LOGINA porta da sala secreta continuava aberta atrás de nós.
Eu ainda conseguia sentir o peso daquelas palavras na minha cabeça. Procurem na primeira carta que Scarlett recebeu. A primeira carta. Aquela que tinha iniciado tudo. Olhei para Kellan. Ele parecia tão inquieto quanto eu. — Precisamos voltar — murmurei. — Para onde? — Para a biblioteca. Kellan franziu a testa. — Scarlett, nós acabamos de sair de lá. — Eu sei. Passei a mão pelo bolso da jaqueta, sentindo o pequeno objeto que havia escondido ali. A chave encontrada na segunda caixa. Eu não sabia o que ela abria. Mas agora tinha certeza de que não era coincidência. O problema era outro. Sandy. Desde que aquela mensagem apareceu, alguma coisa nela tinha mudado. Ou talvez tivesse mudado em mim. Talvez eu simplesmente tivesse começado a enxergá-la de verdade. --- Quando voltamos à biblioteca, Sandy estava sentada atrás do balcão. Ela mexia no celular como se aquela noite fosse completamente normal. Quando nos viu, levantou os olhos. — Vocês demoraram. Kellan ficou parado. Eu continuei andando. — Tivemos algumas coisas para resolver. Sandy sorriu. — Encontraram alguma coisa? A pergunta parecia inocente. Quase casual. Mas alguma coisa dentro de mim apertou. — Não. Ela inclinou a cabeça. — Nada? — Nada. Sandy deu de ombros. — Que pena. Foi rápido. Tão rápido que talvez outra pessoa nem tivesse percebido. Mas eu percebi. O sorriso dela desapareceu por uma fração de segundo. Depois voltou. — Por que está me olhando assim? — perguntou. — Assim como? — Como se estivesse tentando descobrir alguma coisa. Acertei um sorriso. — Talvez eu esteja. Kellan me lançou um olhar. Ele entendeu. Eu não queria que Sandy soubesse que estávamos desconfiando dela. Ainda não. Precisávamos de uma prova. E foi então que tive uma ideia. — Sandy? — Sim? — Eu descobri o que a primeira carta significa. Ela ficou imóvel. Só por um instante. — A primeira carta? — É. Sandy desligou a tela do celular. — E o que ela significa? Eu respirei fundo. — Não posso contar ainda. — Ah. Ela tentou parecer indiferente. Mas seus dedos começaram a bater levemente contra o balcão. — Pelo menos você descobriu alguma coisa? — Descobri. Ela me encarou. — O quê? — Que a primeira carta não foi escrita pelo N. O silêncio veio imediatamente. Kellan olhou para mim. Sandy também. Mas o olhar dela foi diferente. Não era surpresa. Era medo. Pequeno. Quase invisível. Mas estava ali. — Como você sabe? — ela perguntou. Eu sorri. — Eu não disse que tinha certeza. Sandy piscou. Percebi o erro. Ela havia reagido antes mesmo de saber se aquilo era verdade. — Então você não sabe? — perguntou. — Não. Cruzei os braços. — Foi só uma hipótese. Sandy desviou o olhar. — Entendi. Eu me aproximei do balcão. — Por que ficou nervosa? — Eu não fiquei. — Ficou. — Scarlett... — Você sabia que eu estava procurando a primeira carta. Ela soltou uma risada curta. — Todo mundo sabe disso. — Não. Minha voz saiu mais firme. — Nem todo mundo. Sandy ficou em silêncio. Kellan se aproximou de mim. — Scar... Levantei uma mão, pedindo que ele esperasse. Eu precisava continuar. — Quando encontramos a segunda caixa, havia uma mensagem dizendo para procurarmos a primeira carta. E você perguntou imediatamente se tínhamos encontrado alguma coisa. Sandy respirou fundo. — Porque eu sabia que vocês estavam investigando. — Não. Balancei a cabeça. — Você sabia demais. Ela me encarou. Por alguns segundos, nenhuma de nós disse nada. Então Sandy sorriu. Mas dessa vez o sorriso não parecia amigável. Parecia cansado. — Você está começando a ficar parecida com ele. Meu coração acelerou. — Com quem? Sandy percebeu o que tinha dito. E se calou. — Sandy. Ela pegou o celular. — Preciso ir. — Você não vai a lugar nenhum. Kellan falou pela primeira vez. Sandy olhou para ele. — Está me dando uma ordem? — Estou dizendo que você ainda não respondeu. Ela soltou uma risada sem humor. — Vocês realmente acham que eu sou a vilã dessa história? — Eu não sei o que você é — respondi. — Esse é justamente o problema. Sandy ficou olhando para mim. Então perguntou: — Você realmente acha que eu machucaria você? — Não. Ela pareceu surpresa. — Então por que está desconfiando de mim? A resposta veio antes que eu pudesse pensar. — Porque talvez você não precise me machucar para me colocar em perigo. O rosto dela mudou. Dessa vez, não conseguiu esconder. — Você não sabe com quem está mexendo, Scarlett. — Talvez você saiba. Sandy ficou em silêncio. E então aconteceu algo estranho. Ela olhou para a estante atrás de mim. A mesma estante onde eu havia escondido o conteúdo da segunda caixa. Meu coração parou por um segundo. Ela sabia. Ou estava apenas olhando? Não consegui decidir. — O que tem naquela estante? — perguntou. Meu corpo inteiro ficou alerta. — Livros. — Eu sei. Ela deu um passo na minha direção. — Mas qual deles? Não respondi. Sandy sorriu novamente. — Foi o que eu pensei. Ela passou por mim. Parou diante da estante. E começou a observar os livros. Um por um. Kellan percebeu. — Sandy. Ela virou. — Sim? — O que você está procurando? Sandy ficou alguns segundos em silêncio. Depois respondeu: — Nada. Mas eu sabia que era mentira. Porque seus olhos tinham parado exatamente no livro que eu havia usado para esconder as cartas. O mesmo livro. O mesmo lugar. O meu esconderijo. Ela sabia. Ou pelo menos suspeitava. E naquele momento compreendi uma coisa. Talvez o perigo nunca tivesse sido descobrir o segredo. Talvez o verdadeiro perigo fosse descobrir quem já sabia que eu estava procurando por ele. Sandy pegou um livro qualquer da prateleira. Abriu. Folheou algumas páginas. Depois colocou de volta. — Acho que vocês deveriam ir para casa — disse. — Por quê? Ela me encarou. — Porque algumas respostas não gostam de ser encontradas. Meu coração disparou. — Isso estava nas cartas? Sandy sorriu. — Não. Ela caminhou até a porta. Antes de sair, porém, parou. — Mas talvez esteja na primeira. A porta se fechou. Fiquei imóvel. Kellan olhou para mim. — Ela acabou de confirmar? Olhei para a estante. Para o livro. Depois para a porta por onde Sandy havia desaparecido. — Não. Apertei a chave dentro do bolso. — Ela acabou de confirmar que sabe onde procurar. E, pela primeira vez, eu não tinha certeza se Sandy estava tentando nos impedir de encontrar a verdade... Ou se estava tentando garantir que fôssemos exatamente até ela.Eu não consegui responder.Fiquei olhando para Sandy como se, em algum momento, o rosto dela fosse revelar que aquilo era apenas mais uma mentira.Mas não revelou.Ela parecia assustada.Não era o tipo de medo que alguém demonstrava quando era descoberto.Era diferente.Parecia o medo de alguém que acabara de perceber que não conseguiria mais impedir alguma coisa.— Quem eu era? — repeti.Sandy apertou os lábios.— Você ouviu.— Ouvi. Só quero entender.— Não é tão simples.— Então simplifica.Kellan permaneceu ao meu lado, em silêncio.Eu conseguia sentir a presença dele, mas naquele momento minha atenção estava completamente presa a Sandy.Ela olhou para a porta da biblioteca.Depois para as janelas.Como se estivesse verificando se estávamos sozinhos.— Aqui não — disse.— Onde, então?— Em qualquer lugar, menos aqui.— Por quê?Sandy olhou para as estantes.— Porque esta biblioteca guarda mais do que livros.Meu estômago se apertou.— Isso eu já descobri.Ela respirou fundo.— Ent
A porta se fechou atrás de Sandy.Eu continuei olhando para ela por alguns segundos.Não sei quanto tempo fiquei parada.Talvez porque alguma parte de mim ainda esperasse que ela voltasse e dissesse que tudo aquilo tinha sido uma brincadeira.Que eu estava imaginando coisas.Que ela não sabia de nada.Mas ninguém voltou.A biblioteca permaneceu silenciosa.— Ela sabia — Kellan disse.Olhei para ele.— Também acho.— Não. — Ele balançou a cabeça. — Não estou falando do livro. Estou falando da carta.Senti um arrepio.— A frase.— Exatamente.“Talvez esteja na primeira.”Sandy não tinha como saber daquela frase.A menos que...— Ela tenha visto a carta — completei.Kellan se aproximou da estante.— Ou alguém contou para ela.Passei os olhos pelos livros.— E se ela tiver encontrado o que escondi?Kellan ficou sério.— Então precisamos descobrir antes dela o que está naquela carta.Tirei o livro da prateleira.Meu coração batia rápido.Por alguns segundos, tive medo de que as coisas tive
A porta da sala secreta continuava aberta atrás de nós.Eu ainda conseguia sentir o peso daquelas palavras na minha cabeça.Procurem na primeira carta que Scarlett recebeu.A primeira carta.Aquela que tinha iniciado tudo.Olhei para Kellan.Ele parecia tão inquieto quanto eu.— Precisamos voltar — murmurei.— Para onde?— Para a biblioteca.Kellan franziu a testa.— Scarlett, nós acabamos de sair de lá.— Eu sei.Passei a mão pelo bolso da jaqueta, sentindo o pequeno objeto que havia escondido ali.A chave encontrada na segunda caixa.Eu não sabia o que ela abria.Mas agora tinha certeza de que não era coincidência.O problema era outro.Sandy.Desde que aquela mensagem apareceu, alguma coisa nela tinha mudado.Ou talvez tivesse mudado em mim.Talvez eu simplesmente tivesse começado a enxergá-la de verdade.---Quando voltamos à biblioteca, Sandy estava sentada atrás do balcão.Ela mexia no celular como se aquela noite fosse completamente normal.Quando nos viu, levantou os olhos.—
Por alguns segundos, ninguém se moveu.A frase continuava diante de mim.A segunda está onde tudo começou.E, abaixo dela:N.Não era apenas uma pista.Era uma provocação.Como se alguém soubesse exatamente quais perguntas estávamos fazendo e tivesse decidido responder apenas o suficiente para nos manter procurando.Kellan ainda segurava a fotografia.— Precisamos sair daqui — disse.— Não.Ele me encarou.— Scarlett.— Não vou sair agora.— Alguém esteve aqui.— Eu sei.— E sabe o que isso significa?— Que estamos perto.— Ou que alguém quer que pensemos isso.A resposta me fez parar.Ele tinha razão.Aquela era a primeira coisa que eu precisava aprender sobre tudo envolvendo N.Nem toda pista levava a uma resposta.Algumas levavam a outras pistas.Outras levavam a armadilhas.E talvez algumas tivessem sido colocadas ali justamente para que nós encontrássemos.Olhei novamente para a fotografia.— "Não confie no primeiro Hawthorne que encontrar."— Eu vi.— Você acha que é sobre você?
Acordei antes de Kellan.Por alguns segundos, não soube onde estava.O teto desconhecido.A luz pálida entrando pelas cortinas.O silêncio diferente daquele da biblioteca.Então me lembrei.A casa de Kellan.A caixa 27.N.Sandy.As cartas.Tudo voltou de uma vez.Sentei-me devagar e procurei meu celular sobre a mesa ao lado. A tela marcava pouco depois das sete da manhã.Havia uma mensagem.De Sandy.Precisamos conversar. Sozinhas.Meu estômago se apertou.Li novamente.Não havia explicação.Nenhum emoji.Nenhuma segunda mensagem tentando amenizar o tom.Apenas aquilo.Levantei-me e caminhei até a janela.A rua estava quase vazia. Algumas folhas se moviam com o vento, e o céu carregava aquela tonalidade cinzenta que parecia anunciar chuva.Atrás de mim, ouvi passos.— Você sempre acorda tão cedo?Virei-me.Kellan estava na porta.Parecia tão cansado quanto eu me sentia.— Recebi uma mensagem da Sandy.O rosto dele mudou imediatamente.— O que ela disse?Mostrei a tela.Ele leu.Depoi
Sandy foi a primeira a se mexer. Ela recolheu duas das cartas que estavam sobre a mesa e as devolveu à caixa 27, com o cuidado de quem guardava algo frágil demais para ser deixado exposto. — Eu preciso resolver uma coisa — disse. Olhei para ela. — Agora? — Agora. A resposta veio rápido demais. Kellan desviou os olhos, mas não antes que eu percebesse o pequeno sorriso no canto de sua boca. Sandy percebeu também. — Não façam essa cara — falou, fechando a tampa da caixa. — Não estou abandonando vocês. Só estou dando a oportunidade de conversarem sem alguém interromper a cada cinco segundos. — Você não interrompeu — disse Kellan. — Eu interrompi várias vezes. — Você fez perguntas importantes. — O que é uma forma elegante de dizer que interrompi. Ele soltou uma risada baixa. Foi a primeira vez que o vi rir daquela maneira. Sem ironia. Sem a sombra que geralmente parecia acompanhar cada expressão dele. O som foi breve, mas ficou na sala depois que terminou. Sandy colocou







