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Capítulo 8

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-27 02:15:30

Sábado chegou.

E, se tinha uma coisa que fazia o morro mudar de cara, era noite de baile.

Desde o começo da tarde já dava para perceber que alguma coisa estava acontecendo.

As casas ficavam com as portas abertas.

As mulheres começavam a se arrumar.

Os homens apareciam com camisa nova, perfume forte e aquele cabelo cuidadosamente ajeitado.

As crianças ficavam correndo pelas vielas enquanto os adultos gritavam de um lado para o outro.

E, quando a noite começava a cair, o morro inteiro parecia ganhar outra energia.

Eu estava sentada na minha cama quando ouvi três batidas na porta.

— Penélope!

— O quê?

A porta abriu sem esperar resposta.

Luciana entrou.

E entrou como se fosse dona da casa.

— Você vai comigo.

Olhei para ela.

— Vou aonde?

— Ao baile.

— Não vou.

— Vai sim.

— Não vou.

— Vai.

— Luciana, eu falei que não vou.

Ela colocou as mãos na cintura.

— Por quê?

— Porque não quero.

— Mentira.

— Como é que você sabe?

— Porque você está sentada na cama desde cedo olhando para o teto.

— Eu estou descansando.

— Você está entediada.

— Não estou.

Ela se aproximou e puxou meu braço.

— Levanta.

— Me solta.

— Vamos nos arrumar.

— Eu não vou.

— Penélope.

— Luciana.

Ela ficou me encarando.

Eu encarei de volta.

Cinco segundos.

Dez.

Ela cruzou os braços.

— Você vai ficar aqui pensando no Tiago.

— Não vou.

— Vai.

— Não vou.

— Vai sim.

Joguei o travesseiro nela.

— Vai tomar no cu!

Ela começou a rir.

— Acertei!

— Você é uma praga.

— E você vai comigo.

Acabei levantando.

— Tá bom, porra.

Ela comemorou.

— Sabia!

— Mas se for uma merda, a culpa é sua.

— Vai ser perfeito.

— Você sempre fala isso.

— Porque eu sou otimista.

— Você é doida.

— Também.

Uma hora depois, eu estava na frente do espelho.

Olhei meu reflexo.

Calça preta.

Justa na medida certa.

Coturno preto de salto.

Top preto deixando a barriga à mostra.

Uma corrente fina presa na cintura, brilhando quando eu me mexia.

Meu cabelo estava preso nas minhas tranças, algumas caindo pelos ombros.

Passei um pouco de brilho nos lábios.

Olhei novamente para o espelho.

— Tá bom.

Luciana apareceu atrás de mim.

— Tá maravilhosa.

— Eu sei.

Ela riu.

— Modesta.

— Não vou mentir.

Luciana também estava linda.

Shortinho curto, blusinha curta, cabelo arrumado, maquiagem caprichada e aquele jeito dela de quem parecia ter nascido pronta para uma festa.

Ela se olhou no espelho.

— Hoje eu vou causar.

— Você fala isso toda vez.

— E toda vez eu causo.

— Verdade.

Ela passou o braço pelo meu.

— Vamos?

Peguei minha bolsa.

— Vamos.

Saímos.

O ar da noite estava agradável.

O céu escuro já tinha tomado conta do morro e as luzes das casas apareciam espalhadas pelas vielas.

Quanto mais nos aproximávamos do baile, mais o som aumentava.

O grave fazia o chão parecer vibrar.

As pessoas iam descendo e subindo.

Mulheres arrumadas.

Homens perfumados.

Grupos de amigos.

Casais.

Todo mundo rindo.

Todo mundo querendo aproveitar a noite.

Assim que chegamos, Luciana abriu um sorriso enorme.

— Eu falei que você não ia se arrepender.

— Ainda não aconteceu nada.

— Vai acontecer.

— Você é muito fofoqueira.

Entramos.

A música estava alta.

As luzes coloridas passavam pelo espaço.

O cheiro de bebida, perfume, comida e fumaça se misturava no ar.

Eu sorri.

Era bom.

Era leve.

Por algumas horas, eu podia esquecer problemas.

Esquecer o trabalho.

Esquecer fofoca.

Esquecer Tiago.

Principalmente Tiago.

— Penélope!

Uma amiga chamou.

Fui até ela.

Começamos a conversar.

Luciana já estava dançando.

Eu comecei a rir.

— Essa mulher não tem jeito.

Foi quando ouvi uma voz conhecida.

— E aí, Penélope?

Virei.

Fiquei alguns segundos olhando.

— Não acredito.

Era ele.

O filho da Dona Célia.

O tal Gabriel.

Só que, naquela noite, ele estava completamente diferente.

Camisa aberta por cima de uma camiseta, corrente no pescoço e aquele sorriso de quem achava que estava arrasando.

Apontei para ele.

— Você?

Ele riu.

— Eu.

— O que você está fazendo aqui, Playboy?

— Fui convidado.

— Quem convidou?

— Um amigo.

— Sei.

Ele levantou as mãos.

— É verdade.

— Você sabe que isso aqui não é lugar para gente rica, né?

— Eu não sou rico.

— Sua mãe tem casa com três quartos e empregada.

— A empregada é sua mãe.

Fiquei olhando para ele.

— Você está aprendendo a responder.

Ele riu.

— Estou evoluindo.

— Milagre.

Luciana chegou perto.

— Quem é?

— O filho da Dona Célia.

Gabriel fez uma cara ofendida.

— Gabriel.

— Para mim você é Playboy.

— Já percebi.

Começamos a rir.

Ele ficou com a gente.

E, depois de alguns minutos, eu já estava me divertindo.

Gabriel dançava mal.

Muito mal.

Olhei para ele.

— Quem te ensinou a dançar?

— Ninguém.

— Percebi.

— Você dança bem?

— Melhor que você.

— Duvido.

— Quer ver?

Comecei a dançar.

Ele tentou acompanhar.

Luciana quase caiu de tanto rir.

— Gabriel, você parece um robô!

— Vai tomar no cu!

— Olha o Playboy aprendendo palavrão — falei.

Ele riu.

Depois de um tempo, Gabriel se afastou um pouco.

Quando voltou, estava com um cigarro de maconha na mão.

Ele tentou fumar.

Tossiu.

Tossiu de novo.

Eu comecei a rir.

— Não acredito nisso.

Ele ficou vermelho.

— O quê?

— Você não sabe fumar.

— Sei sim.

— Não sabe.

Ele tentou novamente.

Começou a tossir ainda mais.

— Dá aqui.

Peguei da mão dele.

— Você vai se matar antes de aprender.

— Me ensina.

— Eu já ensinei.

— Então ensina de novo.

— Você é muito lerdo.

Devolvi e dei dois tapinhas nas costas dele.

— Respira, Playboy.

— Eu estou respirando.

— Então para de tossir.

Ele começou a rir.

Eu também.

Por alguns minutos, parecia que não existia nada além daquela festa.

Música.

Dança.

Amigos.

Risadas.

Eu estava feliz.

Sem perceber que, do outro lado do espaço, alguém observava tudo.

Tiago.

Ele estava em uma área mais reservada, acompanhado por alguns homens.

Não falava muito.

Apenas observava.

E, naquela noite, os olhos dele estavam quase sempre em mim.

Ele me viu rindo.

Me viu dançando.

Me viu provocando Gabriel.

E também viu quando Gabriel se aproximava demais.

Um dos homens ao lado dele percebeu.

— Quem é aquele?

Tiago continuou olhando.

— Não sei.

— Quer que eu descubra?

Tiago assentiu.

— Descobre.

O homem saiu.

Eu estava conversando com Luciana quando percebi dois caras vindo na nossa direção.

Eles pararam perto de Gabriel.

— Qual é o seu nome?

Gabriel franziu a testa.

— Gabriel.

— Gabriel o quê?

— Gabriel.

— O que você está fazendo aqui?

Eu entrei no meio.

— O que é?

O homem me olhou.

— Estamos conversando com ele.

— E eu estou perguntando por quê.

— É assunto nosso.

— Então escolhe outro lugar para conversar.

Gabriel tentou falar:

— Penélope...

— Fica quieto, Playboy.

O homem deu um passo na minha direção.

— Você não sabe com quem está falando.

Cruzei os braços.

— E você sabe com quem está falando?

Ele ficou em silêncio.

— Então pronto.

O outro homem tentou intervir.

— É só uma pergunta.

— Pergunta pra ele.

Apontei para Gabriel.

— Mas não precisa ficar cercando o garoto.

Gabriel olhou para mim.

— Eu consigo me defender.

— Eu sei.

— Então...

— Mas você é meio lesado.

Ele abriu a boca.

— Ei!

Comecei a rir.

Até os homens seguraram o sorriso.

Eu olhei novamente para eles.

— Pronto. Já perguntaram. Já sabem o nome. Agora vão embora.

Um deles ainda ficou parado.

— Penélope...

— O quê?

Ele olhou para o outro.

Depois se afastou.

Eu acompanhei os dois com os olhos.

Gabriel respirou aliviado.

— Você me salvou.

— Não salvei nada.

— Salvou.

— Eu só estava defendendo meu entretenimento.

— Seu entretenimento?

— Claro. Quem mais vai me fazer rir dançando daquele jeito?

Ele começou a rir.

— Você é impossível.

— Eu sei.

Do outro lado do salão, Tiago assistia à cena.

Um sorriso apareceu no rosto dele.

Um dos homens voltou e se aproximou.

— O nome dele é Gabriel. Filho da Dona Célia.

Tiago assentiu.

— Eu sabia que conhecia.

— E ela estava defendendo ele.

Tiago olhou novamente para Penélope.

Ela estava rindo.

Dançando.

Provocando Gabriel.

Completamente à vontade.

Ele balançou a cabeça, divertido.

— Ela não tem jeito.

O homem sorriu.

— Quer que eu tire ele de perto dela?

Tiago olhou para ele.

— Não.

— Não?

— Deixa.

Ele continuou olhando.

— Ela sabe se defender.

E voltou a observar.

Na pista, eu nem fazia ideia de que ele estava me olhando.

Eu só estava dançando.

Rindo.

Curtindo a noite.

E, quando Gabriel tentou imitar um passo meu e quase tropeçou, eu segurei o braço dele.

— Caralho, Playboy!

Ele começou a rir.

— Eu estou tentando!

— Então tenta sem cair!

Luciana se aproximou.

— Penélope, você está se divertindo.

Olhei ao redor.

As luzes.

A música.

As pessoas.

Meus amigos.

Gabriel rindo.

Luciana dançando.

Sorri.

— Estou.

E, naquela noite, pela primeira vez em alguns dias, eu não pensei no que o morro estava falando.

Não pensei nas flores.

Não pensei no que meu pai tinha dito.

Não pensei no homem que parecia cada vez mais interessado em mim.

Eu só queria dançar.

Só queria rir.

Só queria aproveitar.

Sem saber que, do outro lado do baile, Tiago continuava olhando.

E sorrindo.

Como se estivesse começando a descobrir que, quanto mais conhecia Penélope...

Mais difícil ficava parar de querer conhecê-la.

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