LOGINDepois da conversa com Vito, Umberto finalmente deixou a empresa.
Os últimos dias haviam sido uma verdadeira correria.
Três dias na casa de Edvaldo, conversas que preferia esquecer, documentos que ainda precisava analisar e, assim que havia saído da casa do pai, fora diretamente para a empresa.
Nem sequer tivera tempo de passar em casa.
Agora, enquanto dirigia de volta, sentia o peso daqueles dias sobre os ombros.
Precisava descansar.
Quando finalmente chegou, entrou em casa e deixou a pasta sobre o móvel da entrada. Tirou o paletó, afrouxou a gravata e soltou um suspiro profundo.
— Finalmente...
Seguiu diretamente para o quarto.
Um banho quente e demorado parecia ser exatamente o que precisava naquele momento.
Depois, vestiu uma roupa confortável e pediu algo para comer.
Enquanto esperava o delivery, levou os documentos que Edvaldo havia lhe entregado para o escritório.
Sentou-se na poltrona e abriu a pasta.
Começou a analisar cada página com atenção.
Havia informações sobre a comunidade, os problemas enfrentados pelos moradores, os apontamentos da fiscalização e as exigências que a empresa precisaria cumprir.
Umberto franziu a testa.
Não gostava da maneira como o pai tratava aquela situação.
Para Edvaldo, aquilo parecia ser apenas mais um problema de imagem.
Para ele, entretanto, havia pessoas vivendo naquele lugar.
Pessoas que precisavam de oportunidades.
Pegou uma folha em branco e começou a fazer algumas anotações.
Feiras.
Capacitação.
Pequenos negócios.
Empreendedores locais.
Apoio financeiro.
Cursos.
Parcerias.
Quanto mais escrevia, mais uma ideia começava a tomar forma.
Talvez fosse possível transformar aquela situação em algo realmente útil.
Em vez de simplesmente levar executivos da empresa para falar sobre empreendedorismo, ele queria aproximar o projeto das pessoas que realmente conheciam aquela realidade.
Depois de algumas horas, Umberto recostou-se na poltrona e observou as anotações.
No alto da página, escreveu:
PROJETO NOVOS CAMINHOS
Ficou alguns segundos olhando para aquelas palavras.
Era apenas uma ideia.
Mas poderia se transformar em algo grande.
Na manhã seguinte, Umberto chegou cedo à empresa.
Assim que entrou em sua sala, pediu à secretária que convocasse uma pequena reunião.
Nay também deveria participar.
Pouco tempo depois, algumas pessoas se reuniram na sala de reuniões.
Umberto colocou uma pasta sobre a mesa e permaneceu de pé diante deles.
— Obrigado por terem vindo. Quero apresentar a vocês uma proposta que comecei a desenvolver ontem.
Abriu a pasta e distribuiu algumas folhas.
— A empresa vai participar da Feira do Empreendedor. Mas eu não quero que seja apenas mais um estande corporativo.
Nay começou a ler o documento.
— Quero que esse projeto tenha participação direta da comunidade — continuou Umberto. — Precisamos criar algo que realmente ofereça oportunidades para quem vive ali.
Uma das pessoas presentes levantou os olhos.
— Que tipo de oportunidade?
— Capacitação, divulgação dos pequenos negócios, palestras e espaço para que os próprios moradores apresentem aquilo que fazem. Quero aproximar a empresa das pessoas, mas de uma maneira diferente.
Nay continuou lendo em silêncio.
Até que uma ideia lhe ocorreu.
— Senhor Zanobi...
Umberto olhou para ela.
— Sim?
— Acho que conheço alguém que poderia ajudar muito nesse projeto.
Ele fez um gesto para que continuasse.
— A Constantine.
Umberto ficou atento.
— Constantine?
— Ela mora na comunidade e conhece praticamente todo mundo. Além disso, tem a Doce Sonhos. A confeitaria dela é bastante conhecida por lá.
Nay fechou a pasta.
— Ela sabe conversar com as pessoas. E, principalmente, as pessoas confiam nela.
Umberto ficou alguns segundos em silêncio.
Aquela informação despertou seu interesse.
— Então ela não seria apenas uma participante.
— Não — respondeu Nay. — Ela poderia estar à frente de uma parte do projeto. Poderia falar com os moradores, apresentar a realidade deles e até participar da palestra sobre empreendedorismo.
Umberto sorriu discretamente.
— Essa é uma ideia maravilhosa.
Ele voltou-se para os demais.
— É exatamente isso que eu estava procurando.
Apontou para o documento sobre a mesa.
— O Projeto Novos Caminhos não pode ser construído apenas dentro de uma sala de reunião. Se queremos que funcione, precisamos ouvir quem vive naquela comunidade.
Nay assentiu.
Umberto pegou uma caneta.
— Então está decidido. Vamos estruturar o projeto, reservar o espaço para o evento e entrar em contato com Constantine.
Ele fez uma última anotação no documento.
Depois de terminar a reunião, Umberto decidiu que não queria fazer o convite a Constantine por telefone.
Se o projeto realmente pretendia aproximar a empresa da comunidade, o primeiro passo deveria ser dado pessoalmente.
No final da tarde, dirigiu até a Doce Sonhos.
Assim que entrou na confeitaria, foi recebido pelo aroma doce dos bolos recém-preparados e pelo movimento tranquilo do estabelecimento.
Ludovica foi a primeira a reconhecê-lo.
— Umberto!
Ela abriu um sorriso enorme e foi ao encontro dele.
— Meu filho, que surpresa maravilhosa!
Antes que pudesse responder, ela o abraçou com carinho.
— Que bom ver você!
Tomazzo apareceu logo atrás do balcão.
— Ora, ora... quem resolveu aparecer!
Umberto riu.
— Eu também estava com saudade de vocês.
Tomazzo apertou sua mão e, em seguida, deu-lhe um abraço.
— E como você está? Sumido!
— Foram dias complicados.
— Nós soubemos que você estava ocupado — disse Ludovica. — Mas não precisava desaparecer desse jeito.
— Eu sei. Acabei ficando preso a uma série de coisas.
Os três continuaram conversando por alguns minutos.
Ludovica quis saber sobre a empresa, Tomazzo fez algumas brincadeiras sobre a rotina de Umberto e, por alguns instantes, ele conseguiu esquecer os problemas que carregava nos ombros.
Era diferente estar ali.
Naquela confeitaria, sentia-se acolhido.
Depois de algum tempo, Constantine apareceu vindo dos fundos do estabelecimento.
— Umberto?
Ela pareceu surpresa ao vê-lo.
— Olá, Constantine.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim rever esses dois — respondeu, apontando para Ludovica e Tomazzo. — E também precisava falar com você.
Constantine franziu levemente a testa.
— Comigo?
— Sim. Você pode me conceder alguns minutos?
Ela olhou para Ludovica, que imediatamente percebeu que se tratava de algo importante.
— Podem conversar ali no fundo — sugeriu.
Constantine fez um gesto para que Umberto a acompanhasse.
Quando ficaram um pouco afastados dos demais, Umberto explicou:
— A empresa vai participar da Feira do Empreendedor.
Constantine assentiu, esperando que ele continuasse.
— Quero fazer algo diferente. Não quero simplesmente montar um estande bonito, colocar alguns funcionários atrás de uma mesa e falar sobre empreendedorismo como se conhecêssemos a realidade de todos.
Ela permaneceu em silêncio, prestando atenção.
— Quero que a comunidade participe. Quero que pequenos empreendedores tenham espaço, que as pessoas possam conhecer oportunidades e ouvir histórias de quem começou com pouco.
Constantine cruzou os braços.
— E onde eu entro nisso?
Umberto sorriu discretamente.
— Nay me falou sobre você.
Constantine arqueou uma sobrancelha.
— Sobre mim?
— Sobre a Doce Sonhos. Sobre a forma como você conhece a comunidade e sobre a confiança que as pessoas têm em você.
Ela pareceu um pouco desconcertada.
— Eu não sei se sou a pessoa certa para isso.
— Eu acho que é.
Constantine ficou pensativa.
— O que exatamente você quer que eu faça?
— Quero convidá-la para participar do projeto. Você poderia ajudar na organização e, principalmente, fazer uma palestra durante o evento. Falar sobre empreendedorismo, sobre sua experiência e sobre as dificuldades que pequenos empreendedores enfrentam.
Constantine olhou para ele por alguns segundos.
— Você realmente acha que eu conseguiria fazer isso?
— Acho que você faria muito bem.
Ela desviou o olhar, pensativa.
Não esperava aquele convite.
Muito menos vindo de Umberto.
— Eu preciso pensar.
— Claro.
Ele não tentou pressioná-la.
— Pense com calma. Não quero que aceite por obrigação. Quero que faça porque acredita que pode contribuir.
Constantine assentiu.
— Está bem. Eu vou pensar.
— Ótimo.
Umberto estendeu a mão.
— Então temos um acordo.
Ela apertou a mão dele.
— Temos.
Quando voltou para perto de Ludovica e Tomazzo, Umberto ainda conversou mais alguns minutos antes de se despedir.
— Apareça mais vezes — pediu Ludovica. — Não espere ter negócios para resolver para vir nos visitar.
— Pode deixar. Prometo.
Tomazzo apontou para ele.
— E da próxima vez, nada de sair daqui sem comer alguma coisa.
Umberto riu.
— Combinado.
Despediu-se dos dois e deixou a confeitaria. Do lado de fora, antes de entrar no carro, olhou uma última vez para a Doce Sonhos. O projeto começava a tomar forma.
Os primeiros dias na casa de Ludovica foram diferentes de tudo o que Umberto estava acostumado. No início, ele não sabia muito bem como agir. Estava acostumado com uma casa grande, funcionários disponíveis, silêncio e uma rotina organizada de acordo com seus horários. Ali, porém, as coisas funcionavam de outra maneira. Logo na primeira manhã, Umberto acordou mais cedo do que pretendia. Ainda estava se recuperando, mas já se sentia melhor. Ao sair do quarto, ouviu vozes vindas da cozinha. Constantine estava preparando o café da manhã enquanto Ludovica organizava algumas coisas sobre a mesa. — Eu faço o pão — disse Ludovica. — Então eu passo o café — respondeu Constantine. — E eu vou preparar o suco — disse Tomazzo, aparecendo na cozinha. Umberto ficou parado por alguns segundos, apenas observando. Ninguém parecia esperar que alguém fizesse tudo sozinho. Um ajudava o outro. Enquanto Ludovica terminava o pão, Constantine colocava as xícaras sobre a mesa. Tomazzo trouxe o s
Na manhã seguinte, o estado de Umberto apresentou uma melhora significativa. Depois de algumas horas de observação e dos cuidados da equipe médica, ele finalmente estava consciente e conseguia conversar com mais tranquilidade. Ainda se sentia fraco, mas já não apresentava o mesmo quadro preocupante da noite anterior. Quando o médico entrou no quarto para avaliá-lo, Umberto perguntou: — Doutor, aquelas duas mulheres que vieram me visitar... Ludovica e Constantine. Elas ainda estão aqui? — Sim. Elas aguardam notícias suas. Umberto ficou alguns segundos em silêncio. — Pode deixá-las entrar. Pouco depois, Ludovica e Constantine entraram no quarto. — Senhor Umberto... — Ludovica aproximou-se da cama. — O senhor nos deu um susto enorme. Ele esboçou um pequeno sorriso. — Desculpe. Não era minha intenção. Constantine ficou ao lado da tia, observando-o. — Como está se sentindo? — Melhor. Ainda um pouco fraco, mas melhor. Nesse momento, o médico entrou novamente no quarto. — Apr
Umberto entrou em casa naquela noite completamente transtornado. Assim que passou pela porta, fechou-a atrás de si e permaneceu alguns segundos parado no hall. As palavras de Emilyke continuavam ecoando em sua mente. “É pelo nosso filho.” Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até a sala. Não conseguia entender. Depois de tudo o que havia acontecido, depois de descobrir a traição, depois de ver as fotografias e perceber que havia sido enganado por duas das pessoas em quem mais confiava, Emilyke aparecia diante de sua casa com uma notícia daquela. Um filho. Umberto caminhou de um lado para o outro. — Não pode ser... Sentou-se no sofá, mas não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Levantou-se novamente. Foi até a janela. Depois voltou para a sala. Sua mente estava inquieta. Ele se perguntava se havia alguma possibilidade de Emilyke estar dizendo a verdade. Ao mesmo tempo, lembrava-se de tudo o que havia descoberto. Vito. As fotografias. As mentiras. Aquela vida
Um mês havia se passado desde a descoberta.Durante todo aquele tempo, Umberto não havia recebido nenhuma notícia de Emilyke ou de Vito.Ele seguiu com sua vida e com seu trabalho, tentando colocar as coisas no lugar depois de tudo o que havia acontecido.Emilyke, por outro lado, começava a perceber que a vida ao lado de Vito não era nada parecida com aquilo que havia imaginado.Aos poucos, uma espécie de saudade começou a surgir.Mas não era exatamente saudade de Umberto.Era saudade da forma como ele a tratava.Enquanto esteve ao lado dele, Emilyke havia sido constantemente colocada em primeiro lugar.Umberto fazia questão de incluí-la em seus melhores eventos, apresentá-la às pessoas importantes, apoiar seus projetos e proporcionar uma vida confortável.Ele sempre a tratara com respeito e consideração.Vito havia prometido que poderia oferecer algo ainda melhor.Mas a realidade tinha sido completamente diferente.Com ele, Emilyke conhecera o medo, a pressão e as ameaças.Aquela vid
Capítulo 47 — A ConversaAlguns dias se passaram após o jantar.Desde aquela noite, Umberto havia mantido sua rotina praticamente intacta.Continuava trabalhando, participando das reuniões e cuidando dos assuntos da empresa.Mas havia uma diferença.Agora, ele observava tudo com muito mais atenção.Naquela manhã, decidiu que era hora de conversar com Nay.Pediu que ela fosse até sua sala.Poucos minutos depois, ela bateu à porta.— Entre.Nay abriu a porta e entrou.— O senhor queria falar comigo?Umberto fez um gesto em direção à poltrona diante de sua mesa.— Sente-se, Nay.Ela obedeceu.— Boa tarde, senhor Zanobi.Umberto fechou a pasta que estava em suas mãos.Abriu o botão do paletó e se endireitou no assento.Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.Então abriu uma das gavetas da mesa e retirou alguns papéis.Eram as fotografias.Colocou o material sobre a mesa, virado para baixo.Nay acompanhou o movimento com os olhos.Umberto apoiou as costas na poltrona.— Nay, acredito
No esconderijo, a atmosfera era completamente diferente daquela que Vito costumava apresentar diante das outras pessoas. Não havia sorrisos. Não havia cordialidade. Não havia mais espaço para fingimentos. Vito caminhava de um lado para o outro, furioso, enquanto Emilyke permanecia diante dele, tentando conter as lágrimas. — Já chega! — Emilyke explodiu. — Eu não quero mais essa vida. Vito parou e a encarou. — Que vida? — Essa vida de mentiras, de medo, de ficar escondida. Eu tenho a minha loja. Tenho a minha independência. Não preciso continuar vivendo assim. Quero me afastar de tudo isso e seguir a minha vida. Vito soltou uma risada de desprezo. — Que independência você acha que tem? Você não é ninguém! Emilyke o encarou, indignada. — Não fale assim comigo. Vito se aproximou e agarrou seu braço com fúria. — Quer que eu conte para todo mundo que os seus diplomas são falsificados? Emilyke tentou se soltar. — Me solta! — Você acha que vai simplesmente sair dessa e fingi







