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O Toque Mais Leve Que Ele Deu Na Vida

Author: Scarlett Maya
last update publish date: 2026-10-15 03:33:07

O tiro pegou Jorge na perna. Ele caiu de joelhos, a mão apertando a coxa, o sangue escorrendo entre os dedos, o grito morrendo na garganta quando viu o homem armado se aproximar. A garrafa de Jorge estilhaçou no chão, os cacos a um palmo do corpo de Shelby.

— Levem este lixo. — A voz de Axel saiu baixa, terrível. — Masmorra. Ninguém toca em mulher na minha cidade e sai impune.

— Cuida dela. — Jorge cuspiu sangue no chão. — Porque ela vai te f0der.

O olhar de Shelby não negou nada.

Dois homens o arrastaram para fora, para longe da porta do banheiro, para longe dos olhos dela. Jorge ainda gemia, o sangue riscando o piso, e a violência foi sumindo atrás da parede.

Só então Axel se virou para o banheiro.

O sangue tinha secado na pele, grudando os farrapos da roupa rasgada no corpo. A blusa pendia aberta, desfiada

As costelas dela estavam roxas, um mapa de violência desenhado na pele clara. Marcas de chute, do tamanho de uma sola de bota, estampadas uma sobre a outra, a pele esticada e inchada.

Axel ajoelhou-se. Ignorou o sangue no terno sob medida. A mão dele parou no ar, a meio caminho. O olhar dele subiu devagar. Os olhos azuis dela, do mesmo tom dos dele, o encararam sem piscar, esperando o golpe, esperando que ele fosse igual a Jorge.

Ele não desviou. Ergueu a mão, devagar, e tocou a borda do hematoma mais escuro, o toque mais leve que ele deu na vida. A última vez que ele tinha tocado alguém com essa delicadeza, o corpo que ele segurava não respondeu mais.

Shelby prendeu a respiração, só existiu aquele dedo sobre a pele machucada, e o olhar dele.

O polegar tremeu de novo. E dessa vez, ele não controlou.

A garganta trabalhou seca. Fechou os dedos em punho, soltou, só então passou os braços por baixo dela. Levantou-a com um cuidado que não combinava com a brutalidade de minutos antes. A cabeça dela pendia para trás, rosto pálido, hematomas. Ela gemeu fraco e desmaiou.

Atravessou a sala destruída com ela nos braços. 

Na escada, a respiração dela falhou. Axel ajustou o corpo contra o peito. O perfume do cabelo dela contradizia o horror da noite. O passo dele vacilou pela primeira vez desde que entrou naquele apartamento.

Anos comandando uma organização, e um degrau o fez hesitar. Ele estalou os dedos. O que quer que ela fosse, iria embora assim que se recuperasse. Isso ele ainda controlava.

No carro blindado, acomodou Shelby num movimento só. A mão sustentava a nuca, a outra envolvia o tronco.

— Mansão. Dr. Grant preparado. Se ela não sobreviver, ninguém sobrevive.

O carro cortou a madrugada. Axel olhou para o rosto inchado da desconhecida no colo. Ela pediu ajuda ao acaso. Os dedos apertaram o tecido rasgado da blusa. Nunca gostou da palavra destino. Naquela madrugada, ela parecia observá-lo em silêncio.

Ele sentiu antes de ver. 

A mulher encolhida no chão da cozinha, o corpo protegendo a barriga, o chute nas costelas. Ela nem gritou, só soltou um ar cansado. Ele era pequeno, tinha a altura da mesa. Correu na frente dela. A mão dela tentou empurrá-lo para trás, mas o pé do homem já vinha. Acertou o peito dele. O menino voou, bateu no armário, sentiu gosto de sangue. A mulher gritou o nome dele. A mesma mão que mais tarde ele encontraria fria no ladrilho.

A mulher no chão da cozinha se parecia com a que ele acabava de tirar do banheiro. Ele não ia deixar essa morrer.

Axel piscou. O cheiro de conhaque da lembrança ainda pesava no ar. Odiava aquele cheiro.

Antes que o motorista abrisse a porta, já estava fora com Shelby nos braços.

Margaret abriu a porta. Os olhos dela arregalaram, mas Axel passou sem explicação.

— O médico?

— Ala leste, quarto de hóspedes principal.

Grant já preparava os instrumentos. O cheiro de álcool invadiu as narinas de Axel. O estômago apertou.

Depositou Shelby na cama. E a mão demorou um segundo a mais para soltar o ombro dela, um segundo que ele passou a vida inteira negando que existia. Ele a soltou como quem arranca. 

Dr. Grant empalideceu ao ver o estado da jovem. 

— Há quanto tempo ela não come? — a voz dele saiu baixa, quase para si mesmo, enquanto os dedos percorriam as costelas roxas, a pele esticada sobre os ossos.

Axel não respondeu. Não sabia.

— E bebe água? — Grant insistiu, o olhar clínico varrendo a pele seca, os lábios rachados, as olheiras que não eram de uma noite. — Isso não é da surra. Isso é de dias.

A respiração dela falhou. Axel ergueu o rosto num movimento instintivo. Algo frio que mantinha enterrado se partiu por dentro.

— Como ela chegou até aqui? — o médico perguntou, sem tirar os olhos do corpo dela. — Porque ninguém nesse estado andaria.

Axel fechou os olhos. Sabia o que vinha. Não podia impedir.

A unha do polegar cravou na palma da mão. Dor pequena. Impedia que atravessasse o quarto.

A porta abriu. Margaret entrou com roupas limpas. Olhou para Shelby, os passos perderam o ritmo. Deixou as peças na poltrona e caminhou de volta.

A mão na maçaneta hesitou. Ela respirou fundo antes de virar o rosto.

— Senhor... se ela acordar nesta casa...

A voz falhou.

— ...não haverá volta.

Axel não respondeu.

A porta fechou.

Ele ficou imóvel. Shelby ocupava a cama, o peito subindo e descendo lento. Os hematomas expostos.

Ela não sabia onde estava. Não sabia com quem estava.

Mas Axel sabia exatamente o que ia fazer com ela.

A tesoura cirúrgica cortou o silêncio. Grant rasgou o restante das roupas, expondo o corpo nu.

Axel travou a mandíbula e leu as marcas. A marca na cintura dela denunciava a pressão exata daqueles dedos. A pele seca, os lábios rachados, a fome estampada no corpo magro, era de semanas, de uma vida inteira sendo apagada aos poucos. A decisão já estava tomada antes do médico abrir a boca.

Grant limpou, fez suturas, posicionou-se no pé da cama. Apoiou a mão acima do joelho dela. Começou a afastar a perna.

Axel respirou uma vez.

Na segunda, não havia médico diante dele. Os dedos cravaram no pescoço de Grant. O corpo bateu contra a parede, os pés perderam o chão, instrumentos caíram no tapete.

— O que está fazendo?

Grant não se debateu.

— Protocolo. Violênciia doméstica. Preciso verificar esttupro. Hemorragia interna.

Axel soltou o pescoço com um empurrão.

— Faça rápido. Não olhe além do necessário.

Grant voltou ao trabalho.

Minutos depois, ele se virou para Axel com um olhar indecifrável.

— Não houve esttupro consumado. — Puxou o lençol até o pescoço dela. — Mas houve tentativas. 

— Explique.

— Hematomas na parte interna das coxas. Marcas de pressão. Lacerações. Ela lutou todas as vezes. Ele tentava abrir as pernas, ela preferia apanhar, por isso que ele a espancava.

A imagem de Jorge tentando forçá-la, dela lutando, fez uma fúria cega explodir no peito de Axel. A morte rápida seria uma misericórdia que ele não concederia.

A caneta rangeu no papel da prancheta antes de ele erguer os olhos.

— Ela está desnutrida e desidratada. Isso vem de dias sem comer direito, sem água. Vou deixar o soro correndo, além dos remédios para a dor e um sedativo leve. Vitaminas também. Ela precisa de repouso e alimentação para se recuperar.

Fechou a prancheta. O couro rangeu. Olhou para Shelby, depois para o canto escuro. Ficou em silêncio um segundo a mais.

— Se ela sentir dor intensa nas costelas, me avise. Não espere.

Axel não moveu um músculo. Esperou.

— Existe mais uma coisa. 

— Diga. 

— Ela é virgem. Intocada.

O ar não saiu.

A mente do engenheiro processou a informação com uma frieza que ele próprio estranhou. Uma mulher sem ter para onde ir, sem a quem recorrer. A Outfit precisava de um herdeiro, e ele precisava de uma esposa que jamais pudesse usar isso contra ele.

Amor tinha cheiro de conhaque e gosto de perder alguém para sempre. Ele não amava. Precisava de uma esposa.

O maxilar endureceu. Axel passou a língua pelo interior da bochecha.

Grant esperou. Nada veio.

Quando a porta se fechou, Axel continuou imóvel no canto escuro, os olhos fixos em Shelby. Então atravessou o quarto, pegou o telefone e ligou.

O juiz atendeu no segundo toque.

— Meritíssimo, é urgente. preciso que o senhor resolva algo para mim. Hoje.

— O que aconteceu?

Axel olhou para a mulher na cama.

—Algo complicado.

Do outro lado, o silêncio se prolongou.

— Bradford, que tipo de problema exige que eu resolva alguma coisa hoje sem sequer saber do que se trata?

Os dedos dele apertaram o aparelho.

— Um que não vai poder ser desfeito amanhã.

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