LOGINOs dias seguintes foram dedicados aos preparativos para a Feira do Empreendedor.
Umberto e sua equipe organizaram tudo com cuidado. Um espaço foi alugado na própria comunidade, para que os moradores não precisassem se deslocar para longe. O local foi preparado para receber as pessoas com conforto, e não faltaram comida, bebidas e um ambiente acolhedor.
Ainda assim, havia certa desconfiança.
Quando os moradores perceberam que a Montreau Industries estava por trás do projeto, algumas pessoas preferiram manter distância.
Afinal, a empresa de Edvaldo não era vista com bons olhos naquela comunidade.
Durante anos, os moradores haviam convivido com os problemas causados pela fábrica instalada nas proximidades. Por isso, para muitos, aquela iniciativa parecia apenas mais uma tentativa da empresa de melhorar sua imagem diante das mídias.
Mas Constantine conseguiu mudar aquela percepção.
Ela não falou como representante da empresa.
Falou como alguém que vivia ali.
Contou um pouco da própria trajetória com a Doce Sonhos, das dificuldades que enfrentara para construir seu pequeno negócio e de como uma oportunidade poderia fazer diferença na vida de alguém que só precisava de uma chance para começar.
Suas palavras foram recebidas com atenção.
E, aos poucos, a desconfiança deu lugar à curiosidade.
Quando o encontro terminou, algumas pessoas começaram a procurar Constantine.
Uma queria saber como poderia formalizar o próprio negócio.
Outra tinha vontade de começar a vender alimentos.
Uma jovem queria aprender mais sobre como transformar aquilo que sabia fazer em uma fonte de renda.
Constantine percebeu que havia muito mais pessoas interessadas do que imaginara.
No fim daquele dia, procurou Umberto.
— Precisamos fazer isso de uma maneira organizada.
Ele a observou.
— O que você tem em mente?
— As pessoas estão me procurando. Se realmente queremos ajudá-las, precisamos registrar os nomes, saber o que cada uma faz e o que elas precisam.
Umberto assentiu.
— Concordo.
— Eu posso ficar responsável por isso. Faço o cadastro de cada uma, converso com elas e depois passo as informações para vocês.
Umberto sorriu.
— Na verdade, eu estava esperando que você sugerisse exatamente isso.
Constantine sorriu de volta.
— Então está decidido.
A partir daquele momento, ela passou a acompanhar de perto os moradores interessados no projeto.
E o que havia começado como uma simples participação na Feira do Empreendedor começou a ganhar uma proporção muito maior.
Para Umberto, aquela era a confirmação de que havia tomado a decisão certa ao envolver alguém da própria comunidade.
Para Constantine, era a possibilidade de abrir portas para pessoas que, assim como ela um dia, precisavam apenas de uma oportunidade.
A rotina de Constantine estava cada vez mais agitada.
Todos os dias precisava assinar papéis, conversar com os interessados e explicar como funcionava o projeto. Dúvidas e mais dúvidas precisavam ser esclarecidas a todo instante, algumas pessoalmente, outras por meio do grupo criado para orientar os participantes.
Quando conseguia um intervalo, voltava para a Doce Sonhos e ajudava Ludovica e Tomazzo com o movimento da confeitaria.
Aqueles dias estavam sendo cansativos, mas, ao mesmo tempo, Constantine sentia que estava fazendo algo importante.
Até que, em um final de tarde, enquanto organizava algumas anotações, recebeu uma mensagem de Nay.
Constantine leu e imediatamente percebeu que havia algo diferente.
Pouco depois, as duas estavam sentadas em um dos cantos mais tranquilos da confeitaria.
Constantine observou a amiga por alguns segundos.
— O que houve? Você parecia aflita quando me mandou aquela mensagem.
Nay baixou os olhos.
— Sim... tem algo me incomodando muito.
— O que é?
Nay respirou fundo antes de responder.
— Eu não sei o que fazer. Às vezes acho que deveria ignorar e seguir em frente, mas, ao mesmo tempo... sinto que preciso fazer alguma coisa. E isso está me consumindo.
Constantine percebeu a angústia no rosto da amiga.
Sem dizer nada, pegou o bule que estava sobre a mesa e serviu uma xícara.
— Nay, toma. É chá de camomila. Acabei de fazer.
Entregou a xícara a ela e serviu outra para si.
— Obrigada.
Constantine segurou a própria xícara entre as mãos.
— Essa situação vale o seu incômodo? É algo que realmente precisa que você intervenha?
Nay permaneceu em silêncio.
— Estou perguntando porque, muitas vezes, nos envolvemos em situações que não são nossas e, no final, quem acaba injustiçado somos nós — continuou Constantine.
— Sim, eu sei.
— Então pense com calma. Antes de tomar qualquer atitude, tenha certeza de que aquilo que você descobriu realmente precisa ser levado adiante.
Nay apertou a xícara entre os dedos.
— É justamente isso que me deixa tão confusa.
— Você descobriu alguma coisa que pode prejudicar alguém?
Nay levantou os olhos.
— Pode.
Constantine ficou séria.
— E pode prejudicar você também?
Nay demorou alguns segundos para responder.
— Talvez.
Constantine respirou fundo.
— Então tenha cuidado.
— Eu estou tentando.
— Não precisa resolver tudo imediatamente.
Nay desviou o olhar para a janela.
— Mas e se, enquanto eu espero, alguma coisa acontecer?
A pergunta deixou Constantine pensativa.
— Se for algo realmente grave, você vai saber o que fazer. Só não permita que a pressa faça você tomar uma decisão da qual possa se arrepender depois.
Nay assentiu lentamente.
— Você tem razão.
Constantine sorriu de leve.
— Às vezes, a melhor coisa que podemos fazer é respirar e pensar antes de agir.
Nay tomou um pequeno gole do chá.
Por alguns instantes, as duas permaneceram em silêncio.
Então Nay finalmente criou coragem.
— Eu descobri uma traição.
Constantine ficou estática naquele momento.
— Uma traição?
Nay assentiu.
— A pessoa traída não merece tamanho desrespeito.
O silêncio voltou a tomar conta do ambiente.
Constantine pousou lentamente a xícara sobre a mesa.
— É por parte de quem?
Nay hesitou por um instante.
— Da parceira.
O silêncio cortou o ambiente novamente.
Constantine ficou pensativa. Não conhecia os detalhes, mas sabia que aquela situação poderia se tornar muito trágica.
— Minha amiga, cuidado. Essa situação é delicada demais. Nós não sabemos qual será a reação da pessoa traída.
— Eu sei.
— Você precisa ter certeza de tudo antes de fazer qualquer coisa. Uma acusação sem provas pode destruir vidas.
Nay respirou fundo.
— Eu não quero acusar ninguém.
— Então o que pretende fazer?
Nay baixou os olhos.
— Eu ainda não sei.
Constantine segurou a mão da amiga sobre a mesa.
— Então não tome nenhuma decisão enquanto estiver assim, tão abalada.
Nay permaneceu calada por alguns segundos.
— Mas eu acredito que seja justo fazer alguma coisa. A pessoa que está sendo enganada não merece esse desrespeito.
Constantine apertou levemente sua mão.
— Talvez você tenha razão. Mas, se decidir agir, faça isso com cuidado. E, principalmente, não se coloque em perigo por causa de uma situação que não é sua.
Nay assentiu.
Sabia que Constantine estava certa. Mas também sabia que já havia ido longe demais para simplesmente fechar aquela pasta e fingir que nunca descobrira nada.
Os primeiros dias na casa de Ludovica foram diferentes de tudo o que Umberto estava acostumado. No início, ele não sabia muito bem como agir. Estava acostumado com uma casa grande, funcionários disponíveis, silêncio e uma rotina organizada de acordo com seus horários. Ali, porém, as coisas funcionavam de outra maneira. Logo na primeira manhã, Umberto acordou mais cedo do que pretendia. Ainda estava se recuperando, mas já se sentia melhor. Ao sair do quarto, ouviu vozes vindas da cozinha. Constantine estava preparando o café da manhã enquanto Ludovica organizava algumas coisas sobre a mesa. — Eu faço o pão — disse Ludovica. — Então eu passo o café — respondeu Constantine. — E eu vou preparar o suco — disse Tomazzo, aparecendo na cozinha. Umberto ficou parado por alguns segundos, apenas observando. Ninguém parecia esperar que alguém fizesse tudo sozinho. Um ajudava o outro. Enquanto Ludovica terminava o pão, Constantine colocava as xícaras sobre a mesa. Tomazzo trouxe o s
Na manhã seguinte, o estado de Umberto apresentou uma melhora significativa. Depois de algumas horas de observação e dos cuidados da equipe médica, ele finalmente estava consciente e conseguia conversar com mais tranquilidade. Ainda se sentia fraco, mas já não apresentava o mesmo quadro preocupante da noite anterior. Quando o médico entrou no quarto para avaliá-lo, Umberto perguntou: — Doutor, aquelas duas mulheres que vieram me visitar... Ludovica e Constantine. Elas ainda estão aqui? — Sim. Elas aguardam notícias suas. Umberto ficou alguns segundos em silêncio. — Pode deixá-las entrar. Pouco depois, Ludovica e Constantine entraram no quarto. — Senhor Umberto... — Ludovica aproximou-se da cama. — O senhor nos deu um susto enorme. Ele esboçou um pequeno sorriso. — Desculpe. Não era minha intenção. Constantine ficou ao lado da tia, observando-o. — Como está se sentindo? — Melhor. Ainda um pouco fraco, mas melhor. Nesse momento, o médico entrou novamente no quarto. — Apr
Umberto entrou em casa naquela noite completamente transtornado. Assim que passou pela porta, fechou-a atrás de si e permaneceu alguns segundos parado no hall. As palavras de Emilyke continuavam ecoando em sua mente. “É pelo nosso filho.” Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até a sala. Não conseguia entender. Depois de tudo o que havia acontecido, depois de descobrir a traição, depois de ver as fotografias e perceber que havia sido enganado por duas das pessoas em quem mais confiava, Emilyke aparecia diante de sua casa com uma notícia daquela. Um filho. Umberto caminhou de um lado para o outro. — Não pode ser... Sentou-se no sofá, mas não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Levantou-se novamente. Foi até a janela. Depois voltou para a sala. Sua mente estava inquieta. Ele se perguntava se havia alguma possibilidade de Emilyke estar dizendo a verdade. Ao mesmo tempo, lembrava-se de tudo o que havia descoberto. Vito. As fotografias. As mentiras. Aquela vida
Um mês havia se passado desde a descoberta.Durante todo aquele tempo, Umberto não havia recebido nenhuma notícia de Emilyke ou de Vito.Ele seguiu com sua vida e com seu trabalho, tentando colocar as coisas no lugar depois de tudo o que havia acontecido.Emilyke, por outro lado, começava a perceber que a vida ao lado de Vito não era nada parecida com aquilo que havia imaginado.Aos poucos, uma espécie de saudade começou a surgir.Mas não era exatamente saudade de Umberto.Era saudade da forma como ele a tratava.Enquanto esteve ao lado dele, Emilyke havia sido constantemente colocada em primeiro lugar.Umberto fazia questão de incluí-la em seus melhores eventos, apresentá-la às pessoas importantes, apoiar seus projetos e proporcionar uma vida confortável.Ele sempre a tratara com respeito e consideração.Vito havia prometido que poderia oferecer algo ainda melhor.Mas a realidade tinha sido completamente diferente.Com ele, Emilyke conhecera o medo, a pressão e as ameaças.Aquela vid
Capítulo 47 — A ConversaAlguns dias se passaram após o jantar.Desde aquela noite, Umberto havia mantido sua rotina praticamente intacta.Continuava trabalhando, participando das reuniões e cuidando dos assuntos da empresa.Mas havia uma diferença.Agora, ele observava tudo com muito mais atenção.Naquela manhã, decidiu que era hora de conversar com Nay.Pediu que ela fosse até sua sala.Poucos minutos depois, ela bateu à porta.— Entre.Nay abriu a porta e entrou.— O senhor queria falar comigo?Umberto fez um gesto em direção à poltrona diante de sua mesa.— Sente-se, Nay.Ela obedeceu.— Boa tarde, senhor Zanobi.Umberto fechou a pasta que estava em suas mãos.Abriu o botão do paletó e se endireitou no assento.Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.Então abriu uma das gavetas da mesa e retirou alguns papéis.Eram as fotografias.Colocou o material sobre a mesa, virado para baixo.Nay acompanhou o movimento com os olhos.Umberto apoiou as costas na poltrona.— Nay, acredito
No esconderijo, a atmosfera era completamente diferente daquela que Vito costumava apresentar diante das outras pessoas. Não havia sorrisos. Não havia cordialidade. Não havia mais espaço para fingimentos. Vito caminhava de um lado para o outro, furioso, enquanto Emilyke permanecia diante dele, tentando conter as lágrimas. — Já chega! — Emilyke explodiu. — Eu não quero mais essa vida. Vito parou e a encarou. — Que vida? — Essa vida de mentiras, de medo, de ficar escondida. Eu tenho a minha loja. Tenho a minha independência. Não preciso continuar vivendo assim. Quero me afastar de tudo isso e seguir a minha vida. Vito soltou uma risada de desprezo. — Que independência você acha que tem? Você não é ninguém! Emilyke o encarou, indignada. — Não fale assim comigo. Vito se aproximou e agarrou seu braço com fúria. — Quer que eu conte para todo mundo que os seus diplomas são falsificados? Emilyke tentou se soltar. — Me solta! — Você acha que vai simplesmente sair dessa e fingi







