanhou o movimento dela com os olhos e, quando voltou a olhar para mim, tentou se apoiar melhor na cama.— Se você quiser continuar a briga, espera eu sair daqui — disse, fazendo uma careta. — Não acho justo apanhar deitado.Puxei a cadeira para perto.— Não vim brigar com você.— Ainda bem. Seu soco é forte para um homem que passa tanto tempo atrás de uma mesa.Olhei para o canto da boca dele. A marca ainda estava ali, e me lembrei do susto de Sakura quando acertei o golpe.— Desculpa, cara.Nathan me encarou por alguns segundos.— Eu devia ter contado.— Devia. Mas eu não devia ter batido em você.Sentei ao lado da cama e esfreguei as mãos. Na noite anterior, quando Alex me levou para dentro da casa, eu estava tão magoado que não conseguia pensar em nada além do fato de os dois terem escondido o relacionamento. Pouco depois, vi Sakura sair dirigindo com Nathan ferido no banco de trás e pensei que talvez não tivesse outra cha

  • A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário   CAP. 659 - A VERDADEE

    POV/ DIEGOApoiei as costas na parede. Meu coração começou a bater depressa, mas minhas mãos ficaram frias.Nathan estava comigo quando falávamos sobre a campanha. Tinha me visto preocupado com Sakura, escutado todas as minhas perguntas e permanecido por perto depois que encontramos o doador.Eu nunca imaginei que aquele doador era ele.— Por que não contou?— Você vai precisar perguntar a ele. Mas, pelo que sei, não queria transformar aquilo numa cobrança ou receber agradecimento por ter ajudado.Olhei para a porta da sala de espera. Minha irmã estava lá, esperando notícias do homem que tinha protegido sua vida mais uma vez.— Eu dei um soco nele.— Você estava magoado.— Eu nem ouvi o que ele tinha para dizer.Rocco ficou em silêncio por alguns segundos.— O Nathan pode ser sarcástico e fazer piada na hora errada, mas você conhece o que ele carrega. Sabe que ele tem medo de repetir coisas que viveu na própria família. E sabe como ele se preocupa com a Sakura.Eu sabia.Nathan conhec

  • A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário   CAP. 658 - ELE PRECISA FICAR BEM

    POV/DIEGOQuando cheguei à entrada, o carro de Nathan já estava saindo.Reconheci Sakura ao volante. Ela olhava para a rua com as duas mãos apertadas no volante, e havia sangue na roupa dela.Meu corpo inteiro gelou.— Sakura!Ela não me ouviu. O carro avançou, e fui atrás por dois passos antes de perceber que não conseguiria alcançá-lo.Christian estava perto da calçada, falando ao telefone. Rocco permanecia mais adiante, junto de Gael, que estava no chão.— O que aconteceu? — perguntei.Christian terminou de informar alguma coisa e olhou para mim.— Nathan foi atingido. Sakura está levando ele para o hospital.Por um segundo, não entendi.— Atingido?— Ele protegeu a Sakura quando Gael atirou.Olhei para a rua por onde o carro tinha desaparecido.Alex segurou meu braço.— Vamos atrás deles.Corremos até o carro. Eu mal conseguia encaixar a chave na ignição, então Alex pediu que eu passasse para o banco do passageiro. Não discuti. Minhas mãos estavam tremendo demais.Durante o caminh

  • A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário   CAP. 657 - A PESSOA QUE EU AMO

    POV/DIEGOEntrei em casa com Alex segurando meu braço. Ainda conseguia ouvir a voz de Gael do lado de fora, mas minha cabeça estava presa à imagem de Nathan levando a mão à boca depois do soco.Eu tinha batido no meu melhor amigo.E ele estava com a minha irmã.— Solta meu braço — pedi.Alex me soltou assim que chegamos à cozinha. Sky e Moon estavam mais adiante, perto de Otávio, e olharam para mim quando entrei. Eu não sabia o que tinham escutado, mas não queria colocá-las no meio daquela discussão.— O que aconteceu? — Moon perguntou.— Gael está lá fora — Alex respondeu. — Rocco e Nathan estão tentando conversar com ele.Sakura também estava lá. Aquilo me fez querer voltar imediatamente.Dei dois passos em direção à porta, mas Alex segurou minha mão.— Rocco está com eles. Se você sair agora, vai acabar discutindo com Nathan outra vez.— Ele mentiu para mim.Minha voz saiu alta demais. Sky se levantou, e eu passei a mão pelo rosto antes de continuar.— Desculpa. Eu só… preciso ente

  • A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário   CAP. 656 - Prometeu que ia ficar comigo.

    POV/ SAKURAMeu estômago se contraiu.— Você está achando que pode me dizer o que eu preciso fazer?— Não — Rocco respondeu antes de Nathan. — Estamos tentando entender. Você quer falar sobre a audiência? Então fala comigo.Gael voltou o rosto para Rocco, e aproveitei para respirar. O ar entrou curto. Minha mão estava tão suada que quase escorregou da de Nathan.O carro estava estacionado junto à calçada, a poucos passos de nós. A entrada da casa ficava mais adiante, atrás de Christian. Diego e Alex tinham entrado, e eu desejava que permanecessem lá, junto com Sky, Moon e Otávio.Nathan olhou rapidamente para a porta e voltou a encarar Gael.— Deixa a Sakura entrar. Depois a gente conversa.— Ela vai ficar aqui.— Não precisa dela para conversar comigo. — Nathan deu um passo para trás, levando-me com ele. — Se você precisa de dinheiro, eu posso ajudar. Vamos resolver isso.Gael soltou uma risada.— Você acha que eu vim aqui pedir dinheiro?— Estou dizendo que a gente pode encontrar um

Weitere Kapitel
Entdecke und lies gute Romane kostenlos
Kostenloser Zugriff auf zahlreiche Romane in der GoodNovel-App. Lade deine Lieblingsbücher herunter und lies jederzeit und überall.
Bücher in der App kostenlos lesen
CODE SCANNEN, UM IN DER APP ZU LESEN
DMCA.com Protection Status