Masuk— Eu sempre quis te orientar da forma correta, mas você sempre me desafiou — disse Edvaldo, com a voz carregada de ressentimento.
Umberto o encarou. — Eu nunca quis fazer as mesmas coisas que você fazia. O rosto de Edvaldo endureceu. — Porque você é um frouxo! Mole, chorão. A sua mãe te arruinou com aquele jeitinho dela. Deixou você assim. Por alguns segundos, Umberto permaneceu em silêncio. Aquelas palavras atingiram um lugar que ele tentava manter protegido havia anos. Sua mãe. Edvaldo sabia exatamente onde tocar. Mas, daquela vez, Umberto não abaixou os olhos. Deu um passo na direção do pai e respondeu, com a voz baixa e firme: — Não foi minha mãe que me tornou diferente de você, pai. Mas foi justamente ela que me mostrou que eu não precisava me tornar um homem cruel para ser forte. Edvaldo ficou em silêncio. Umberto continuou: — Você chama de fraqueza tudo aquilo que não consegue controlar. Minha escolha, minha consciência, minha liberdade... até o amor que eu tenho pela minha mãe. Mas quer saber qual é a verdadeira fraqueza? Ele sustentou o olhar do pai. — É precisar destruir os outros para se sentir poderoso. O maxilar de Edvaldo se contraiu. Umberto respirou fundo. — Eu prefiro ser o homem que você chama de frouxo do que passar o resto da minha vida sendo o homem que eu passei a vida inteira tentando não me tornar. Podre por dentro. O silêncio que se seguiu pareceu ocupar toda a sala. Pela primeira vez naquela noite, Edvaldo não encontrou uma resposta imediata. Mas seus olhos deixavam claro que aquela conversa estava longe de terminar. Na manhã seguinte, Umberto acordou antes mesmo de o sol nascer completamente. Por alguns segundos, ficou olhando para o teto, tentando se lembrar de onde estava. Então as lembranças da noite anterior voltaram. A discussão com o pai. As acusações. As palavras cruéis. E, principalmente, a sensação incômoda de estar novamente preso àquele lugar. Levantou-se e se arrumou em silêncio. Quando abriu a porta do quarto, sentiu um cheiro conhecido vindo do andar de baixo. Café fresco. Pão assando. E alguma coisa doce. Desceu as escadas lentamente. Ao chegar à sala de jantar, parou. A mesa estava completamente preparada. Havia pão de queijo, ovos mexidos, bolo de chocolate, frutas cortadas, suco de laranja e o café que ele costumava tomar quando era criança. Até mesmo a geleia de morango estava ali. Umberto ficou alguns segundos observando tudo. Era exatamente o café da manhã que sua mãe costumava preparar nos domingos. Edvaldo estava sentado à cabeceira da mesa, lendo o jornal como se a discussão da noite anterior nunca tivesse acontecido. — Sente-se — disse ele, sem levantar os olhos. Umberto permaneceu parado. — Quem preparou isso? Edvaldo dobrou o jornal. — A cozinha recebeu instruções. — Minhas preferências? — Algumas coisas não mudam. Umberto olhou novamente para a mesa. Havia algo desconfortável naquela tentativa de fazê-lo lembrar da infância. Era como se o pai estivesse tentando abrir uma porta que ele havia passado anos mantendo fechada. — Você se lembra? — perguntou Edvaldo. Umberto puxou a cadeira, mas não se sentou. — Lembro de muita coisa. — Você adorava esse bolo. — Quando eu tinha oito anos. — E sempre reclamava quando acabava. Umberto desviou o olhar. Por um instante, conseguiu enxergar a antiga cozinha. Sua mãe sorrindo. O cheiro do bolo recém-assado. A voz dela chamando-o para o café. Era uma lembrança boa. Talvez boa demais. E era justamente por isso que doía. Edvaldo percebeu a mudança na expressão do filho. — Sua mãe fazia questão de preparar tudo do jeito que você gostava. Umberto finalmente se sentou. — Não use minha mãe para conseguir o que quer. O pai o encarou. — Estou apenas tentando lembrar você de que ainda existe uma família aqui. Umberto pegou a xícara de café. — Família não é uma mesa cheia. Edvaldo arqueou uma sobrancelha. — Então o que é? Umberto levantou os olhos. — É poder sentar à mesa sem precisar ter medo do homem que está na cabeceira. Umberto deu mais um gole no café e colocou a xícara sobre a mesa. Levantou-se. Precisava sair dali antes que aquela conversa o prendesse novamente em lembranças que não queria revisitar. — Sente-se. Eu ainda não terminei. A voz de Edvaldo o fez parar. Umberto permaneceu de costas por alguns segundos. — Lembro de quando você era pequeno. Não desgrudava de mim. Ele se virou lentamente. Edvaldo tinha um sorriso discreto no rosto. — Vez ou outra, você entrava correndo no escritório para me abraçar. Sua mãe vinha logo atrás, toda ruborizada, tentando te segurar. Umberto baixou os olhos. Apesar de tudo, aquela lembrança existia. E era verdadeira. — Você foi crescendo... — continuou Edvaldo. — E começou a mudar. Foi formando sua própria identidade. Umberto não respondeu. — Até que chegou aos dezoito anos. O sorriso de Edvaldo desapareceu aos poucos. — Aquela foi uma noite interessante. Umberto estreitou os olhos. Lembrava-se perfeitamente. Seu aniversário de dezoito anos. O presente que o pai havia preparado. Não era um carro. Não era uma festa. Era uma visita. Edvaldo o levara para conhecer uma parte dos negócios que, até então, mantinha longe dos olhos do filho. E, naquela noite, entregara a Umberto uma missão. Uma missão que ele jamais aceitou. — Eu te levei para conhecer meus negócios — continuou Edvaldo. — Queria mostrar que você precisava começar a entender o mundo em que nasceu. — Eu me lembro. — E também te dei uma oportunidade. Umberto apertou a mandíbula. — Aquilo não foi uma oportunidade. — Para mim, foi. — Você queria que eu fizesse algo que eu sabia que estava errado. Edvaldo deu de ombros. — Eu queria descobrir se você tinha coragem. — E eu descobri que não precisava provar minha coragem daquele jeito. O pai o observou por alguns segundos. Então soltou uma risada baixa. — Você recusou. Umberto permaneceu em silêncio. — Recusou a missão que eu te dei naquela noite — continuou Edvaldo. — E sabe o que acho mais engraçado? Umberto não respondeu. — Hoje você se tornou amigo justamente dele. O olhar de Umberto mudou. — Não fale dele. Edvaldo inclinou-se sobre a mesa. — O mundo é pequeno, meu filho. — Deixe-o fora disso. — Agora você o protege. Umberto deu um passo à frente. — Eu disse para deixá-lo fora disso. Edvaldo sorriu. — Que irônico. O silêncio tomou conta da sala. Edvaldo pegou a xícara e tomou um gole de café antes de continuar: — O filho do Normando... Fez uma pausa. — Não merece essa chance. Umberto sentiu o corpo enrijecer. — Você não sabe nada sobre ele. — Sei o suficiente. — Não. Você sabe o que quer saber. Edvaldo pousou a xícara. — E você está cometendo o mesmo erro que cometeu aos dezoito anos. Umberto franziu a testa. — Que erro? — Acreditar que pode escolher quem merece uma oportunidade. Edvaldo se levantou. — Eu já te dei uma chance uma vez. Você desperdiçou. Caminhou lentamente até ficar diante do filho. — Desta vez, não vou permitir que suas escolhas atrapalhem os meus planos. Umberto sustentou o olhar do pai. — Eu não sou mais aquele garoto de dezoito anos. Edvaldo sorriu. — Eu sei. A resposta veio tranquila demais. — É justamente por isso que estou preocupado. Edvaldo caminhou até a janela e permaneceu de costas para o filho por alguns segundos. Quando falou novamente, sua voz estava mais baixa. — Cuidado, meu filho. Umberto não respondeu. — O mundo é cruel demais para quem tem bondade. Edvaldo virou-se lentamente. Seu olhar encontrou o de Umberto. — E, muitas vezes, ela retorna na forma mais brutal da maldade. Umberto sentiu um arrepio percorrer o corpo. Edvaldo fez uma breve pausa. — Cuidado! A palavra ecoou pela sala. Umberto permaneceu imóvel. Não sabia se aquilo era apenas mais uma tentativa de intimidá-lo ou se o pai estava, de alguma maneira, avisando que algo estava prestes a acontecer. Mas conhecia Edvaldo o suficiente para saber de uma coisa: Quando seu pai dizia para ter cuidado, quase nunca era porque estava preocupado. Era porque alguma coisa já estava acontecendo.Depois da conversa com Vito, Umberto finalmente deixou a empresa.Os últimos dias haviam sido uma verdadeira correria.Três dias na casa de Edvaldo, conversas que preferia esquecer, documentos que ainda precisava analisar e, assim que havia saído da casa do pai, fora diretamente para a empresa.Nem sequer tivera tempo de passar em casa.Agora, enquanto dirigia de volta, sentia o peso daqueles dias sobre os ombros.Precisava descansar.Quando finalmente chegou, entrou em casa e deixou a pasta sobre o móvel da entrada. Tirou o paletó, afrouxou a gravata e soltou um suspiro profundo.— Finalmente...Seguiu diretamente para o quarto.Um banho quente e demorado parecia ser exatamente o que precisava naquele momento.Depois, vestiu uma roupa confortável e pediu algo para comer.Enquanto esperava o delivery, levou os documentos que Edvaldo havia lhe entregado para o escritório.Sentou-se na poltrona e abriu a pasta.Começou a analisar cada página com atenção.Havia informações sobre a comuni
— Umberto, preciso conversar com você — disse Vito, assim que o amigo entrou na empresa.Umberto deixou a pasta sobre a mesa e soltou um suspiro cansado.— Certo, mas não agora. Acabei de chegar. Esses últimos dias foram uma loucura.Vito assentiu.— Tudo bem. Passo aqui mais tarde. Bom te ver, meu amigo.Ele já estava se afastando quando Umberto o chamou:— Ah, já que você está indo na direção da cafeteria, pede para alguém trazer um café caprichado e um pedaço de torta da Ludovica.Vito acenou positivamente.— Deixa comigo.Assim que saiu da sala, encontrou Nay no corredor.— Nay!Ela se virou.— Oi?— O chefe está pedindo café. Se vira e vai levar para ele agora.Nay congelou. Por um instante, sentiu o coração acelerar.— Eu?— Você mesma.Ela olhou para a porta da sala de Umberto. A lembrança daquela noite no restaurante voltou imediatamente. Pegou a bandeja e seguiu pelo corredor. A cada passo, suas mãos ficavam mais trêmulas. A xícara e os talheres balançavam sobre a bandeja, pr
No terceiro dia, Umberto já não conseguia esconder a impaciência. Havia passado tempo demais naquela casa. Três dias. Três dias longe de sua empresa, de seus negócios e de tudo aquilo que havia construído com tanto esforço e dedicação. Mesmo que tivesse conseguido trabalhar remotamente em alguns momentos, sabia que precisava voltar. Naquela manhã, encontrou o pai no escritório. Edvaldo estava sentado atrás da enorme mesa de madeira, analisando alguns documentos. Umberto entrou sem bater. — Pai. Edvaldo ergueu os olhos. — Sente-se. — Não. Dessa vez eu vim avisar que preciso voltar. O homem pousou os documentos sobre a mesa. — Já? — Já estou aqui há três dias, pai. — E isso é muito? — Para mim, é. Edvaldo o observou em silêncio. Umberto continuou: — Preciso voltar para os meus negócios. A empresa de mim. Existem muitas coisas que preciso analisar e revisar pessoalmente. Não posso continuar afastado por tanto tempo. Ele esperava uma discussão. Ou então,
— Eu sempre quis te orientar da forma correta, mas você sempre me desafiou — disse Edvaldo, com a voz carregada de ressentimento. Umberto o encarou. — Eu nunca quis fazer as mesmas coisas que você fazia. O rosto de Edvaldo endureceu. — Porque você é um frouxo! Mole, chorão. A sua mãe te arruinou com aquele jeitinho dela. Deixou você assim. Por alguns segundos, Umberto permaneceu em silêncio. Aquelas palavras atingiram um lugar que ele tentava manter protegido havia anos. Sua mãe. Edvaldo sabia exatamente onde tocar. Mas, daquela vez, Umberto não abaixou os olhos. Deu um passo na direção do pai e respondeu, com a voz baixa e firme: — Não foi minha mãe que me tornou diferente de você, pai. Mas foi justamente ela que me mostrou que eu não precisava me tornar um homem cruel para ser forte. Edvaldo ficou em silêncio. Umberto continuou: — Você chama de fraqueza tudo aquilo que não consegue controlar. Minha escolha, minha consciência, minha liberdade... até o amor que
Após aquele dia cansativo na empresa, Umberto organizou os documentos que levaria na viagem. As malas já estavam prontas e, em poucos minutos, ele precisaria apenas entrar no táxi em direção ao aeroporto. Tudo estava perfeitamente organizado. Conferiu pela última vez os contratos, os relatórios e alguns documentos importantes. Pegou os últimos papéis e os colocou dentro da pasta escura que sempre carregava consigo. Era quase um ritual. Nada podia sair do lugar. Depois de verificar se havia esquecido alguma coisa, desligou o computador, apagou as luzes da sala e saiu. O corredor central estava praticamente vazio. Seus passos ecoavam pelo ambiente silencioso enquanto caminhava em direção às escadas. Antes de descer, pegou o celular e enviou uma mensagem para Emilyke. Ela também viajaria naquela noite, embora para um evento completamente diferente. Mesmo com a rotina corrida dos dois, Umberto fazia questão de saber se ela havia chegado bem ao aeroporto. Guardou o celular
Nay acorda 5 minutos atrasada, ela jurava que tinha colocado o celular para despertar. Ajeitou rapidamente suas coisas sem ter tempo para o café da manhã. Ainda bem que no trabalho tinha algumas opções para não ficar com fome. O dia foi agitado, após a invasão do racker voltar ao normal parecia impossível. E hoje seria o dia da apresentação do novo uniforme, era obrigatório todos funcionários irem até o auditório ouvir Emilyke falar sobre o tecido e como conservá-lo. No almoço ela comeu um lanche. Ao final da tarde lembrou que em casa tinha algo saudável para jantar, somente um macarrão instantâneo. Mas lhe ocorreu uma ideia de passar em um restaurante e garantir algo que lhe traria um pouco de conforto. Entrou e escolheu a opção de levar o pedido para casa, o lugar era bonito e aconchegante com luzes quentes que te faz desacelerar. Enquanto aguardava começou a observar a clientela requintada e elegante que chegava àquele espaço, ela se impressionou com o silêncio, ouvia-se vez o







