LOGINNo dia seguinte, Umberto arrumou alguns itens essenciais para levar consigo durante a viagem. Desceu as escadas que davam acesso à sala principal da mansão, e o som firme de seus passos ecoou pelo mármore frio. Seguiu até a cozinha, onde passou um café rápido. Preparou um sanduíche e fez o desjejum em pé mesmo.
Em seguida, pegou uma garrafa de água, aquela que sempre reservava para as trilhas, pegou a jaqueta e saiu pela porta lateral, indo direto para a garagem. Escolheu o transporte mais individual: sua moto BMW R 1250 GS Adventure, deslizou a mão sobre o tanque frio, virou a chave e acendeu os faróis. O ronco do motor rompeu o silêncio da manhã, ecoando pela vizinhança que acordava lenta. Minutos depois, ao chegar à casa de Vito, estacionou em frente, porém do outro lado da rua e esperou. Ligou uma, duas, três vezes… na décima tentativa, ainda sem resposta. Umberto suspirou impaciente, desceu da moto e foi até a campainha. Apertou o botão insistentemente com o dedo pressionado ali por alguns segundos, fazendo o som soar alto e contínuo, até que algumas janelas começaram a se iluminar. Vito apareceu na sacada ainda de pijamas, com a escova de dentes pendendo da boca e o olhar sonolento. Fez um sinal apressado com a mão, pedindo que Umberto esperasse um pouco mais. Meia hora depois, ele finalmente surgiu, agora vestido com roupas esportivas, os cabelos úmidos e uma mochila jogada sobre um ombro. Aproximou-se com um sorriso maroto e perguntou: — Você trouxe capacete extra? Umberto, que já estava sem paciência, levantou o visor do próprio capacete e respondeu em tom seco: — Quem te disse que você vai ser meu carona? O sorriso de Vito se desfez por um instante, ao ouvir a resposta de Umberto, Vito revirou os olhos e retornou para a garagem. Antes de saírem, Umberto notou um belo carro branco estacionado em frente ao prédio de Vito. O sol da manhã refletia na lataria impecável, e ele, impressionado, apontou para o veículo com um leve sorriso. — Eu não errei ao presentear minha noiva com um modelo desse... é belíssimo — comentou, admirando cada detalhe do carro. Vito, por sua vez, permaneceu imóvel, o olhar fixo na máquina, o semblante rígido. Parecia surpreso. Umberto arqueou uma sobrancelha, intrigado, e quebrou o silêncio: — O que foi? Viu um fantasma? Vito apenas respondeu com um sinal negativo, desviando o olhar rapidamente, como se quisesse encerrar o assunto ali. Umberto o observou por um instante, sem entender aquela reação estranha, mas decidiu não insistir. — Então vamos logo, antes que o sol esquente demais — disse, ajustando o capacete e ligando a moto. Vito fez o mesmo, ainda com a expressão distante. As duas motos rugiram quase ao mesmo tempo, cortando o silêncio da rua tranquila. O vento da manhã os acompanhava enquanto deixavam para trás a cidade que despertava devagar, seguindo em direção à fazenda, cada um imerso em seus próprios pensamentos. Ao chegarem à fazenda, o barulho das motos rompeu o sossego da manhã, sendo uma surpresa instantânea e comemorada. Ludovica, que estava preparando a mesa para o café da manhã arregalou os olhos sendo pega de surpresa. Enquanto Tommaso, que vinha do estábulo com um balde de leite fresco, abriu a parteira com ar de muita felicidade como quem recebia a visita de um parente que mora distante. — Seu Roberto, que bom ter ver de novo, meu rapaz. Vem cá deixa eu te dar um abraço. Ludovica, temos visitas! — Exclamou indo em direção a varanda da casa. — Mas vejam só quem apareceu! — exclamou Ludovica, abrindo um largo sorriso. — Seu Roberto! Que surpresa boa! Tommaso enxugou o suor da testa com o lenço e completou: — E trouxe companhia! Seja bem-vindo também, rapaz! Umberto retirou o capacete, revelando o rosto parcialmente avermelhado pelo sol e um semblante mais leve que o habitual. Vito fez o mesmo, acenando com simpatia. — Espero que não estejamos atrapalhando — disse Umberto, com um tom respeitoso. — De forma alguma! — respondeu Ludovica, animada. — A casa de fazenda é simples, mas o coração é grande. Entre, vocês precisam de um bom café! — O senhor foi picado por algum inseto e teve reação alérgica? —Ah, não...não. Só fiquei muito tempo exposto ao sol. —Pois eu tenho um emplastro feito com ervas e azeite de oliva natural, vou buscar para o senhor. Disse indo em direção ao quarto. — Olha, aqui está. Abriu a vasilha de cerâmica, pegou uma pequena quantidade com o dedo. — Licença! Passando o produto verde na testa e bochechas de Umberto. — Vai melhorar rapidinho. Agora vem tomar café. O aroma de pão recém assado se espalhava no ar, misturado ao som distante do riacho e ao cacarejar das galinhas. Vito respirou fundo, encantado com o ambiente. — Não sabia que ele estava tão familiarizado com essa gente — murmurou consigo. Umberto, que até então mantinha a postura tranquila, começou a demonstrar certa inquietação. O olhar, antes firme, desviava-se constantemente para a porte da sala, como se algo o incomodasse sem que ele soubesse dizer o que, ou esperasse a chegada de alguém. — Vou dar uma volta pelo terreno — disse, de súbito, tirando as luvas e lançando um olhar a Vito. — Preciso esticar as pernas. — Claro, eu vou contigo — respondeu o amigo, já o acompanhando pelo caminho de terra batida. O vento soprava suave, carregando o cheiro de mato e das rosas que Ludovica cultivava no quintal. A paisagem ao redor era serena, mas Umberto parecia alheio à beleza do lugar, perdido em pensamentos. De repente, uma voz infantil os chamou: — Senhor Umberto! Era Pi, o garoto ajudante da fazenda, que vinha correndo descalço, com as calças arregaçadas até os joelhos e o rosto suado. — Ué… o senhor veio por causa da Constantine? — perguntou curioso, parando diante deles e tentando recuperar o fôlego. Umberto franziu levemente o cenho. — Não, garoto. Só estou passeando, aproveitando o ar do campo. Por quê? Pi abaixou o olhar e respondeu num tom mais sério: — É que… ela tá doente faz dias. Vito o encarou, surpreso. — Doente? O menino assentiu, chutando uma pedrinha no chão. — É… pegou uma febre forte. A dona Ludovica diz que é só cansaço, mas… eu nunca a vi tão quieta assim. Umberto ficou imóvel por um instante. O vento pareceu cessar, e o som distante do riacho se tornou quase inaudível. Sua expressão endureceu, mas no fundo dos olhos algo diferente cintilava — uma mistura de preocupação e negação. — Entendo… — murmurou, tentando disfarçar o impacto da notícia. Instantaneamente, Umberto sentiu o corpo reagir antes mesmo que a mente processasse o impulso. O desejo de retornar à casa de Ludovica e verificar o estado de Constantine o atingiu como uma corrente elétrica. A simples ideia de que ela pudesse estar doente — vulnerável — lhe causava um incômodo difícil de explicar. Deu meio passo para trás, o olhar fixo na direção da casa, mas a voz de Vito o arrancou desse transe: — Vamos continuar, Zanobi. Ainda não vimos o resto do terreno — disse o amigo, distraído, chutando uma folha seca. Umberto hesitou. Os dedos se fecharam em punho, e ele desviou o olhar, tentando esconder a urgência que o dominava. — Depois podemos ver o resto — murmurou, mais para si do que para o outro. Mas Vito, alheio à inquietação do amigo, continuou andando e falando animadamente sobre as plantações, os cavalos, o clima e qualquer assunto trivial que o mantivesse em movimento. — Anda logo, Umberto. — Vito virou-se e sorriu. — Não me diga que ficou com as pernas doloridas apenas com esses poucos passos no campo. — Teremos o dia todo pela frente. Umberto respirou fundo, reprimindo a vontade de ignorá-lo e simplesmente retornar. O maxilar travado denunciava a tensão que crescia a cada segundo. — Dolorido? — respondeu, com um meio sorriso forçado. — Nem tanto. E, mesmo contrariado, acompanhou Vito, embora o pensamento permanecesse preso à imagem de Constantine e à febre que agora o atormentava mais do que gostaria de admitir. Quando chegaram ao ponto final do passeio, Vito quebrou o silêncio com a preocupação de sempre: — Será que essa história de doença não é só um pretexto pra ela não sair da fazenda? Umberto o encarou por um instante. Depois desviou o olhar para o horizonte, onde o sol já começava a tingir o céu de dourado. Soltou um suspiro lento, quase cansado. — Creio que não — respondeu, em tom baixo, mas firme. — Vamos voltar. A tarde já está caindo. Quando chegaram à casa, os dois se assentaram na varanda para repousar um pouco. O sol já se escondia atrás das colinas, lançando um brilho avermelhado sobre as janelas antigas. Pouco depois, Umberto se levantou e chamou Ludovica e Tommaso para uma conversa reservada. Foram para um canto da sala, onde as vozes se tornaram murmúrios abafados. Vito permaneceu do lado de fora, observando em silêncio. De onde estava, não conseguia ouvir as palavras, mas via os rostos, as expressões entristecidas de Ludovica, o olhar baixo de Tommaso e a rigidez do semblante de Umberto. O retorno foi silencioso e com uma vista de tirar o fôlego do por só alanrajado.Os primeiros dias na casa de Ludovica foram diferentes de tudo o que Umberto estava acostumado. No início, ele não sabia muito bem como agir. Estava acostumado com uma casa grande, funcionários disponíveis, silêncio e uma rotina organizada de acordo com seus horários. Ali, porém, as coisas funcionavam de outra maneira. Logo na primeira manhã, Umberto acordou mais cedo do que pretendia. Ainda estava se recuperando, mas já se sentia melhor. Ao sair do quarto, ouviu vozes vindas da cozinha. Constantine estava preparando o café da manhã enquanto Ludovica organizava algumas coisas sobre a mesa. — Eu faço o pão — disse Ludovica. — Então eu passo o café — respondeu Constantine. — E eu vou preparar o suco — disse Tomazzo, aparecendo na cozinha. Umberto ficou parado por alguns segundos, apenas observando. Ninguém parecia esperar que alguém fizesse tudo sozinho. Um ajudava o outro. Enquanto Ludovica terminava o pão, Constantine colocava as xícaras sobre a mesa. Tomazzo trouxe o s
Na manhã seguinte, o estado de Umberto apresentou uma melhora significativa. Depois de algumas horas de observação e dos cuidados da equipe médica, ele finalmente estava consciente e conseguia conversar com mais tranquilidade. Ainda se sentia fraco, mas já não apresentava o mesmo quadro preocupante da noite anterior. Quando o médico entrou no quarto para avaliá-lo, Umberto perguntou: — Doutor, aquelas duas mulheres que vieram me visitar... Ludovica e Constantine. Elas ainda estão aqui? — Sim. Elas aguardam notícias suas. Umberto ficou alguns segundos em silêncio. — Pode deixá-las entrar. Pouco depois, Ludovica e Constantine entraram no quarto. — Senhor Umberto... — Ludovica aproximou-se da cama. — O senhor nos deu um susto enorme. Ele esboçou um pequeno sorriso. — Desculpe. Não era minha intenção. Constantine ficou ao lado da tia, observando-o. — Como está se sentindo? — Melhor. Ainda um pouco fraco, mas melhor. Nesse momento, o médico entrou novamente no quarto. — Apr
Umberto entrou em casa naquela noite completamente transtornado. Assim que passou pela porta, fechou-a atrás de si e permaneceu alguns segundos parado no hall. As palavras de Emilyke continuavam ecoando em sua mente. “É pelo nosso filho.” Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até a sala. Não conseguia entender. Depois de tudo o que havia acontecido, depois de descobrir a traição, depois de ver as fotografias e perceber que havia sido enganado por duas das pessoas em quem mais confiava, Emilyke aparecia diante de sua casa com uma notícia daquela. Um filho. Umberto caminhou de um lado para o outro. — Não pode ser... Sentou-se no sofá, mas não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Levantou-se novamente. Foi até a janela. Depois voltou para a sala. Sua mente estava inquieta. Ele se perguntava se havia alguma possibilidade de Emilyke estar dizendo a verdade. Ao mesmo tempo, lembrava-se de tudo o que havia descoberto. Vito. As fotografias. As mentiras. Aquela vida
Um mês havia se passado desde a descoberta.Durante todo aquele tempo, Umberto não havia recebido nenhuma notícia de Emilyke ou de Vito.Ele seguiu com sua vida e com seu trabalho, tentando colocar as coisas no lugar depois de tudo o que havia acontecido.Emilyke, por outro lado, começava a perceber que a vida ao lado de Vito não era nada parecida com aquilo que havia imaginado.Aos poucos, uma espécie de saudade começou a surgir.Mas não era exatamente saudade de Umberto.Era saudade da forma como ele a tratava.Enquanto esteve ao lado dele, Emilyke havia sido constantemente colocada em primeiro lugar.Umberto fazia questão de incluí-la em seus melhores eventos, apresentá-la às pessoas importantes, apoiar seus projetos e proporcionar uma vida confortável.Ele sempre a tratara com respeito e consideração.Vito havia prometido que poderia oferecer algo ainda melhor.Mas a realidade tinha sido completamente diferente.Com ele, Emilyke conhecera o medo, a pressão e as ameaças.Aquela vid
Capítulo 47 — A ConversaAlguns dias se passaram após o jantar.Desde aquela noite, Umberto havia mantido sua rotina praticamente intacta.Continuava trabalhando, participando das reuniões e cuidando dos assuntos da empresa.Mas havia uma diferença.Agora, ele observava tudo com muito mais atenção.Naquela manhã, decidiu que era hora de conversar com Nay.Pediu que ela fosse até sua sala.Poucos minutos depois, ela bateu à porta.— Entre.Nay abriu a porta e entrou.— O senhor queria falar comigo?Umberto fez um gesto em direção à poltrona diante de sua mesa.— Sente-se, Nay.Ela obedeceu.— Boa tarde, senhor Zanobi.Umberto fechou a pasta que estava em suas mãos.Abriu o botão do paletó e se endireitou no assento.Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.Então abriu uma das gavetas da mesa e retirou alguns papéis.Eram as fotografias.Colocou o material sobre a mesa, virado para baixo.Nay acompanhou o movimento com os olhos.Umberto apoiou as costas na poltrona.— Nay, acredito
No esconderijo, a atmosfera era completamente diferente daquela que Vito costumava apresentar diante das outras pessoas. Não havia sorrisos. Não havia cordialidade. Não havia mais espaço para fingimentos. Vito caminhava de um lado para o outro, furioso, enquanto Emilyke permanecia diante dele, tentando conter as lágrimas. — Já chega! — Emilyke explodiu. — Eu não quero mais essa vida. Vito parou e a encarou. — Que vida? — Essa vida de mentiras, de medo, de ficar escondida. Eu tenho a minha loja. Tenho a minha independência. Não preciso continuar vivendo assim. Quero me afastar de tudo isso e seguir a minha vida. Vito soltou uma risada de desprezo. — Que independência você acha que tem? Você não é ninguém! Emilyke o encarou, indignada. — Não fale assim comigo. Vito se aproximou e agarrou seu braço com fúria. — Quer que eu conte para todo mundo que os seus diplomas são falsificados? Emilyke tentou se soltar. — Me solta! — Você acha que vai simplesmente sair dessa e fingi







