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Capítulo 4

Author: Washing Wheat
— Vamos lá. — No meio da refeição, Miguel começou a provocar. — Vamos testar o quanto vocês se conhecem. Vinícius, qual é a flor favorita da sua esposa?

Vinícius pensou por um instante.

— Rosa?

— Não. Campânula.

— O aniversário dela?

— Nove... de março? — Ele só acertou depois de hesitar um pouco.

— E do que ela mais tem medo?

— Ela não tem medo de nada. — Ele respondeu com um sorriso. — A Isadora é corajosa.

Eu tenho medo do escuro. Eu já tinha contado isso a ele durante nosso primeiro ano de namoro. Mas ele esqueceu.

— Assim não dá. — Miguel continuou provocando. — Vamos, Aline, vou testar você. O que o Vinícius mais gosta de beber?

— Café americano, com pouco açúcar e quente.

— E do que ele mais tem medo?

— De trovões. Quando era criança, um raio atingiu uma árvore no quintal da casa dele e ele ficou tão assustado que chorou.

— E qual é o bordão dele?

— "Já chega."

Todos caíram na risada.

— A Aline conhece o Vinícius melhor do que a esposa dele! — Miguel bateu na mesa.

— É que nos conhecemos há dez anos. — Disse Aline, sorrindo.

Dez anos.

Ela conhecia Vinícius há dez anos, eu há cinco.

Ela sabia que ele tinha medo de trovões, eu não. Não era que eu não quisesse conhecê-lo melhor.

Era que ele nunca me contava nada.

Quando estava comigo, qualquer coisa que eu perguntasse recebia como resposta um "tanto faz", "qualquer coisa" ou "não tem nada para falar". Quando estava com Aline, falava animadamente, com os olhos brilhando, como se tivesse se transformado em outra pessoa.

Quando o encontro estava quase terminando, fui ao banheiro.

Aline veio atrás de mim.

— Dorinha. — Ela se encostou à pia e retocou o batom diante do espelho. — Vou te dizer uma coisa, não fique chateada. O Vini é meio desligado, mas não é uma pessoa ruim. Não fique implicando tanto com ele.

— Eu não estou implicando.

— Ele me disse que você anda mal-humorada ultimamente, sempre ficando chateada por causa de mim.

Ele tinha contado à Aline sobre os nossos problemas.

— Dorinha, vou falar uma coisa que talvez soe desagradável. Se você nem consegue dar a ele esse mínimo de confiança, então não faz sentido vocês se casarem.

— Ele vai ao Nipônia com você todos os anos. Em que você acha que eu deveria confiar?

Aline ficou surpresa por um instante e então sorriu.

— Dorinha, aquilo é viagem de trabalho.

— Uma viagem a negócios não envolve ficar no mesmo lugar, no mesmo hotel ou fotografar a mesma pessoa todo ano.

— Dorinha, eu e o Vini somos amigos. — O sorriso dela não mudou, mas seu olhar ficou um pouco mais frio. — Se você insiste em pensar o contrário, o problema é seu. — Ela pegou a bolsa e, ao chegar à porta, parou por um instante. — A propósito, eu sugiro trocar por um cinza quente. O Vini também acha mais bonito do que o branco-creme que você escolheu.

A porta se fechou.

A parede da sala da nossa suíte nupcial. Eu havia escolhido aquele branco-creme e acompanhado pessoalmente os trabalhadores enquanto pintavam duas demãos.

Vinícius não tinha ido lá uma única vez, mas ele havia pedido a opinião de Aline e ainda achado a escolha dela melhor do que a minha.

Lavei o rosto e saí.

— Vamos. Vou levar a Aline em casa. — Vinícius estava na porta.

— Ela não pode ir sozinha?

— É no caminho.

A casa da Aline ficava no leste da cidade, enquanto a nossa ficava no oeste. Não era no caminho.

— Leve-a. Eu pego um táxi.

— Não começa. Vamos juntos.

No carro, Aline sentou no banco do passageiro e eu fui no banco de trás. Ela ligou o rádio e mudou para uma estação de rádio de Nipônia.

— Vini, você lembra desta música? Tocou naquele bar em Lunara no ano passado.

— Lembro. Na época você até cantou junto.

Os dois riram.

Eu, no banco de trás, parecia uma passageira a mais.

Quando chegamos ao prédio da Aline, ela desceu e se inclinou para olhar para mim.

— Dorinha, bom descanso. — Depois se virou para Vinícius. — Vini, não esquece daquela coisa da próxima semana.

— Eu sei.

Ela fechou a porta e foi embora.

Passei do banco de trás para o da frente.

— Que coisa?

— Vou ajudá-la a carregar um armário.

— Ela pode chamar uma empresa de mudanças.

— Para que gastar dinheiro à toa?

No ano passado, quando pedi que ele me ajudasse a carregar uma caixa de livros, ele disse que estava com problemas nas costas e mandou que eu chamasse uma empresa de mudanças. Mas, para carregar o armário da Aline, ele mesmo faria.

— Vinícius, você nunca teve a impressão de que trata a Aline melhor do que a mim?

Ele suspirou.

— Ela é minha amiga de infância. Tratá-la bem é um hábito. Mas a pessoa com quem eu vou me casar é você. Isso não é o suficiente?

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