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Capítulo 6

Author: Luana
last update publish date: 2026-09-26 01:55:18

No dia seguinte, eu descobri uma coisa que todo mundo que mora em morro aprende cedo:

segredo não existe.

Você pode contar uma coisa dentro do seu quarto, com a porta fechada, falando baixinho e olhando para os quatro cantos para ter certeza de que ninguém está ouvindo.

Não adianta.

No dia seguinte, a rua inteira sabe.

E, quando eu saí de casa naquela manhã, descobri que aparentemente eu tinha virado o assunto favorito do morro.

O sol ainda nem estava forte quando abri a porta.

O céu estava claro, mas aquele ventinho fresco da manhã ainda passava pelas vielas, balançando as roupas penduradas nos varais.

Minha mãe estava na cozinha.

O cheiro de café recém-passado vinha de dentro de casa.

Meu pai já tinha saído para trabalhar.

Eu ia passar direto quando ouvi:

— Bom dia, Penélope.

Parei.

Olhei para minha mãe.

— Bom dia.

— Dormiu bem?

— Dormi.

Ela me olhou por cima da xícara.

— Sonhou com flores?

Fechei os olhos.

— Mãe...

Ela tentou esconder o sorriso.

— O quê?

— Não começa.

— Eu não falei nada.

— Falou sim.

— Só perguntei se você dormiu bem.

— Com essa cara aí, não perguntou só isso.

Ela começou a rir.

— Sua língua é igualzinha à do seu pai.

— Coitado do meu pai.

Peguei um pedaço de pão.

Minha mãe continuou:

— As flores eram bonitas.

Parei de mastigar.

— Mãe, pelo amor de Deus.

— Eu só estou dizendo.

— Eu devolvi.

— Eu sei.

— Então acabou.

— Acabou?

— Acabou.

Ela tomou um gole de café.

— Porque ontem à noite tinha uma mulher aqui na rua dizendo que você vai casar com ele.

Engasguei.

— O QUÊ?

Minha mãe começou a rir.

— Eu sabia que você ia reagir assim.

— Quem falou isso?

— Não interessa.

— Interessa sim!

— Penélope, come seu pão.

— Mãe, quem falou?

Ela apontou para a porta.

— Se você sair, vai descobrir.

Fiquei olhando para ela.

— Esse povo não tem louça para lavar, não?

— Tem.

— Então manda lavar.

Minha mãe riu.

— Vai se arrumar.

— Eu vou é descobrir quem está espalhando essa merda.

— Não arruma confusão.

— Eu nunca arrumo confusão.

Minha mãe levantou uma sobrancelha.

— Você quer mesmo que eu responda?

— Não.

Saí antes que ela começasse a rir de novo.

Assim que coloquei o pé na rua, senti.

Os olhares.

Uma mulher estava varrendo a calçada.

Parou de varrer quando me viu.

Duas meninas estavam sentadas no degrau de uma casa.

Uma cutucou a outra.

Um homem passou de moto e olhou para mim.

Eu estreitei os olhos.

— Que foi?

Ninguém respondeu.

Continuei andando.

Mais alguns metros.

Outra mulher me cumprimentou:

— Bom dia, Penélope.

— Bom dia.

Ela esperou eu passar.

Depois ouvi baixinho:

— É ela.

Parei.

Virei.

— Sou eu mesma. Algum problema?

As duas mulheres se olharam.

— Não.

— Então parem de falar meu nome como se eu tivesse morrido.

Continuei andando.

— Essa menina é uma figura — ouvi alguém dizer atrás de mim.

— Figura é a tua mãe!

Nem olhei para trás.

Já estava ficando irritada.

Foi quando Luciana apareceu descendo a viela.

Ela vinha sorrindo.

E eu conhecia aquele sorriso.

Aquele sorriso era perigoso.

— Nem começa — falei antes que ela chegasse.

Ela parou na minha frente.

— Bom dia, Barbie.

— Bom dia é a cabeça da tua mãe.

— Dormiu bem?

— Dormi.

— Sonhou com o quê?

— Luciana...

Ela começou a rir.

— Você virou celebridade.

— Eu vou te bater.

— Todo mundo está falando.

— Eu percebi.

— Tem gente dizendo que o Tiago está apaixonado por você.

Revirei os olhos.

— Que gente desocupada.

— Tem gente dizendo que vocês vão casar.

— Quem falou isso?

— Metade do morro.

— Eu vou matar a outra metade.

Luciana gargalhou.

— Você devia agradecer.

— Agradecer o quê?

— Agora ninguém mexe com você.

— Eu nunca precisei de homem para ninguém mexer comigo.

— Eu sei.

Ela passou o braço pelo meu.

— Mas vamos admitir que é interessante.

— Não é.

— Ele é bonito.

— E daí?

— Rico.

— Problema dele.

— Poderoso.

— Continua sendo problema dele.

— E está interessado em você.

Parei.

Olhei para ela.

— Isso é o único problema que eu estou começando a achar meu.

Ela caiu na gargalhada.

— Você gostou dele!

— Eu não gostei de ninguém.

— Gostou.

— Não gostei.

— Gostou.

— Luciana...

— Tá bom, tá bom.

Voltamos a andar.

Mas ela continuava sorrindo.

— Você vai ver. Ainda vai se apaixonar.

Parei novamente.

— Eu?

— Você.

— Nunca.

— Nunca?

— Nunca.

— Por quê?

Olhei para ela.

— Porque eu tenho amor próprio.

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

— Tem sim.

— Você fala isso porque ainda não se apaixonou.

— E não vou.

Ela sorriu.

— Vamos ver.

Continuei andando.

Não respondi.

Porque, pela primeira vez, aquela palavra ficou presa na minha cabeça.

Apaixonar.

Eu?

Não.

Nem ferrando.

Eu gostava da minha liberdade.

Gostava de sair quando queria.

Gostava de falar o que pensava.

Gostava de não dar satisfação.

Gostava de acordar e decidir meu próprio caminho.

Eu não precisava de homem.

Muito menos de um homem como Tiago.

O problema era que, quando pensei nele, lembrei daquele sorriso.

E fiquei irritada comigo mesma.

— Merda.

— O que foi? — Luciana perguntou.

— Nada.

— Você pensou nele.

— Não pensei.

— Pensou.

— Cala a boca.

Ela riu.

Mais tarde, eu estava sentada na mureta perto de uma das vielas, observando o movimento lá embaixo.

O calor já tinha aumentado.

O vento vinha mais quente agora.

Uma música tocava ao longe.

Algumas crianças brincavam na rua.

Eu gostava daquele lugar.

Apesar de tudo.

Ali eu sabia quem eu era.

Sabia de onde tinha vindo.

Sabia o que queria.

Ou pelo menos achava que sabia.

Até ouvir passos atrás de mim.

— Penélope.

Reconheci a voz.

Meu corpo ficou imóvel por um segundo.

Virei devagar.

Era um dos homens de Tiago.

— O que você quer?

— Ele mandou perguntar se você pode ir até lá.

Soltei uma risada.

— Ele mandou perguntar?

— Mandou.

— E por que ele mesmo não veio?

O homem ficou sem resposta.

— Não sei.

— Então fala para ele que eu estou ocupada.

— Fazendo o quê?

Olhei ao redor.

— Pensando.

Ele segurou o sorriso.

— Vou falar.

— Fala mesmo.

Ele saiu.

Luciana apareceu do outro lado da rua.

— Quem era?

— Um dos homens dele.

— O que queria?

— Me levar para lá.

Ela arregalou os olhos.

— E você vai?

— Claro que não.

— Por quê?

— Porque ele mandou.

— E?

— Eu não gosto que mandem em mim.

Luciana sorriu.

— Você gosta dele.

— Para de falar isso.

— Você gosta.

— Não gosto.

— Então por que ficou vermelha?

Passei a mão no rosto.

— Está calor.

Ela olhou para o céu.

— Está fazendo vinte e cinco graus.

— E daí?

— Você está vermelha.

— Luciana...

Ela começou a rir.

Eu peguei uma pedrinha do chão e ameacei jogar nela.

— Corre.

Ela saiu correndo.

— Maluca!

— Volta aqui!

Nós duas começamos a rir.

E foi justamente naquele momento que eu ouvi uma voz atrás de mim.

— Você sempre foge quando eu mando alguém te chamar?

Parei.

O sorriso desapareceu do meu rosto.

Virei.

Tiago estava parado alguns metros atrás.

Sozinho.

Sem as mulheres.

Sem aquele monte de gente em volta.

Apenas ele.

Camisa preta.

Calça escura.

As mãos nos bolsos.

O olhar preso em mim.

Meu coração deu uma pequena acelerada.

Ignorei.

— Eu não fujo.

— Não?

— Não.

— Então por que não foi?

— Porque eu não quis.

Ele sorriu.

— Eu gosto dessa resposta.

— Ótimo.

— Posso sentar?

Olhei para a mureta.

Depois para ele.

— A mureta não é minha.

Tiago se aproximou e sentou ao meu lado.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

O vento passou entre nós.

Eu olhei para frente.

Ele também.

— O morro inteiro está falando — ele disse.

— Eu sei.

— Estão dizendo que você vai ser minha mulher.

Virei o rosto para ele.

— E você está deixando?

— Eu não controlo o que as pessoas falam.

— Então manda pararem.

— Por quê?

— Porque é mentira.

Ele me olhou.

— É?

— É.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele ficou em silêncio.

Depois perguntou:

— E se um dia não for?

Fiquei olhando para ele.

Por um instante, não encontrei resposta.

Então me levantei.

— Você está ficando convencido demais.

Ele riu.

— Você sempre foge quando não sabe o que responder?

— Eu não fujo.

— Está indo embora.

— Porque eu quero.

Dei dois passos.

Ele falou novamente:

— Penélope.

Parei.

— O quê?

— Eu não mandei flores para comprar você.

Olhei para ele.

— Então mandou por quê?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Porque eu quis te agradar.

Aquilo me pegou desprevenida.

Não era a resposta que eu esperava.

Fiquei olhando para ele.

Tiago levantou.

— E porque eu gostei de você.

Meu coração acelerou.

Dessa vez, não consegui fingir que não.

Mas não deixei que ele percebesse.

— Você nem me conhece.

— Posso conhecer.

— Talvez eu seja uma pessoa insuportável.

Ele sorriu.

— Eu já percebi.

— Talvez eu fale demais.

— Também percebi.

— Talvez eu seja explosiva.

— Essa foi a primeira coisa que percebi.

Cruzei os braços.

— Então por que continua?

Ele deu um passo na minha direção.

— Porque eu gosto.

Fiquei em silêncio.

O vento passou novamente.

Dessa vez, parecia mais forte.

Senti algumas mechas do meu cabelo baterem no rosto.

Afastei-as devagar.

Tiago continuava olhando para mim.

E eu odiei o fato de não conseguir desviar os olhos.

— Eu não sou fácil — falei.

— Eu sei.

— Não vou fazer tudo que você quiser.

— Eu não pedi isso.

— Não vou aceitar homem mandando em mim.

— Eu não quero mandar em você.

Aquela resposta me surpreendeu.

Ele se afastou um pouco.

— Eu só quero descobrir quem você é.

Fiquei olhando para ele.

Por algum motivo, aquela frase mexeu comigo.

Mas eu não ia deixar.

— Então vai descobrir sozinho.

Virei e comecei a andar.

Dessa vez, ele não me chamou.

Não veio atrás.

Apenas ficou olhando.

E talvez tenha sido justamente isso que me deixou pensando nele pelo resto do dia.

Eu tive a sensação de que Tiago não estava tentando me dominar.

Ele estava tentando me conhecer.

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