MasukEnquanto Vito falava, Umberto mal ouvia. Seus olhos haviam se perdido num ponto fixo da cafeteria, mas os pensamentos estavam distantes. E foi ali, no silêncio entre uma frase e outra, que ele se lembrou.
Como tudo começou. O resort era luxuoso, rodeado por montanhas e jardins, a natureza se misturava com o requinte. Umberto havia ido a trabalho. Mais uma missão importante ao lado de Vito, para fechar um contrato milionário com uma empresa do setor farmacêutico. O lugar era agradável, mas para ele, até então, era apenas cenário de negociação. Até que o seu o seu olhar foi capturado por uma figura feminina que parecia ser pintada por um exímio artista. Era ela. Emilyke. Ele a viu pela primeira vez à beira da piscina, com um vestido leve que esvoaçava com a brisa da tarde. Os cabelos loiros, longos, dançavam no ritmo do vento. A postura elegante, o caminhar confiante... Era como assistir a um desfile, um que ele jamais esqueceria. E, por um capricho do destino, ela já era amiga de Vito. — Ah, essa aqui você precisa conhecer — dissera o amigo, animado. — Emilyke, esse é Umberto Zanobi. CEO da Zanobi Corporation. Um homem importante... e insuportável — completou em tom de brincadeira. Ela riu. E o som daquela risada ficou gravado nele como uma música rara. — É um prazer, Sr. Zanobi — disse ela, estendendo a mão com leveza. — O prazer é todo meu, Emilyke — respondeu ele, tentando disfarçar o impacto que aquela presença causava. Foi assim. Tão simples, tão inesperado. Dois mundos encontrando no meio de uma viagem de negócios. Entre cafés ao entardecer e jantares discretos no restaurante do resort, a conexão cresceu. Ela era inteligente, sagaz, de opinião forte, mas com um jeito doce de observar o mundo. Ele, acostumado a controlar tudo, se viu cativado por alguém que não precisava de nada dele. De volta à cafeteria, Umberto piscou, como se o tempo tivesse dado uma volta completa. — Cara — murmurou Vito, estalando os dedos. — Terra chamando Umberto... você congelou aí. Em que mundo estava? Umberto sorriu de lado, ainda imerso na lembrança. — No melhor deles. No momento em que conheci a mulher da minha vida. Vito riu engolindo grande gole de café. — E então, Humberto, enquanto você estava fora, eu fiz algo muito importante para nós — começou Vito, inflando o peito com orgulho. — Para o nosso crescimento, conhecimento, expansão como empresa e para alcançarmos o apogeu, na verdade! Umberto, ainda com o copo de café na mão e as pálpebras pesadas, apenas arqueou uma sobrancelha, esperando pela revelação. — Quando você adquiriu aquela propriedade... — Vito continuou gesticulando com entusiasmo — eu percebi algo. Aquilo ali é ouro puro! Um espaço fértil, generoso, isolado... ideal para gerar uma renda extra! Umberto assentiu lentamente, confuso, tentando acompanhar. — E aí me veio a ideia! — exclamou, como se estivesse anunciando a chegada de um novo império. — Nós podemos plantar milho naquele lugar! — ...milho? — repetiu Umberto, sem expressão. — Sim! Milho, meu caro! Já mandei máquinas pra lá, pessoal de confiança! Estão arando o terreno neste exato momento. Já visualizei: “Zanobi Agro”, com embalagens ecológicas, selos de qualidade, uma linha exclusiva de pipoca gourmet... É a diversificação que faltava! Foi nesse instante que Umberto congelou. Literalmente. Vito ainda falava sobre espigas e safras, mas Umberto não ouvia mais nada. Em sua mente, um único pensamento repetia em eco: "A propriedade da fazenda. A fazenda da Constantine. Ele... mandou máquinas. Arar o terreno." O silêncio foi rompido apenas pelo som sutil do café respingando ao escorregar pela borda da xícara que agora tremia levemente na mão dele. — Você... mandou máquinas... para a minha fazenda? — Umberto perguntou, com a voz baixa, rouca, como um trovão se preparando. Vito, sem perceber o clima que se formava, apenas sorriu e respondeu: — Exatamente! Fui adiantando as coisas. A vizinhança de lá vai amar! — Vito... — Umberto colocou a xícara sobre a mesa com extremo cuidado, os olhos agora intensos, cheios de uma fúria contida. — Você... tem ideia do que fez? — Fiz história, meu amigo! — respondeu Vito, animado. — A fazenda agora é um campo de oportunidades! — A FAZENDA ESTÁ OCUPADA, VITO! — explodiu Umberto, levantando-se de súbito e batendo as mãos na mesa, fazendo o café estremecer. — Aquela terra não é para arar...por enquanto! A Carlota sabe da decisão?!—Você não pode tomar decisões sozinho! O silêncio na cafeteria foi instantâneo. Olhares curiosos se voltaram para a dupla. Vito arregalou os olhos, enfim entendendo. — Espera... aquela moça... a garota da charrete... ela ainda está lá? — SIM! — grunhiu Umberto. — Mas... a terra é sua! Eles são oportunistas. Agora não tem alternativa, ou sai por bem...ou sai por mal! Umberto passou a mão pelo rosto, frustrado. — Chama Carlota urgente! Reunião de emergência. Ele se afastou, andando em zig zag, tentando controlar as emoções pois agora a cabeça doía novamente. — Eu tenho que consertar isso. Pensou. Ou melhor — olhou para Vito, fuzilando o amigo— Ele tem que consertar. Fechando a porta do escritório atrás de si. Vito tentou disfarçar o nervosismo com um sorriso sem graça. — Mandei arar o terreno, Umberto! Pensei que fosse uma boa ideia. Renda extra, entende? — Boa ideia! Você tomou uma decisão dessas sem me consultar! Poucos minutos depois, Carlota entrou apressada, segurando uma prancheta. Ao ver o estado de Umberto, entendeu que algo grave havia acontecido. — O que foi agora? — perguntou, com o tom calmo de quem já conhecia os temperamentos ali dentro. Umberto explicou a situação em detalhes, cada palavra saindo com esforço, e concluiu com um olhar indignado para Vito. Carlota suspirou. — Eu já havia cancelado essa autorização. Sabia que não era algo para ser decidido assim, às pressas. Nenhuma movimentação na fazenda deveria acontecer sem o seu aval, senhor Zanobi. Vito, espero que você não leve para o lado pessoal pois todas as partes precisam ser envolvidas. Umberto recostou-se na cadeira, passando a mão no rosto que ardia a cada toque. — Ainda bem... — murmurou, aliviado e cansado. — Ainda bem que alguém mantém o equilíbrio nesta empresa. Carlota trocou um olhar rápido com Vito e, em seguida, voltou-se para o patrão. — Acho que o senhor deveria ir até lá verificar pessoalmente. Essas decisões... às vezes escapam do controle. Umberto assentiu, ainda contrariado. — Sim. Irei amanhã mesmo. — E você irá comigo. —Disse apontando para Vito. —Interessante! Vocês me dizem que tenho liberdade de tomar decisões. E agora estão me tratando pior que a um estagiário. — Disse arqueando um pouco as mãos em sinal de incompreensão. —Sim! Você tem, mas não nesse nível. —Bom... O dia foi um pouco exaustivo, sugiro terminar as assinaturas, organizar as mesas e depois irmos para casa. Disse Carlota em um tom brando. — Pois eu...já estou indo. Se vocês não sabem, eu sou competente com os meus afazeres. — Se levantando e indo em direção a porta. Após o expediente Umberto seguiu para a sua casa. Recebeu a visita do médico e foi devidamente medicado, assim a agonia que estava sentindo deu uma trégua.Os primeiros dias na casa de Ludovica foram diferentes de tudo o que Umberto estava acostumado. No início, ele não sabia muito bem como agir. Estava acostumado com uma casa grande, funcionários disponíveis, silêncio e uma rotina organizada de acordo com seus horários. Ali, porém, as coisas funcionavam de outra maneira. Logo na primeira manhã, Umberto acordou mais cedo do que pretendia. Ainda estava se recuperando, mas já se sentia melhor. Ao sair do quarto, ouviu vozes vindas da cozinha. Constantine estava preparando o café da manhã enquanto Ludovica organizava algumas coisas sobre a mesa. — Eu faço o pão — disse Ludovica. — Então eu passo o café — respondeu Constantine. — E eu vou preparar o suco — disse Tomazzo, aparecendo na cozinha. Umberto ficou parado por alguns segundos, apenas observando. Ninguém parecia esperar que alguém fizesse tudo sozinho. Um ajudava o outro. Enquanto Ludovica terminava o pão, Constantine colocava as xícaras sobre a mesa. Tomazzo trouxe o s
Na manhã seguinte, o estado de Umberto apresentou uma melhora significativa. Depois de algumas horas de observação e dos cuidados da equipe médica, ele finalmente estava consciente e conseguia conversar com mais tranquilidade. Ainda se sentia fraco, mas já não apresentava o mesmo quadro preocupante da noite anterior. Quando o médico entrou no quarto para avaliá-lo, Umberto perguntou: — Doutor, aquelas duas mulheres que vieram me visitar... Ludovica e Constantine. Elas ainda estão aqui? — Sim. Elas aguardam notícias suas. Umberto ficou alguns segundos em silêncio. — Pode deixá-las entrar. Pouco depois, Ludovica e Constantine entraram no quarto. — Senhor Umberto... — Ludovica aproximou-se da cama. — O senhor nos deu um susto enorme. Ele esboçou um pequeno sorriso. — Desculpe. Não era minha intenção. Constantine ficou ao lado da tia, observando-o. — Como está se sentindo? — Melhor. Ainda um pouco fraco, mas melhor. Nesse momento, o médico entrou novamente no quarto. — Apr
Umberto entrou em casa naquela noite completamente transtornado. Assim que passou pela porta, fechou-a atrás de si e permaneceu alguns segundos parado no hall. As palavras de Emilyke continuavam ecoando em sua mente. “É pelo nosso filho.” Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até a sala. Não conseguia entender. Depois de tudo o que havia acontecido, depois de descobrir a traição, depois de ver as fotografias e perceber que havia sido enganado por duas das pessoas em quem mais confiava, Emilyke aparecia diante de sua casa com uma notícia daquela. Um filho. Umberto caminhou de um lado para o outro. — Não pode ser... Sentou-se no sofá, mas não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Levantou-se novamente. Foi até a janela. Depois voltou para a sala. Sua mente estava inquieta. Ele se perguntava se havia alguma possibilidade de Emilyke estar dizendo a verdade. Ao mesmo tempo, lembrava-se de tudo o que havia descoberto. Vito. As fotografias. As mentiras. Aquela vida
Um mês havia se passado desde a descoberta.Durante todo aquele tempo, Umberto não havia recebido nenhuma notícia de Emilyke ou de Vito.Ele seguiu com sua vida e com seu trabalho, tentando colocar as coisas no lugar depois de tudo o que havia acontecido.Emilyke, por outro lado, começava a perceber que a vida ao lado de Vito não era nada parecida com aquilo que havia imaginado.Aos poucos, uma espécie de saudade começou a surgir.Mas não era exatamente saudade de Umberto.Era saudade da forma como ele a tratava.Enquanto esteve ao lado dele, Emilyke havia sido constantemente colocada em primeiro lugar.Umberto fazia questão de incluí-la em seus melhores eventos, apresentá-la às pessoas importantes, apoiar seus projetos e proporcionar uma vida confortável.Ele sempre a tratara com respeito e consideração.Vito havia prometido que poderia oferecer algo ainda melhor.Mas a realidade tinha sido completamente diferente.Com ele, Emilyke conhecera o medo, a pressão e as ameaças.Aquela vid
Capítulo 47 — A ConversaAlguns dias se passaram após o jantar.Desde aquela noite, Umberto havia mantido sua rotina praticamente intacta.Continuava trabalhando, participando das reuniões e cuidando dos assuntos da empresa.Mas havia uma diferença.Agora, ele observava tudo com muito mais atenção.Naquela manhã, decidiu que era hora de conversar com Nay.Pediu que ela fosse até sua sala.Poucos minutos depois, ela bateu à porta.— Entre.Nay abriu a porta e entrou.— O senhor queria falar comigo?Umberto fez um gesto em direção à poltrona diante de sua mesa.— Sente-se, Nay.Ela obedeceu.— Boa tarde, senhor Zanobi.Umberto fechou a pasta que estava em suas mãos.Abriu o botão do paletó e se endireitou no assento.Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.Então abriu uma das gavetas da mesa e retirou alguns papéis.Eram as fotografias.Colocou o material sobre a mesa, virado para baixo.Nay acompanhou o movimento com os olhos.Umberto apoiou as costas na poltrona.— Nay, acredito
No esconderijo, a atmosfera era completamente diferente daquela que Vito costumava apresentar diante das outras pessoas. Não havia sorrisos. Não havia cordialidade. Não havia mais espaço para fingimentos. Vito caminhava de um lado para o outro, furioso, enquanto Emilyke permanecia diante dele, tentando conter as lágrimas. — Já chega! — Emilyke explodiu. — Eu não quero mais essa vida. Vito parou e a encarou. — Que vida? — Essa vida de mentiras, de medo, de ficar escondida. Eu tenho a minha loja. Tenho a minha independência. Não preciso continuar vivendo assim. Quero me afastar de tudo isso e seguir a minha vida. Vito soltou uma risada de desprezo. — Que independência você acha que tem? Você não é ninguém! Emilyke o encarou, indignada. — Não fale assim comigo. Vito se aproximou e agarrou seu braço com fúria. — Quer que eu conte para todo mundo que os seus diplomas são falsificados? Emilyke tentou se soltar. — Me solta! — Você acha que vai simplesmente sair dessa e fingi







