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Capítulo 38 - Conflitos do passado

Penulis: A escritora
last update Tanggal publikasi: 2026-09-08 07:54:38

Após aquele dia cansativo na empresa, Umberto organizou os documentos que levaria na viagem. As malas já estavam prontas e, em poucos minutos, ele precisaria apenas entrar no táxi em direção ao aeroporto.

Tudo estava perfeitamente organizado.

Conferiu pela última vez os contratos, os relatórios e alguns documentos importantes. Pegou os últimos papéis e os colocou dentro da pasta escura que sempre carregava consigo.

Era quase um ritual. Nada podia sair do lugar.

Depois de verificar se havia esquecido alguma coisa, desligou o computador, apagou as luzes da sala e saiu.

O corredor central estava praticamente vazio. Seus passos ecoavam pelo ambiente silencioso enquanto caminhava em direção às escadas.

Antes de descer, pegou o celular e enviou uma mensagem para Emilyke.

Ela também viajaria naquela noite, embora para um evento completamente diferente. Mesmo com a rotina corrida dos dois, Umberto fazia questão de saber se ela havia chegado bem ao aeroporto.

Guardou o celular no bolso e começou a descer as escadas.

Quando chegou ao pátio, percebeu que o carro já o aguardava diante da empresa.

Aproximou-se, abriu a porta traseira e entrou.

— Aeroporto!

O motorista olhou rapidamente pelo retrovisor.

— O doutor te aguarda!

Umberto franziu a testa.

— Doutor... quem?

O homem pareceu hesitar por um instante antes de responder:

— Edvaldo Zanobi.

O sangue de Umberto pareceu gelar.

Por alguns segundos, ele permaneceu imóvel, olhando para o motorista através do espelho.

Edvaldo, o pai.

Aquele nome era suficiente para trazer à tona lembranças que Umberto passara anos tentando manter enterradas.

— O que ele quer? — perguntou, finalmente.

— Não sei, senhor. Ele apenas pediu que eu o levasse até ele antes do seu voo.

Umberto soltou uma risada curta, sem humor.

Aquilo só podia ser uma brincadeira de mau gosto.

— Mude o destino.

— Para onde?

Umberto abriu a boca, mas não respondeu imediatamente.

Queria dizer para o aeroporto. E então, simplesmente ignorar aquela ordem e seguir com a própria vida.

Mas conhecia o pai. Edvaldo Zanobi nunca fazia nada sem um motivo. E, quando queria alguma coisa, não aceitava um não como resposta.

— Para a casa dele.

O motorista assentiu e fez uma curva.

Umberto encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. Não via o pai a muitos anos. Porém, não sentia saudade.

A relação entre os dois havia sido destruída muito antes de Umberto decidir deixar a família.

Edvaldo era um homem poderoso. Respeitado por muitos. Temido por outros tantos. Dono de empresas, propriedades e uma fortuna que havia crescido durante décadas.

Para o mundo, era um empresário brilhante. Um homem que havia construído um verdadeiro império. Mas Umberto o conhecia de perto. Sabia dos negócios obscuros. Dos acordos feitos às escondidas.

As pessoas que apareciam sorrindo ao lado de seu pai e desapareciam quando deixavam de ser úteis.

Desde muito jovem, Umberto havia percebido que havia algo errado. E quanto mais crescia, mais enxergava.

Edvaldo havia passado a vida construindo um império que Umberto não queria herdar.

Quando chegou à idade adulta, o pai deixou claro qual era o seu destino. Umberto seria seu sucessor. Assumiria as empresas.

Os contatos, negócios e o PODER de controlar todos a sua volta.

— Um dia, tudo isso será seu — Edvaldo havia dito certa vez, enquanto observavam a cidade através da enorme janela de seu escritório.

Umberto ainda se lembrava da sensação de desconforto.

— Eu não quero.

O pai havia soltado uma risada.

— Você ainda é jovem. Não sabe o que quer.

— Eu sei exatamente o que não quero.

Edvaldo havia virado o rosto lentamente.

— E o que seria?

— Ser como você.

Aquela frase havia mudado tudo.

Depois daquele dia, pai e filho nunca mais foram os mesmos.

Edvaldo tentou controlar suas escolhas.

Tentou pressioná-lo. Tentou usar dinheiro, influência e até a própria família para fazê-lo mudar de ideia.Mas Umberto não cedeu, preferiu sair de casa e começar tudo do zero.

Construir seu próprio nome. Seu patrimônio. Seu próprio império. Sem estar ligado diretamente ao pai. Sem carregar o sobrenome Zanobi como uma dívida.

Foi difícil.

Muito mais do que qualquer pessoa imaginava, ele conseguiu.

Tudo o que possuía havia sido conquistado com seu próprio trabalho. E talvez fosse justamente por isso que tivesse tanto orgulho daquilo.

O carro parou diante da enorme propriedade da família Zanobi. Umberto abriu os olhos.

Por alguns segundos, permaneceu sentado.

Observou o portão se abrir lentamente. Aquela casa não havia mudado. A mesma fachada imponente.

Os mesmos jardins perfeitamente cuidados. As mesmas paredes que, durante anos, haviam lhe dado a sensação de estar preso. Ele respirou fundo. Pegou a pasta escura e abriu a porta. Assim que colocou os pés para fora do carro, viu um homem parado na entrada.

Edvaldo agora mais velho com os cabelos completamente grisalhos. Mas o olhar ainda continuava o mesmo. Firme, calculista e dominador.

Umberto fechou a porta do carro. Os dois ficaram se encarando à distância.

— Você continua igual — Edvaldo disse.

Umberto manteve a expressão séria.

— E você continua achando que pode decidir por mim.

O pai deu um pequeno sorriso.

— Se eu pudesse decidir por você, não teria passado tantos anos longe de casa.

— Então por que me chamou?

Edvaldo olhou para a pasta que o filho segurava.

Depois voltou os olhos para ele.

— Porque chegou a hora de conversarmos sobre o seu futuro.

Umberto soltou uma risada amarga.

— Meu futuro não pertence a você.

— Ainda não entendeu.

Edvaldo deu um passo à frente.

— Desta vez, não estou pedindo que volte para a família.

Fez uma pausa.

— Entre.

— Prefiro ficar aqui.

— Não seja infantil, Umberto.

— Infantil foi você achar que, depois de tantos anos, eu simplesmente voltaria correndo porque decidiu me chamar.

Edvaldo se aproximou.

— Não o chamei para falar sobre o passado.

— Então fale.

O pai o encarou por alguns segundos.

— Estou me aposentando.

Umberto permaneceu imóvel.

— Parabéns.

— No próximo ano.

— Espero que aproveite.

Edvaldo deu um passo à frente.

— Quero que você assuma a presidência.

Umberto soltou uma risada curta.

— Não.

— Você nem pensou.

— Não preciso pensar.

— Você é meu filho.

— E isso não me torna seu sucessor.

Edvaldo apertou a mandíbula.

— Tudo o que construí será seu.

— Não quero.

— Você não entende o tamanho do que está recusando.

— Entendo perfeitamente.

Umberto aproximou-se, mantendo o olhar firme.

— Passei anos construindo minha própria empresa justamente porque não queria depender de você.

— Você ainda é jovem. Um dia vai entender que poder é mais importante do que imagina.

— Não. Eu entendi cedo demais que poder sem caráter não vale nada.

O silêncio entre os dois tornou-se pesado.

Edvaldo o encarou com irritação.

— Você vai mudar de ideia.

— Não vou.

— Veremos.

Umberto virou-se para sair.

Mas antes que pudesse dar o primeiro passo, ouviu a voz do pai:

— Pense bem antes de continuar recusando, Umberto.

Ele parou.

— Isso é uma ameaça?

Edvaldo apenas sorriu.

— É um conselho.

Umberto olhou por cima do ombro.

Conhecia aquele sorriso.

Era o mesmo sorriso que havia aprendido a temer quando era criança.

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