LOGINMILENA CHRISTIAN
Mal cruzamos a soleira, ele me puxou com urgência. A boca encontrou a minha num beijo impaciente, e antes que eu perdesse o fôlego, afastei-me, ofegante, desnorteada.
— Pode me explicar o que raios está se passando com você? — Ele perguntou de forma tensa, desesperada. Segurou o meu pulso, forçando a nossa proximidade outra vez. O calor do corpo dele contrastava com o frio que eu sentia por dentro. — Estou preocupado, Milena.
Soltei-me. Era a segunda vez em minutos, e mesmo assim não parecia suficiente. Estendi o envelope na sua direção. O gesto foi simples, mas carregado de tudo o que eu ainda não sabia como dizer.
Ele pegou o envelope confuso e desdobrou o documento com o cuidado de quem lida com algo frágil. Leu devagar, sem alterar a expressão. Como sempre, Enrique era mestre em esconder as rachaduras.
— Mila, eu... — começou, arranhando a garganta antes de continuar. — Eu nem sei o que dizer, para ser sincero.
Foi a partir daí que comecei, repentinamente, a me desesperar, aproximei-me, tentando tocá-lo, um gesto, só isso, mas ele recuou como se o meu toque queimasse a sua pele.
— Amo a minha esposa, Milena — disse com firmeza e entregou-me o papel de volta. — E nós temos uma família feliz. Eu não posso assumir essa gravidez. Eu... eu lamento.
A dor não foi nova, mas ainda assim foi profunda, como todas as dores que se repetem sem trégua.
Amo a minha esposa.
A frase ecoou como uma sentença, como um selo a ferro quente. Era aquilo que ele tinha a oferecer-me, e era isso que aparentemente eu me considerava digna de receber: uma segunda rejeição.
— Enrique, eu não fiz esse filho sozinha — afirmei, a voz embargada, e a minha mão começando a tremer.
— Eu sei! Eu sei, maldição! — gritou, como se a minha verdade o ferisse. Virei as costas, o peso da discussão me esmagando as vértebras. — Milena, um dia você vai ter que me perdoar — disse com exasperação. — Vai ter que entender a minha posição, eu amo-te, mas tenho uma reputação, uma família já feita, você sabe disso.
Fiquei ali, estática, observando através da janela algumas árvores caducas que deixavam cair folhas douradas como quem se despede com elegância. Outras resistiam, ainda plenas. As estações têm os seus próprios ritmos. O nosso, aparentemente, acabou.
— Por favor, vá embora — murmurei, num tom que não era raiva nem desespero, apenas... fim. — E de preferência, não volte nunca mais.
Ele não respondeu. O silêncio durou o tempo exato entre a minha palavra e o som da porta se fechando atrás de si.
E eu permaneci ali. Sozinha.
Você disse que sempre me protegeria, mas esqueceu de me proteger de si mesmo, Enrique.
◆◆◆◆◆◆◆
A minha mãe morreu muito cedo e desde então o meu pai não colocou nenhuma outra mulher na nossa vida, ao menos, não a ponto de gerar outro filho que pudesse fazer-me companhia. E eu tive uma boa infância, não posso negar, mas sempre sonhei em ter uma família grande, e isso estendeu-se para o meu casamento mais tarde, sempre desejando ter filhos de Enrique.
No entanto, essa felicidade foi rapidamente ofuscada, já que ele preferia e pedia para que eu focasse primeiro na minha carreira e ele na dele.
Agora, meu ex-marido, aquele com quem compartilhei os dias mais felizes e os meus segredos mais íntimos, nega a paternidade do nosso filho. As suas palavras atingiram o meu coração e quebrando-o mais do que nos anos anteriores. Como pode alguém que um dia jurou amor eterno alegar que este ser dentro de mim não pode ter nenhuma ligação com ele?
Humilhante, tudo isso é humilhante.
Sinto-me perdida, abandonada e vulnerável, afinal, quem sou eu agora? Uma amante, uma mulher grávida, mãe solteira e ainda sem o apoio do homem que uma vez foi seu porto seguro.
É nesses momentos que outras pessoas procuram encontrar refúgio nos braços da sua família, porém, para piorar a minha humilhação, ninguém sabe que eu me derretia nos braços de Enrique, vez e outra depois do nosso divórcio, mesmo depois dele ter casado-se e dessa relação ter gerado um fruto amado por toda a sua família.
Ai meu Deus, o que porra fiz comigo?
O meu pai, como ele vai reagir a isso? É a sua decepção que estilhaçará o meu coração mais do que ele está agora. Merda, Elisabeth vai despedir-me, tenho certeza absoluta.
Eu sei que Elisabeth me adora, ela nunca demonstrou o oposto, mas conhecendo-a como a conheço, sei que fará de tudo para que o casamento do seu amado filho não ruine, não por minha causa.
Chamei o táxi sem pensar duas vezes.
Nem respirei fundo. Nem hesitei. Só... fiz.O telefone ainda tremia na palma da mão quando apertei "confirmar corrida" e, minutos depois, o carro branco parou em frente ao prédio com as luzes de emergência piscando como olhos indecisos.
O motorista não disse nada. Graças a Deus.
Vestia uma jaqueta preta desbotada, tinha os cabelos grisalhos e a barba por fazer. Um homem de rosto cansado, que parecia ter visto muita coisa — e mesmo assim não esperava saber nada de mim.Entrei no carro como se não estivesse indo a lugar algum. Ou melhor, como se qualquer lugar longe o suficiente de Enrique já fosse suficiente.
— Para onde? — perguntou.
— Rua nove, número cento e dezoito. Whitestone... Wellness Clinic. — A pausa foi involuntária, como se o nome arranhasse a garganta ao sair. — Por favor.
A chuva ainda não havia começado, mas o céu já escurecia com uma rapidez desesperada. Nuvens de chumbo se agrupavam no horizonte como um exército em marcha lenta. A rádio tocava algo suave, quase inaudível, uma música em francês que eu não reconhecia, mas que me pareceu tragicamente adequada. Aquelas vozes femininas distantes, sussurradas, pareciam rir da minha tentativa de parecer determinada.
"Amo a minha esposa."
A frase ainda reverberava no meu crânio como uma pedra que não para de quicar.
MILENA CHRISTIANO trânsito de Manhattan parece sempre durar uma eternidade, ou então eu estava muito ansiosa, porque, após muito tempo, eu tinha absoluta certeza do que precisava fazer, e no caso, seria uma coisa certa: pedir desculpas!Só de pensar nessas duas palavras, senti vontade de dar meia-volta no carro. Eu nunca havia sido boa em admitir que estava errada, não que eu preferisse durante horas, inventar justificativas absurdas e, no fim, fingir que o assunto simplesmente deixara de existir, nada disso. Todavia, em geral, eu nunca sabia muito bem o que fazer.Claro, a Milena Christian não sabe agir como uma adulta e por isso se mente em situações patéticas, tudo porque é covarde — pensei.Norman havia destruído completamente a imagem que eu insistia em alimentar de Edward, o que era irritante, porque significava que eu também havia sido injusta.Quando finalmente estacionei diante do edifício luxuoso onde ele morava, desliguei o carro e permaneci alguns segundos segurando o vol
MILENA CHRISTIAN— O Edward provavelmente não gostaria que eu comentasse isso, porque ele detesta parecer… excessivamente meloso, mas penso que deveria saber. — Ele deu uma pequena risada, como se estivesse se lembrando de alguma discussão antiga. — Este quarto já devia estar completamente pronto, na verdade.— Sim… e o que aconteceu? — Franzi o cenho.— O projeto estava fechado há quase duas semanas. Os móveis já haviam sido encomendados, as tintas escolhidas, até os fornecedores estavam contratados para a montagem. A nossa intenção era deixar tudo finalizado antes de você vir dar a olhada final.Voltei a olhar o cômodo, ligeiramente confusa.— Então por que não fizeram? — E o amigo do Edward soltou um suspiro divertido.— Porque o Edward apareceu aqui logo no dia seguinte e cancelou tudo — o meu olhar voltou imediatamente para o Norman e ele continuou. — Mandou suspender qualquer intervenção neste quarto. Perguntei se havia algum problema com o orçamento ou se ele pretendia alterar o
MILENA CHRISTIAN— “Bom dia, Edward, estou indo agora para a obra”.O celular vibrou na minha mão enquanto eu ainda estava no carro com o motor ligado e o GPS já programado, afastei-me ligeiramente para abrir a notificação e ver que era a resposta de Edward, a primeira em uma semana.“Ok.”Apenas isso, um “OK” seco, sem vírgulas, sem emojis e nenhum toque pessoal que todo mundo costuma colocar nas mensagens. Era como se ele estivesse respondendo por obrigação e a conversa fosse um item a ser marcado numa lista de tarefas que ele havia enrolado já há tempo. Olhei para a mensagem por um longo momento, os dedos apertando o volante. Bem, não era o que eu esperava. Edward estava distante, e eu não sabia como chegar até ele, começava a entender o sentimento dele para comigo. Mas não era a hora de focar nisso, primeiro, a obra.Liguei o carro e saí do estacionamento, deixando o bairro familiar para trás. O trajeto até a nova casa levaria uns quarenta minutos, tempo suficiente para eu pensa
MILENA CHRISTIANA semana inteira havia sido um exercício de paciência, e não exatamente da minha parte.As palavras de Edward ainda ecoavam na minha cabeça como uma música que eu não conseguia parar de ouvir, repetindo-se em loop nos momentos mais inoportunos: no meio de uma reunião, enquanto eu tomava banho, quando tentava dormir e o silêncio da casa se tornava ensurdecedor, ainda mais porque a minha TV estava embalada e eu não conseguia ver televisão de jeito nenhum, ou até mesmo, enquanto eu estivesse comendo despreocupadamente.“ — Sim, se trata. Serei o seu marido por um ano e parece que está sempre procurando um jeito de não fazer parte disso — falou um pouco mais alto, mas logo em seguida fechou os olhos e respirou fundo antes de voltar a falar: — Muito mais dos meus interesses, eu quero ajudá-la, mas você não permite, só vê más intenções em todos os meus atos.”“ — Eu não faço isso…” eu havia dito, fraca, defensiva.“ — Sabes que o faz, e eu acho injusto porque não sou o Enri
MILENA CHRISTIAN— Ah, provavelmente você tem razão. Ainda mais, tenho três anos de férias acumuladas, acho que está mais do que na hora de finalmente tirar elas de uma vez.— Viu só? Admiro muito o fato de você ser capaz de ter ficado três anos sem nenhum descanso, é impressionante.— Não por boas razões — comentei, a fazendo lembrar de ter feito isso por estar atrelada ao Enrique, não por só amar o meu trabalho.— Ah, verdade. — Estou indo em um almoço de trabalho. Marca o ultrassom ou vou perseguir-te, Milena.— Eu vou, eu vou, prometo. Bom trabalho!— Obrigada, igualmente. XOXO.Guardei o celular na bolsa enquanto abanava a cabeça pouco acreditando, e em seguida olhei pela janela. As ruas da fria cidade nova-iorquina passavam devagar, os prédios antigos se misturando com algumas lojas modernas, e a luz cinzenta da manhã de inverno iluminando tudo com suavidade.— Ruby quer ir ao ultrassom comigo — revelei, mais para mim mesma do que para ele. — Daqui a duas semanas, mais ou menos
MILENA CHRISTIANO carro do Edward era tão ele que quase doía, embora eu já tivesse me acostumado a essa sensação. Não que eu andasse nele com frequência — longe disso —, mas a primeira vez já tinha sido o suficiente para gravar na memória o cheiro do couro, o ronco baixo do motor e a forma como os bancos são bem confortáveis.Edward dirigia com uma mão no volante, a outra apoiada no apoio de braço central e os olhos fixos na estrada. O silêncio entre nós era confortável e isso incomodava-me menos agora, porque muito antes dele aparecer na minha vida, eu sempre gostei de degustar da solitude, se bem que às vezes era mais melancólica do que de fato confortável.Peguei o celular novo na bolsa e durante o caminho fiquei a transferir todos os ficheiros do celular antigo, já que, felizmente, eu tinha a bela mania de, nos meus tempos livres, guardar arquivos na nuvem.Graças a Deus, esse meu hobby estranho havia me trazido frutos agora.Abri as mensagens que haviam ficado paradas no tempo d







