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Capítulo 07

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-26 02:11:43

Virei as costas para Tiago e comecei a descer a rua.

Não olhei para trás.

Nem uma vez.

Bom...

Talvez uma.

Só para ter certeza de que ele não estava vindo atrás de mim.

E não estava.

O homem continuava parado lá em cima, me olhando.

Balancei a cabeça.

— Convencido pra caralho...

Continuei descendo.

O vento batia no meu rosto, levantando algumas mechas do meu cabelo e fazendo minhas tranças balançarem nas costas.

Eu ainda estava pensando na conversa.

“Eu gostei de você.”

Olhei para o chão.

“Quero descobrir quem você é.”

Revirei os olhos.

— Ah, Tiago, vai arrumar o que fazer.

Falei sozinha.

De novo.

Eu estava começando a falar sozinha demais.

Aquilo não era bom sinal.

Desci mais alguns metros e comecei a ouvir risadas.

Olhei para frente.

Três moleques estavam sentados na calçada.

Os três deviam ter uns oito ou nove anos.

Um deles me viu.

Cutucou o outro.

Os três começaram a rir.

Eu parei.

— Que foi?

Silêncio.

Um deles colocou a mão na boca para esconder o sorriso.

— Nada, não.

— Então por que tá rindo?

— A gente não tá rindo.

— Tá sim.

O menorzinho levantou.

Olhou para os amigos.

Depois olhou para mim.

E abriu aquele sorriso de criança que já estava aprontando.

— Ô, tia!

— O quê?

— É verdade?

— Verdade o quê?

Ele colocou as mãos na cintura e fez uma voz grossa:

— Que você é a mulher do Tiago?

Os outros dois começaram a gargalhar.

Fiquei parada.

— O quê?

— A mulher do morro!

— É ela! — gritou outro.

— A futura dona do morro!

Os três saíram correndo.

— AH, SEUS FILHOS DA MÃE!

Saí correndo atrás deles.

— VOLTA AQUI!

Os moleques gritavam e riam enquanto desciam a viela.

— CORRE!

— A MULHER DO TIAGO TÁ BRAVA!

— DONA DO MORRO!

— VAI CASAR!

— EU VOU PEGAR VOCÊS!

Eles corriam como se tivessem ganhado asas.

Eu quase escorreguei numa pedra.

— Desgraçados!

Um deles entrou por uma passagem estreita.

Outro pulou uma escadinha.

O menorzinho olhou para trás enquanto corria.

— TIA PENÉLOPE, O TIAGO É SEU NAMORADO!

— EU VOU TE PEGAR, MOLEQUE!

Ele começou a rir.

Finalmente consegui alcançar um deles.

Peguei o menino pelo braço.

— Peguei!

— Não!

— Vem cá, seu pestinha!

Dei um cascudo de leve na cabeça dele.

— Ai!

— Isso é para aprender a respeitar os outros.

Ele começou a rir.

— Vai casar!

— Cala a boca!

Dei outro cascudo de brincadeira.

— Vai contar pra sua mãe!

— Vou!

— Então conta que eu mandei você parar de falar merda.

Ele saiu correndo novamente.

— PENÉLOPE É A MULHER DO TIAGO!

— DESGRAÇADO!

Comecei a rir.

Não consegui evitar.

Aqueles moleques eram umas pestes.

Mas eram umas pestes engraçadas.

Fiquei parada no meio da viela, tentando recuperar o fôlego.

Uma senhora que estava na porta de casa acompanhou tudo.

Ela estava segurando uma xícara de café.

— Você não presta, menina.

Olhei para ela.

— Eu? Eles que começaram.

Ela riu.

— Mas você vai casar mesmo?

Abri a boca.

Fechei.

— Até a senhora?

Ela começou a rir.

— Só estou perguntando.

— Pois pergunta para ele.

— Dizem que ele está interessado.

— O povo fala demais.

— E você não gosta dele?

Cruzei os braços.

— Eu gosto da minha paz.

Ela gargalhou.

— Essa foi boa.

Continuei meu caminho.

Mas já estava sorrindo.

O morro inteiro parecia ter decidido que eu seria a esposa de Tiago antes mesmo de eu saber se queria conversar com aquele homem por mais de cinco minutos.

Era uma coisa absurda.

Eu ainda nem tinha beijado o sujeito.

Nem namorado.

Nem nada.

E já tinha criança me chamando de dona do morro.

— Povo sem serviço...

Subi os últimos degraus até minha casa.

Antes mesmo de entrar, senti o cheiro.

Café.

E bolo.

Parei na porta.

— Agora sim apareceu uma coisa boa nesse dia.

Entrei.

Minha mãe estava sentada à mesa.

Meu pai também.

No meio deles havia uma garrafa de café e um bolo de milho ainda morno.

Meu pai levantou os olhos.

— Até que enfim chegou.

— Bom dia pra você também.

Minha mãe sorriu.

— Senta. Tem café.

Não precisei ouvir duas vezes.

Puxei a cadeira e sentei.

Peguei um pedaço de bolo.

— Hummm...

Fechei os olhos.

— Isso aqui está bom pra caralho.

Minha mãe me olhou.

— Penélope.

— O quê?

— Maneira de falar.

— O bolo está bom.

Meu pai começou a rir.

— Deixa a menina.

— Você também não ajuda.

Passei manteiga no bolo.

— Pai, sabe o que aconteceu na rua?

— O quê?

— Os moleques estão me chamando de mulher do Tiago.

Meu pai parou com a xícara no meio do caminho.

Minha mãe começou a rir.

— Eu falei que isso ia acontecer.

— A senhora está achando graça?

— Um pouco.

— Mãe!

Meu pai colocou a xícara na mesa.

— E você fez o quê?

— Corri atrás deles.

— Você?

— Eu.

— Foi pegar os meninos?

— Peguei um.

Meu pai começou a rir.

— Deu cascudo?

— Dei.

— Penélope!

Minha mãe estava tentando não rir.

— Foi de leve.

Meu pai balançou a cabeça.

— Você ainda vai acabar ficando maluca.

— Eu já sou.

Nós três rimos.

Por alguns minutos, foi só aquilo.

Café.

Bolo.

Risada.

Uma família simples sentada à mesa.

Sem preocupação.

Sem Tiago.

Sem morro.

Sem fofoca.

Só nós.

Até minha mãe dizer:

— Mas é verdade que ele está interessado em você?

Olhei para ela.

— Começou.

Meu pai riu.

— Sua mãe só perguntou.

— Sim. Está.

— E você?

— Eu o quê?

— Está interessada nele?

Mastiguei devagar.

— Não sei.

Minha mãe e meu pai se olharam.

— O quê? — perguntei.

— Nada — minha mãe respondeu.

— Essa cara de vocês não é nada.

Meu pai sorriu.

— Você está crescendo.

— Eu já tenho dezoito anos, pai.

— Eu sei.

— Então.

— Mas para mim você ainda é minha menina.

Aquilo me fez sorrir.

— Ah, pai...

Ele pegou mais um pedaço de bolo.

— Só quero que você tome cuidado.

O tom dele mudou.

Eu percebi na hora.

Minha mãe também.

Meu pai deixou o prato sobre a mesa.

— Agora falando sério.

Fiquei quieta.

Ele respirou fundo.

— Esse homem não é igual aos outros que você conhece.

— Eu sei.

— Não estou dizendo que ele seja bom ou ruim. Estou dizendo que ele tem poder. Tem gente trabalhando para ele. Tem gente que depende das decisões dele. Tem gente que tem medo dele.

Fiquei mexendo na borda do prato.

— Eu sei.

— E você...

Ele apontou para mim.

— Você não sabe dizer não baixinho.

Minha mãe soltou uma risadinha.

Eu olhei para ela.

— Mãe.

Ela ficou séria novamente.

Meu pai continuou:

— Você fala o que pensa. Isso é uma qualidade. Eu gosto de ver você se defendendo. Mas precisa saber quando uma coisa pode trazer consequência.

Fiquei em silêncio.

— Nós somos pessoas simples, Penélope — ele disse. — Eu sou pedreiro. Sua mãe trabalha limpando casa. A gente não tem dinheiro, não tem influência. A única coisa que a gente tem é nossa família e nossa casa.

Engoli seco.

Ele continuou:

— Então, se esse homem realmente estiver interessado em você, não quero que você provoque uma situação que depois possa colocar você ou a gente em perigo.

Olhei para meu pai.

Dessa vez eu não tinha resposta engraçada.

Ele não estava tentando me prender.

Não estava dizendo que eu não podia sair.

Estava preocupado.

— Eu entendi.

— Promete que vai tomar cuidado?

Assenti.

— Prometo.

Minha mãe estendeu a mão sobre a mesa e segurou a minha.

— Você é corajosa, filha. Só não confunda coragem com não ter medo.

Aquelas palavras ficaram na minha cabeça.

Meu pai completou:

— E outra coisa.

— O quê?

— Homem nenhum é dono de mulher nenhuma.

Olhei para ele.

— Eu sei.

— Se algum dia você quiser alguma coisa com esse rapaz, que seja porque você escolheu. Não porque o morro falou, não porque ele mandou e muito menos porque alguém decidiu por você.

Sorri.

— Nisso a gente pensa igual.

Meu pai sorriu também.

— Eu sei.

Terminei meu café.

Depois levantei.

— Vou para o quarto.

— Vai descansar — minha mãe disse.

— Vou.

Subi.

Entrei no meu quarto e fechei a porta.

Joguei-me na cama.

Fiquei olhando para o teto.

A casa estava silenciosa.

Dava para ouvir o som distante das pessoas na rua.

Uma música tocando.

Uma moto passando.

Uma criança gritando.

O morro nunca parava completamente.

Virei de lado.

Meu pai tinha razão.

Eu sabia disso.

E odiava quando ele tinha razão.

— Merda...

Peguei um travesseiro e coloquei sobre o rosto.

“Você não sabe dizer não baixinho.”

Tirei o travesseiro.

— Eu sei dizer não.

Pausa.

— Só não gosto de repetir.

Sentei na cama.

Minha cabeça voltou para Tiago.

O jeito que ele tinha falado comigo.

“Eu gostei de você.”

Bufei.

— E eu com isso?

Levantei.

Comecei a andar pelo quarto.

— Homem bonito demais é problema.

Parei diante do espelho.

Olhei para meu reflexo.

— E aquele desgraçado sabe que é bonito.

Cruzei os braços.

— Convencido.

Fiquei alguns segundos olhando para mim mesma.

Depois sorri sem querer.

— Mas também...

Parei.

— Não.

Balancei a cabeça.

— Nem começa, Penélope.

Eu não estava apaixonada.

Não estava.

Nem perto disso.

Eu só tinha achado o homem interessante.

Só isso.

Talvez bonito.

Muito bonito.

Mas isso não significava nada.

Eu podia achar um homem bonito sem querer casar com ele.

Podia conversar com ele sem me apaixonar.

Podia até gostar dele...

Parei.

— Gostar?

Fiz uma careta.

— Ah, vai se ferrar.

Deitei novamente.

Meu pai tinha pedido para eu tomar cuidado.

E eu sabia que precisava.

Porque, por trás das brincadeiras, das flores e dos olhares, havia uma coisa que eu ainda não conhecia.

O mundo de Tiago.

Eu estava começando a entender que talvez aquele homem não fosse apenas mais um cara bonito querendo chamar minha atenção.

Ele carregava um mundo inteiro nas costas.

E eu tinha a sensação de que, se continuasse chegando perto...

Uma hora esse mundo ia bater na minha porta.

E eu não fazia a menor ideia do que aconteceria quando isso acontecesse.

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