LOGINEu estava cansada.Muito cansada.Mas, ao mesmo tempo, parecia que minha cabeça tinha tomado umas três latas de energético.Eu não conseguia parar de pensar na noite.Na varanda.Na conversa com Tiago.No jeito que ele tinha falado do pai.No sanduíche.No sorriso.No maldito sorriso.— Para, Penélope — murmurei para mim mesma enquanto abria a porta de casa. — Você tá ficando doida.Entrei devagar, tentando não fazer barulho.Fechei a porta com o maior cuidado do mundo.Dei dois passos.Três.E, quando virei para entrar no corredor...— Bom dia.Eu quase pulei no teto.— CARALHO!Levei a mão ao peito.Minha mãe estava sentada na cadeira da cozinha, com os braços cruzados e uma expressão de quem estava esperando aquele momento fazia horas.— Mãe!Ela segurou o riso.— Que foi?— Você quer me matar?— Eu só falei bom dia.— Bom dia nada! Você ficou aí escondida igual uma assombração!Ela começou a rir.— Assombração?— É! Eu quase tive um negócio aqui.Minha mãe balançou a cabeça.— Voc
Quando Luciana finalmente decidiu ir embora, eu já estava quase dormindo em pé.— Eu vou nessa, Penélope — ela disse, ajeitando a bolsa no ombro. — Amanhã a gente se fala.— Vai com Deus.— Você também. E não faz merda.Olhei para ela, indignada.— Eu? Fazer merda?Gabriel, que estava ao nosso lado, soltou uma risada.— Você tem um histórico.— Cala a boca, Playboy.Ele levantou as mãos.— Tô quieto.Luciana riu.— Boa noite, vocês dois.— Boa noite — respondi.Gabriel também se despediu e tomou o caminho dele.Fiquei alguns segundos parada, olhando os dois se afastarem pela rua.O baile já tinha acabado de vez.As caixas de som estavam silenciosas. Algumas luzes ainda permaneciam acesas, iluminando a rua quase vazia. O chão estava cheio de marcas da noite, copos espalhados aqui e ali, e o cheiro de comida, bebida e fumaça ainda pairava no ar.O morro parecia outro depois que a música acabava.Mais quieto.Mais íntimo.Eu respirei fundo e comecei a caminhar para casa.Meu corpo estava
O baile foi diminuindo aos poucos.A música, que antes fazia o chão parecer tremer, começou a baixar. As luzes continuavam piscando, mas já tinha menos gente dançando. Alguns casais foram embora de mãos dadas, outros grupos ficaram espalhados pelas ruas, conversando, rindo e comentando tudo o que tinha acontecido durante a noite.Eu estava cansada pra caralho.Mas também não queria ir embora.Sentada num muro baixo perto da entrada do baile, eu tirei uma das botas e massageei o pé.— Nunca mais uso esse negócio — resmunguei.Luciana olhou para mim e começou a rir.— Você fala isso toda vez.— Porque toda vez eu sou idiota e uso de novo.Gabriel, que estava sentado do outro lado, olhou para minhas botas.— Mas ficou bonito.Levantei a cabeça devagar.— O quê?Ele apontou para meus pés.— A bota. Ficou bonita.— Ah.Coloquei a bota de volta.— Achei que você estivesse falando de mim.Ele arregalou os olhos.Luciana quase caiu do muro de tanto rir.— Meu Deus, Penélope! — ela conseguiu d
Sábado chegou.E, se tinha uma coisa que fazia o morro mudar de cara, era noite de baile.Desde o começo da tarde já dava para perceber que alguma coisa estava acontecendo.As casas ficavam com as portas abertas.As mulheres começavam a se arrumar.Os homens apareciam com camisa nova, perfume forte e aquele cabelo cuidadosamente ajeitado.As crianças ficavam correndo pelas vielas enquanto os adultos gritavam de um lado para o outro.E, quando a noite começava a cair, o morro inteiro parecia ganhar outra energia.Eu estava sentada na minha cama quando ouvi três batidas na porta.— Penélope!— O quê?A porta abriu sem esperar resposta.Luciana entrou.E entrou como se fosse dona da casa.— Você vai comigo.Olhei para ela.— Vou aonde?— Ao baile.— Não vou.— Vai sim.— Não vou.— Vai.— Luciana, eu falei que não vou.Ela colocou as mãos na cintura.— Por quê?— Porque não quero.— Mentira.— Como é que você sabe?— Porque você está sentada na cama desde cedo olhando para o teto.— Eu e
Virei as costas para Tiago e comecei a descer a rua.Não olhei para trás.Nem uma vez.Bom...Talvez uma.Só para ter certeza de que ele não estava vindo atrás de mim.E não estava.O homem continuava parado lá em cima, me olhando.Balancei a cabeça.— Convencido pra caralho...Continuei descendo.O vento batia no meu rosto, levantando algumas mechas do meu cabelo e fazendo minhas tranças balançarem nas costas.Eu ainda estava pensando na conversa.“Eu gostei de você.”Olhei para o chão.“Quero descobrir quem você é.”Revirei os olhos.— Ah, Tiago, vai arrumar o que fazer.Falei sozinha.De novo.Eu estava começando a falar sozinha demais.Aquilo não era bom sinal.Desci mais alguns metros e comecei a ouvir risadas.Olhei para frente.Três moleques estavam sentados na calçada.Os três deviam ter uns oito ou nove anos.Um deles me viu.Cutucou o outro.Os três começaram a rir.Eu parei.— Que foi?Silêncio.Um deles colocou a mão na boca para esconder o sorriso.— Nada, não.— Então po
No dia seguinte, eu descobri uma coisa que todo mundo que mora em morro aprende cedo:segredo não existe.Você pode contar uma coisa dentro do seu quarto, com a porta fechada, falando baixinho e olhando para os quatro cantos para ter certeza de que ninguém está ouvindo.Não adianta.No dia seguinte, a rua inteira sabe.E, quando eu saí de casa naquela manhã, descobri que aparentemente eu tinha virado o assunto favorito do morro.O sol ainda nem estava forte quando abri a porta.O céu estava claro, mas aquele ventinho fresco da manhã ainda passava pelas vielas, balançando as roupas penduradas nos varais.Minha mãe estava na cozinha.O cheiro de café recém-passado vinha de dentro de casa.Meu pai já tinha saído para trabalhar.Eu ia passar direto quando ouvi:— Bom dia, Penélope.Parei.Olhei para minha mãe.— Bom dia.— Dormiu bem?— Dormi.Ela me olhou por cima da xícara.— Sonhou com flores?Fechei os olhos.— Mãe...Ela tentou esconder o sorriso.— O quê?— Não começa.— Eu não fale







